NEXO - PARTE 01
Meu nome é Rossima,
ou Ros, sou uma federada e trago o registro dos acontecimento envolvendo uma
massa deslocada do seu tempo de origem, explico de que forma deixei meu posto
de trabalho e me envolvi com uma tripulação singular para devolver essa massa
ao seu tempo de origem e depois partir para realizar uma ou mais vinganças,
acerto de contas, chamem como quiser, não omito e nem disfarço com eufemismo o
fato de que o meu posto de trabalho me entediava e que a responsabilidade que se
apresentou a mim foi conveniente considerando o meu tédio e minhas preferências
nos conflitos que se apresentavam no local que eu trabalhava.
Sei dos
acontecimentos, parte foi contada para mim em algum momento antes ou depois de
um momento qualquer, certos diálogos são óbvios e os escrevi como imaginei,
outros eu tive registro em vídeo ou áudio, ou ainda me foram relatados por
espécies confiáveis, de qualquer forma muitos deles são irrelevantes para o
andamento geral da narrativa, de forma que tanto faz o que se diz, pois
realmente não é importante e se trata apenas de uma necessidade quase universal
de contado entre espécies inteligentes.
Não deixo esse
registro como desculpa, antes como relato fidedigno o máximo possível daquilo
que se sucedeu a mim e outras criaturas desgarradas dos seus, também um trabalho
literário que possa divertir alguém que espera pelo seu transporte em um
planeta periférico ou que se ocupa de trabalha maçante e longo, julgando por
bem dedicar-se à prazerosa leitura como remédio contra o implacável tédio.
Contudo, ficaria
feliz se fosse considerado uma desculpa, pois se o mérito literário é duvidoso,
ao menos é escrito corretamente, com isso começo, deixando apenas uma última
observação, no que diz respeito às aspas, que podem ser confusas, pois indicam,
antes, que indica a fala de outros se assim o estilo ditar, odiaria ver minha
falas atribuídas a outros e, pior ainda, fala de outros atribuídas a mim.
Boa leitura.
i. O Pior Mágico do
Mundo
Fabian Libero Obrero de Gonçalves y Garcia
Madalena Estefano, conhecido apenas como Fabian, trabalhava com rastreamento e
localização remotos, responsável por um grande setor, realizava também o
trabalho de correção de cursos e realocação na quarta dimensão, trabalho
considerado monótomo e sem o retorno financeiro correspondente ao tempo empregado,
mas que oferecia um transporte rápido e uma adição interessante ao currículo do
empregado, um trabalho poderia levar ao outro e Fabian era chamado para
trabalhos em que a localização era seguida da correção e realocação,
Pela natureza do seu trabalho ele poderia
ser realizado de qualquer lugar, desde que tivesse acesso aos computadores
necessários, na verdade um computador portátil com teclado bilateral, um módulo
de sinais com antena de doze pontas e acesso à energia.
O trabalho levou Fabian a se instalar no
Vale do Paraíba, no Estado de São Paulo, Brasil, bem no meio do “mar de morros”
de Aziz Ab’Saber, estacionou seu veículo nos limites de uma propriedade
abandonada, alugou um imóvel no município de Redenção da Serra e se instalou
tão discretamente quando pode.
O problema dele não era o seu bigode
semelhante a um bigode de peixe gato, que pendia de seu buço, avermelhado e
indiscreto, mas sim que o próprio Fabian não passava despercebido estando
alocado em município com população tão restrita e antes mesmo dele se instalar
definitivamente, vários comentários circulavam amplamente entre os residentes.
Diziam que se tratava de um terrorista, de
um comunista, satanista, elemento subversivo e estranho, avesso à família e ao
convívio em comunidade.
Os comentários, se eram maldosos, não
condizem com a recepção que teve o trabalhador Fabian, por curiosidade e pela
natural bondade que habitava a vontade da maioria dos residentes, ele foi bem
recebido, ganhou pedaços de bolo (invenção essa que ele achou maravilhosa e fez
com que ele questionasse a noção de que os humanos são espécie primitiva) e foi
convidado para almoçar na casa de uns, beber na casa de outros, assistir a
missa numa igreja, ao culto em outra e até recebeu o número de telefone de três
moradores que pareceram interessados em um relacionamento amoroso, aceitou
educadamente e não disse que não possuía número de telefone e nem percebeu as
intenções.
Também fizeram muitas perguntas, do tipo:
- No que você trabalha?
- Com rastreamento e realocação – ele
respondia, sem mentir.
- Onde você trabalha?
- Por conta própria, trabalho em casa – o
que era verdade.
- E sua família, onde mora?
- Longe… parece que em outro planeta – ele
dizia, aproximando-se do preciso.
Ciente das impressões indesejadas que
poderia causar e dos problemas que poderia ter, reconhecendo as vantagens de
manter o curso do trabalho livre de intromissões indesejadas, Fabian sabia como
desviar a atenção das pessoas e como profissional do ramo sabia que a melhor
maneira de passar despercebido é chamar a atenção.
Fabian era também, o Pior Mágico do Mundo.
Apresentou-se a primeira na praça da cidade
(que tinha uma só), na sexta-feira à noite, quando muitos se reuniam ali perto
para tomar sorvete, cerveja ou comer pastel.
Não se vestia muito diferente do que era
mais comum para si próprio, apenas a camisa de botões, por fora da calça jeans,
estava diferente, e o chapéu, um chapéu que comprara dias atrás depois de
longas pesquisas para descobrir qual seria o melhor para aquela ocasião e
aquele tipo de trabalho, “ainda posso desviar balas”, pensou sem muita
seriedade, imaginando que Prudente de Morais certamente não era daquela mesma
raça, provavelmente deveria ser um chapéu de muitos usos.
Foi até um ponto com mais espaço e começou
a falar em voz potente e com sorriso largo:
- Prestem atenção vocês que estão aqui,
talvez já tenham visto muitas apresentações memoráveis, truques inacreditáveis
de mágicos que pareciam oriundos da décima sétima dimensão, pessoas que
desafiam os sentidos e os fatos consumados, mas garanto que jamais viram algo
como o que verão hoje, pois eu nunca entrego um espetáculo igual ao outro e
cada um que eu faço é pior que o anterior, pois sou Fabian, o Pior Mágico do
Mundo!
Muitos risos e poucas palmas, tudo bem, os
risos eram as palmas dele e muitas pessoas pararam para ver o que ele faria.
Primeiro, ele tirou a cartola da cabeça e a
segurou na mão esquerda com a abertura para cima, apontou para uma criança que
estava assistindo e perguntou:
- Você! Parece uma garota esperta, aposto
que sua professora te adora.
- Mais ou menos – a garota respondeu, dando
um sorriso cheio de covinhas.
- O que você acha que tem dentro da
cartola? - ele perguntou, arregalando os olhos.
- Um esquilo! - ela disse, levantando a mão
e dando um pulinho.
- Uau! Será? Pode ser, seria emocionante –
ele disse, depois apontou para outra criança e disse - e você, meu rapaz, sua
expressão me diz que é o orgulho dos seus pais.
- É… talvez – o menino disse, olhando de
soslaio.
- O que você acha que tem dentro da
cartola?
- Um coelho – o menino disse, um pouco
envergonhado com aquela interação.
- Pode ser, pode ser, mas vamos deixar os
adultos tentarem também, não é? Alguém arrisca?
Um passaram a olhar para baixo, evitando
contato visual com Fabian, mas teve quem arriscasse e se ouviu alguns palpites
do pequeno público:
- Uma lata de cerveja!
- Uma nota de cem!
- Um homem que goste de trabalhar!
- Sei não, esse último não cabe aqui –
Fabian disse e os adultos riram. Ele deu uma volta completa no próprio eixo, se
desequilibrou e quase caiu, as crianças riram dessa vez. - Vamos lá! Vou pegar,
preparem-se nobre humanos, pois dentro dessa cartola… não tem nada! - Ele puxou
como se fosse pegar algo, mas não havia nada.
As crianças riram mais do que os adultos.
- Me desculpem pelo truque bobo, se não
pareço me sentir culpado é porque não me sinto, temos algo realmente bom para
essa noite – disse Fabian, tirando uma corrente e cadeados da bolsa que
colocara no canto.
-
Adivinhem o que você terão o prazer de ver?
- Te acorrentar! - uma menina na pequena
multidão respondeu, ele fez cara de surpreso e disse.
- Criança rápida, vocês deveriam ter
vergonha adultos lerdos – o público se divertiu e a menina foi parabenizada
pelos seus pais. - Vou precisar de um adulto e uma criança para me acorrentar,
um adulto pela força e precisão, a criança pela experiência insólita que ela
poderá contar para seus descendentes.
Escolheu uma mulher idosa dentre os três
adultos que se voluntariaram e um rapaz com cabelo de moicano dentre as muitas
crianças que se voluntariavam.
As duas enrolaram a corrente em volta dele,
a menina segurava a corrente e a idosa passava.
- Eu vou rodar para ajudar vocês – disse
Fabian, o que não adiantou muito, a corrente escorregava.
Um adolescente na multidão foi até eles e
começou a ajudar, passando a corrente a começar pelos ombros, para evitar de
cair, cruzando a corrente e prendendo os dez cadeados em locais estratégicos,
em alturas diversas e direções diferentes.
- Acho que ficou bom – o adolescente disse
por fim, dando um passo para trás e admirando o próprio trabalho no mágico
forasteiro de braços imóveis.
- Não me fale onde e nem como, mas você tem
experiência nisso, não é? - perguntou Fabian e o público adulto riu. Os
acorrentadores afastaram-se. - Olhem com atenção crianças, pois os adultos
normalmente não conseguem apreciar a sutileza de certos truques.
Dizendo isso, Fabian deu um pulo e uma
volta ao mesmo tempo, movimento que concluiu com ele caindo com um pé em cima
do outro e se espatifando no chão, gritando:
- Auuuuuuuu! - as risadas foram gerais, bem
maiores nas crianças e nos adolescentes, que gostam mais das desgraças alheias.
- Só não xingarei quem colocou o pé pra eu cair porque minha mãe não gosta que
xinguem seu filho!
As pessoas riram mais um pouco e o mágico
ajeitou-se de lado:
- Muito bem, pessoal, será que agora alguém
poderia me soltar, de preferência alguém que não bebeu muito, pois ninguém
merece cheiro de bêbado.
- É beudo! - alguém o corrigiu.
- Onde estão as chaves? - outra pessoa
perguntou.
- Em cima da cômoda, na minha casa – ele
respondeu, fez-se um quase silêncio, as pessoas cochichando. - É brincadeira,
que idiota esquece as chaves em casa né? Está no bolso da minha camisa, é uma
chave só e serve para todos os cadeados.
Um jovem casal foi até ele e pegaram a
chave, foram soltando os cadeados e enrolando a corrente.
O mágico agradeceu, guardou corrente e
cadeados na bolsa e pegou uma vara de madeira:
- Prometo que será o último da noite – ao
dizer isso, ouviu alguns lamentos. - Esse pedaço de pau foi moldado para os
melhores guerreiros de Clasmaquio, um planeta localizado na órbita de uma
estrela conhecido entre vocês de Aldebaram, eles são obrigados a usar esse
instrumento para fazerem tudo, faz parte do treinamento, eles colhem ervas e
frutos, usam para pegar alimento, para trocar lâmpadas e, naturalmente, para
brigar, pois é o que os guerreiros fazem, as propriedades naturais desse
material é que quanto mais dor e sofrimento ele causa, mais denso se torna e
mais dor e sofrimento ele causará no próximo golpe, comprei esse numa casa de
leilão no mesmo planeta, pertenceu a um guerreiro que morreu com a idade
avançada, portanto, esse pedaço de pau está apto a causar grandes dores e sofrimentos,
mas eu sou um mágico, não sou?
- O pior! - algumas vozes disseram.
- Espero que tenham dito isso com letra
maiúscula, pois é assim que escreve.
- O Pior! - mais vozes disseram.
- Um voluntário de força moderada poderá
vir aqui e me acertar com esse bastão, um voluntário com uma mira aceitável, é
claro, para acertar o meu braço direito, não se preocupe, pois como mágico que
sou.
- O Pior! - disseram várias vozes no
público.
- Exatamente, não esquecem e estão de
parabéns, eu vou me deslocar no espaço e no tempo de forma a evitar o golpe.
Quem é o voluntário?
Pessoas de todas as idades apareceram como
voluntários, homens e mulheres.
- Você é muito forte. Você não parece ser
bom de mira. Você está com cara de quem guarda muita mágoa nesse coração. Você
não, nenhuma criança deveria ter a oportunidade de bater em algo ou alguém.
Você!
Uma mulher de meia idade foi escolhida, o
marido dela advertiu quando ela sorrindo largamente:
- Ela é forte.
- Pegue, essa arma que já triturou muitos
ossos e fez muitos órfãos, acerte o meu braço e decepcionarei aos que esperam
ouvir o som de “crec”.
A mulher pegou o bastão, ele ofereceu o
braço, ela rodou o bastão e sem muito rodeio acertou o braço dele, um som
abafado e o silêncio da expectativa.
- Não à toa é o último truque, espero que o
médico trabalhe de sábado, guarde o bastão para mim, por favor, meu braço tá
meio ruim. - Todos riram e Fabian se curvou agradecendo, mas sem levantar o
braço direito.
As pessoas cumprimentaram ele (que oferecia
o braço esquerdo) e colocando a bolsa no ombro esquerdo, ele foi para casa.
Depois disso, as pessoas o encontravam pela
cidade e pediam:
- Por favor, Pior Mágico do Mundo, faça um
truque!
Invariavelmente ele fazia.
Tirava nada da manga, deixava moedas cair
na hora de esconder, trocava uma faca por uma colher na frente de todos e
mostrava como sua carne não era cortada, vasculhava um baralho e perguntava
várias vezes “é essa?” até acertar a carta. Em suma, um grande mágico, ou
melhor, um grande Pior Mágico.
Se divertia com a situação, mas não parava
o trabalho, o quadrante de busca restringia-se a cada dia e as suspeitas de
Fabian provaram-se corretas, quem ele buscava estava na região, no município
vizinho, ainda que muitos quilômetros, ladeiras e curvas separassem as duas
sedes administrativas.
Decidiu ir até o lugar e ver se descobria
algo. Esperou o sábado, quando poderia ser um turista insuspeito e alugou uma
moto com um habitante local que precisava de dinheiro e com quem tinha boas
relações. Dirigia veículos muito mais complicados do que aquele primitivo
aparato de duas rodas e deu umas voltas lentas pelas ruas antes de pegar a
estrada no dia.
Ninguém suspeitou de nada, era só um novo
habitante local indo conhecer um simpático município vizinho, apenas o gato do
vizinho o olhou penetrantemente, deixando a impressão que sabia que ele
escondia-se dos, no fim das contas, bondosos e receptivos habitantes locais.
- Não me julgue felino, sabe tanto quanto
eu que existem verdades que são desnecessárias e não trago perigo imediato a
ninguém.
Sentindo-se um pouco tolo por se desculpar
com o gato por algo que sabia que não devia nada, pegou a estrada para Torre
Baixa, município vizinho.
Pegou a estrada, na beira as pequenas
cruzes na beira da estrada, ignorava seus significados.
Percorreu caminhos bastante sombreados
pelas árvores, conveniente num dia tão quente, ainda que fosse bastante cedo,
de olho dispositivo parecido com um relógio que trazia no pulso, que mostrava
um único ponto luminoso em determinada direção.
Chegou em Torre Baixa e cruzou o pequeno
centro da cidade em três minutos, seguindo a direção do ponto luminoso no seu
mostrador, o ponto que estava em azul claro aparecia em amarelo quase branco.
Seguiu por uma estrada mais estreita,
asfaltada, o ponto luminoso foi lentamente indo para sua esquerda, até ele
virar numa estrada de terra, com bastante curvas, que fazia com que o ponto
luminoso também fosse de um lado para o outro, ele dirigiu devagar pelo canto
da estrada até o ponto luminoso passar pela sua direita e começar a ficar para
trás, nesse ponto ele deu meia volta e parou quando o ponto luminoso estava
quase exatamente à sua direita, em um tom laranja escuro.
Olhou o terreno para onde apontava o ponto
luminoso.
A casa mais próxima não era visível, talvez
estivesse atrás de um dos muitos morros. O mato do terreno não estava muito
alto, era pasto, mas naquele momento não havia criações por lá, pelo tom do
ponto luminoso ele imaginou que aquilo que procurava não estaria visível, teria
que subir o morro e provavelmente estaria depois.
O melhor era ir andando, a motocicleta não
conseguiria andar naquele terreno de forma segura e teria problemas para
voltar.
Empurrou a motocicleta até alguns arbustos
do outro lado da estrada e a escondeu de qualquer jeito, ninguém estaria por
aquela estrada a pá, não naquele ponto e quem passasse de carro, motocicleta ou
caminhão provavelmente não notaria.
Como pensou que seria, a caminhada foi mais
longa do que parecia, “as paisagens naturais enganam” diziam no seu ramo,
achava curioso como pequena distâncias numa escala planetária poderiam ser
grandes para uma criatura individual.
Tomou cuidado para não pisar em
formigueiros e nem diminuir o ritmo da marcha, era mais tolerante ao calor do
que a maioria dos habitantes da região, o que não impediu de sentir o cansaço e
o pé molhado de transpiração, seus olhos semicerrados por causa da luz fez com
que sentisse uma raiva irracional dos bovinos que deveriam pastar por ali em
outros momentos, chegou ao topo do morro depois de pouco mais de trinta minutos
de leves zigue-zagues, olhou para baixo e apesar de estar um pouco ofegante se
esqueceu do cansaço quando viu sinais do que buscava.
Ciranda detestava o seu nome, não entendia
os motivos que levaram seus pais a escolher aquele nome horrendo e nem a falta
de motivos que não levara o escrivão do cartório a recusar, entre outros
motivos, era esse o principal pela sua indisposição com o mundo, claro que sua
idade influenciava e era bem capaz que aprendesse a conviver com o nome no
futuro e convencesse a maioria das pessoas a usarem seu segundo nome,
Aparecida, era um nome feio também, mas comum e por ser religioso as pessoas
evitavam comentários maldosos, isso talvez se morasse em outra cidade, em Torre
Baixa já era Ciranda, só de falar seu nome já se sabia de quem falava, até quem
não a conhecia sabia de quem se tratava, era a única Ciranda da cidade, talvez
do país.
Estava com seu humor soturno habitual
deitada na rede amarrada em uma árvore e em uma viga do rancho da casa, aproveitando
a sombra com fones de ouvido enquanto jogava no celular.
Viu a figura se aproximar e olhou, um
bigode estranho de peixe-gato, já vira um desses na televisão e se compadeceu
da pessoa com aquela anomalia, que justificava o cabelo irregular que já vira,
assim se tirava o foco do bigode de peixe-gato, como quando ela própria agredia
os colegas na escola e discutia com os professores, para tentar de se chamar
Ciranda, o que obviamente só fazia com que seu nome fosse mais e mais repetido.
Se perguntou se preferia ter um bigode
daquele ou nome desse, pelo menos o bigode era removível, ela achava que era e
que o homem não removia por medo, um medo irracional de pequenas e inofensivas
cirurgias, ou por falso orgulho.
Sem se aproximar muito ele acenou e disse
algo, que ela não ouviu por estar com os fones de ouvido, ela não tirou os
fones e voltou a atenção para o jogo, percebeu que o homem conversava com sua
mãe, diminuiu um pouco o volume do jogo apenas para perceber o tom que usavam,
conversavam amistosamente, ele falava mais e parecia educado. Não imaginou o
assunto, um turista perdido, levantou um pouco o pescoço num momento de
tranquilidade no jogo e viu que ele viera numa motocicleta, mas uma comum, não
uma esportiva.
Voltou ao jogo e tentou acelerar o fim da
partida o máximo que pode.
Quando terminou, não tirou o fone, mas
abaixou o volume no aparelho e prestou atenção.
Ele conversava com sua mãe, mas a conversa
parecia menos animada, achou que ele estivesse tomando água ou outra coisa
pedida por ele ou oferecida por sua mãe.
Sua mãe dizia não saber do que se tratava,
que era área que passou por queimada na semana anterior. Ele disse que era
curiosa a forma oval. Ela nunca reparara tanta nas formas das queimadas. Ele
perguntou de outras propriedades próximas. Elas disse algumas, talvez apontando
as direções, diversas das que ela disse não era muito próximas, na verdade
aquela propriedade era bastante isolada, era uma área de muitas criações de
cooperativas, havia sedes administrativas e trabalhadores que vinham de casas
mais distantes, mas sem casas onde se pernoitava a não ser eventualmente, ela
não explicou isso e disse que poderia perguntar ao marido, se esperasse até de
noite ele voltar.
Quando ele demonstrou disposição de
esperar, sua mãe não disfarçou e suspirou, disse para ele ficar à vontade que
ela passaria um café dali a pouco.
Ouviu ele levantando, então ele andou até
onde ela podia ver, mas não se aproximou muito, ele acenou e disse:
- Oi!
Ela acenou de volta mas não disse nada. Ele
disse:
- Me chamo Fabian, sou o Pior Mágico do
Mundo! - sorriu, ostentando o bigode de peixe-gato sem incômodo.
- Pior? - ela perguntou, levantando uma
sobrancelha, percebendo que se denunciara que estava ouvindo, mas sem se
importar.
- Quer ver uma mágica? - ele perguntou.
- Não, obrigada. - ela responde.
- Você gosta de morar aqui?
- Você gostaria? - ela respondeu, ou
perguntou.
- Eu estou morando em Redenção, é
divertido.
- Limitado.
- Realmente, no começo foi difícil, acho
que escolher meu nome para me apresentar deixou um pouco mais aceitável.
- Pode fazer isso desse jeito?
- Eu tenho um nome bem longo, é só escolher
um deles.
- Você tem sorte, eu só tenho três nomes e
o mais aceitável eu já odeio.
- Qual seu nome nos jogos?
Ela pensou um pouco, na pertinência de
responder um estranho, acabou respondendo, o homem parecia um tagarela
inofensivo:
- Rlyeh666 – respondeu com um ligeiro
constrangimento.
- Nome legal – ele disse, rindo levemente,
o que fez com que ela fizesse o mesmo.
- E você, o que faz aqui?
- Procuro amostra de algo que caiu, um
meteorito ou outra coisa.
- Aquele atrás do pasto?
- Isso, eu fui lá, mas só vi as
marcas, meu trabalho é localizar essas coisas e avaliar o risco, se apresentar
risco eu devolvo ao local de origem e se não eu deixo onde estiver.
- Ninguém vai te dizer nada nesse caso, as
pessoas são desconfiadas.
- Elas acham que vou roubar?
- Ou contar para o governo, que tomará o
que elas encontraram?
- E o que elas encontraram?
- Nada – ela respondeu, com certo sarcasmo
e sorrindo.
Ele agradeceu e disse que não esqueceria o
nome dela (referindo-se ao nome no jogo), pegou sua moto e partiu, a cidade era
territorialmente extensa, mas a maior parte dos habitantes estava no centro e
proximidades, agora sabia que os habitantes haviam se deparada com seu objeto
de busca e um segredo compartilhado por muito só dura até alguém cutucar com um
graveto ou bater com força usando um taco contundente.
Voltou para sua casa, ou sua base, era
assim que pensava no local onde residia atualmente.
Passou os dias seguintes estranhamente
recluso, o que fez com que seus vizinhos questionassem se estava doente, diante
de verem alguma movimentação no interior da casa a conclusão que chegaram foi
que ele estava se dedicando ao trabalho diante de alguma demanda que havia
surgido.
O dispositivo que usava no pulso quando
viajara para Torre Baixa poderia rastrear algo que procurasse em Andrômeda, o
problema era quando chegava perto, poderia ser problemático se fosse algo que
se movesse por conta própria.
“O diabo está nos detalhes”, a expressão
que aprendera por ali se adequava à situação, demorou esses dois dias até
sincronizar a um sinal menos intenso, que antes ignorava por não julgar que
estava em movimento, não imaginava que existia, era como encontrar um ponto
luminoso que viajava quase na direção do sol.
Uma vez com o sinal sincronizado, manteve a
calma e pensou que deveria aguardar, passar outros dois dias normalmente, com
seus truques horrorosos e a rotina que criara, se acalmaria e deixaria as
preocupações esfriarem na sua cabeça antes de prosseguir.
Saiu de casa, era fim de tarde, o gato
estava deitado e o olhou sem demonstrar intenção de sair do caminho.
- Aqui não é sua casa, você sabe – ele
disse. Também não era casa dele.
Esperou uns dias a mais do que planejou de
início, visualizou uma data oportuna para circular com naturalidade pelo
município vizinho sem acharem estranho sua estranheza.
Pegou carona com alguns conhecidos para ir
até Torre Baixa, imaginou que aquilo que buscava estaria no centro da cidade ou
próximo, se não esperaria outra ocasião, haveria festa na cidade e as pessoas
que estavam com ele estavam indo para a festa, ele poderia aproveitar e fazer
seus truques, dessa forma ele seria só o Pior Mágico do Mundo que morava no
município vizinho.
Devidamente disfarçado de mágico cômico
amador, apresentou alguns truques pela praça central, as pessoas às vezes
estranhavam, outras vezes riam, ele apresentava-se como “Fabian, o Pior Mágico
do Mundo, atualmente residente no município de Redenção da Serra”, dessa forma
conseguiu se fazer de inocente, apesar de excêntrico, desprendeu-se das pessoas
que foram com ele, circulou entre as
barracas e deu três voltas completas na praça, cada vez aumentando o raio que percorria,
o ponto luminoso no seu dispositivo era fraco dessa vez e não parecia estar na
praça ou nas ruas que a circundavam, voltou para a calçada da praça, comprou
uma garrafa de água para disfarçar e sentou em um banco para pensar.
Calculou mentalmente todas as implicações
de desistir do trabalho.
As perdas materiais seriam lamentáveis e
recuperáveis apenas a longo prazo. Era reconhecido pelo seu trabalho e as
perdas morais seriam piores, calculou ele.
Repassou todo o tempo que passara naquele
lugar, sua persona excêntrica que não deixava pistas da sua origem, o
rastreamento demorado por conta do terreno irregular e o inesperado sumiço do
que viera buscar seguido da revelação em meias palavras da sobrevivência do que
procurava.
Não achava que aquele povo tivesse
encarcerado o sobrevivente, mas sim que protegiam sua existência, talvez com
medo de agentes do governo que não existiam, era isso ou achavam que ele era
uma divindade, como não aparentavam sinais obsessivos de pertencerem a uma
seita, achou que a primeira opção era a mais provável.
Tinha também a possibilidade dele estar bem
e integrado à comunidade. Vira alguns casos assim na ficção produzida por essas
pessoas nas últimas semanas, a ficção era capaz de criar assombrosos exemplos
subconscientes.
Olhou para seu dispositivo, de onde nunca
tirava totalmente a atenção e abriu melhor os olhos, endireitou-se no banco e
deu um grande gole na água levantando o pulso para não perder o ponto luminoso
de vista.
Ele passava da borda da frente de Fabian para
o centro e na direção da praça atrás de si, ele levantou e virou, o ponto
luminoso, fraco e vermelho, na sua frente, ele levantou o olhar e viu a
multidão aproveitando, demorou quarenta e dois segundos para localizar o que
procurava.
O que se seguiu foi inaudível para os que
estavam próximos, o som das conversas animadas e da música no alto falante
fizeram o papel de tornar uma conversa dramática em uma patética cena onde dois
desconhecidos gritavam perguntas e respostas para o outro, ambos ignorando a
total falta de perigo imediato da situação.
Fabian chegou para um homem que
aparentemente procurava por alguém na praça, parou perto dele e quando ele
virou na direção de Fabian, o mágico disse:
- Olá! Acho que nos conhecemos de algum
lugar!
- Oi? – perguntou o homem, que não
entendera, apesar de Fabian ter falado bem alto.
- Acho que nos conhecemos de algum lugar! –
gritou Fabian, inclinando a cabeça para frente como se fizesse alguma
diferença.
- Ah! – o homem disse, sorrindo a curva dos
sem graça. – Acho que não! Não sou daqui! – o homem inclinou a cabeça para
frente também e colocou a mão direita com a palma aberta do lado da boca, como
se aquilo amplificasse sua voz.
- Eu também não sou! – disse Fabian.
- Qual é o seu nome?! – o homem perguntou,
mais para desfazer o que julgava um mal entendido (na melhor das hipóteses) do
que por curiosidade.
- Fabian!
- Como?!
- Fabian!
- Ah! – o homem refletiu. – Você é
venezuelano, por acaso?
- Algo assim!
- Então não nos conhecemos mesmo! – o homem
disse, antes que tivesse oportunidade de virar as costas e sair dali foi
alvejado pela fala de Fabian.
- Você vem de mais longe!
O homem encarou Fabian, que sorria
pateticamente, então perguntou:
- Você é do governo?
- Não! De nenhum governo! – a resposta foi
sem paciência, achava aquela teoria irritantemente ridícula e isso lhe tirou o
sorriso amistoso do rosto.
- O que você é, de verdade? – perguntou,
agora o homem estava sem paciência, Fabian sorriu novamente, dessa vez um
sorriso largo, ergueu os braços e puxou seu tom mais dramático:
- Eu sou o Pior Mágico do Mundo!
ii.
O Cosmonauta da Quarta Dimensão
Yuri Gasberto da
Silva, recebera seu nome em homenagem ao primeiro cosmonauta, o segundo nome em
homenagem à sua tataravó de origem obscura (uns diziam romena, outros diziam
cazaque) e o terceiro nome da mãe e do pai, ambos da Silva.
Chegou em Torre Baixa numa noite seca de
inverno, caindo de sua cápsula descontrolada em local longe de qualquer estrada
movimentada, minimizando possíveis perdas humanas, fazia parte do protocolo de
aterrissagem improvisada de emergência que estudara, apesar dos inúmeros
conselhos que se resumiam a “se você estiver nesse situação, o caos que
provocará não fará diferença para você”, se perguntava se agência espacial o
encobriria ou simplesmente se morreria na queda.
Aterrissou vivo, não achava que a agência
fosse encobrir, achou melhor não tomar qualquer ação precipitada.
Me adiantei, esqueci de comentar o
maravilhoso rastro de luz e fumaça no céu limpo e estrelado, visto por poucos
que olhavam para o céu naquela paisagem pouco habitada.
O rastro era pouco perceptível, mas bonito,
queimava com fogo em tons de vermelho, laranja amarelo e violeta, soltando
pequenos pedaços de brilhos em chamas que caíam em linha reta, para o chão e
deixando um rastro ligeiro de fumaça.
A primeira a ver foi Ciranda, estava com o
fone de ouvido sentada numa cadeira no quintal, apesar de inverno fazia calor
naquela noite, ela arregalou os olhos e se perguntou “que cor será que traz?”,
reparando principalmente no violeta, apontou para cima e disse:
- Olha! – seu pai, que estava por ali a
fumar olhou, sem tirar o olho gritou para a mulher dentro da casa:
- Bem! Vem ver! Rápido!
A mulher veio correndo e os três viram
aquele rastro descender até o chão, sem qualquer som.
Foi dessa forma, do ponto de visto de
terceiros, que Yuri chegou.
Olhava
o módulo caído, o sistema de espumagem funcionava e aparentemente era a única
coisa que havia funcionado bem.
Deu
dois pulos baixos para sentir a gravidade e imaginou ter a sensação contrária
de estar bêbado.
Não
via maneira de carregar o que fosse do módulo para qualquer lugar que fosse e o
seu capacete e roupa estavam presos pelo tempo determinado no tempo de
sobrevivência involuntária em ambiente impróprios.
Se
alguém o visse, não poderia prever a reação da pessoa.
Mas
deixar o módulo sozinho poderia ser inconveniente, poderiam levá-lo, separar
suas coisas, peças e componentes, de forma que não veria mais o módulo
minimamente capaz de se colocar em órbita novamente.
Apenas
em órbita poderia acessar a rede de comunicação restrita espacial e solicitar
transporte.
Enquanto
isso, teria que sobreviver.
Era
um especialista em sobreviver no espaço, não em terra.
Ouviu
alguém falando, mas o som era baixo, parte do sistema de áudio, que voltava
lentamente como parte do sistema de proteção auricular em ambiente impróprio.
Péssimos
sistemas esses de segurança, podem ser úteis, mas podem atrapalhar, é como
jogar na loteria.
Virou-se
lentamente, com as mãos paradas para baixo, os braços pendendo paralelos ao
corpo, seguindo o sistema de posturas em ambiente impróprios.
Não
teve que se preocupar em não encarar quem falava, já que o visor do capacete
era preto para quem estava do outro lado.
O
homem estava armado, com uma arma que usava pequenas iscas envenenadas de
animais de pequeno porte como munição, ficou aliviado ao ver o patético
equipamento nas mãos do homem, mas um pouco ofendido, achava que merecia mais.
Agiu
como se a arma fosse perigosa e tivesse medo dela, o passo dois do sistema de
posturas em ambientes impróprios, uma vez conhecendo ou reconhecendo os
costumes locais, faça de acordo, levantou os braços se rendendo ao poder de
fogo (entre aspas) do homem.
Um
nativo, de psicológico simples e hábitos previsíveis, que devia morar perto, os
inúmeros morros na região poderiam esconder da vista residências diversas.
Ele
aguardou, torcendo para que o homem que se julgava armado tomasse alguma
decisão, esperou que ele não saqueasse o módulo acidentado, ou teria que
eliminar sua existência consciente e decompor os restos mortais.
Os
olhares curiosos do homem, contudo, não o levaram para perto do módulo.
Perguntou
“quem é você” para ele, que respondeu, mas não havia vocalização no seu traje,
como parte do sistema de proteção contra falas indesejadas em ambientes
impróprios.
Pelos
gestos realizados pelo homem, ele entendeu que deveria seguir o nativo, acatou
o que viu como sugestão, já conseguia ouvir razoavelmente e se ele desse
informações muito relevantes sobre o módulo e sua localização sempre poderia
eliminar quantos fossem, se usassem aquelas armas.
Chegou
no posto avançado onde morava o homem, esperavam pode ele uma mulher mais
velha, possivelmente sua companheira e uma mulher jovem, possivelmente sua filha.
A
mulher mais velha disse para ele tirar o capacete, ele levou à mão ao pescoço e
fez movimento como se forçasse a saída do capacete sem sucesso.
-
Que pena, eu tinha feito café… - a mulher disse, lamentando-se, ele também se
lamentou, percebendo a primeira coisa boa naquele lugar desde que chegara por
caminho improvável.
-
Tinha um negócio lá no mato, acho que é dele, se amanhã ele falar, podemos
ajudá-lo a resgatar suas coisas – o homem disse.
- Ele pode ser um alienígena e não tira
essa roupa pelo risco de morrer em nossa atmosfera – a mulher jovem disse,
erguendo a cabeça do celular na qual jogava.
-
Não diga besteira, menina, deve ser algum desses esportes radicais – o homem
disse em sua grande pseudo-sabedoria patriarcal.
-
Eu li sobre um romeno mudo e analfabeto, que perdido em Nova York não foi
compreendido e o internaram em um manicômio por muitos anos – a mulher disse,
dando um gole no café que só ela tomaria.
-
Não acho que ele seja romeno – o homem disse.
O
recém-chegado, por sua vez, ouvindo a conversa percebeu que a mulher jovem era
quem mais se aproximava da verdade e sorriu.
Fez
sinal para sentar no sofá, a mulher jovem saiu do sofá e a mais velha correu
para o quarto pegar um lençol e um travesseiro.
Perceberam
que ele deveria estar cansado, ainda que o lençol fosse inútil, ele preferiu
seguir os costumes locais (sistema de postura terceira etapa) e deitou com a
cabeça no travesseiro e se cobriu com o lençol.
-
Bom, amanhã a gente resolve então, quem sabe com ele descansado a gente não saiba
o que fazer… - o homem disse.
-
Olá. - ele disse, com a voz levemente metalizada pelo sistema de áudio agora
destravado, a mulher que passava pela sala para chegar na cozinha deu um pulo e
riu de si mesma.
O
convidou para a mesa, para tomarem café da manhã, ele explicou:
-
Por ora me limitarei ao diálogo, obrigado. Meu traje está me fornecendo
nutrientes necessários para minha subsistência e uma vez que eu tenha realizado
um pouso forçado, o traje assume a minha segurança, liberando suas funções conforme
é constatada a segurança ambiental.
iii.
Gato de Ancoragem
O gato é um animal territorialista e também um tipo de criatura
que existe em diversos setores do universo, são parceiros de criaturas
inteligentes desde tempos imemoriais e amplamente usados na ancoragem em
viagens espaciais.
Explicando melhor: quando um viajante vai para o outro planeta,
é comum que deixe sua nave de transporte ancorada em algum local escondido para
evitar apreensões e danos, principalmente se for o caso de estar em um planeta
onde a viagem espacial não foi razoavelmente desenvolvida, mesmo em locais
escondidos, no meio de uma floresta, no topo de uma montanha ou na borda de um
vulcão, é possível que essa nave de transporte seja identificada pelos locais,
que podem colocar em risco a viagem de volta do seu operador, para que isso não
ocorra, ou pelo menos como forma de minimizar grandemente esse risco, é comum
que qualquer operador de nave em viagens por território desconhecido, primitivo
ou perigoso leve consigo um gato, pois essa criatura, se bem cuidada, terá essa
nave como transporte e qualquer criatura deixará a nave como está ao perceber
que nela vive um gato, pois se tem um gato lustroso e esperto, é provável que
tenha alguém que cuida dele e não perdoará se voltar e se ver desprovido da
companhia de seu bichano ou, pior ainda, seu bichano infeliz e mal humorado por
ter perdido seu território.
Talvez a explicação, colocada em palavras assim, não tenha sido
satisfatória, portanto, deixarei que os fatos ocorridos à nave de Fabian
explique como funciona a relação gato-ancoragem.
O gato de Fabian viajava com ele o tempo equivalente a dezessete
anos terráqueos, um tempo razoável para gato, não à toa ele já havia morrido
dez anos atrás, não deixou por isso o posto vago e continuou a vagar pela nave
de transporte de Fabian, soltando seus miados agudos e dóceis, ainda preso aos
seus hábitos de vivo, sua essência translúcida de fantasma caminhava com quatro
patas e subia pelos painéis aos saltos, o que provara ter duas vantagens para
Fabian, primeiro que os botões não eram
apertados, pois uma essência translúcida não possui peso, segundo que além de
servir de gato de ancoragem, servia também de gato assombração, muito útil em
planeta primitivos que mandavam seres vivos apenas ao seu próprio satélite
natural.
O nome desse gato não é facilmente pronunciável pelas línguas
humanas, meowwwoem, mas era dito com desenvoltura por Fabian e alguns outros
seres de locais variados.
Dito isso, não é loucura que Fabian tenha dito “por favor, deixe
meu gato explicar e você vai acreditar em mim” para Yuri.
Yuri, por sua vez, não estava disposto a mudar sua vida naquele
momento, vivia na casa da prefeita, com quem se amancebara em segredo (mesmo
que todos soubessem), levando uma vida de semideus do espaço.
As palavras “trinca do tempo” e “supressão do espaço” ditas por
Fabian não impressionaram Yuri, que estava com mais vontade de aproveitar a
festa.
De qualquer forma, a insistência daquele péssimo mágico fez com
que Yuri concordasse, em termos, uma vez concordando sabia que não conseguiria
enganar o pobre coitado, talvez estivesse um pouco curioso também.
Combinaram para a madrugada, quando Yuri poderia caminhar em
paz, ele encontraria o mágico atrás da escola.
Yuri não deixou de pensar na estranheza da situação, dois homens
adultos se encontrando às escondidas, chamou o mágico de volta e disse “vamos
lá! Falaremos com o seu gato agora!”
“Vamos!”, respondeu Fabian, em súbita animação.
“Só espere que chamarei a Ana”, disse Yuri.
Assim escaparam da festa da maneira mais discreta possível um
cosmonauta do futuro, um alienígena mágico e a prefeita de uma cidade do
interior, mulher de quarenta e cinco anos, que gostava quase tanto de controlar
as coisas quanto gosta de saber a verdade.
“Você é uma cientista!”, disse Fabian depois de dois minutos de
conversa com ela. Estavam no carro oficial da prefeitura e havia um quarto
elemento, primo de Ana, chamado Lúcio, da mesma faixa etária dela, formado em
direito e que trabalhava como motorista porque, regra geral, preferia ficar em
silêncio.
Foi guiado pelo alegre Fabian, alegre porque conseguira dar
prosseguimento no seu trabalho, contava sobre seu veículo e seu gato para Ana,
que compartilhava com ele as dificuldades em administrar uma cidade pequena e a
saudade que sentia de trabalhar em um emprego comum, mas muita gente dependia
dela, principalmente gente da família e não se pode abandonar os seus.
“Faz tempo que não vejo os meus”, disse Fabian, “minha profissão
é solitária e requer que eu viaje o tempo todo.
“Isso é triste, deveria parar para vê-los de vez em quando”,
disse Ana, Fabian não entendeu muito bem, entre os seus se trabalhava e ninguém
parava a não ser quando estavam esperando algum trabalho progredir, não via
sentido, mas não disse nada.
Indicou um caminho de terra depois que cruzaram a divisa para a
cidade vizinha, andaram por alguns quilômetros, Ana estava um pouco apreensiva
mesmo deixando claro que era de uma família importante, mesmo seu primo estando
armado, não poderia deixar passar uma ameaça àquele estranho que caíra do céu,
o que sua influência e dinheiro não pudesse resolver, o primo poderia forçar.
Mas não foi uma emboscada que aconteceu.
O carro parou quando Fabian sinalizou, desceram do carro na
noite estrelada, Ana acendeu a lanterna do celular e o mágico achou graça, ele
não precisava daquilo para se orientar na escuridão, que nem era muita,
tranquilizou todos dizendo “não se preocupem, esta logo aqui”, deram alguns
passos mato adentro e se depararam com uma área aberta onde repousava um
veículo comprido, cor de bronze, sem rodas.
Fabian fez um som para chamar um gato, “psipsipsi”, as luzes
laterais do veículo acenderam em um tom branco e fraco, suficiente para
iluminar aquilo que os outros três categorizariam como “nave espacial”,
apareceu um gato, ou quase, um ser translúcido que não se via com clareza se
andava ou deslizava (ele andava!), o proprietário do veículo abaixou para
cumprimentar o animal e disse animado: “esse é o meu gato de ancoragem, está
comigo a mais tempo do que esteve vivo, mesmo assim o mantenho e ele deseja,
podem chamá-lo de meowwwoem”.
“Do quê?”, perguntou Ana, sem entender a pronúncia.
“Ou fazer psipsipsi, mas não é possível encostar nele, ainda
assim ele sabe miar e quando quer faz barulho”.
O gato foi roçando nas pernas de todos, por assim dizer, já que
não possuía a característica da materialidade.
“Impressionante seu veículo”, disse Lúcio.
“É impressionante mesmo, mas mesmo que isso voe espaço afora,
não prova que você me procura preocupado com um possível colapso do universo”,
disse Yuri.
“Querido”, Ana disse, num tom que não se autorizava usar na
cidade, nem quando sozinhos, pois em cidades pequenas raramente se está
sozinho, “você parece um maluco falando dessa forma”.
“Somos quatro malucos no meio do mato com um indivíduo que se
autointitula o pior mágico do mundo”, rebateu Yuri.
“Miau!”, meowwwoem deu sua contribuição para o diálogo.
“Também penso que são cinco”, disse Lúcio, que agachado fazia
gestos como a acariciar o gato fantasma.
“Tenho que esclarecer que esse é o meu trabalho, a ruptura do
espaço ou qualquer dano à existência não me preocupa particularmente, mas sou
pago para isso”, esclareceu Fabian.
“Quem te paga?”, perguntou Yuri em sua fortaleza de ceticismo.
“O Mercado de Relógios, naturalmente.”
“Tem lógica”, disse Ana.
“Lógica?”, Yuri remendou.
“Sim, além disso, não me leve a mal, mas era óbvio que
chegaríamos nesse ponto, você não pode fugir da sua época.”
“O que me desanima são os relatórios de danos que terei que
preencher e as mentiras que terei que inventar para não ser definitivamente
afastado do trabalho, ganharei quarenta por cento do salário e serei encarado
como um gasto supérfluo do governo.”
“E você fugir disso não faz com que seja diferente, ou você não
se sentiria assim.”
Fez-se um breve silêncio, Lúcio e Fabian fingiam que discutiam
detalhes da estrutura externa do veículo, então Fabian fez o que todos os
homens realmente sábios acabam fazendo e disse:
“Você tem razão.”
Decidiu-se ali mesmo pela partida de Fabian, para o espaço (se
aquele veículo realmente funcionasse, mas apenas o próprio Fabian duvidava um
pouco disso) e depois para sua época, num futuro quase próximo.
Todos concordaram que não tinha necessidade dele pegar nada,
havia roupas na nave que ele poderia usar, o equipamento de Fabian seria
programado remotamente para ser explodido numa explosão a gás e apenas Ana e
Lúcio veriam a nave partiam, somando-se ao coro de malucos que afirmam terem
visto uma nave alienígena.
Enquanto subiam a rampa do veículo a última
coisa os dois terráqueos que ficaram ouviram foi Fabian dizer “é uma viagem
rápida, não precisamos de quase nada”.
iv.
Batenda na Porta
do J9901847H7HYS
"Meu
nome é Ros, sou a operadora dessa máquina-planeta.
O
sistema de estrutura planetária artificial desenvolvido pela Hakumas Tecnologia
de Desenvolvimento e Crescimento Simultâneo esteve entre os mais aprimorados da
galáxia, empregou um número significativo de mão de obra mecânica e biológica
por diversas gerações no caso dos biológicos.
O
planeta artificial onde estamos possui uma taxa de crescimento de vida de
x1.0001, temperaturas extremas nos polos e amenas no resto, com variações
médias de 0.2 graus de temperatura por grau de curvatura, proporcionando uma
variação de espécies alta pelos parâmetros de evolução e desenvolvimento
espacial, que mexe a probabilidade de surgimento de vida com grau de
inteligência suficiente para desenvolver tecnologia espacial de viagem longa.
A
ausência, por ora, de espécie civilizatória, favorece a proliferação de
espécies variadas e a preservação de ambientes naturais.
No
momento, o planeta, identificado pelos seu código de série J9901847H7HYS não
possui um nome cultural, sendo proibida a veiculação pública de qualquer
possível nome por decisão judicial multissetorial para proteção de propriedade,
os únicos que assistem o planeta são pesquisadores biólogos da linha de
produção de Gara Mecanizados de Pesquisa. Se me permite inserir um comentário
pessoal, é ligeiramente engraçado termos mecanizados produzidos por biológicos
pesquisando outros biológicos.”
“Rokazes
estiveram por gerações empregados na construção do planeta artificial
J9901847H7HYS e são hoje a mais predominante forma de vida alienígena nesse
planeta, se destacam também pela sua habilidade de adaptação do ambiente e
construção de ferramentas, que os deixam como espécie com complexas habilidades
de fala e escrita única no planeta.
A
longevidade da operação e determinados trâmites legais que deixaram o planeta
artificial J9901847H7HYS sem a devida vigilância por algumas gerações são
causas centrais que permitiram a criação de grupos de trabalhadores que
reivindicar aquilo que produziram alegando serem verdadeiros donos do produto.
Tais
reivindicações raramente se resolvem sem o uso sistemático da violência e assim
que os atuais proprietários dos meios de produção que permitiram a construção e
operação do planeta puderam, legalmente, adentrar o planeta e contatar os
trabalhadores, encontraram um situação diversa daquela deixada gerações antes.
Diante
do cenário de iminente beligerância, visto que um genocídio, ainda que discreto
e indolor, poderia causar danos aos sistemas tão onerosamente construídos no
planeta, os proprietários decidiram contatar a operadora.”
“A
operadora do planeta artificial J9901847H7HYS se chama Ros, é quem escreve esse
registro, deixemos claro a autoria para que se presuma as intenções com o
mínimo de erro, sou uma da espécie identificada largamente como aformes e
conhecidos também como federados.
Na
figura de pacato agente de relações públicas de discreta espécie das regiões
marginais da galáxia onde nos situamos, me propuseram o trabalho de eliminar
líderes dos rokazes, sabotar postos de abastecimento, sequestrar familiares
indefesos e outras ações que estrangulassem os estômagos, as mentes e os
corações deles.
Apesar
de muito capaz e entediada por estar a muito tempo nesse trabalho onde, de onde
estou, nada interessante acontece, duplamente motivada foi minha recusa.
Primeiro
que não é permitido ao meu povo aceitar trabalhos que atentem contra a vida de
outros seres com inteligência razoavelmente desenvolvida por motivos fúteis ou
com assassinatos em massa.
Segundo
que eu não aceitaria um trabalho desse de qualquer forma.
Escrevo
esse pequeno resumo da minha situação enquanto batem na minha porta,
literalmente, em muitas culturas é sinal de invasão hostil, pode ser que eu
seja eliminada, sequestrada ou presencie algum crime e isso fique como alguma
pista do que aconteceu.
Eu
poderia ignorar, mas bater na porta pode ser o primeiro aviso, podem ter
explosivos, ou podem estar blefando, estou curiosa e vou atender."
Fim do registro.
v. Sobre a Federação e Outros Pormenores
Os federados adotaram esse nome por julgarem que é um nome a ser
levado a sério, não se identificam por um nome de espécie, mas também não se
importam de serem chamados de aformes, compreendem que esse é o ponto de vista
de qualquer outra espécie, contudo possuem forma e um vê e sente o outro como
esse é.
Os federados possuem a característica de parecerem como um
espécime regular de quem estiver tendo contato, influenciando todos os
sentidos, por esse motivo são comumente chamados de aformes.
Os federados não possuem um planeta, ao invés disso vivem
concentrados numa estação espacial identificada como 12120-000, chamada por
eles simplesmente de Sede, apenas os que trabalham diretamente na Sede vivem o
tempo todo lá.
Os federados são trabalhadores freelances bastante requisitados,
o profissionalismo e a forma como qualquer espécie se sente à vontade com eles
são os motivos de serem requisitados com frequência.
Os federados contribuem com vinte por cento de seus salários
para a federação.
Os federados são livres e seguem de forma consciente as poucas
normas da federação.
Os federados são protegidos pela federação, mesmo quando cometem
uma falha.
Os federados são confiáveis, curiosos e de boa articulação, a
maioria das espécies sabe, de alguma forma, que se trata de um deles, ainda que
nada denuncie.
Os federados possuem um lema que não compartilham com outros,
“não temos lema!”.
Os federados não são resultados de uma experiência de
laboratório, salvo a possibilidade do universo ser um laboratório de uma
entidade externa a ele, contudo, os federados já provaram por processos
confiáveis e reconhecidos que não existem entidades extracósmicas, só não
conhece o fato quem não quer já que sua divulgação é consideravelmente ampla.
Os federados possuem um planeta de origem, sua localização e
características são desconhecidas, o planeta não é habitável atualmente.
Os federados são umas das espécies primordiais na exploração
espacial, possivelmente a primeira, mantiveram-se bastante isolados como
espécie e a Federação existe desde os primeiros contatos com espécies de
diferentes planetas.
Os federados se dão nomes para serem usados principalmente em
contexto de contato com outras espécies, mas se reconhecem sem necessidade de
um nome.
Os federados gostam de falar e se interessam por qualquer
assunto, são ótimas companhias para qualquer atividade, mas recusam trabalhos
que se resumem à companhia e diversão.
Os federados não revelam a idade e nem se sabe de que forma a
contam, não se sabe quantos são e nem quem é, dentre os presentes em qualquer
momento na 12120-000 um federado ou não, já que em grupos pequenos para mais o
reconhecimento de um federado não ocorre naturalmente.
Os federados conseguem, de forma educada, convencer espécies de
culturas diferentes a se entenderem razoavelmente, se poucos envolvidos e por
um período de tempo limitado.
Os federados são reconhecidos como tal pela maioria das espécies
e temidos por uma minoria, não existem relatos de violência excessivas em
guerras com outras espécies e nenhum relato de conflitos internos relevantes.
“Eu não fui a primeira de sua espécie a trabalhar naquele
planeta, mas quando cheguei não tinha muito o que fazer a não ser certificar-se
de que ele ficaria corretamente em órbita, evitando um colapso generalizado, um
planeta artificial é algo caro e que demora pra se desenvolver.
Como não tinha muito o que fazer, passei a garimpar os registros
para conhecer melhor o desenvolvimento e a história daquele planeta.
A presença dos rokazes, espécie majoritária empregada para
manutenção de campo daquele planeta, era o que havia de mais relevante na história
cultural daquele planeta identificado simplesmente como J9901847H7HYS.
A
espécie era primitiva, autóctone, apesar de possuírem um sistema complexo de
usos e costumes, não haviam desenvolvido tecnologia para exploração espacial, o
primeiro contato alienígena que tiveram foi com os conselheiros da Hakumas, um
gorducho cheio de tentáculos irrelevante para esse relato chamado Drogu,
empresa responsável pela administração financeira dos recursos empregados no
desenvolvimento de J9901847H7HYS, que obtiveram anuência de diversos conselhos
regionais para estabelecerem esse contato e contratarem os incautos seres.
Dessa
forma os rokazes foram parar em J9901847H7HYS.
Como
trabalhadores, não como habitantes do planeta, a posse de territórios era
vetada e a referenciação ao planeta por qualquer nome que não fosse seu código
era proibida, uma vez que o planeta estava protegido por uma série de códigos
largamente reconhecidos, especialmente no setor onde se localizava o
J9901847H7HYS.
A
proibição, contudo, não impede um ato e muitas vezes o instiga, ainda que dito
a meia voz, depois de olhar desconfiado para os lados, a força pode ser maior
dessa forma e o planeta ganhou muitos nomes, como forma de despistar não um
nome verdadeiro, mas a negação daquele nome frio oferecido pelos proprietários
do J9901847H7HYS.
Aos
poucos, os rokazes perderam o respeito e aos poucos perderam o medo daqueles
deuses espaciais distantes que os levaram para aquele planeta, para que
trabalhassem em obra alheia sem nada possuírem, começou a se criar a ideia de
que o planeta pertencia a eles, pois o território é de quem dele viver, era dos
rokazes o planeta J9901847H7HYS.
Numerosos
e com tantas gerações naquele planeta, além de estarem distribuídos em diversos
grupos e desses grupos terem divisões trabalhistas de forma que mesmo dentro de
um pequeno grupo havia divergências, é de se imaginar que havia uma série de
conflitos em rokazes, que passaram a se unir eventualmente apenas para
reivindicar uma coisa, o banimento dos seus deuses e o fim da servidão em
J9901847H7HYS.
A
elite rokaze do planeta, alinhada com a Hakumas e seus burocratas, reprimiu
como pode a maioria, mas o tempo deteriora todas as relações de chantagem e
exploração e chegou o tempo que até os que eram coniventes com os deuses
exploradores se viram mais próximos dos seus e da ameaça imediata que eles
representavam do que dos enriquecedores distantes, assim a Hakumas perdeu
virtualmente todo apoio que mantinha em J9901847H7HYS.
Havia
alguns relatórios sobre planos de intervenção não colocados em prática,
incluíam conselhos administrativos, cortes extrassetoriais, guerreiros de
Nordateia Kraionte e KLXs, o receio de agravar a situação ou duplicá-la com a
presença de outra espécie era o que impedia de colocá-los em prática e a
Hakumas apostou no longo caminho do processo legal para recuperar plenamente o
controle de J9901847H7HYS.
Uma
série de processos em diversas cortes fez com que fosse chamada a Corte Maior
de Julgamento, uma junta jurídica englobando o setor envolvido e todos setores
divisionais para uma solução prática do conflito em questão em J9901847H7HYS.
O
processo e suas discussões arrastaram-se por muito tempo, mas eis algumas
resoluções: o planeta será retomado por força de uma armada neutra formada para
esse fim, que será usada caso os rokazes não aceitem o termos originais dos
contratos assinados pelos seus antepassados, enquanto os detalhes logísticos
são alinhados o grupo reclamante deve confirmar sua posse original do planeta
artificial em questão mantendo um operador em seu posto no J9901847H7HYS.
Apesar
de não ter sido notificada dessa parte, eu sabia, pois li nos arquivos por
conta própria, a alegação de ignorância, contudo, não seria descartada, isso
teria implicações sérias em seu futuro, porém, adianto que eu nunca omiti que
conhecia o fato, ainda que nunca tivesse sido notificada, sabia também, pelo
contato de trabalho, que se morta no trabalho seria considerada uma
trabalhadora, legalmente falando, até o contratante tomar conhecimento de sua
morte e a substituir em J9901847H7HYS.
Os
rokazes, habitantes do planeta e talvez donos, passaram a exigir a presença
outrora amistosa e despreocupada do arauto de seus deuses relapsos, imaginavam
que alguma força intermediária residia naquele planeta e desde que inúmeras
caçadas começaram a ocorre por todo planeta Ros parou de sair, tudo que era
necessário para sua sobrevivência tinha na base e a julgava bastante segura,
apesar de não ter mais muito o que fazer em J9901847H7HYS.”
Aconteceu
então que
saíram de um planeta obscuro dois seres, um primitivo que chamaremos de
terráqueo e um mais ou menos conhecido pior mágico, a nave de forma estranha
tinha um propósito de ser, realizar pequenas viagens em rachaduras temporais
sem colapsá-las e nem matar os atravessadores.
Quando se vai atravessar uma rachadura
dessa precisa estabelecer um impulso em linha reta que não choque com grandes
massas.
O pior mágico estabeleceu a rota e acionou
o acelerador automático.
Sua missão era devolver o outro tripulante,
o primitivo terráqueo, para o seu tempo de origem.
A transporte começou a acelerar, dentro
dele apenas uma leve e constante tremida, um som agudo distante.
Agora era só esperar, dezessete horas,
dezoito minutos e três segundos.
O primitivo terráqueo levara um baralho,
que é um conjunto de cinquenta e duas cartas numeradas e codificadas usadas
para jogos, ensinou ao pior mágico diversos jogos nesse tempo.
Comeram algumas coisas desconhecidas para o
primitivo terráqueo, beberam água e esperaram.
Comentaram programas de televisão.
Conversaram sobre a relação entre o
primitivo terráqueo e uma certa autoridade municipal do seu planeta de origem.
Quando faltavam quatro horas, quarenta e
sete minutos e trinta e dois segundos, o transporte parou.”
Eis como, segundos os registro de câmera e
áudio espalhados pelo planeta de trabalho de Ros, se deu o diálogo entre esses
dois seres após a queda:
“Ué! Mas não deveria ter algo aqui, contudo, os sensores indicam
que é um planeta, parece que é habitável e, possivelmente, habitado, ainda que
não existam registros sobre ele.”
“Então é seguro sair.”
“A princípio sim, espera aí, está
carregando, aí está, uma única mensagem, ‘sob disputa judicial’ é o que dizem,
essas coisas não são comuns, é provável que seja um planeta artificial.”
“Poderíamos explorar antes de partirmos
para meu tempo de origem.”
“Para sua possível sorte e possível azar do
resto do universo, faremos isso, pois não temos opção, a parada súbita
danificou o acelerador e agora só nos é possível voar sobre uma atmosfera, se
sairmos do planeta podemos ficar à deriva.”
“Esses termos não me parecem muito
favorável.”
“Não são, é comum que sejam contratadas
espécies primitivas para trabalharem nesses planetas, de forma que seremos
tratados como deuses, ou como demônios invasores, não tem como saber, de
qualquer forma, eles não devem possuir uma tecnologia muito razoável para nos
ajudar, será demorada nossa estadia.”
“Espero que sejamos tratados feito deuses,
então.”
“Acredite, antes sermos demônios, eles são temidos
por todos, já os deuses tem quem os adore e quem os ignore, quem os odeie e por
aí vai, mas tem mais uma questão nesse planeta e estou fazendo a varredura para
saber a localização.”
“Espero que seja algo positivo.”
“Se realmente for um planeta artificial,
eles possuem um centro de controle onde vive um operador, de uma espécie
altamente desenvolvida em termos tecnológicos, é a única estrutura alienígena
considerável nesse planeta.”
“Espero que não demore.”
“Acho que você está desorientado, mas não
se desespere, depois da parada súbita é de se esperar, o seu organismo não está
acostumado.”
“Vamos abrir a porta, ver a paisagem, tomar
um ar…”
“Não podemos, pode ter animais selvagens lá
fora, chuva ácida, moradores raivosos, não temos como saber, temos que esperar
a varredura e programar para irmos até lá direto, segurança em primeiro lugar.”
“Espero que fiquemos bem.”
Fim do diálogo.
Quando o pior mágico (Fabian) e o primitivo
terráqueo (Yuri) chegaram ao centro de operações onde Ros trabalhava como operadora
de planeta artificial, bateram educadamente na porta dessa entediada
trabalhadora.
Yuri já estava menos desorientado, não
falava mais “espero” no começo das frases e Fabian, ao me ver, se aquietou,
estava diante de uma espécie amistosa e inteligente.
“Hmmm…”, Ros refletiu, falsamente, já
entendera tudo, “um pior mágico, já conheci outros de sua espécie, prestativos
e engraçados na minha opinião, discretos apesar de espalhafatosos, digamos que
é possível isso, já o outro não conheço muito, já assisti alguns programas de
televisão da sua espécie, não tem muito o que fazer aqui… posso levar vocês até
12120-000, é uma urgência que se sobrepõe às obrigações contratuais, além
disso, o Mercado de Relógios tem influência e vou exigir deles minha
recompensa, no que você se meteu, o espaço tão espaçoso e você vai se chocar
com o planeta, você é muito azarado, ou muito sortudo, dependendo do que
acontecerá a partir de agora.”
“Viajaremos numa nexo?” Fabian perguntou,
animado.
“Não tenho acesso a outro meio transporte
além desse”, eu disse, fingindo não entender a empolgação dele.
“O que é uma nexo?”, perguntou Yuri.
“Uma nave, naturalmente”, respondi, com um
sorriso que constrastava com o tom desinteressado.
“Uma incrível nave”, remendou Yuri.
“Eficiente, resistente, talvez o melhor
passaporte do universo, o espaço é hostil e uma nexo não é alvo de ações
bélicas de qualquer tipo”, expliquei, me contendo no tom que não era exaltado,
mas sem economizar nas palavras.
“As nexos são exclusivas dos aformes”,
disse Fabian.
“E o que são aformes?”, perguntou Yuri.
“Isso não importa”, eu disse, sem querer
tirar o foco do meu transporte e suas qualidades, todas óbvias, “devo deixar o
planeta em segurança, então, fiquem à vontade, tem comida na geladeira, podem
dormir em qualquer das poltronas disponíveis, elas são reclináveis.”
“Quanto tempo isso demora?”, perguntou
Fabian.
Ros não se deu ao trabalho de responder.
O cômodo onde Ros morava e trabalhava era
amplo, apesar de subterrâneo, o sistema de ventilação fora bem projetado e o ar
mantinha-se fresco, o suprimento de comida era grande e de tempos em tempos era
trazido mais, havia poltronas reclináveis que se tornaram as camas dos dois
viajantes, ao longo dos dias Ros mantinha-se concentrada e falando (ao mesmo
tempo) analisando uma série de imagens em movimento, mudando comandos em todos
os cantos das muitas telas na sua frente, distraindo-se nos momentos que
parecia estar tudo certo observando os rokazes.
Aparentemente dormia pouco e não ficava de
mal humor, rastreou o local de queda da nave de Fabian assim que soube que ele
tinha um gato de ancoragem, projetou um mapa em um dispositivo móvel com a rota
mais fácil.
“Vá ao hangar e pegue um veículo híbrido
para recuperar o seu gato, eu mesma não tenho um sistema de ancoragem e pode
nos ser útil.
Ele não estava com vontade de sair para
buscar seu gato, mas ficou animado, era a oportunidade de passar no hangar e
ver a nexo, nunca tinha visto uma.
Não encontrou, não descoberta, a Nexo
estava coberta e guardada por um pequeno grupo de rokazes que trabalhavam na
manutenção dos sistemas de placas e do planeta e no hangar, que trabalhavam em
conjuntos com um KLX, que não estava no momento. Fabian lamentou, perdera a
oportunidade de ver uma Nexo e um KLX.
Pegou o veículo e foi, sozinho, pois o
veículo, ideal para o trabalho, era apenas para dois tripulantes.
Na base, Yuri passava boa parte do tempo
olhando para Ros e imaginando como ela devia ser, sem chegar a alguma
conclusão, sentiu que seus sentidos eram frágeis e não servia para muita coisa,
só um peso morto para ser enviado ao seu tempo, nada mais.
Quando o dia começou a chegar no fim,
preocupou-se com o companheiro que não retornava, Ros o acalmou, seriam
necessários dois dias para chegar lá e voltar, o caminho, contudo, era
tranquilho, naquela época do ano os animais mais perigosos daquele bioma
estavam em outra área.
Uma ponta de preocupação permaneceu em
Yuri, preso numa desconfortável solitária, passou a acompanhar o entediante
trabalho de Ros.
Como não tinham muito o que fazer, até o
fim do segundo dia ele já compreendia como funcionava e o que mostrava cada
tela, gráfico e número, apenas não saber o que fazer com tudo isso.
Ouviram um “miau” antes de um “toc-toc”.
“É claro que ele ignora a existência de uma
campainha”, reclamou a operadora, com a leveza que pedia a situação, depois
levanteu e abriu a porta.
Entraram o dois e o gato foi direto para a
poltrona onde dormira Fabian nos últimos dias.
Os outros dias passaram-se assim. Conversando,
comendo, assistindo a vida monótoma dos rokazes e acompanhando o trabalho de
Ros, que modificava fatos, mexia em números, de uma tela para outra como se
cada mudança fosse necessára.”
Até que um dia, sem qualquer aviso prévio,
Ros declarou:”pronto! Podem me esperar no hangar, peçam ao KLX o que
precisarem”, os outros dois, um cochilando (Yuri) e o outro fazendo bolhas de
sabão (Fabian), levantaram-se e ficaram um pouco desnorteados, apesar da fala
eu não desviava a atenção dos monitores, resolveram sair e obedecer, antes que
a operadora mudasse de ideia.
Arrastaram suas longas barbas e cabeleiras
para fora e foram para o hangar.”
vi.
KLX
Não existe serviço de grande porte
realizado sem a presença de um KLX.
Basicamente:
um KLX é uma criatura com alta capacidade de processamento, o que lhe permite
realizar cálculos, estimativas, ramificações de cenários e qualquer outra
tarefa mental com muita rapidez e precisão, sendo mais confiável do que um ser
mecânico, essa alta capacidade de processamento é balanceada pela falta de
habilidade em armazenamento, um KLX não possui memória e retém apenas uma
quantidade ínfima de informações que julga mais necessárias, o que faz com que
todos possuam um mesmo nome, por exemplo, ou ainda que sejam amplamente usados para extenuantes trabalhos mentais sem
terem uma remuneração, condição essa aceita pela quase totalidade das
instituições políticas e financeiras sob a alegação de que eles não sofrem ou,
se sofrem, não têm memórias do próprio sofrimento, de que estão mais seguros
supervisionados pelos seus benévolos patrões e que, por serem criaturas caras,
levarem uma vida mais confortável do que muitos trabalhadores remunerados.
No
planeta artificial J9901847H7HYS
trabalhava um KLX, ou uma KLX, os que não o são não tem como saber, responsável
pela programação e diagnóstico mecânico dos sistemas do planeta e do hangar.
Foi
com ela que encontraram quando chegaram no hangar o pior mágico de muitos
mundos e o cosmonauta ligeiramente perdido no tempo.
“Quem
são vocês?”, a criatura alta e prateada perguntou, mais automaticamente do que
por curiosidade.
“Dois
perdidos”, disse Fabian.
“Ros
sabe que estão aqui?”
“Ela
é a chefe?”, perguntou Fabian.
“O
mais próximo disso.”
“Você
é um KLX, correto?”
“Sim.”
“O
que é um KLX?”, perguntou Yuri.
“Um
ser, totalmente biológico, com alta capacidade de processamento e baixa
capacidade de armazenamento.”
“Sem
memória?”
“Basicamente.”
“Um
trabalhador perfeito.”
“Obrigado”,
disse KLX.
“E
não remunerado”, disse Fabian.
“Um
escravo.”
“Um
trabalhador afortunado”, disse KLX.
“O
trabalho intelectual é cansativo também”, disse Fabian.
“Quer
ir com a gente?”, perguntou Yuri.
“Estou
trabalhando.”
“Ros
também está e vai com a gente.”
“Isso
vai contra as diretrizes da empresa, ela será punida por isso.”
“Não
diga isso”, Fabian interveio, “ela é uma federada, eles simplesmente não largam
um trabalho, não confia na sua chefe imediata?”
“Devo
confiar, de fato, os federados são trabalhadores confiáveis.”
“Ela
certamente vai precisar de você”, argumentou Yuri.
“Vai
pensando nisso, sei que vai ser rápido, vou falar com meu amigo aqui”, disse
Fabian, puxando Yuri para o lado, “você é esperto, um KLX pode ser útil, depois
alegamos ignorância, que ele veio junto por conta própria.”
“Não
é isso, é um escravo, não é certo.”
“Como
assim?”
“Ele
não ganha nada para trabalhar.”
“Ele
tem comida, bebida, uma casa, não precisa ganhar mais nada, os KLX são bem
tratados.”
“Só
porque devem ser caros.”
“Se
fosse o caso, ele não quer ser livre.”
“Ainda
não, pode ser, mas pode ser que queira, quando escolher estar aqui?”
“Sei
lá, quando meu gato escolheu estar no meu transporte? Eu o adotei e acostumei
ele por lá, agora ele é meu e me segue, estará provavelmente conosco na próxima
nave.”
“Independente,
levaremos ele, é o que peço.”
“Tudo
bem, você não me pediu nada até agora e será útil de qualquer forma, não acho
que Ros se importará.”
Voltaram
para perto da KLX, que disse: “Eu ouvi tudo.”
“E?”,
os dois perguntaram.
“Sou
uma KLX.”
“Desculpa”,
disse Fabian.
“Não
tem problema, aliás, sabe me dizer qual transporte será usado?”
“A
Nexo.”
“Perfeito,
é um excelente transporte, mal requer manutenção e está aqui faz tempo.”
“É
o transporte perfeito”, Ros falou bem alto enquanto adentrava o hangar, “KLX,
está tudo pronto, não vão precisar de mim na base de operações por um tempo,
surgiu uma demanda espaço-temporal e vou levar esses dois até o local que está
rachado.”
“Isso
soa grave, ainda bem que os dois me chamaram para ir junto”, disse KLX.
“Podem
ter chamado, mas eles não tem autoridade.”
“Que
bobeira”, disse Yuri, já um pouco irritado com aquela situação, “não existe
autoridade que nos submeta à determinação de terceiros.”
“Além
do mais, tenho boas condições de vida aqui”, disse KLX, subitamente defendendo
sua permanência.
“Na
verdade é melhor levarmos, poderá ser útil e seremos mais rápido, a rota foi
interrompida e precisamos de alguém que nos leve rápido ao lugar”, disse
Fabian.
“Essa
KLX pertence à Hakumas”, disse Ros, “contudo, é quem mais rápido poderá
calcular a rota e corrigir, se necessário.”
“Exato!”,
comemorou Fabian, que já havia aderido à causa.
“Fico
feliz em ir com você”, KLX disse, sinceramente, à Ros.
Então
subiram na Nexo e alçaram voo dali, enquanto KLX analisava os dados do pouso
forçado de Fabian e Yuri no planeta para calcular a rota que eles estavam e
qual tomariam agora.
“Isso pode demorar um
pouco, podemos assistir algo enquanto isso”, disse KLX.
vii.
É um repolho ou é o Raposo
Proposta dramartúrgica
para a presente narrativa.
Personagens:
Ros: antiga
operadora do planeta artificial --- e co-proprietária da nave onde se passa a
cena.
Fabian: conhecido
como o “pior mágico do mundo”, com letras minúsculas em qualquer lugar, um
freelancer bom em rastrear e recompor corpos que se desviam do tempo de origem,
tem um bigode semelhante ao de um peixe-gato.
Yuri: cosmonauta
do futuro no tempo que se passa a cena, vem do planeta localmente chamado de
Terra e acidentalmente foi para o passado em seu precipitado retorno ao planeta
natal.
KLX: os outros
referem-se no gênero feminino à KLX, mas acredita-se que a dualidade de gênero
não se aplique, possui quase o dobro de altura dos outros, seu cérebro tem cem
vezes a capacidade de processamento do cérebro dos aformes (espécie de Ros),
mas limitada capacidade de armazenamento, escapa da escravidão que acomete a quase
totalidade de sua espécie, contudo, nesse ponto da narrativa ainda não se deu
conta, chegará o tempo em nosso relato na qual KLX tomará o lugar de uma das
líderes de uma rebelião generalizada entre os KLX pela autodeterminação de sua
espécie, não nos adiantemos.
meowwwoem: um
espírito, no termo não técnico, circunda a cena e vez ou outra roça na perna de
algum dos outros, mas não interfere em suas intenções.
Televisão: na
verdade um monitor, sem vida, contudo é a peça central da cena e merece ser
citado.
Cena I
Sala comum da
Nexo, Ros está sentada desleixada em uma cadeira demonstrando que apesar dos
mistérios de sua fisiologia, sua coluna é provavelmente muito elástica e
resistente, Fabian está em outra cadeira, animado e a todo momento levanta-se e
senta novamente, Yuri está na terceira cadeira disponível, visivelmente
cansado, ainda assim empenhado em entender a situação, KLX está em pé, interessada
no que está passando, meowwwoem circula pelo recinto.
Televisão: É o
Raposo ou é um repolho? Estão prontos? Hoje teremos no palco para nossa disputa
semanal de adivinhação de formas animais e vegetais mais popular do multiverso,
deem às boas vindas ao advogado que defendeu a menina que roubou o dinheiro da
formatura dos seus colegas, caso famoso de uns anos atrás, Souza da Silva
Soares (palmas e gritos alucinados), seu adversários escolhido em sorteio
registrada na loteria nacional e pode ser conferido por qualquer um, será o
biólogo especialista em animais sinantrópicos, apresentador do canal de
biologia mais visto da rede, esse cara é fera, esse cara é Alexander Moassa
Kruger (palmas e gritos alucinados). Estão prontos? Que bom, continuem prontos
então que iremos para o intervalo com ótimos comerciais, esperem aí ou podem
perder alguma coisa importante.
Yuri: O que é
isso?
Fabian: Como
assim, o que é isso?
Yuri: É que
parece com uns programas que temos no meu planeta, mas não temos nada tão idiota.
KLX: Curiosa sua
constatação, visto que é um programa do seu planeta.
Yuri: Nunca ouvi
falar.
KLX: Aceitável,
considerando que existem centenas de milhares de programas de televisão
passando simultaneamente em um período de um dia nos padrões do seu planeta.
Fabian: Além
disso, pode ser que nem exista mais na sua época.
Televisão:
Voltamos! Lembrando as regras do jogo, será apresentado aos nossos analistas
sêniors de hoje um ser vivo, que poderá ser um repolho ou um gato marrom, eles
então terão que adivinhar do que se trata, é o raposo? Ou... é um repolho!?
Yuri: Parece
fácil.
Ros: Ha! Ha!
Ouviu essa Fabian?
KLX: Na verdade é
desafiador até para mim, ainda posso contar com a análise parcial que o curto
tempo para a análise me permite, mas os outros só podem contar com a sorte
mesmo.
Fabian: Falta
mágica para sua espécie, colega duplamente alto.
Ros: Nesse caso,
dependerá da sorte mesmo, pois é um mágico ruim.
Fabian: Obrigado.
Ros: Contamos com
o instinto também, aquela ligeira impressão de que existe algo de suspeito em
um dos seres vivos apresentados.
Yuri: Será que eu
perdi algo? Eles de fato apresentarão um gato, ou um repolho? Os participantes
tem que simplesmente adivinharem se aquilo é um gato ou um repolho?
Ros: Isso mesmo.
Yuri: Ficam essas
coisas escondidas ou disfarçadas de alguma forma?
Ros: De jeito
nenhum, seria uma tacanha trapaça e ninguém gostaria do programa.
Yuri: Na verdade
acho que faria até mais.
Fabian: Você está
claramente desorientado, deve ser o fluxo temporal diferenciado para você.
KLX: Uma
regressão, talvez?
Ros: Improvável,
ainda assim preocupante.
Televisão: É
claro que antes de começar, para garantir a igualdade de condições nessa
disputa, os participantes poderão vislumbrar o Raposo e o repolho.
Yuri: É isso
mesmo, só um gato marrom e um repolho?
KLX: Mesmo com
minha capacidade de processamento, estou com dificuldade de encontrar novas
maneiras de te explicar, visto que é algo simples.
Fabian: No meu
breve tempo no planeta dele notei que problemas simples são mais difíceis de serem
compreendidos do que os complexos pela sua espécie.
KLX: Curioso,
talvez devessem ser mais profundamente estudados.
Fabian: E o que
faríamos para estudá-los? Abduziríamos alguns deles?
KLX: Não faria
diferença para eles, são muitos.
Ros: São apenas idiotas.
KLX: Não deveria
banalizar um veredito científico.
Ros: Você não
deveria banalizar o meu veredito científico.
Fabian: De fato,
KLX, mesmo que não compreendamos, não devemos subestimar a espécie dela em suas
conclusões quase sempre certeiras.
Televisão:
Lembrando que apenas um deles será mostrado e os participantes terão três horas
para acertar se é o Raposo ou é um repolho, tendo à sua disposição a ligação
para alguém da escolha deles, a consulta à uma cartomante e à análise de um
odontologista felino.
Yuri: Três
horas?!?
Ros: Como assim
quase sempre?
Fa bian: Yuri não
parece muito interessado, ele deveria fazer o café.
Yuri: Café?
KLX: Um programa
de entretenimento do seu planeta pede por uma bebida do seu planeta.
Yuri: E como
farei um café aqui?
KLX: Na
cafeteira, naturalmente. Me parece que você tem razão Fabian.
Fabian: E não é?
Yuri: Onde está a
cafeteira?
Fabian: No
armário, ali atrás.
(Yuri vai para
trás da cena, fazer o café, ou pelo menos ligar e desligar a cafeteira)
Ros: Para
constar, quando estamos errados, é porque estão todos errados.
KLX: Não temos
estatísticas para comprovar sua fala.
Ros: A nave é
nossa.
Fabian: Nesse
caso, tem razão.
KLX: Agradecemos
a oportunidade de viajar nesse curioso transporte.
Televisão:
Podemos começar? É claro que não, vamos para os comerciais.
Yuri: (falando do
fundo da cena) Até que tá parecendo um programa do meu planeta mesmo.
Fabian: Alguém
quer apostar?
Ros: É sempre o
pior no jogo que quer apostar.
Fabian: A sorte
não escolhe e eu tenho experiência em encontrar coisas.
Yuri: (falando do
fundo da cena) Demorou quase três meses para me encontrar numa cidade de quatro
mil habitantes.
Ros: (falando
para Fabian) Ele desconhece os pormenores do seu trabalho.
KLX: Se você
aceitar, posso apostar com você.
Ros: Apostas não
são permitidas nas naves sob a custódia de um doziônico.
Fabian: Não vale
nada, apostaremos apenas pelo prazer.
Ros: De zombar do
companheiro de viagem e criar fissuras irreparáveis que podem nos levar à
desgraça certa em momentos de desespero.
Fabian: Me parece
exagero.
KLX: Na verdade,
faz muito sentido.
Yuri: (falando do
fundo) Quanto tempo demora para o café ficar pronto?
Fabian: A luz da
cafeteira está verde?
Yuri: (falando do
fundo) Está vermelha.
Ros: Então não
está verde.
Yuri: (falando do
fundo) Foi o que eu disse.
KLX: Você disse
que está vermelha.
Fabian: Aperte o
botão que está vermelho.
Yuri: (falando do
fundo) Ficou verde.
Fabian: Pois é,
normalmente os cafés ficavam prontos entre cinco minutos e três segundos e seis
minutos e quarenta e um segundos.
Yuri: (falando do
fundo) Sério?
Fabian: Se você
seguiu as instruções, é sério.
Televisão:
Voltamos! Estão prontos detetives? Será que hoje vocês conseguirão dar um
palpite certeiro? Será que haverá alguma certeza em seus corações até o fim
desse programa? Vamos falar com suas famílias e ver como eles estão torcendo
por vocês.
Ros: Essa é
talvez a única parte que eu dispensaria desse programa.
Fabian: A
dinâmica familiar é interessante e pode determinar o desenvolvimento das
habilidades necessárias para resolver a charada proposta no programa, na
verdade é uma parte muito necessária.
KLX: Considerando
que tudo que a família de cada um diz e aparenta seja verdade.
Yuri: (falando do
fundo) Apesar de ser pertinente seu comentário, achava que você não conseguia
discernir verdade de mentira facilmente.
KLX: Estão na
televisão, então a conclusão não é minha.
Ros: Parte
dispensável então.
Fabian: Mesmo que
seja tudo uma mentira, basta inverter e ler as entrelinhas para perceber a
realidade objetiva que formou os participantes.
KLX: Estou
confusa, isso foi um argumento?
Ros: Ela não faz
piadas.
Fabian: Percebam
como a família do Alexander mora em local afastado da cidade, isso lhe dá certo
crédito no reconhecimento de seres vivos diversos.
Ros: Considerando
que é verdade, ele é mesmo biólogo?
KLX: Considerando
que é verdade, seus progenitores e sua irmã usam óculos.
Fabian: Vocês
querem que eu aposte no advogado.
Ros: Sem apostas.
KLX: Não preciso
ver a família falsa do Souza, ele vai ganhar.
Fabian: Como
assim?
Ros: Olha a
família dele.
Fabian: Básica.
Ros: Tosca.
Fabian: Mas me
responde KLX, como assim o Souza vai ganhar?
KLX: Se ele for
um advogado, é bom em perceber mentiras, se ele não for advogado é um bom
mentiroso ao se passar por um convincentemente e igualmente bom em perceber
mentiras.
Yuri: (falando do
fundo) Um programa baseado em mentiras, que novidade.
Ros: E o café?
Yuri: (falando do
fundo) Estou colocando na garrafa.
Ros: O pai largou
ele e estudou para dar uma vida melhor para a mãe, você viu?
Fabian: Sim,
gostei desse cara.
KLX: Ele pode
defender pessoas culpadas também?
Yuri: (voltando
para a frente, com garrafa e copos) Qualquer um é inocente, o acusador tem que
provar a culpa.
KLX: A mãe dele
parece feliz com isso.
Fabian: Eles tem
umas profissões curiosas, KLX, deveria visitar esse planeta um dia,
provavelmente apareceria num programa de televisão.
KLX: Desculpa,
não entendo esses comentários.
Televisão:
Emocionante, não é? Antes de apresentarmos o ser vivo que será identificado
hoje, vamos aos comerciais de nossos patrocinadores, trabalhando por um mundo
melhor.
Yuri: Esse cara
forçou.
Fabian: As
pessoas pareciam felizes com os produtos dos patrocinadores no seu planeta.
Ros: Você colocou
muito pó.
Yuri: Você
começou a tomar café esses dias.
Ros: Gosto mais
do café do Fabian, próxima vez você faz.
Fabian: Se não
estiver passando nada.
KLX: Não é só
pausar o programa?
Fabian: É ao
vivo.
Yuri: Quanto
tempo o sinal demora pra chegar aqui?
Fabian:
Desconheço as especificações técnicas da antena interna.
Yuri: Talvez esse
programa tenha passado tempos atrás.
Fabian: Não mais
do que três minutos a considerar nossa posição nesse momento.
Yuri: Isso não é
possível.
Ros: Você parece
bem impressionado com uma antena de transmissão livre.
KLX: Existem
artefatos que podem transmitir com o atraso de poucos nanossegundos.
Fabian: Muito
caros para nós,
Ros: Adequados
para eventos esportivos.
Televisão:
Mostraremos agora, atenção!!! Estão prontos?!? Em três! Em dois! Só mais um,
aguardem só, abram as cortinas, e... é... um!!!
(Todos fazem
caras de espantados, menos KLX, mas a expressão de espantado de Yuri é bem
diferente dos outros)
KLX: Raposo.
Fabian: Tão
rápido!? É sério?!
Ros: Falou isso
para nos confundir, iremos agora com o ser de maior capacidade de processamento
que conhecemos ou tiraremos nossas próprias conclusões já enevoadas pelo seu
julgamento?
Fabian: Vou no
repolho!
KLX: Obviamente
para contrariar minha conclusão.
Fabian: Droga! E
você Yuri, o que acha? Como habitante daquele planeta deve ter um bom palpite.
Yuri: É...
acho... que eu prefiro... dar meu palpite no fim... para não atrapalhar o
julgamente de vocês.
Fabian: Você
sabe!
Ros: Ele não
sabe!
KLX:
Irrelevanete, terão que tirar as quase suas próprias conclusões.
Yuri: Está bem
humorada KLX.
KLX: A vitória
iminente em um jogo banal.
Televisão: Vocês
podem fazer uma pergunta cada para nossa assistente de palco, que está junto
com o ser vivo. Sim! Ele tem folhas. Sim! Ele mia. Hoje está especialmente
difícil, devo lembrá-los que o vencedor vai levar um milhão de reais em barras
de ouro que valem mais do que dinheiro, além de um ano de compras na rede de supermercado Urubu’s, que aliás,
tem o que dizer nossos intervalos comerciais, aguardo vocês.
Fabian: Mantém o
palpite, KLX?
KLX: Não me
pergunte isso, não mudarei.
Ros: Esqueça KLX,
esvazie sua mente.
Fabian: Já
esvaziou a sua?
Ros: Por meus
próprios meios mentais, é o Raposo.
Fabian: Como
assim?
Ros: Ele mia,
igual o nosso amigo.
Fabian: Mas ele
tem folhas!
Ros: Então diga
que é um repolho.
Fabian: Mas eu
não tenho certeza.
Televisão:
Retornamos! Que tal falarmos com alguém da escolha de cada um? Nosso amigo
analista de formas de vida exibidas na televisão chamado Souza vai ligar para o
desembargador do Estado, é isso? Seu amigo? Que honra! Não sei para qual. O que
ele disse? Que não assiste televisão? Que pena... mas conhece a dinâmica desses
programas, será? É o Raposo!
Ros: O que é um
desembargador?
Yuri: Algum tipo
de autoridade civil.
Ros: Não faz
sentido.
Yuri: Acho que
não.
Televisão:
Alexander vai ligar para sua mãe? Ela sempre tem razão? Isso explica porque não
é casado. Ela está assistindo outra coisa agora, não quer mudar para não
perder, mas já sabe, já viu muitos programas desse tipo, só pode ser um Raposo!
Ros: Vamos lá
Yuri, aposte também.
Yuri: Pode
apostar agora?
Ros: Atividades
recreativas são permitidas, vamos apostar sem envolver valores.
Fabian: A não ser
que você meça quanto vale sua paz de espírito.
KLX:
Estatisticamente falando de apostas, aquelas que envolvem valores fazem mal aos
corpos físicos, mas aquelas que não envolvem valores monetários e apenas fazem
valores abstratos desastabilizam o estado mental das pessoas...
Fabian: Ou seja,
não é boa ideia que um grupo de seres em local relativamente isolado no espaço
dentro de uma nave com espaço limitado apostem.
Ros: Somos
profissionais, conseguimos lidar com isso, mas se você estiver com medo,
podemos deixar de apostar.
Fabian: É um
gato.
Yuri: É sério?
Fabian: Eu vivi
um tempo no seu planeta, é um gato.
Yuri: Estou
espantado é com a mudança de ideia.
Ros: Vai fechar
no gato antes do odontologista felino?
Fabian: Ros, o
dia que você viver naquele planeta, nunca mais vai perder uma aposta como
perderá hoje.
Televisão: Nossos
participantes estão confusos, dá pra entender né, não são especialistas. Vamos
chamar ao palco a cartomante. Os mistérios do tarot. O que você tem para nós?
Cada um tem a sua realidade, para cada realidade uma carta, para cada carta um
caminho, para cada caminho uma resposta. Para aquele que defende verdade
particulares, vejo a torre, símbolo de firmeza, mantenha-se na sua resposta e
ela será sua verdade; para aquele que lida com animais não domesticáveis, eu
vejo a carruagem, tenha pressa, ou perderá o momento de decidir. Esses foram os
mistérios das cartas! Que não deixam de ser misteriosos, nem depois de
explicados.
Yuri: O argumento
é ruim, mesmo para os padrões de programas de televisão do meu planeta.
KLX: Me parecem
satisfatórios e suficientes para o nosso entretenimento.
Televisão: Então?
O que dizem? É o Raposo ou é um repolho? Estão com dúvida? Já mostramos onde
nossos participantes trabalham? Vamos para lá então.
Yuri: Essa parte
é chata...
Ros: Eu quero ouvir.
Fabian: Essa
parte é a mais importante, mostrando o ambiente opressor do trabalho diário de
ambos, que influencia diretamente e imediatamente na resposta que darão.
KLX: O
desenvolvimento nos primeiros anos é mais importante.
Fabian: Você toma
alguma decisão agora por causa de alguma coisa acontecida quando você estava
com pouco tempo de desenvolvimento? Por outro lado, todas nossas decisões tem a
ver com o nosso trabalho.
Ros: Você parece
ter razão, mas KLX provavelmente tem razão, ainda que não entendamos.
KLX: Eu tenho
razão, mesmo que não esteja claro na nossa percepção, nossas decisões diárias
são calcadas nos traços desenvolvidos no início do nosso desenvolvimento
pós-embriônico.
Fabian: Diante
disso, vou aproveitar para ir no banheiro. (Fabian sai)
Ros: Eu também.
(Ros sai)
KLX: E você,
Yuri? Qual sua resposta? Acredito que você tem uma vantagem que nenhum de nós
temos.
Yuri: Você quer
saber da minha resposta para calcular a sua?
KLX: Farei isso,
mas não é o motivo primário de querer saber.
Yuri: Qual é o
peso da minha resposta no seu cálculo?
KLX: Próximo de
insignificante, mas para cima.
Yuri: Fico
lisonjeado.
KLX: Então?
Yuri: Também
quero saber a sua resposta definitiva, pode me contar?
KLX: Eu perguntei
primeiro.
Yuri: Que tipo de
argumento é esse?
KLX: Você já usou
esse argumento ou variações dele várias vezes.
Yuri: E você
guardou?
KLX: Sim, me
pareceu importante e eu não entendi, continuo não entendendo sua lógica,
contudo percebo sua vantagem e sou levada a creder que sua vantagem se
sobreponha à necessidade de lógica.
Yuri: Com
frequência as coisas são assim no meu planeta.
KLX: Deve ser um
lugar maravilhoso.
Yuri: Não por
isso, de qualquer forma, sobre a resposta, é um repolho.
KLX: Por quê?!?
Yuri: Parece
espantada. É só olhar e verá que é um repolho.
KLX: Acredito que
você não tenha percebido determinadas nuances da existência daquele ser.
Ros: Hey!
(entrando) O que estão falando aí?
Yuri: Não se
preocupe, o meu palpite é insignificante.
Fabian:
(entrando) Já acabou toda aquela apresentação dos ambiente de trabalho?
Televisão: Com um
ambiente desses, não tem como esse advogado errar! Se bem que o biólogo, está
com a faca e o queijo nas mãos! Seria melhor que estivesse com o Raposo... ou
um repolho! Uma palavra de um dos nossos patrocinadores antes dos intervalos
comerciais.
KLX: Deveria
fazer algum sentido o que ele disse?
Yuri: Fez em
algum momento?
Fabian: Faz todo
sentido, tudo isso é uma desculpa para passar esses comerciais estranhos.
Yuri: E vocês
sabem disso, então?
Fabian: Nos toma
pelo quê? Claro que sabemos o preço da boa diversão massificada.
Ros: Isso não é
um problema.
KLX: Poderia ser.
Fabian: Não se
preocupe, eles não usam trabalho forçado nas atividades de entretenimento.
Yuri: Podemos
encarar essas atividades como uma distração de problemas mais sérios na
sociedade local, produzidas para favorecerem pessoas poderosas de forma que não
se mostre em comunicação de massa coisas que poderiam esclarecer sobre a
situação de exploração da população.
Fabian: O
objetivo primário é vender coisas e serviços, se isso favorece um ou outro é consequência,
sua espécie, como muitos, é bem obcecada por acumular bens.
Ros: Poderíamos
encarar como uma simbiose de interesses, provavelmente alimentando-se
lentamente até chegarem nesse ponto indissociável.
Fabian: É muito
ponderada, não precisa ser tão explicativa com essa espécie, eles são bem
simples, duvido que exista em suas ações tantas nuances.
Yuri: Acho que eu
poderia falar bem por minha espécie.
KLX: Poderia
falar, mas não tão bem quanto outros.
Yuri: Chamaremos
vocês de terristas um dia.
Ros: Como é?
Yuri: Seres de
fora que estudam e comentam nossa sociedade achando que conhecem algo, mas
dizem coisas descontextualizadas.
Ros: Você me
parece ressentido, é bom que saiba que gostamos muito desse e de outros
programas que sua espécie produz, ressentimentos são ruins para a tripulação e
podem criar fissuras em nossa relação que nos leve à morte certa.
Yuri: Não estou
ressentido.
Fabian: Vamos lá
Yuri, é bom para você, nos xingue agora e podemos resolver tudo antes de
descobrirmos se é o Raposo ou um repolho.
Yuri: É um
maldito repolho!
KLX: Ele está
ressentido.
Yuri: Não estou!
Fabian: Você sabe
que está reproduzindo o estereótipo muito presente na ficção literária do seu
planeta de que um humano que vem para o espaço é ressentido e neurótico, eu sei
como que você detesta clichês, pois somos amigos...
KLX: Na verdade,
é nosso amigo pouco de inteligência pouco desenvolvida que está analisando
outras espécies equivocadamente, aparentemente não compreende nossa senso de
diversão.
Ros: Ele está
aprendendo, não fiquemos ressentidos,
Fabian: Além
disso, somos todos experimentados, ele não.
Yuri: Vocês sabem
que estou aqui, correto?
KLX:
Provavelmente sabem, mas não estão te ofendendo.
Televisão: Aposto
que já estam brigando, certo? É o Raposo? É um repolho? O que será? Vamos
prosseguir, a análise é meticulosa e os participantes podem aproximar dez
metros da massa misteriosa.
Ros: Os olhares
são a melhor parte.
Fabian: O biólogo
parece confuso.
KLX: O outro pode
estar escondendo que não faz ideia, não é essa a profissão dele?
Fabian: Não acho
que num momento desse ele conseguiria, além disso, em sua profissão ele defende
outras pessoas, agora é a vida dele.
Ros: Vou com o
biólogo, ele parece alucinado de preocupação e sua escolha será de vida ou
morte.
Fabian: Vou com o
advogado.
KLX: Mantenho
minha resposta anterior, não preciso analisar novamente.
Ros: Yuri, vai
apostar ou será chato?
Yuri: É um
repolho.
Fabian: É mesmo?
Ou quer nos confundir? Preferia você sem apostar, agora estou na dúvida.
KLX: Estratégico,
sem dúvida, pode estar de complô com qualquer um de vocês.
Ros: E com você?
KLX: Não preciso.
Televisão: O
odontologista felino vem aí, com a análise da arcada dentária saberemos ao
certo se é o Raposo ou um repolho. Entre!
Ros: Vejam, ele
está medindo os dentes e mostrando raio-x de diversas arcadas dentárias de
felinos de todos os tamanhos.
KLX: É, sem
dúvida, uma pessoa muito inteligente para os padrões dessa espécie.
Ros: Isso é um
problema, existem certas nuances que não percebemos por não conhecer tanto
quanto ele.
Fabian: Sem
dúvida, difícil...
Ros: Acaba que
algo óbvio, talvez óbvio, que deveria esclarecer, nos deixa em dúvida.
KLX: Nada que ele
está falando ou mostrando é logicamente surpreendente.
Fabian: Também
acho.
Ros: Acha?
Fabian: Depois dessas
comparações, é o Raposo!
Ros: E aquela
conversa de concordar com um ou outro?
Fabian: Diante
das evidências, não posso seguir outra coisa cegamente.
Ros: É verdade.
Posso dizer também que essa análise final deixou o jogo com uma resposta óbvia.
Yuri: Deixou?
Ros: É o Raposo.
Fabian: É só ver
a arcada dentária, ele mostrou.
KLX: Bom jogo o
seu Yuri, mas está jogando com seres que são experiente no ramo.
Ros: Muito tempo
à deriva.
Fabian: Trabalhos
demorados.
KLX: Até escravos
tem o seu tempo de inventarem lazeres.
Ros: Quem sabe da
próxima você tenta outra estratégia, ou caímos nessa estando em outro contexto.
Televisão: A
resposta final será dada depois dos intervalos comerciais, com palavras de
nossos confiáveis patrocinadores.
Yuri:
Impressionante.
Fabian: Também
achamos.
KLX: Considerando
essa a primeira concordância entre vocês sobre esse tipo de entretenimento,
acredito que estejam comunicando coisas diferentes.
Ros: Pegue uma
bebida para nós.
Yuri: Eu?
Ros: Você é
claramente o que menos gosta de assistir.
Fabian: Não
queremos perder nada.
Yuri: Ok, vou
pegar. (Saindo)
KLX: Os
comerciais demoram, dava pra qualquer um ir pegar.
Fabian: Vai que
não demoram.
Ros: Independente
dos verdadeiros objetivos desses comerciais, eles demoram, mas é bom não arriscar.
Televisão: Falei
que seriam rápidos! Voltamos! Estão prontos para a resposta final?
Yuri: Pessoal.
(Entrando)
Fabian: Cadê as
bebidas?
Yuri: Eu não
encontrei quatro bebidas iguais na cozinha, então fui verificar a geladeira da
sala de comando.
Ros: Traga
bebidas diferentes e sorteamos mesmo.
Yuri: Não
terminei. Havia uma luz piscando, a de chamada externa.
Ros: Oi?
(Surpresa)
Todos olham para
Yuri.
Yuri: Acho que
estava sem volume.
Ros: O canal de
áudio está desviado para nossa tela aqui, que estava com o áudio danificado,
mas então?
Yuri: Abri o
áudio e perguntei quem era.
Ros: E daí?
Yuri: Eu não
entendi nada e ele parecia irritado.
Fabian: Parecia
com o quê?
Yuri: Não sei,
não tem como ver.
Fabian: O som.
Yuri: Ah...
alguém enrolando a língua um pouco gutural. Talvez.
Ros: Para nos
localizar dessa forma, só um rastreador dos que usam em naves militares.
KLX: Não nos
destruiram e nem nos abordaram.
Fabian: Um
batedor?
Ros: Não, um
perdido.
KLX: Pedido de
socorro?
Ros: Os
localizadores de naves militares são altamente resistentes, deve ser a última
peça a danificar.
KLX: Acho que sei
de que tipo de espécie você está falando.
Fabian: Que tipo.
Ros: A pronúncia
de seus nomes não é fácil, por isso chamamos eles de guerreiros de Nordateia
Kraionte. (Breve silêncio, Fabian arregala os olhos. Ros levanta e desliga a
tela.) Redirecione o áudio para seu canal de origem.
Fabian: Sim.
Ros: Vamos
conhecer esse perdido.
viii.
Breve Explicação
Sobre os Guerreiros de Nordateia Kraionte seguida da Decisão de Ros em Deixar
Adentrar Na Companhia dos Tripulantes da Nexo Um Desses Guerreiros
Em Nordateia Kraionte todos são guerreiros,
independente de suas profissões.
Na verdade, eles nem tem uma palavra para
designar a espécie, chamando a si mesmos de Guerreiros de Nordateia Kraionte.
Sua declaração planetária dos deveres dos
guerreiros diz, em seu primeiro parágrafo, que “todo ser sesciente nascido em
Nordateia Kraionte tem o dever de ser guerreiro, lutar pelo seu planeta em
todos os momentos que se fazer possível essa luta.”
O treinamento pelo qual todos passam
poderia parecer duro para maioria das espécies, mas para os guerreiros de
Nordateia Kraionte é só um dia após o outros, às vezes até um mês terrestre,
não apresenta grandes desafios.
Existe dor, solidão, sofrimento,
cicatrizes, amputações... mas raramente a morte definitiva.
De um ponto de vista meramente objetivo, é
uma espécia extremamente igualitária, onde os critérios de sobrevivência e
ascensão social se aplica igualmente a todos.
A elite guerreira existe até ser
sobrepujada por outros guerreiros.
Os fracos são subvernientes, quando
sobrevivem.
Não existe nada de condenável nisso, dessa
forma se fizeram a força militar de elite mais contratada do universo, não
aceitam o rótulo de mercenários, são guerreiros profissionais.
Não aceitam nenhum trabalho para treinarem
outras espécies.
Não aceitam intervir de qualquer forma em
guerras que não seja pela ação bélica em si.
Não aceitam participar de filmes.
E jamais aceitam separar-se de suas armas.
Foi um desses que tocou a campainha da
Nexo, um orgulhoso e absolutamente ordinário guerreiro de Nordateia Kraionte de
nome impronunciável.
”Fiquei sabendo que as pradarias do seu
planeta são vermelhas, de tanto sangue que já derramaram ao longo do tempo.”
“Um pouco exagerado, mas poeticamente se
expressando é adequado.”
“E que vocês apenas se casam com alguém que
traga mais de cem orelhas esquerdas arrancadas dos inimigos caídos.”
“Uma figura de linguagem que expressa com
exatidão o quanto somos exigentes com nossos consortes.”
“E que outras criaturas de Nordoteia
Kraionte são tão fortes por evoluírem em constante batalhas com vocês, que é
virtualmente impossível a sobrevivência de uma espécie estrangeira com um nível
de segurança aceitável.”
“Mas os melhores de nós são capazes de
derrotar qualquer fera nativa com as mãos.”
“E que são capazes de sobreviverem por
muitos ciclos de qualquer planeta dentro de um vulcão ou em uma geleira,
voltando depois com um sorriso no rosto.”
“Sobrevivência é nossa especialidade e
todos que sobrevivem devem sorrir.”
“Acredito que você, um guerreiro com muitas
viagens, tenha notado que essa se trata de uma nave Nexo.”
“Presumi.”
“Protocolos são necessários, infelizmente
nossos protocolos não são mais do que suficiente e será uma oportunidade para
mim ter você a bordo, tenho esperança de aprender um pouco sobre os protocolos
de sua espécie.”
“Será um prazer compartilhar um pouco de
nossa ferrenha organização.”
“É necessário que eu saiba o que ocorreu
com o seu veículo, para que eu passe para os meus superiores.”
“Não se preocupe, eu compreendo sua
situação. Meu veículo foi danificado em uma manobra de evasão equivocada,
diante de um cenário onde eu seria atingido por uma larga maioria de inimigos,
usei a aceleração súbita cegamente e com baixa energia acionei o localizador,
sendo sua Nexo a única nave no setor.”
“Certamente traído.”
“Correto. Para azar daqueles que tentaram
me destruir, suas tripas enfeitarão as moradas de seus parentes e amigos.”
“Certamente, será uma decoração de bom
gosto e um lembrete útil aos seus desafetos. Tenho um último requerimento
necessário para qualquer Nexo: sua arma deverá ficar a bordo de sua nave, como
sabe, não são permitidas armas nas Nexos e não temos condição de rebocar sua
nave, ainda que possamos marcá-la para ser resgatada em momento oportuno.”
...
“Alô?”
“Não aceitarei.”
“Morrerá aí.”
“Provavelmente.”
“Sorrindo?”
“Na morte? Jamais! Na morte existe apenas
ódio e um desejo infindável de vingança.”
“Se aceitar os termos, que são padrões para
todas as Nexos, poderá cumprir o seu desejo de vingança.”
“Qual é o seu interesse nisso?”
“A Federação resgata todos, tradição e
diplomacia, chame como quiser.”
“Acho que posso aceitar, mas se alguém na
Nexo estiver armado eu mesmo estrangularei com minhas mãos, coisa que faço
rápido e dolorosamente.”
“Todos tripulantes estão protegidos pela Federação
a qual pertenço, inclusive você estará.”
Um detalhe: como o guerreiro de Nordateia
Kraionte sai de sua nave de batalha desconfortável e foi para a Nexo: saiu
simplesmente, no gelo do espaço e entrou pela abertura da Nexo.
Os tripulantes estavam preocupados e
questionaram a capitã pela decisão que muito enciclopedicamente explicou:
“Não se preocupem, as armas dele ficarão em
sua nave de batalha, a ser rebocada posteriormente, além disso nossas mortes
não valem nada para ele e essas ameaças são apenas parte do protocolo de sua
espécie, mesmo que estivesse armado não faria diferença, suas armas são
programadas para contabilizar cada morte que causa no conflito em que estiverem
envolvidos, de forma que nossas vidas não valem nada.”
Minha fala não tranquilizou os tripulantes.
“Sim, eu entendo, porque então eu
insistiria que ele não trouxesse armas? É simples e óbvio, é o protocolo, ele
entende isso e respeita, deve presumir que eu sei sobre o funcionamento de suas
armas e, portanto, minha solicitação era protocolar, não receio de morrer,
pode-se dizer que compartilhamos do ardor por protocolos.”
Ainda que amaciados pelo falatório, os
tripulantes permaneciam com a expressão de quem mereciam mais explicações.
“Não sei que tipo de armas ele pode ter
deixado lá, os guerreiros de Nordateia Kraionte são bem versáteis e lutam de
acordo com a cultura local de onde são contratados, pode ser uma lança, um
estilingue, algum tipo de metralhadora, qualquer coisa.”
Os tripulantes, resignados apenas, estavam
prestes a se darem por temporariamente satisfeitos.
“O nosso quase novo companheiro pode ser
qualquer um dentro desse contexto, eles são promovidos pelo número de mortes
que causam e quanto maior a patente maior a porcentagem que ganham para si
mesmos dessas mortes, pelo seu relato é um oficial, eles não mentem e pode ser
que ele tenha entendido mal alguma coisa, mas duvido disso.”
Os tripulantes, cansados de adiar o
inevitável e também curiosos, abriram caminho para Ros abrir a comporta e darem
boas vindas ao guerreiro de Nordateia Kraionte.
O guerreiro não era excepcionalmente alto e nem
excepcionalmente forte, mas havia algo de rígido em sua expressão e mesmo na
distância inspirava medo e confiança, pelo vidro viram ele posicionar seu
módulo de navegação individual e sair para o espaço, impulsionando-se sem proteção
nenhuma para a Nexo.
Não se contorceu, não
expressou dor ou desconforto, apenas lançou-se ao espaço obrigando o próprio
corpo a não congelar e seguir o caminho que planejava naquele espaço em torno
de si, alcançou assim a Nexo e atrás de si a comporta fechou-se, e quando o
procedimento de despressurização começou e a gravidade voltou ele caiu em pé
sem qualquer desequilíbrio, olhando fixamente para a comporta que abriria, por
onde os tripulantes espiavam.
Apenas eu estava
tranquila, e KLX, que calculando todos os possíveis desdobramentos se resignou
ao destino desconhecido.
“Não se preocupem,
estamos protegidos, sou do sindicato”, disse Ros quando a comporta abria.
ix.
Registro
Obrigatório Parcial de Um Guerreiro de Nordateia Kraionte Prestes a Ser Traído
ENTRADA 173
Guerra no planeta
designado localmente como Naga F Dritori, origem e base da espécie solicitante
#944729.
Estágio de
desenvolvimento bélico objetivo: armas de projéteis contínuos de alta
temperatura, canhão elétrico de alcance longo, destruição biológica em massa
sem danificação de estruturas (essas não deve ser usadas).
Estágio de
desenvolvimento bélico subjetivo: a história militar da espécie é rasa, suas
táticas se resumem à destruíção desenfreada sem se atentarem aos pontos estratégicos,
pensamento tecnológico avançado aliado à uma visão tacanha da sociedade.
Tropas
envolvidas: três batalhões com 12000 cada, divididos em grupos de 1000
comandados por um tenente de nível 3, patente de cobre. Tropas majoritariamente
terrestre de artilharia, grupos pequenos de batedores e sabotadores. Para minha
identificação vide assinatura digital contida nesse arquivo.
As informações
que por padrão estariam na ENTRADA 0 foram repetidas por motivos que serão
expressos a seguir.
As entradas
anteriores foram apagadas, parte da memória foi danificada durante uma descarga
elétrica quando a batalha já havia terminado.
VISTORIA
Mal chegou, o Guerreiro de Nordateia
Kraionte queria saber o estado da nave na qual viajaria, sem rodeios ou
constrangimento começou a vistoria, painéis, cabos, luzes, estofados… a capitã não se importou e os outros
não tinham motivos para se importar também.
KLX o acompanhou, já que
era a responsável pela manutenção da nave, a informação sobre a trajetória que
buscavam o interessou em particular.
“Através do tempo”, ele
disse consigo próprio, era uma arma perigosa demais para ser manipulada, quando
a destruição é total os dois lados perdem a guerra, analisou a rota com KLX e
até que ponto teriam que chegar para irem até ela.
“Aconselho não contar
que vai demorar enquanto não perguntarem”, disse KLX.
“Eles não sabem?”, o
Guerreiro de Nordateia Kraionte perguntou.
“Provavelmente apenas a capitã
sabe.”
“A federada.”
“Ela está no comando,
para todos efeitos, tem plena capacidade de guiar a nave.”
“E o gato de ancoragem?”
“É do mágico, espécie
irrelevante, foi resgatado mas não tem função aqui.”
“Mas consome
combustível.”
“De fato, contudo, os
outros parecem motivados na presença dele.”
“A viagem vai ser longa,
não chegaremos com esse gato, precisaremos reabastecer antes de entrarmos na
rota.”
x. Warwood
Desde os primórdios da indústria cinematográfica interplanetária os
filmes de guerra são os queridinhos da crítica.
Aparentemente exaltar a
espécie que melhor causa destruição e mortes está sempre em alta.
Muito mudou na indústria e
os filmes de guerra podem não ser os mais populares atualmente, mas ainda são
os queridinhos da crítica.
O cineasta Krosto
Marakatoia, do planeta Uda, na periferia extrema de uma galáxia, expressou bem
como funciona essa indústria ao dizer que “os jovens Udaneses são burros por
assistirem esses filmes onde são mortos por sadismo”, isso porque Udaneses são
seres grandes e que os diretores e figurinistas acham que suas imagens são boas
para apanhar e serem mortos.
Contudo, o trabalho de maior
visibilidade nesse meio é o de ator, desde grandes e principais até figurantes,
para sorte dos envolvidos, principalmente dos produtores executivos, existe
muitos seres no universo, muitos dos quais precisam de meio para viver, muitos
dos quais acreditam que a sorte está do lado deles, muitos dos quais não tem
motivos para continuar vivendo e dessa forma a indústria cinematográfica é
constantemente reabastecida sem nem precisar ir até onde estão esses seres
ávidos de serem assistidos por multidões, pois muitos vendem o que tem para
irem até algum planeta onde estão gravando um filme.
Para os figurantes a vida
pode ser ingrata e, pior ainda, bem curta, pior se quiser continuar vivo,
muitos parecem não ligar tanto pra isso.
Não existe mais a morte
dramatúrgica, cinematográfica, quer dizer, a morte encenada é a morte real, de
forma que um filme de guerra é o que chamam nesse meio de “guerra controlada”,
uma simulação de um conflito real com munição real.
Trabalhadores da produção
estão, regra geral, bem protegidas em seus escudos de força, mas os atores,
todos eles, estão à mercê da roteiro que pode até mudar caso ocorra
reviravoltas, ações heroicas ou outros imprevistos.
Assim começou Finego Cra,
conhecido ator que começou como figurante que em uma ação heroica destruiu a
base inimiga e sobreviveu ao conflito, levando a guerra que seria retratada a
um improvável empate e o filme a uma continuação onde ele interpretou um
general, portanto, dificilmente morreria. General foi o cargo mais baixo que
interpretou desde então e serve de inspiração aos atores iniciantes mais
inocentes.
Dependendo da espécie do
ator, seu papel pode ser determinado de antemão, como já foi exemplificado com
os Udaneses.
Os KLX, por exemplo,
aparecem bastante como empreendedores em filmes motivacionais, ou como
trabalhadores dedicados e felizes em comédias românticas.
Os Guerreiros de Nordateia
Kraionte, regra geral, recusam-se a participar desse tipo de filme.
Qualquer outra espécie é
forte candidata a ser de múltiplas maneiras evisceradas em um esforço bem
sucedido de realizar um filme realista.
Parecia boa ideia participar
de um filme.
Uma ideia conveniente e
produtiva, suficiente para trazer recursos para abastecer a Nexo, manter o gato
e consertar qualquer ruptura que houvesse no tempo, evitando tanto um desastre
de proporção cósmica quanto o abandono de um animal doméstico.
Quem deu a ideia foi Fabian,
importante lembrar de quem foram as ideias.
Pararam a Nexo à deriva antes
de continuar, após o prudente aviso do experiente guerreiro que gostava de
adjetivar tudo.
A capitã a vasculhar as
oportunidades de emprego, uma que pudesse levar companhia que poderia ser úteis
ou não, o próprio pior mágico se ofereceu e ele e Yuri sentaram-se no sofá para
ver as oportunidades de emprego dos federados, o primitivo foi como
comentarista insosso.
Como era seu hábito, Fabian
começou a ver de trás para frente numa lista organizada “por ordem de
relevância”, “ser mágico é saber surpreender”, dizia Fabian, “ser um mágico
ruim é saber surpreender”, completava e ninguém sabia ao certo o que ele queria
dizer.
De forma que quando mostrou
a oportunidade de emprego para Ros, ela não notei que era uma oportunidade
consideravelmente irrelevante, ficou na dúvida, mas Yuri, em um engano típico
de sua espécie, disse que parecia uma oportunidade sem muitos riscos e com
ganhos consideráveis.
A capitã aceitou, sabia que teria lugar num papel
importante e com poucos riscos, era uma federada e a identificação com o
espectador era universal, mas se os mais irrelevantes estavam animados com a
oportunidade eu não iria então me preocupar, acabei por aceitar, além disso era
uma oportunidade relativamente próxima.
O Guerreiro de Nordateia
Kraionte não era afeito a esse tipo de emprego, mas estava em uma revolta com
os seus e decidiu aceitar, se mostrar e provocar provavelmente. A KLX aceitou,
como era de se esperar, valiosa espécie que poucos produtores se dispunham a
colocar em risco.
Passou pela cabeça da capitã
a inocente ignorância de Yuri, mas só passou, quero dizer, estava tudo na
descrição, uma produção de guerra de grandes proporções.
Quanto a Fabian, é difícil
saber o que ele pensava, ou mesmo se dedicava muitos dos seus esforços a pensar
em algo que não fosse seus truques ruins e, às vezes, estranhamente efetivos. O pior mágico talvez tivesse seus segredos, como
todos, mas talvez o seu diferencial fosse não ter segredo algum.
Dessa forma, depois de um
contato com os produtores do filme, onde apesar o seu papel e o de KLX foram
definidos, pousaram em 0009834, planeta artificial da Hakumas amplamente
utilizada para produções cinematográficas, conhecido também como Warwood, nome
autorizado pela empresa responsável.
A recepção foi calorosa para
Ros, os envolvidos pareceram entusiasmados com a presença de uma federada e
logo coloquei como exigência que me chamassem pelo nome, ou por federada, eram
raras as ocasiões da minha espécia participando de um filme, normalmente se
dava em papéis secundários e comédias, ou na produção. Apesar de não ver
problema nisso, especialmente naquela ocasião, sabia que não era bem visto
entre os federados trabalhar em coisas que lhe dessem muito destaque.
Camaleônicos, como se dizia
na indústria.
Imaginem então a animação de
receber uma para um papel de destaque em
uma produção que mirava grandes festivais galáticos e premiações.
Tudo parte de um sistema há
muito definido e agora os tripulantes da Nexo se jogaram no meio disso.
Como capitã, Ros levou a
situação com naturalidade, sorriu, cumprimentou, agradeceu e elogiou aquelas
pessoas que não sabia quem eram como se conhecesse elas, o trabalho delas e os
desejos delas, contudo, não consegui me lembrar da última vez que assistira um
filme, gostava sim dos programas documentais policiais, dos reality shows, das
apresentações musicais, programas de variedades e detestava os de auditório, as
séries com mais de uma temporada ou com mais de quatro episódios, os de
notícia. KLX a acompanhou, com sua naturalidade calculada.
Foram separadas do restante
pela equipe de equipes, que era a equipe que organizava as equipes.
Os outros foram para um
lugar mais… impessoal, onde ninguém lhes fez perguntas além de “qual é a sua
espécie”, quando Yuri respondeu “terráqueo” escreveram “primitivo geral” e
quando Fabian respondeu, Yuri não entendeu o que ele disse, pois tinha muitos
seres por lá, todos falando de oportunidades perdidas e oportunidades futuras,
das famílias desesperadas e da venda dos filhos.
O responsável não se deu ao
trabalho de perguntar ao Guerreiro de Nordateia Kraionte a espécie, apenas o
chamou, para o setor de “personagens secundários”, que era anexo aos camarins
principais.
Os dois que ficaram estavam
no setor de “figurantes gerais”, chamado pelos que não são capazes de apreciar
a arte como “setor da morte programada”.
Então chegaram novos
assistentes de equipe responsáveis por separar cada equipe de figurantes em um
dos dois lados do conflito que seria retratado e foram sendo chamados.
O pior mágico não pareceu
surpreso ou decepcionado ao perceber que ele e o cosmonauta ficariam em lados
opostos, mas quando explicou isso ao companheiro, o cosmonauta quase entrou em
desespero e ainda nem sabia que as encenações envolviam mortes reais, quando
então entraria em desespero.
“Se você ficar perdido no
campo de batalha, pergunte se é um o Raposo ou um repolho, eu vou errar de
propósito e você saberá que sou eu.”
Apesar das dificuldades
culturais óbvias, naquele momento Yuri ficou mais tranquilo.
“SANGUE E GLÓRIA”
A película conta a história
de Maracavanicas, princesa da civilização Ka, em seus esforços para encerrar a
Guerra Setorial entre os Kas e o império Morte.
Enquanto viajava para o
ponto onde se dariam as filmagens de sua sequência, Yuri fez amizade com outros
integrantes do seu grupo, “digam tropas! É para entrar nos personagens, mesmo
que por pouco tempo”, dizia o orientador de equipes figurantes que estava no
transportador com eles.
Todos já estavam
uniformizados com o antigo emblema dourado dos Mortes (mais dourado do que fora
um dia) e com os cabelos, ou os que tinham cabelos, totalmente raspados,
estavam armados com as lanças características da infantaria histórica desse
império, lanças que soltavam feixes de calor que em sua época original de uso
causavam uma morte rápida e relativamente limpa, mas que em suas versões
cinematográficas emitiam um feixe de calor que recebia uma série de alterações
para ser mais vermelho, de forma que causava dores excruciantes no alvo que
demorava vários minutos para morrer.
Um dos integrantes da tropa
(aquele com cara de idiota, provavelmente) aparentemente era um entusiasta de
História e começou a falar para quem queria ouvir sobre aquele conflito, uma
curta sequência dessa passagem apareceu na versão estendida do filme lançada domesticamente,
mas não é possível ver Yuri, que era o único que ouvia com atenção e fazia
perguntas.
“A civilização Ka ganhou
essa guerra, não sem evitar a batalha para qual estamos indo, mas não se
preocupem tanto, quando a princesa Maracavanicas conseguir fechar um acordo
comercial pretendido com o Império Morte avisarão que os conflitos estarão
suspensos e os que estiverem vivos se salvarão.”
“Cala a boca!”
“Covarde!”
“Ela não aceitou a se casar
com um príncipe morte?”
“Talvez no roteiro, mas
historicamente não, o Império Morte estava nos últimos esforços de manter a
sombra da relevância de outro dias, mas na altura da Batalha Gloriosa, como
chamam a derradeira batalha para onde estamos indo, mantinham o efetivo
controle apenas de um planeta que desconfia-se nem seja o planeta natal.”
“Estamos do lado dos
perdedores.”
“Se o nome da batalha é
Gloriosa para os perdedores…”
“Ah sim, para a civilização
Ka, que ainda governa diversos planetas, tornou-se a Batalha Sangrenta.”
“Que tipos de armas podemos
esperar contra nós?”, perguntou Yuri.
“Rifles, naturalmente, por
altas temperaturas, os Mortes usam isso, de certa forma, mas valorizavam as
formas e o efeito que julgavam que produzia nos outros.”
“Estamos lutando com
estilo?”, Yuri disse, primeiro receou que seu capitão o recriminasse pelo
comentário, depois lembrou-se que não havia capitão ou tropas, que era só um
monte de pessoas vestidas de uniforme.
“Acho que isso é uma
banalização, a pictorização da guerra não deve ser subestimada, vejam nossos uniformes,
por exemplo, é dos mais impressionantes, ainda que provavelmente traga uma
estrela mais dourada do que deveria ser de fato, esse modelo foi copiado por
diversos sistemas e para diversas finalidades.”
“Em suma, estamos bem
vestidos para morrer.”
“Existem técnicas de manejar
o nosso armamento para torná-lo mais efetivo e é bem provável que os mortes
tenham sido bons manejadores, mas nessas produções apenas os que protagonizaram
cenas de ação e luta são treinados para isso.”
“Chegando lá, o que devemos
fazer com essas informações?”, perguntou Yuri, tentando encontrar naquilo tudo
algo que o ajudasse com seu novo trabalho.
“Naturalmente nada, são
apenas curiosidades sem vital relevância para esse momento.”
“Daremos o nosso melhor.”
“O meu pagamento vai para
minha esposa, dessa forma não vai precisar vender nossos filhos, já foi bem
difícil vender nossos pais.”
“No meu caso, vai para um
museu em meu planeta natal, e o seu?”
“O meu?”, disse Yuri. “Meu,
oras, pra quem mais.”
“Mas se você não sobreviver?”
“É tão arriscado assim?”
“Bom, é um filme de guerra,
como você chegou aqui?”
“De carona, mais ou menos.”
“Provavelmente vai para o
capitão da nave, então, se você não designou ninguém.”
Nos minutos restantes, antes
do derradeiro pouso no set de batalha, o cosmonauta ficou matutando aquelas
informações evitando, enquanto podia, seus desdobramentos mais sinistros.
O outro, Fabian, estava em
posição mais confortável, entenda-se, as tropas da civilização Ka não era tão
soturnas, seus armamentos eram mais modernos e compensavam a falta de cultura
bélica, os números os favoreciam, além disso, para cada morto nas guerras era
construído um mausoléu garantindo sua entrada no mundo espiritual onde haviam
apenas aqueles que morreram pela glória dos Ka.
Enquanto isso, os soldados
de preto da morte poderiam esperar apenas a terra de chamar estelares que
queimava o espírito de todos depois que morriam.
No caminho para o set de
batalha Fabian confabulou com diversos e divertidos aspirantes a atores, beberam
chás de ervas que deixavam suas mentes leves e rápidas, boas para batalhar e
atuar, discutiram os termos dos próprios contratos e o pior mágico contou que
viera com uma Nexo (ninguém acreditou) e na condição de tripulante de outra
nave o pagamento, em caso de óbito, ficaria com sua capitã, em suma, com a
Federação.
Mas não se preocupava com
isso, as probabilidades estavam com ele, os Ka venceram a batalha, além disso,
era bom em se esconder, bastava que encontrasse seu companheiro Yuri no caótico
campo de batalha antes que algo acontecesse, mas ele era um cosmonauta, o que
em seu planeta queria dizer que era um militar, um ser da guerra.
No camarim Ros foi vestida
com a indumentária mais espalhafatosa que colocou até então e para o resto de
sua muito longa vida.
O chapéu da princesa, então
governanta real da civilização Ka, media o equivalente a dois Guerreiros de
Nordateia Kraionte, numa cor prata com fios azuis em diversos tons e
opacidades, o manto real seguia o mesmo padrão, com a diferença que os fios
cresciam em espessura e chegavam nas mangas ocupando todo espaço, dando lugar
às luzas totalmente azuis, brilhantes e transparentes, de profundidade incerta.
Passou para ver ela o
Guerreiro de Nordateia Kraionte, tentou ser impedido pelos seguranças, mas ela
o autorizou.
“Onde estão os dois?”, ela
perguntou.
“Um se juntou às fileiras
Ka, o outro se juntou aos mortes, na ordem inversa do que seria adequado para a
manutenção da quarta dimensão.”
“O mágico tem um plano.”
“E qual seria?”
“Não sei, ele é um mágico, é
o que ele faz, planos.”
“Ele é um pior mágico”,
lembrou KLX, com modestas roupas prateadas de serviçal da realeza Ka.”
“É uma observação
pertinente”, o Guerreiro de Nordateia Kraionte disse.
“O povo quer ver sangue”,
lembrou KLX.
“Você está lembrando de
muitas coisas”, Ros comentou.
“São argumentos lógicos, não
informações guardadas.”
“Eu tenho uma ação
programada”, disse o Guerreiro de Nordateia Kraionte, “vou invadir uma base,
matar um punhado de soldados inimigos, ter uma batalha contra um oficial e
pegar alguns documentos de posse que parecem importantes, depois estarei livre,
posso nocautear a tripulação do meu transporte e me levar ao campo de batalha.”
“Set de batalha”, disse Ros.
“Que seja, lá eu pego eles,
ou pelo menos o objeto intruso.”
“Vai localizar como, em um
enorme e caótico campo de batalha?”
“Eu tenho uma acurada
memória visual.”
“Se eu fosse você, voltaria
para aguardar junto ao gato de ancoragem.”
“E porque isso seria uma boa
ideia?”
“Você observou sobre o gasto
de combustível dele, escaneei os sistemas depois disso e ele está gastando mais
do que de costume.”
“Eu não tenho familiaridade
com esse tipo de dispositivo, apenas sei que eles gastam combustível e que,
originalmente, vocês não levam esse tipo de coisa nas suas Nexo, mas acho que
entendo o que você quer dizer.”
“Nossa parte será depositada
em contas vinculadas à Nexo, assim que cada um terminar a própria parte, eles
tem um sistema de reabastecimento nesse planeta que podemos usar.”
“Entendido princesa, nesse
caso, vou cumprir minha missão e levarei comida para o gato.”
A guerra como mostrada nos
filmes é feita de pequenos relances mais heroicos do que possível e de forma
geral mais caótica do que de verdade.
O cosmonauta Yuri era, de
fato, militar em seu planeta de origem, mas de uma nação de relações pacíficas
e que não travava guerras com outras nações, os militares de sua nação
dedicavam-se à pintura de guias de calçadas e realização de eventos anuais onde
mostravam para a população como era um veículo militar de perto, então quando
percebeu onde havia se metido tudo que conseguiu fazer foi vomitar, para depois
instintivamente correr com seus colegas de batalhão rumo a direção nenhuma, ao
contrário desses colegas, nem sequer passou pela cabeça de Yuri atirar em algum
ser ou veículo que alvejava seus aliados.
Apenas pensou, um tanto
vagamente, que quanto mais se movesse mais dificilmente seria acertado e se tornou
um alvo móvel por um tempo.
Nunca diga que não mataria, pois
o dia disso pode acontecer e provavelmente nesse dia qualquer um matará.
Fabian já pensava assim e
dentro daquele contexto relativamente controlado e cheio de espontânea vontade
não sentiu culpa por alvejar inimigos, percebeu que não era ruim e que talvez
tivesse futuro naquele meio.
Ilusão, é claro.
Uma vez alvejado é o que
basta para um combatente ser inutilizado e a morte, é na maioria das vezes, a
melhor possibilidade.
O mágico não teve tempo em
sua rápida carreira cinematográfica, de perceber essas nuances e depois,
pensando com mais calma, não teve vontade de se arriscar novamente, gostava de
ser mágico, ainda que um dos piores.
De noite, quando houve um
cessar fogo, encontrou uma gruta e com alguns colegas que fez durante as
batalhas se escondeu lá, esquecendo-se de sua recente vocação para matar e
lembrando-se de sua vocação aos disfarce e às mágicas fracassadas.
Durante o dia eles saíam da
gruta e percorriam os campos mais marginais da batalha, para coletar a ração
deixada pelos mortos, fingiam-se de mortos e dançavam pateticamente diante da
artilharia inimiga.
Reuniam-se a partir do fim
da tarde na gruta, onde já se arrumavam em torno de uma fogueira, com seus
cobertores de campanha e compartilhavam suas histórias.
Às vezes um deles não
voltava.
Numa dessas noites, chegou
no meio da madrugada um percussionista que os outros já haviam considerado
morto.
“Poxa, me desculpem, meu
capitão me localizou e fiquei esses dias com as tropas, para minha sorte eles
foram atingidos por míssil enquanto em mijava e voltei agora para cá,
supostamente pulverizado, mas o mais estranho é que ouvi alguém das linhas
inimigas, talvez um dos nossos feito prisioneiro, mas ele perguntava
insistentemente se era um repolho.”
Fabian terminou de tomar seu
café e declarou tinha que ir, os outros lamentaram, esperavam ele tomar o seu
café antes de algumas mágicas, ele disse que era rápido e ao sair da gruta
abaixou-se.
Andou devagar e
sinuosamente, na direção do campo inimigo.
Até conseguir captar a
pergunta que esperara por todos esses dias e motivo pelo qual achou melhor
esperar numa gruta.
“Esse é meu amigo, Yuri, ele
é um cosmonauta de um planeta primitivo, mas divertido, não liguem para o
uniforme, ele é um espião.”
“Uau! Uma honra conhecer um
espião.”
“Sim, mas ele vai ficar pouco
tempo.”
“Você também vai embora?”
“Claro que não, sabemos que
a civilização Ka vai ganhar, tenho que permanecer, mesmo porque existe o
contrato.”
“Escuta, Fabian, podemos
conversar?”, disse Yuri, para Fabian, sua expressão era transtornada diante daquele
grupo de poetas, músicas, artesãos e malabaristas que se escondiam sem pudor.
“Toma”, disse Fabian,
tirando um dispositivo de um dos bolsos e entregando para Yuri, “está ligado ao
meowwwoem, destampe e aperte, o mais estranho é que não te dará nenhuma
sensação estranha, não se preocupe, não receberá pelo trabalho aqui, mas o que
Ros vai ganhar já é o suficiente, mas faça lá fora.”
“Por quê?”
“É melhor, não é bom fazer
essas coisas em locais fechados.”
“Não é isso. E você?”
“Eu sou um mágico, estou em
boa companhia, não se preocupe, o mais importante é você chegar ao seu tempo.”
“Diz como alguém que admite
que pode morrer.”
“Você assistiu muitas
novelas, amigo perdido, eu sou um mágico e meu trabalho é ter planos”, enquanto
falava levava Yuri para a entrada da gruta e nesse ponto o empurrou para fora,
não esperou para ver o primitivo desaparecer ao apertar o botão.
O Guerreiro de Nordateia
Kraionte lia um periódico sobre cuidados com animais domésticos quando apareceu
subitamente Yuri.
“Afinal, o mágico tinha um
plano.”
“Mais ou menos”, disse Yuri,
que se sentou no chão da Nexo com seu uniforme surrado e sujo.
“Os mortes eram de
impressionantes habilidades no manejo de armas, mas seus uniformes eram
ridículos”, pensou o Guerreiro de Nordateia Kraionte, pensou também “esse
indivíduo é provavelmente o pior militar que já encontrei nesse universo” e por
fim “espero devolvê-lo logo e prosseguir em minha ainda não iniciada vingança
contra os infelizes que tentaram, sem sucesso, me obliterar.”
Como acontece em filmes
desse gênero, as gravações terminaram e permaneceram alguns focos de conflito,
que poderiam levar até anos para serem suprimidos.
Falha de comunicação,
espírito artístico, necessidade de matar, falta de motivos para viver… o fato é
que o conflito permanecia, ironicamente no caso, já que depois do tratado
assinado pela princesa Maracavanicas, da civilização Ka, os conflitos cessaram.
A vida é um espelho
distorcido da arte.
Voltaram para a Nexo as duas
jovens e aposentadas atrizes, onde esperavam o Guerreiro de Nordateia Kraionte,
que já estava quase terminando de ler todos os livros disponíveis na Nexo, o
cosmonauta Yuri, que já queimara o uniforme e voltara a usar suas antigas
roupas, mas mantinha o ar taciturno e errante de quem não queria ter ido para a
guerra e o gato de ancoragem.
“O mágico ainda está em
campo?”, perguntou Ros.
“Estatisticamente, está
morto”, disse KLX.
“Não sejam precipitadas, ele
é um mágico, certo?”, lembrou o Guerreiro de Nordateia Kraionte, “além disso,
quem temos que levar está conosco.”
“Algo nisso me parece um
pouco injusto”, disse Ros.
“O contrato prevê esse tipo
de situação, não é espantoso”, disse KLX.
“E temos o primitivo
conosco”, disse o Guerreiro de Nordateia Kraionte, “ele foi enviado pelo próprio
mágico em um plano de abnegação da própria vida louvável.”
“Vocês falam como se ele
estivesse morto, mas antes de embarcar eu conferi o saldo da Nexo e não havia a
quantia referente aos dois”, disse Ros, referindo-se à Yuri (que havia
desertado) e a Fabian.
“Em cenários mais prováveis,
o pagamento está atrasado e ele está morto”, disse KLX, “é uma situação
terrivelmente comum na indústria cinematográfica.”
“E temos conosco o
deslocado, é só abastecermos e levarmos ele daqui até o ponto de introdução ao
tempo de origem”, disse o Guerreiro de Nordateia Kraionte.
Enquanto conversavam, Yuri
levantou-se e andou em silêncio como só os traumatizados sabem, pegou uma
granada tirada sabe-se lá de onde, afinal estavam saindo das filmagens de um
filme de guerra e disse para os outros:
“Resgataremos Fabian, ou
tentaremos, se for o caso pegaremos seu corpo e levaremos ao seu planeta natal,
caso contrário eu me explodirei e você não conseguirão juntar todos meus
pedaços, de forma de todo o universo estará em risco, enquanto um pedaço meu
estiver por aí na parede, no teto ou pelo ralo.”
Ros sorriu, o apela de Yuri
ia de encontro à sua intenção de procurar por Fabian.
KLX calculou cenários
possíveis, contudo não conhecia o suficiente a espécie de Yuri para formar um
cenário razoavelmente provável.
O Guerreiro de Nordateia
Kraionte espantou-se, depois riu, “ótimo! Uma granada é sempre um argumento a
ser considerado, eu vou atrás do mágico!”, disse em voz alta, saindo da Nexo.
Teve que voltar à Nexo em
seguida, colocou o gato de ancoragem em uma caixa de transporte, que era feita
especialmente para aquele tipo de gato de ancoragem.
Conhecia a teoria do
funcionamento daquele tipo de equipamento e poderia ajudar na localização,
perguntou se alguém queria ir junto, o único que queria não tinha forças para
colocar sua vontade em ação.
Alugou um transporte
individual semi-terrestre e entrou em campo novamente.
Seguindo a frequência de
miados, chegou ao local onde estava Fabian, teve que conectar um fone de ouvido
à escuta que anexou dentro da caixa de transporte, para acompanhar os miados no
ambiente do campo de batalha.
Quando chegou ao local de
maior frequência, era só uma colina decorado de cadáveres e veículos
inutilizados.
Olhou para cima, o céu
limpo.
Olhou para baixo,
“covardes”, pensou, sem ofender-se com aquela covardia, eram só atores
amadores.
Fez círculos cada vez
maiores em torno da colina até encontrar a entrada da gruta onde, adentrando,
encontrou um festival da qual fazia parte Fabian.
Apresentava-se um
malabarista, que rodava no ar meia dúzia de carcaças de granadas, achou aquilo
interessante e ligeiramente corajoso.
Era acompanhado por um
percussionista que tocava mais rápido do que a frequência das mais rápidas
armas de tiros sequenciados que já havia visto.
Antes que se desse conta,
estava entretido, hipnotizado, sentado com aquela horda de tropas misturadas
que divertiam-se juntas.
Foi servido de uma bebida
rústica e muito forte feita com raízes locais, gostou do sabor, sua espécie era
imune a qualquer substância que alterasse o estado do cérebro.
Depois que a apresentação
acabou foi recebido calorosamente por Fabian, que o apresentou aos que estavam
próximos.
“Esse é meu amigo, então
lhes digo, tudo mentira o que dizem sobre os Guerreiros de Nordateia Kraionte,
eles são excepcionais guerreiros sim, mas também seres criativos e que sabem
agir por conta própria.”
O Guerreiro de Nordateia
Kraionte teve uma sensação estranha, que a maioria das civilizações chamam de
vergonha de si próprio.
Disse então que viera salvar
Fabian.
“Salvar do quê?”
“Da guerra, é claro.”
“Precisamos ser salvos? Não
temos mais vida aqui do que em muitos locais que nunca viram uma guerra?”
“Os outros esperam por
você.”
“Sim, um trabalho, tenho que
terminar, vejo que está com meu gato.”
“Um dispositivo
interessante.”
“E que poucos conhecem os
variados usos.”
“Aprendi na academia”, de
fato, enquanto seu companheiros dedicavam-se quase exclusivamente à arte da
morte e destruição, esse Guerreiro de Nordateia Kraionte gostava de ler sobre
as mais diferentes coisas que encontrava e que pudesse ser útil em sua vida de
dedicado guerreiro. “Estou com um veículo individual, mas você é leve e posso
te levar.”
“A batalha está intensa,
você é criatura afeita à guerra, eu sou só um pobre mágico de civilização
oculta, não vou conseguir atravessar esse campo sem ser mortalmente alvejado.”
“Eu sei me locomover nesses
locais, atenha-se a se encolher em silêncio.”
“Nesse caso, vamos, não
quero me despedir deles, que eu seja só mais um desaparecido em batalha, um
desertor, o que for, mas despedidas são dolorosas quando definitivas, eles
acharão que fui tomar um ar e por lá alvejado por anônima sede assassina, se
encontrar um deles no futuro, por acaso, a alegria do encontro enquanto vivo
suplantará a suspeita de ter fugido, explicações seriam muito longas, vamos!”
“Sangue e Glória” teve
uma recepção morna, apesar do roteiro impecável e da qualidade óbvia do elenco
secundário e dos figurinos, a atuação da federação foi considerada sem
inspiração, participou de alguns festivais, sem levar prêmios. Contudo, foi
sucesso tardio de público e depois de certo tempo tornou-se muito conhecido em
muitas civilizações, inspirando posteriormente outras produções sobre o tema.
Foi o último filme de
Krosto Marakatoia, depois ele dedicou-se à vida monástica no planeta rochoso de
Masssa.
xi.
Dispersadora
A Junta Administradora de Planetas Artificiais se viu em uma
situação de solução pouco óbvia: um dos seus planetas fora abandonado por uma funcionária
federada (eu), portanto protegida por um código de leis fora do seu imenso
alcance, em uma diminuta nave de grande capacidade de locomoção, sem clara
motivação e, mesmo assim, causando imenso prejuízo para diversas empresas
envolvidas, prejuízo que não faria diferença, mas havia o exemplo.
Por isso procuraram junto aos seus advogados os meios para lidar
com isso.
“Pelos meios legais, podemos esperar uma detenção curta e
suspensão da federada envolvida nas atividades de operação de planetas artificiais”,
o relatório dos advogados concluía, um desfecho desonroso para aquela que
abandonara seu posto, mas insuficiente.
Eles tinham que dar o exemplo.
“Sugerimos procurar a solução por meios verbais”, essa era a
última frase do extenso relatório, o que era o mesmo que dizer que legalmente
não havia aceitável solução, mas fora da legalidade poderia haver.
Dois representantes da Junta Administradora de Planetas
Artificiais esperavam no hall de reuniões alugados no Hotel Negócios, em Kalos,
capital do planeta chamado setorialmente pelo mesmo nome da sua maior cidade.
Drugo balançava nervosamente seus tentáculos que saíam da
cabeça, perguntando-se porque enviaram ele, de uma espécie tão ruim em esconder
o desconforto, Lasaka estava mais calmo, vira muita coisa em sua longa vida
ainda na metade, trezentos e cinquenta anos terrestres e outros tantos pela
frente a considerar o relógio no seu pulso, que marcava exatamente quanto lhe
faltava para viver, sua antenas longas estavam caídas e imóveis, seus olhos totalmente
vermelhos transmitiam estranha paz.
Ficaram exatamente dessa forma, sentados um do lado do outro,
quando entrou a dispersadora e encaminhou-se objetivamente para o sofá do outro
lado da mesa.
Ela se serviu de água, que estava em uma jarra na mesa, sem nem
olhar para os dois.
Drugo soltou um guicho que nervosismo e Lasaka permaneceu
tranquilo.
“Por que será que mandaram um exemplar de uma espécie tão ruim
de esconder o desconforto?”, ela perguntou, olhando sem olhar diretamente
para eles, enquanto colocava o copo de volta na mesa.
“Não imagino”, Drugo
respondeu nervosamente a figura alta e magra diante de si, o que mais o
impressionou foi a movimentação, era suave, como se houvesse muitas e muitas
juntas naquela criatura de pele amarelada e escura, seus dedos aparentemente
alongavam-se e um cabelo da mesma cor da pele descia em três tranças longas. A
voz era severa, calma, os olhos claros, quase totalmente brancos, a boca um fio
que abria em dentes retos e brancos.
“Vocês devem saber que o pagamento
já foi realizado, transações comerciais são melhores se feitas pelos meios
legais, por motivos justificáveis, portanto, me digam aquilo que devo saber e
que só pode ser dito em um local como esse”, ela disse, sem muita paciência,
não agradava ter que viajar até aquele planeta governado por uma elite isolada,
entrar em um hotel frequentado por autoridades de mentalidade limitada, num
salão onde toda comunicação era bloqueada.
“As identidades não são um
problema, ou pelo menos não um problema grande”, disse Lasaka, com calma.
“A nexo”, Drugo interrompeu
nervosamente.
“Nexo…”, ela olhou para o
alto, interessada com aquela palavra.
“Certamente entende as
implicações”, disse Lasaka.
“Não quero saber, vocês não
querem falar, quem pode culpar?”
“Quem pode?”, disse Drugo.
“O que você precisa saber,
exatamente?”, perguntou Lasaka.
“Quantos são?”
“Cinco”, respondeu Lasaka.
“Um de cada espécie”,
explicou Drugo.
“De onde são?”
“Um guerreiro de Nordateia
Kraionte, creio que é o mais problemático”, disse Lasaka.
“Não os tenha em tão alta
conta, apesar de suas habilidades de batalha, são limitados, posso lidar com
ele, contudo, é bom lembrar que poucos conseguem lidar com eles.”
“Um KLX”, disse Kasala,
“Um pouco mais problemático,
sabem o valor disso, vou jogar diamantes no lixo e vocês me pagarão.”
“Foi previsto antes dessa
conversa”, Drugo explicou.
“Uma subcelebridade de algum
planeta nos do sistema onde estamos, o planeta de origem, se possui um nome
local, é desconhecido, chamamos de 492D9P, que é seu código de localização
nesse setor”, disse Kasala.
“Esse vai ser de graça.”
“Um vindo de um planeta
chamado localmente de Terra, um cosmonauta de uma civilização primitiva”, disse
Kasala.
“Não conheço, preço padrão
de criaturas desconhecidas.”
“E…”, disse Kasala, mas
interrompeu, sem saber como continuar,
“Uma federada”, disse Drugo,
“sindicalizada, ainda por cima.”
“Espero que valha a pena
para vocês o quanto cobrarei por ela, pois eu já aceitei”, disse a
Dispersadora.
Se os dispersadores possuem
um nome, eles não compartilham, não se sabe quantos são e nem se possuem um
planeta que chamam de lar, são do ponto de vista trabalhista extremamente
eficientes, em um universo na qual a pena de morte não é amplamente adotada e
muitas vezes pessoas poderosas desejam que pessoas comuns sumam, os
dispersadores possuem a conveniente habilidade de enviar qualquer ser
instantaneamente para qualquer lugar.
Inclusive si próprios.
Dessa forma, até uma nave
como a Nexo, oculta e protegida pela federação, pode ser invadida por uma
dispersadora esperta e com senso moral bastante elástico.
Olharam no radar, Ros e o
Guerreiro de Nordateia Kraionte, que passavam a maior parte do tempo na ponte
de comando.
“O que é isso?”, disse Ros,
estavam longe de qualquer sistema esperando o caminho estar livre para partirem
em linha reta até o ponto de retorno de Yuri, faltavam trinta e sete minutos
depois de esperarem por mais de setenta horas.
O Guerreiro de Nordateia
Kraionte arregalou os olhos, coisa incomum para ele, isso aconteceu quando ele
direcionou uma das câmeras de alta precisão no veículo que estacionara próximo.
“Dispersadora…”
“Impossível! Eu sou uma
federada!”, protestou Ros, sabendo que o Guerreiro de Nordateia Kraionte estava
certo.
Ele teve de se virar e ver
de relance a figura amarelada antes de ser dispersado.
Ros, não treinada para agir
com reflexos tão rápidos, apesar de ser dispersada depois, não teve tempo de
ver nem de relance a Dispersadora.
Ela foi a última a ser
dispersada, ficando apenas o gato de ancoragem.
Tranquila, em sua nave de
espaço reduzido, o importante era que estivesse confortável em seu assento e
não havia muito mais espaço em seu transporte, podia se dispersar, mas não
respirar no espaço sideral, os dispersadores usavam esse tipo de transporte
individual sem qualquer aparato militar, mas com uma aceleração invejável e um
escudo aceitável.
Como sempre acontecia depois
de um trabalho, mesmo um tão fácil quanto o que acabara de fazer, aproveitava
encostada na poltrona inclinada, de olhos fechados e em silêncio, parava até de
respirar.
Coisa incomum, contudo,
ocorreu naquela ocasião, pois recebera uma chamada de um dispersador.
Sem qualquer traço de
irritação, abriu os olhos e retomou a respiração, apertou um botão e deixou o vídeo
desligado.
“Dispersadora, como foi seu
último trabalho?”
“Você sabe”, ela respondeu.
“Eu sei mesmo, parece que te
pagaram bem por trabalho tão fácil.”
“Isso não é proibido.”
“Nem dispersar federados é
proibido, só não é aconselhável.”
“Pagavam bem, um federado
não vai fazer diferença à federação e eles vivem bastante, em algum momento ela
vai conseguir retornar.”
“De fato, os fãs de mágica
vão sentir falta do pior mágico do mundo.”
“Esse foi um brinde.”
“E o Guerreiro de Nordateia
Kraionte?”
“Me preocupei demais, estava
ocupado com outras coisas.”
“Sim, um primitivo,
deslocado.”
“Como assim?”
“Você já entendeu, os fãs de
viverem nesse universo vão sentir falta dele, espero que você tenha ao menos se
atentado ao local para onde o dispersou.”
“Agradeço o aviso.”
“De nada, lembre-se quando
eu precisar.”
“Lembrarei. Desligando.”
“Vocês não me contaram!”, a
Dispersadora disse antes de encerrar a chamada, rangia os dentes e seus olhos
estavam muito abertos.
Entre um código de conduta
que respeitava e a raiva, ela fez a chamada incluindo os dois com os quais
lidou, Kalasa e Drogu, o primeiro parecia mais esperto, o segundo era mais
esperto, decidiu sequestrar esse segundo, ela conseguia notar quem era mais
esperto.
Informações relevantes foram
propositalmente omitidas e agora ela se
tornava corresponsável por uma preocupante anomalia temporal.
Teria que fazer o trabalho
de um rastreador, teria que fazer rápido e eficaz esse trabalho que era
treinado em campo por muito tempo, por seres que não tendo qualquer tipo de
talento dedicavam-se à uma tarefa monótoma e cheia de detalhes significantes,
onde um pequeno ponto de luz quase imperceptível em um painel sonolento poderia
fazer toda diferença.
Começaria o mais rápido
possível, com a ajuda daquele ser com tentáculos que se sentia desconfortável
perto dela.
Se materializou na
residência de trabalho dele (toda a vida dele era dedicada ao trabalho) em
Kalos e não disse nada, encostou nele antes que ele se mostrasse mais assustado
do que já estava com a situação e o enviou para sua nave, então voltou para sua
nave e ele estava sentado no canto, assustado e soluçando.
“Tenha a decência de sentar
na poltrona”, ela disse, sentando diante dos comandos de navegação, ele
levantou-se apoiando-se apoiando em algumas caixas, suprimentos, sentou-se numa
delas já que não havia qualquer poltrona além daquela onde a dispersadora
estava e perguntou com toda coragem que ainda existia dentro dele.
“O que você quer de mim ”
“Vamos rastrear um…”
“Sabíamos que o mágico era
um rastreador, mas normalmente eles não carregam material, muito menos vivo.”
“Eu acredito em você,” ela
virou-se para ele, que prendeu a respiração e encolheu-se um pouco.
“É verdade.”
“Vocês acreditarem nisso não
me irrita, apesar de suspeitar que pessoas acima de você na sua associação
sabiam da situação, o que me irrita é a burrice de pessoas no seu patamar,
estamos entendidos e podemos nos focar em rastrear, use o computador na sua
frente para pesquisar do que precisamos.”
“Tenho contatos que…”
“Não quero, ninguém, esse é
um trabalho secreto e se alguém souber eu te materializo pra fora do espaço.”
“Isso é possível ”
“Se eu te matar, sim.”
A resposta foi natural e
sem qualquer tom que indicasse crueldade.
“Temos que desfazer para
refazer.”
xii.
Lista de Compras e Outros Pormenores
Baterias Modelo 01 (2)
Cabo Espessura 0.4 (5)
Válvula de Segurança – Metal (2)
Bateria Móvel de Recarga Genérica (1)
Monitor de Gasto Integrado (1)
Placa Aerodinâmica Fina Laterais e Alta Resistência (2)
Barra de Cereal Mista Sistema Tauro (18)
Vídeo Educativo “Das Viagens Entre Planetas”
(exibido para crianças em formação no Mercado de Relógios)
“Você já se perguntou como é
possível viajar pelo espaço em um curto espaço de tempo? Houve uma época em
qualquer planeta em que se imaginou que para viajar de um planeta sistema para
outro teríamos que desprender de grande parte do nosso tempo ou provocarmos uma
dobradura na quarta dimensão e hoje sabemos que não é assim e o que separa de
um planeta com tecnologia para sair de sua própria atmosfera para um planeta
que empreende viagens espaciais de longas distâncias é a simples detecção de
corredores espaciais que são espaços comprimidos no universo onde o tempo
existe de uma maneira diferenciada sem
detecção é possível e até provável que passemos por um desses corredores
por acaso e isso fará uma diferença muito pequena para o tripulante mas com a
tecnologia de detecção é possível mapear esses corredores e por eles navegar de
forma que se transite por grande extensão em um curto espaço de tempo é
maravilhoso e cada vez mais planetas sem descoberto tecnologias de detecção
daquilo que chamamos de costuras espaciais.”
FIM DA PARTE UM
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