NEXO - PARTE 2
i.
Destino
A Dispersadora fazia um trabalho decente,
jamais houve empregador que reclamasse, ela se orgulhava do que fazia como
todos os dispersadores, causava um justificado temos em outras criaturas e era
admirada, fez aquele serviço com a conhecida efetividade, preocupou-se em
especial com os dois que estavam na ponte de comando e ao pegá-los distraídos
foi capaz de mandá-los para locais inóspitos sem problemas, antes disso enviara
KLX, para local deserto onde sua posse não poderia ser reivindicada, portanto
não poderiam rastrear seus companheiros, antes disso dispersara um primitivo,
de semblante deprimido e por não aparentar maiores perigo o enviou para um
local alegre de onde não poderia sair, um suicídio sempre pode levantar
suspeitas e desenterrar qualquer coisa, antes disso dispersara um mágico, dos
ruins, com um bigode que achou até charmoso mas não o suficiente para se
preocupar, o mandou para qualquer lugar da memória, que fosse um lugar local
onde ele não tivesse motivo para ir embora, onde encontrasse conforto em seu
fracasso, um lugar primitivo...
ii.
Destino
(continuação)
KLX esperou. Por protocolo próprio, sabia
que era improvável que a situação mudasse.
Não havia nada além de rochas onde estava,
não sabia onde estava, como uma KLX era capaz de passar muitos ciclos naquele
lugar sem desvanecer, guardara um ditado dos rokazes que dizia “a fragilidade é
uma força”, lembrava porque não fazia sentido e gostava de guardar as coisas
que não fazia sentido em sua limitada memória, sabia como era o modo de operar
dos dispersadores e lamentou-se ser o que era.
Não sabia se veria novamente algum dos seus
recentes colegas e nem se fazia alguma diferença, nos primeiros tempos imaginou
que fosse ela própria a razão da ação da dispersadora, mas como não vieram lhe
buscar concluiu que havia outro motivo para a ação, achou desproporcional se
fosse o abandono do posto de trabalho da aforme, subestimou nesse caso a
desconfiança irrestrita dos patrões com os empregados e superestimou o poder
diplomático da federação, o universo não era tão cheio de regras assim.
Olhou o horizonte, subiu em algumas rochas
mais altas, observou o clima e percebeu que pelo menos boa parte do planeta
onde estava era um deserto rochoso, não adiantava andar e mesmo que houve
civilização em alguma lugar, era uma KLX.
Nunca tivera tanto tempo para não fazer
nada, para pensar em coisas que ninguém mandara pensar, não havia cálculos,
estatísticas, previsões para fazer, apenas o velho pensamento metafísico, a
racionalização do etéreo.
Evitou esses pensamentos no começo, sabia
que temas desse tipo eram perigosos e poderia levá-la ao suicídio, o tempo
tornou seus pensamentos inevitáveis.
Não sabia muito sobre si mesma e gostaria
de saber antes de ser colocada permanentemente em um planeta inóspito, pode
então escrever sobre sua espécie nas rochas e dessa forma outros seres, no
futuro, descobririam sobre os KLX e se perguntariam como chegou uma exemplar
dessa espécie naquele lugar, mas não seria o caso, se perecesse naquele lugar
sua existência estaria imediatamente esquecida, como se nunca tivesse existido.
Perecer era o seu destino, ainda que
demorasse. Perecer e nada mais, sem memória que a celebrasse, sem motivo para
qualquer outro, apenas prejuízo financeiro e nada mais.
KLX não dormia e nem desligava, de forma
que esteve atenta e viu aproximar-se a nave de uma das companhias comerciais
que faziam a “intermediação” entre espécies “trabalhadoras” e outras empresas
ou particulares buscando trabalhadores “livres” a um “custo acessível” e “alta
produtividade”.
iii.
Destino
(continuação)
Fabian não conhecia ninguém e fora parar,
pelo que consultou no mapa, em um lugar longe de onde precisava estar ou
preferia estar.
Vasculhou os bolsos… um baralho, um chapéu
de pirata, uma colher, outro baralho, uma algema, uma aparelho de comunicação…
parou… para que usava aquilo mesmo? Lembrou-se, comprara um na sua primeira
estadia naquele planeta, para estar por dentro dos costumes das pessoas da
cidade onde se hospedara, agora estava descarregado… como dia um dispositivo
descarregar tão rápido? Não era à toa que ainda não haviam descoberto uma
maneira de detectar as costuras espaciais, primitivos…
Foi até um estabelecimento comercial
próximo, vendiam bebidas e doces, algumas outras coisas.
- Com licença, você tem um carregador para
emprestar?
- Dez reais – disse o homem com um grande
bigode cheio de gordura do almoço.
- É uma emergência.
- Nesse caso, nove e noventa.
- Eu posso fazer uma mágica – sorriu Fabian
com a própria proposta.
- Detesto mágica.
- É uma ruim.
- Detesto igualmente.
Fabian, ligeiramente desolado e totalmente
deslocado, se viu pela primeira vez conscientemente abandonado pelas próprias
habilidade, desabou em seus ombros perdendo sua postura comumente voluntariosa
e disse:
- Poderia me dar um copo d’água, por favor?
- Claro! Nesse caso, como está consumindo,
pode usar o carregador, tem uma tomada aqui do outro lado do balcão – o homem
ligou o carregador de um lado e entregou o outro para Fabian, que erguendo uma
sobrancelha perguntou:
- E quanto custa a água?
- Não custa nada, oras! Que absurdo!
iv.
Destino
(continuação)
Adaptação.
Esse era o cerne dos Guerreiros de
Nordateia Kraionte.
Lutavam com lanças e pedras, com armas a
laser e bombas de destruição em massa, invadiam, cercavam, destruíam,
incendiavam, aprisionavam… o que fosse necessário.
“Separa dos meus companheiros, minha missão
prioritária é entrar em contato com algum deles”, ele pensou, repassou
rapidamente todos os tripulantes da Nexo em sua mente e em menos de dois
segundos estabeleceu que o mais provável de conseguir estabelecer contato era o
mágico, “sua profissão pressupõe que entre em contato com coisas perdidas no
vasto universo”, lembrou-se da cena em Warwood, normalmente detestava quem
confabulava com os inimigos, mas ao ver tantos de planetas e facções diferentes
reunidos em uma caverna no meio da guerra, só pode lembrar do próprio espanto e
pensou consigo mesmo “adaptação”.
Primeiro observou, evitando tomar qualquer
atitude suspeita, para apreender os costumes daquele povo.
Depois conseguiu um equipamento de
comunicação de longo alcance, teve que cometer alguns crimes pelas leis locais,
mas conseguiu.
Com as ferramentas em mãos, pesquisou sobre
os dispersadores, muito sabia sobre essas espécie lendária, mas muito era lenda
e de tudo que pesquisou pouco aproveitou, mas percebeu que eram criaturas
focadas, muito focadas, insanamente focadas e que não se importavam em saber
sobre muitas espécies, “um erro que raramente tem custo às criaturas demasiada
poderosas”, pensou.
“Talvez tenha mandado o mágico,
simplesmente, para um lugar da memória dele e sem contato com outros planetas e
sistemas”, pensou, um trabalho preguiçoso a considerar que o foco era a aforme,
era a primeira vez que pensara nisso, um cenário estranho e incompleto surgiu
na sua cabeça, a Federação em guerra, os aformes eram desconhecidos em grande
parte, não se sabia como eram de fato, mas eram eficientes em todos os
trabalhos que aceitavam, percebeu que ignorava muito do que acontecia ao não
ter resposta que explicasse o encontro entre uma dispersadora e uma aforme,
“como se as mais poderosas criaturas estivessem se reunindo por acaso”, pensou,
incluindo-se nisso.
Isso não era importante, não naquele
momento, respostas não eram sequer importantes em qualquer momento, tinha uma
situação para resolver, encontrar seus companheiros recentes para retomar seu
caminho, ajudaria a remanejar o curso da missão em andamento e manter o
universo em existência.
v.
Destino
(continuação)
“FLOITHCAJO,
um dos onze melhor destinos de férias altamente civilizados.
Temos toda variedade de restaurantes,
shoppings, museus, casarões, ruas, pontes, torres, castelos, templos, tumbas,
bares, adegas, monumentos…
Tudo isso com a segurança de não ser
devorado por uma fera ou picado por bicho peçonhento, somos o planeta mais
higienizado dos onze melhores.”
Quando Yuri se viu em Floithcajo não teve
tempo de se questionar onde estava ou o que faria, pois seus habitantes, muito
educados, assim que viram aquele figura aparecer de repente na rua o levaram
para um dos muitos restaurantes e o alimentaram, quando instalaram um tradutor
universal nele logo ficaram sabendo de sua história e não houve floithcajiano
que não se comovesse, no mesmo dia ele estava empregado em um bar e com status
legal de um habitante nascido no planeta.
Seu trabalho não era digno de glória, mas
não achava ruim, servia bebidas, limpava o chão e era simpático.
Seu chefe, um corpulento floithcajiano,
sempre conversava com ele, gostava de saber sobre seu planeta natal e se
espantou ao saber que seus amigos o chamavam de primitivo.
“Que absurdo! Não é motivo! O passo para a
viagem espacial de longa distância é muito curto do ponto onde seu povo está,
não é um progresso material mais, sim um progresso intelectual imprevisível,
muitas espécies orgulhosas pararam milhares de anos nesse ponto!”
A chateação foi inevitável e quanto mais se
envolvia no cotidiano daquelas simpáticas criaturas, menos Yuri tinha vontade
de sair dali, mesmo porque para os seus companheiros perdidos ele era um pacote
a ser devolvido, enquanto isso um peso incômodo e um primitivo.
“Mas que racista da parte deles!”,
irritou-se Yuri, que entendia do assunto pela sua experiência no seu planeta
natal.
vi.
Fim dos Tempos (ARMAGEDDON)
(Participaram
da partida os seguintes jogadores – classe – level)
Rlyeh666,
classe arqueira emboscadora, level 79.
TrueSmeagol,
classe guerreiro berseker, level 98.
011Farahonor,
classe necromante da luz, level 81.
R0T0makinaaw,
classe guerreiro tank, level 98.
RuKachoyuraplojanantay,
classe arqueiro, level 80.
MAG123kdevg,
classe mago, level 75.
NordateiaKraionteKL,
classe guerreiro tank, level 100.
(CHAT
– Histórico)
Rlyeh666: Alguém pra lutar no Boss?
Rlyeh666: Astaroth.
TrueSmeagol: Grupo de 12.
Rlyeh666: Sou só eu.
TrueSmeagol: Não dá, encontra um grupo.
Rlyeh666: Bora formar um grupo?
TrueSmeagol: Já tô de saída.
(Rlyeh666
formou um grupo de luta)
Rlyeh666: Deixa no sleep, demora mesmo.
(TrueSmeagol
entrou no grupo)
TrueSmeagol: Manda notificação quando der.
Rlyeh666: Beleza.
011Farahonor: Só vocês no grupo?
Rlyeh666: Por enquanto.
(011Farahonor
entrou no grupo)
Rlyeh666: Conhece alguém?
011Farahonor: Vô chamar, não garanto.
R0T0makinaaw: E aê, tem mais um tank aqui?
011Farahonor: Ainda não, conhece algum?
R0T0makinaaw: Precisa de outro, mesmo que
seja classe bronze.
R0T0makinaaw: Fixa o limite pra 80.
Rlyeh666: Não dá, eu sou 79.
R0T0makinaaw: Vai ter que quicar outros
abaixo de 80.
011Farahonor: Pode ser, entra no grupo aí.
(R0T0makinaaw
entrou no grupo)
R0T0makinaaw: Se entrar outro tank dá pra
ir com menos de 12.
(RuKachoyuraplojanantay
entrou no grupo)
RuKachoyuraplojanantay: Aqui é para lutar
contra Samael?
Rlyeh666: Com certeza não.
R0T0makinaaw: Que porra é Samael?
011Farahonor: É um anjo que se revoltou
contra deus ou coisa parecida.
RuKachoyuraplojanantay: Um amigo meu vai
entrar aí, beleza?
Rlyeh666: Qual o nick dele?
RuKachoyuraplojanantay: Não sei, vamos ver.
R0T0makinaaw: E como vamos saber se é ele?
RuKachoyuraplojanantay: Pelo nível, eu
acho.
Rlyeh666: Você não tem outro personagem
não?
RuKachoyuraplojanantay: O meu é level 80,
qual é o problema?
Rlyeh666: Arqueiro é uma classe estilosa,
mas é meio inútil cara.
RuKachoyuraplojanantay: Eu tenho diversas
técnicas para distrair o inimigo enquanto vocês causam dano massivo e eu não me
machuco quase nada.
R0T0makinaaw: Vamos distrair o Samael?
011Farahonor: Boa!
(MAG123kdevg
entrou no grupo)
R0T0makinaaw: 75?
TrueSmeagol: É um mago, precisamos de um.
Rlyeh666: É seu amigo
@RuKachoyuraplojanantay?
RuKachoyuraplojanantay: Acho que não, um
mago level 75 é sutil demais, esse poderia ser eu.
R0T0makinaaw: Seria melhor do que um
arqueiro level 80.
MAG123kdevg: O que estamos esperando?
TrueSmeagol: Sermos em 12.
MAG123kdevg: Essa porra vai demorar.
RuKachoyuraplojanantay: De onde vem seu
nome @MAG123kdevg?
MAG123kdevg: Sei lá, tentei um monte de
nome e não dava certo, daí o jogo me sugeriu esse nome aleatório.
RuKachoyuraplojanantay: Legal, você seguiu
o destino.
R0T0makinaaw: Que viagem.
TrueSmeagol: Ele seguiu um algoritmo.
011Farahonor: Todos estamos seguindo.
R0T0makinaaw: Arqueiro, você socou o
teclado pra criar esse nome?
RuKachoyuraplojanantay: Foi isso mesmo,
depois excluí o excesso de consoantes para ficar fácil de ler.
Rlyeh666: Não funcionou.
RuKachoyuraplojanantay: E o seu nick
@Rlyeh666?
Rlyeh666: Meu nome de verdade é uma bosta,
qualquer nick tava melhor.
RuKachoyuraplojanantay: Eita!
R0T0makinaaw: Na boa @RuKachoyuraplojanantay,
para de mandar mensagem, teu nome longo deixa a leitura muito confusa.
TrueSmeagol: Deixa o cara mano, os
arqueiros são assim mesmo.
R0T0makinaaw: O cara é arqueiro de verdade?
011Farahonor: Boa!
RuKachoyuraplojanantay: Sou mágico, nunca
usei um arco em algum truque, mas já usei para caçar em minha terra natal.
R0T0makinaaw: Ok, o cara é um índio mágico,
tipo um xamã?
RuKachoyuraplojanantay: Não faço ideia.
(NordateiaKraionteKL
entrou no grupo)
NordateiaKraionteKL: Comece a batalha,
estou pronto.
TrueSmeagol: Level 100?
Rlyeh666: Calma amigo, estamos em 7, vamos
esperar 12.
NordateiaKraionteKL: Não precisa, o mágico
está no grupo.
011Farahonor: Eis seu amigo
@RuKachoyuraplojanantay.
NordateiaKraionteKL: Ele vai distrair a
besta enquanto eu causo dano massivo, vocês podem participar se quiserem.
Rlyeh666: Não dá.
MAG123kdevg: Vamos começar, o cara é level
100 e os dois tem sinergia.
011Farahonor: Por mim tudo bem, acho que
não entrar mais ninguém.
Rlyeh666: E qual vai ser nossa estragégia
de verdade?
RuKachoyuraplojanantay: Não morrer, usar
cura antes de morrer, correr antes de morrer, deixar os que lutam no corpo a
corpo sofrerem todo o dano.
TrueSmeagol: Não parece uma estratégia.
R0T0makinaaw: Um grupo com dois arqueiro,
vai dar ruim de qualquer forma, vamos começar logo.
011Farahonor: Dois arqueiros?
R0T0makinaaw: @Rlyeh666 e
@RuKachoyuraplojanantay.
011Farahonor: Boa! A hipocrisia.
Rlyeh666: Vai se fuder!
MAG123kdevg: Vamos logo!
RuKachoyuraplojanantay: De onde vem esse
nome @NordateiaKraionteKL?
R0T0makinaaw: Lá vai ele de novo.
(A
partida vai começar em sessenta segundos)
NordateiaKraionteKL: Nordateia Kraionte, um
planeta lendário habitado por uma espécie de guerreiros formidáveis.
RuKachoyuraplojanantay: Estamos na partida
certa.
MAG123kdevg: Doidos.
(A
partida está começando)
[...]
(O
grupo obteve vitória contra boss, 0 baixas, herói em destaque
@NordateiaKraionteKL causou 89% de dano, @RuKachoyuraplojanantay medalha de
assistência)
Cleberson pensou em lutar contra as
injustiças, só pensou, quando surgiu a oportunidade de trabalhar com seu tio na
prefeitura ele logo aceitou, tinha dezoito anos e abandonou a faculdade de
direito no primeiro semestre para trabalhar como assessor, uma atividade da
qual pouco se lembra e perguntado por si mesmo sobre esse período, ele
responderia que provavelmente não fez nada além de formatar um ou outro
memorando, circular ou qualquer coisa do tipo, provavelmente era bom em
formatar, colocava o alinhamento, as letras maiúsculas nos lugares certos,
recuos e parágrafos, pois quando seu tio não disputou uma vaga na câmara ele
passou a ser assessor de outro, passou bastante anos nesse movimento, às vezes
acompanhando em viagens para locais muito interessantes dos quais não se
lembrava de nada, tornou-se espécie de assessor profissional de confiança em
sua cidade, mas cansou-se dessa vida, pois nada lhe deixava doce lembrança, nem
coquetéis, nem hotéis, nem o salário alto, viveu a mesma quantidade de anos em
uma tristeza solene e profissional de quem nasceu para formatar documentos e
ser infeliz num lugar que muitos queriam e diziam que nem deveria existir.
Quando Ana Carpinteira, uma prima mais
nova, ganhou a eleição para prefeita da cidade, ela procurou seu primo com quem
socializara muito vagamente no passado, não para ser o seu assessor, mas para
ser o seu motorista, ganharia menos, mas o status de trabalhar diretamente com
a prefeita era melhor, ele fora indicado pelo pai dela, que o descreveu como
tranquilo e confiável, um motorista de muitas outras utilidades, se precisar,
ela fez o convite indiferente à resposta dele, mas por obrigação, ninguém
trocava o cargo de assessor pelo de motorista, mas ele prontamente aceito, como
oportunidade conveniente, bem vinda.
Como motorista circulava principalmente
pela cidade, para todos os cantos, todas as roças, distritos, escolas, áreas de
extração de eucalipto, fazendas… pelo menos uma vez por semana para cidades
vizinhas maiores, onde aproveitavam para almoçar ou jantar, uma vez por mês
para a capital, mas não tinha mais o obrigação de acompanhar em viagens além
dessas, onde era motorista.
São dois personagens quase irrelevantes
para a configuração da realidade, mas que nos levam, nesse momento, a uma
personagem muito mais importante.
“Com licença, senhora”, a própria prefeita
da estância turística em questão apresentou-se na residência humilde, ainda que
muito feliz.
“Pois não, senhora prefeita, entre por
favor, vou passar um café, tem bolo também”, a mulher, admirada pela presença
do ser humano mais importante do município disse, escancarando a porta e dando
passagem.
“Chamarei meu motorista, é bom que
estejamos bem alimentados para discutir o assunto em questão.”
Socialidades feitas, encontravam-se então o
silencioso motorista de aparência ameaçadora, a prefeita com sua aura que
limitava-se aos limites territoriais de Rio Pequeno, a mulher que passava um
café delicioso e fazia bolos caseiros que poderíamos categorizar como divinos e
um homem que tempos atrás resgatara estranho cosmonauta. A filha do casal
estava deitada na rede, à vista dali, jogando no celular.
“Não seria conveniente pedir licença para a
jovem?”, sugeriu Ana, pois além de certos assuntos não serem próprios para
mentes jovens, quando o assunto é o próprio ser em questão convém que seja
retirado de perto.
“Não se importe, ela está com fone e não
ouvirá nada, está possuída pelo jogo.”
“Pois acho que nossa situação tem relação
com esse jogo mesmo”, declarou a prefeita, deixando os pais com expressão
preocupada.
Esperavam que a filha estivesse preparando
um atentado violento na escola. Esperavam que a filha estivesse usando drogas
pesadas. Esperavam que a filha estivesse namorando uma garota ou um skatista.
Esperavam que a filha estivesse em contato com recrutadores separatistas do
País Basco. Esperavam que tivesse sacrificado pequenos animais para um culto
pagão. Esperavam que estivesse vendendo fotos de si mesma nua pela internet em
sites por assinatura. Esperavam que estivesse se automutilando.
Não esperavam a situação que se
apresentava.
Ainda mais da forma como a prefeita começou
a conversa, dizendo que a filha deles jogava algo chamado “Diablo”, pediram
desculpas imediatamente e ela disse que não precisava, não era um problema,
coisa dos jovens atualmente, além disso, até onde sabia, os diabos no jogo eram
os vilões, “menos mal”, respiraram aliviados o pai e a mãe, a prefeita explicou
que não era bom ela faltar na escola para ficar jogando, lamentaram-se os
tutores legais, mas a prefeita emendou-se novamente e disse que disso viera
algo bom, que estava lá para tratar parcialmente disso, mas sob outro prisma,
pois a garota estava em contato com pessoas muito estranhas, mas de forma
alguma perigosas para ela.
Nese caso, chamaram a menina para a mesa,
para ser questionada, ainda que falassem que era para participar da conversa,
ela ouvira tudo antes (como é óbvio), pois estava na sala de espera para
participar de uma batalha no jogo e deixara o volume baixo, saíra da sala para
sentar na mesa, onde se serviu dos obrigatórios café e bolo.
“Como você sabe o que eu jogo?”
“Um professor seu joga e percebeu cruzando
suas faltas na escola e presença no jogo que era você.”
“Ele se deu ao trabalho de constatar isso?”
“Os professores se dão ao trabalho de
qualquer coisa para descobrirem os motivos das faltas dos seus alunos.”
“Posso saber qual professor?”
“O de História, é claro!”
“Mas como isso chegou até você?”
“Não fale assim, é a prefeita”, interveio o
pai.
“Não tem problema, ela é jovem, coisas da
idade”, relativizou a prefeita, “esse professor é meu primo.”
“Ele não é seu primo?”, a jovem apontou
para o motorista.
“Sim, tenho muitos primos, é normal em
famílias importantes.”
“Ãrrã...”
“Repare que ela está nos questionando”, o
motorista falou no ouvido da prefeita, cumprindo muito bem seu papel de agente
de segurança e inteligência da estância turística.
“Qual o nome de usuário do professor?”
“Não sei, eu preciso fazer algumas
perguntas.”
“Ouça a prefeita”, o pai aconselhou.
“Não me entenda mal, mas preciso saber,
tenho que bloquear, não é adequado eu jogar com meu professor.”
Todos se olharam, em um impasse, então a
prefeita perguntou:
“Quais as opções?”
“Zero Onze Farahonor, True Smeagol, Mag Um
Dois Três Kadeveg...”
“Ok, não chegaremos a lugar algum, espera aí
que eu vou perguntar.”
A prefeita mandou mensagem de texto para o
professor de História, seu primo e aguardou longos dois minutos de
constrangedor silêncio, então disse:
“Vou ter que ligar”, ligou para ele, “alô!
Marcos! Tudo bem? Tudo, sabe como é, muito trabalho, nenhuma folga, ainda bem
que faltam só dois anos, escuta, preciso saber uma coisa, estou resolvendo uma
diligência sobre uma jovem que você comentou que é faltosa na escola, os pais
dela acham melhor ela bloquear todos os contatos do jogo, pois aí o jogo ficará
sem graça, sabe como é, né, quem joga sozinha se entedia, querem ter o controle
sobre essas amizades virtuais e te agradecem muito pela preocupação, precisamos
saber o seu nome de usuário, para mapear esses contatos dela e evitar que ela
fique tendo conversas perigosas com desconhecidos, saber quem é quem, entende?
Como é? Repete... espera aí, não vai dar certo, diga lentamente e eu repito pra
eles aqui... melhor soletrar... zero, um, um, efe, a, erre, a, aga, ó, ene, o,
erre... eles entenderam, obrigada Marcos, até mais.”
“Estou surpresa”, declarou a jovem
(conhecida como Rlyeh666, mas ninguém perguntaria isso naquele encontro
social), o 011Farahonor era um jogador bastante dedicado, ainda que não fosse o
de nível mais alto que ela conhecia, sabia que ele tinha outro personagem em
level 90+, sabia também que as atividades docentes precisam de tempo de
preparação, ele não devia ser casado, ou talvez sua esposa jogasse também,
guardou essas ponderações para si.
“Preciso que você me coloque em contato com
um dos seus contatos de jogo, você se lembra daquele que se hospedou na sua
casa, com roupa de astronauta?”
“Meio difícil esquecer”, a jovem levantou
uma sobrancelha.
“Não foi o que eu quis dizer, é que de
repente você estava distraída com outras coisas e não reparou.”
“Eu não tenho contato com ele.”
“Mas pode ser alguém que o conheça, na
época ele era buscado por alguém que se apresentava como mágico.”
“Ele esteve aqui, lembra?”, disse a mãe da
jovem.
“Lembra, conversamos.”
“Sobre o quê?”, perguntou a prefeita.
“O tédio e a inconveniência do meu nome.”
“Você tem contato com ele?”
“Conte para ela, minha filha, se tiver é
melhor contar, ela com certeza não quer prejudicar ninguém”, disse o pai.
“Eu não faço ideia de quem são as pessoas
que jogam comigo, além de serem aquilo que se apresenta no jogo, entende?”
“Não entendo muito desse tipo de jogo, mas
podemos concordar em você tentar descobrir se um dos seus parceiros de jogo é
aquele mágico ou alguém relacionado?”
“Por que o interesse?”
“Filha...”, a mãe disse.
“Segurança, apenas, segurança das famílias
do nosso município.”
“Posso até perguntar, mas não creio que
alguém vai me dizer muito sobre a própria vida.”
“Mas pode tentar.”
“Posso tentar.”
É claro que não podia tentar, a prefeita
sabia disso e maquinava como arrancar de forma democrática a informação
enquanto ia embora em silêncio. Deixara o cosmonauta ir embora uma vez e não
tinha certeza se fizera a coisa certa, desde então esperava o raio cair
novamente no mesmo lugar.
Ela sabia que o cosmonauta Yuri viera do
futuro em um programa crucial de exploração espacial, sabia que estaria
contribuindo de alguma forma com o projeto nacional vindouro ao protegê-lo, um
lugar no panteão dos heróis nacionais, por isso monitorava atividades diversas
pelo município.
Quando seu primo professor de História lhe
contou da aluna que ele suspeitava ser um dos jogadores, ela ficou atenta,
perguntou sobre o que falavam, normalmente sobre equipamentos e masmorras, às
vezes umas conversas estranhas, havia pessoas no grupo ultimamente falando de
regressar ao planeta, encontrar o cosmonauta e mandá-lo para o futuro
novamente, não se sabia se estavam falando de outro jogo ou apenas sendo
aleatórios, mas Ana Carpinteira sabia e resolveu ir atrás, pessoalmente.
Não arrancara muito, mas fizera a jovem
recuar, continuaria observando e confiaria na observância da mãe e do pai, na
falta de compreensão de ambos com a juventude.
Já Ciranda achava engraçado, patético
também, como aquela senhora bem apessoada, rica e autoridade máxima na cidade
buscava sentido em coisas tão fugazes, ela devia ter uma vida bem infeliz.
Assim que ela foi embora e o barulho do
carro não era mais audível, a mãe dela gritou:
“Pode descer!”
Desceu o Guerreiro de Nordateia Kraionte:
“Obrigado humanos, eu poderia ter matado
ambos e escondido os corpos de forma que nunca iriam conseguir acusar qualquer
um de vocês, mas agradeço a solução pacífica, sei reconhecer quando a violência
não é a solução mais prática.”
“Quer levar um pouco de bolo?”, o pai
perguntou.
“Quero sim, é muito gostosa essa comida,
posso tomar um pouco desse líquido preto antes de ir embora.”
“É claro, fique à vontade”, a mãe o
convidou para sentar.
Conversaram, sobre como a vida é uma
batalha diária, sobre a cidade vizinha de onde vinha o mágico da vez anterior.
Repassou o caminho. Disse que iria a pé.
“É longe, eu te levaria na moto, mas minha
perna está ruim”, o pai disse.
“Eu posso levar”, disse Ciranda, sempre
fugia de afazeres, agora se voluntariava. Primeiro que para uma jovem, viajar
de moto é sempre uma emoção, ela não tinha idade, mas andava com o
consentimento dos pais pelas estradas rurais e ao contrário das pessoas da
idade dela que faziam isso, ela era cuidadosa, talvez pela fato de ser uma
garota e ter, por isso, talvez o dobro de neurônios funcionais.
Mas seu plano foi interceptado como um
míssil teleguiado de modelo ultrapassado atacando uma potência militar.
“Você não vai para o espaço”, disse sua
mãe.
“Mas, mãe...”
“Sua mãe tem razão”, o pai disse, “é muito
perigoso.”
“Eu não aguento mais morar aqui, não tem
nada pra fazer e meu nome é muito esquisito.”
“Seu nome não é esquisito”, disse a mãe,
sem convencer a si própria, “além disso, ele não vai mudar no espaço.
“E esse senhor com certeza não está
disposto a te levar”, disse o pai.
“Ela provou-se uma guerreira capaz nas
batalhas que empreendemos contra inúmeros demônios, com certeza eu a levaria
para no ajudar com nossa demanda espaço temporal e posteriormente para lidar
com minha vingança pessoal”, disse o Guerreiro de Nordateia Kraionte.
“Eu não tenho certeza do que isso quer
dizer”, a mãe disse.
“Os jovens precisam de um rumo, por outro
lado”, o pai disse, mais para si mesmo, mas em voz alta.
“O espaço é seguro na companhia de um
guerreiro de elite e um mágico ruim”, o Guerreiro de Nordateia Kraionte disse.
“Mas e se a missão de vocês falhar?”,
perguntou a mãe.
“Nesse caso todos morreremos, em todos os
lugares do universo.”
Mais alguns questionamentos, a insistência
da adolescente genuinamente infeliz com sua vida, partiram os dois, Ciranda era
alta para sua idade e tinha ombros largos se comparada a outras meninas, mas
era pequena perto do ser que ia na garupa, ela colocou no GPS a localização da
casa anteriormente alugada por Fabian e partiu.
“Vocês sabiam que dois raios sempre caem no
mesmo lugar?”, perguntou Fabian para a multidão, alguma criança respondeu:
“Podem cair, mas não precisam cair no mesmo
lugar.”
“Mas é claro que precisam”, Fabian
insistiu, “suponhamos que um alienígena caia perto da sua casa e você dê abrigo
para ele, tenha certeza de que isso acontecerá de novo com você, ainda que
existam oito bilhões de criaturas da sua espécie.”
Algumas crianças vaiaram e gritaram que não
fazia sentido, Fabian sempre provava seu ponto de vista.
Pegou um bastão com um raio desenhado nele
e pediu para o menino mais mirrado lhe dar uma pancada no ombro, na horizontal,
o menino acertou sua barriga e Fabian se contorceu, xingou com palavras
ininteligíveis e quase vomitou.
Todos riram, o mágico pediu calma e pediu
para um menino de braço largo lhe bater novamente.
Assim dois raios caíram no mesmo lugar.
O pior mágico estava de volta.
Não fora uma volta fácil, por algum motivo
a Dispersadora o mandara para aquele planeta ligeiramente familiar, mas para o
que parecia ser o outro lado daquele mundo.
Mas tinha lá seus recursos e habilidades,
realizando mágicas (ruins) juntou recursos para adquirir um dispositivo de
comunicação e depois de diversas tentativas frustradas de estabelecer códigos
numéricos de comunicação, descobriu que jogos eram a forma de comunicação mais
eficiente, lembrou-se daquela humana da primeira vez que caíra e procurou seu
nome, não o verdadeira (que parecia ser o falso), mas o falso (que seria o verdadeiro),
estava presente em vários fóruns de discussão, a maior referência era um jogo
de ambiente compartilhado.
O resto já deu para perceber o que houve.
Ao que parecia Fabian não estava onde
esperavam encontrá-lo.
O Guerreiro de Nordateia Kraionte deu uma
rosnada, Ciranda olhou para ele e perguntou: “ele não estava aqui?”
“Ele me disse isso, não é de se confundir,
provavelmente seu planeta foi dividido.”
“Como assim?”
“Uma amostra igual de algum momento foi
criada e agora ambos são observados em desenvolvimento, introduzindo
circunstância ligeiramente diferentes, talvez em um vocês criem asas, em outro
vocês passem a viver em cavernas.”
Ciranda já havia ouvido falar daquilo, com
bactérias, gerações e gerações acompanhadas, dezenas de milhares, era
divididas, congeladas, cortadas, queimadas, alimentadas, ouviam Mozart,
assistiam Cidadão Kane, tudo para ver como se compartavam.
“E qual é o original?”
“Esse, é claro, eu não me engano”, Ciranda
ficou feliz ao ouvir essa resposta e depois triste por pensar que uma versão
sua estava entediada em casa em um lugar por aí.
“Pode ser que você seja a intervenção nessa
observação?”
“Duvido, estamos mais para uma xícara de
café que foi derrubada em cima da documentação.”
“O que fazemos agora? Tem como sair desse
planeta?”
“Sim.”
Todo Guerreiro de Nordateia Kraionte leva
consigo um comunicador criptografado para mandar sinais de necessidade de apoio
aos seus.
O desse estava desativado, pois havia
alguns dos seus que haviam tentado matá-lo e ele não estava pronto para
enfrentá-los.
Mas agora estar pronto era irrelevante, era
a opção disponível.
Inverteria a ordem das suas missões:
primeiro vingar-se, depois salvar o universo.
“Guerreiro de Nordateia Kraionte preso de
planeta primitivo, as coordenadas foram enviadas, solicito transporte de
extração, código...” no código fez sons que Ciranda não imaginava que era
possível fazer e não parecia possível que tivessem significado.
“E agora?”
“Podemos sentar e esperar.”
“Podemos comprar um sorvete? Meu pai me deu
um pouco de dinheiro.”
Esperaram na praça da cidade, tomando os
sorvetes de abacate.
A primeira a receber o sinal foi a
Guerreira de Nordateia Kraionte, achava que o que havia pedido transporte
estava morto, tinha alto interesse em encontrá-lo, o relato de alguns
companheiros de batalha eram corretos, mas havia algo de inquietante, o
Guerreiro de Nordateia Kraionte em questão não era o mais forte ou o mais
rápido, mas todos reconheciam sua adaptalidade.
Estava longe e informou o comando que
atenderia o chamado, o pedido ficou pendente e ela tomou o caminho pressumindo,
corretamente, que outros que estariam mais próximos atenderiam o chamado e sua
solicitação seria negada, a guerra onde atuava no momento estava no fim e sua
função já não era mais requerida, de forma que gastava seu tempo cozinhando
para a vanguarda.
Enquanto isso uma dupla de Guerreiros de
Nordateia Kraionte estavam mais próximos, um deles diretamente envolvido na
tentativa de obliteração ao Guerreiro de Nordateia Kraionte anteriormente
presente nessa narrativa, o outro ignorava a questão, atenderam o chamado assim
que viram (depois de um farto almoço, o comandante os dispensara para tal e
realocara outros de um setor próximo.
Esses não teriam como saber que havia uma
indo a caminho e portanto não o fizeram com excepcional pressa, ao contrário
dela, de forma de chegaram com pouco tempo de diferença.
Primeiro eles chegaram, deixaram o
transporte junto com diversos vagões de trem em desuso próximo ao centro da
cidade interiorana, três minutos ela deixou na outra extremidade da antiga
estação, apressada em descer não reparou que havia uma nave dos seus naquele
local.
Nesse momento Fabian levou o segundo raio
(como já relatado). Perguntava-se se ia demorar muito para o Guerreiro de Nordateia
Kraionte chegar, haviam combinado e sua popularidade como pior mágico estava
estranhamente baixa.
O Guerreiro de Nordateia Kraionte pensou em
chegar atirando, com sua arma silenciosa que era própria da própria
civilização, orientou o desinformado companheiro Guerreiro de Nordateia
Kraionte esperar e perto da nave onde vieram, era uma civilização primitiva,
não tinham porque fazer alarde.
Mas viu de longe algo na mão, que o outro
levava à boca, não parecia ser um alimento, ele não mastigava, talvez ele
cuspisse aquilo depois, reconhecia que o outro saberia usar qualquer tipo de
arma de qualquer forma possível, poderia atirar a qualquer momento, era mais
rápido, chegou perto, o outro levantou-se, Ciranda ficou sentada tomando seu
sorvete e olhando sem levantar a cabeça.
“Achei que viriam os três juntos”, disse o
Guerreiro de Nordateia Kraionte.
“Eu estava por perto, (nome inteligível)
está aqui, mas não sabe de nada.”
“E (nome inteligível) e (outro nome
inteligível)?”
“(nome inteligível) morreu em batalha ao
cair numa armadilha de poços com criaturas carnívoras de algum planeta, (outro
nome inteligível) está em nosso planeta natal realizando treinamentos.”
“É bom que ele faça isso para tentar me
matar novamente.”
“Não vai ser necessário.”
“Você já está morto.”
“Você vai estar, eu estou armado e ninguém
verá, você só tem essa arma exótica.”
“Minhas armas estão na minha nave, em algum
lugar por aí, isso aqui é um... qual o nome disso mesmo.”
“Sorvete de abacate”, disse Ciranda.
“Isso, um sorvete de abacate.”
“E como ele funciona?”
“Ele refresca e adoça, pelo que posso
perceber.”
“Um suporte?”
“Sim.”
“Você vai morrer.”
“Vocês ignoram a importância dos
equipamentos de suporte.”
“Eu achei que seria mais difícil.”
“Morrer vai ser fácil pra você, quando você
piscar eu vou te matar.”
“Posso ficar muito tempo sem piscar.”
“Uma brisa te derruba.”
“Já enfrentei tufões sem piscar.”
“Vou usar essa casca que tem no sorvete
para colocar na sua testa quando estiver morto e os deuses não te aceitarão,
pois estará ridículo.”
“Vou espalhar teus membros por planetas
desabitados e será esquecido pelos seus ancestrais, que não te reconhecerão.”
“Apertarei teu pescoço, pois não quero ter
a nojenta imagem no teu sangue sujo me incomodando.”
“Será considerado traidor e todas as
crianças do nosso planeta evitarão ser igual a você.”
“Me casarei com sua esposa e criarei teus
filhos como se fossem meus, chamarão ao meu nome como marido e pai.”
“Eu sequer sou casado ou tenho filhos e
você é casado, não pode casar de novo.”
“Nesse caso, manterei você vivo, mas todos
verão que é incapaz e não haverá fêmea a ter ver sem asco, não haverá fêmea a
querer copular com você.”
“Eu casarei com sua esposa, que chamará ao
meu nome como marido.”
“Eu havia dito isso.”
“Mas eu não sou casado.”
“Não interessa, relatarei tua falta de
criatividade para insultar e ameaçar e todos te acharão tolo.”
“Estás começando a me irritar e farei dos
teus pedaços um exemplo a quem se opõe.”
“Você não seria capaz de me insultar, apesar
de tua figura me irritar com a mediocridade inata.”
“Tudo que foi dito por você será nada, pois
tua existência terá sido completamente vã.”
“Me mostre então, pois fala demais.”
O mais rápido de um Guerreiro de Nordateia
Kraionte era realmente rápido, o movimento era em linha reta, sem nada que o
distraísse, pegar a arma e apontar rapidamente para o outro, atirar em cheio no
seu coração, no meio do peito, tudo isso era mais rápido do que levantar os
braços e apertar a garganta do outro, mas havia uma outra coisa mais rápida,
que era a Guerreira de Nordateia Kraionte, posicionada em cima da caixa da água
de uma escola ali perto, mirando no Guerreiro de Nordateia Kraionte que estava
armado, os projéteis padrão das armas dos Guerreiros de Nordateia Kraionte
viajam a velocidade da luz e reduzem quase completamente ao encontrar matéria
orgânica programada, no caso, ambos os Guerreiros de Nordateia Kraionte haviam
programado para Guerreiros de Nordateia Kraionte haviam programado para matar
um Guerreiro de Nordateia Kraionte, mas diferentes, bom citar que uma vez
programada, as armas cancelam o prójetil assim que ele atinge a primeira camada
de material orgânico de espécie não programada, causando no máximo uma leve
queimadura, explicado isso, a Guerreira de Nordateia Kraionte, já esperando
qualquer ação dos que estavam em conflito, atirou e acertou o Guerreiro de
Nordateia Kraionte que estava armado, não para matar, pois isso teria alertado
os locais e ela teria que preencher muitos documentos depois, mas na mão que
não portava a arma, foi o suficiente para ele parar, impassível diante da dor e
da perda de um dos quatro dedos, reconhecia aquele tipo de projétil e
subitamente se viu em desvantagem, imaginando pior, que o seu adversário já
esperava por isso, enquanto rapidamente recapitulava, seu pescoço foi envolvido
pelas mãos do Guerreiro de Nordateia Kraionte que acertava seu pulso com o
joelho usando grande força num momento que ele não esperava, deixou cair a arma
e percebeu-se apenas sendo enforcado, “pelo menos não serei eu a preencher
documentos”, pensou a Guerreira de Nordateia Kraionte, mas Ciranda disse,
percebendo que estavam atônitas as pessoas próximas: “deixe ele viver,
precisamos da nave, nada mais.”
“Ele tentou me matar anteriormente, tentou
agora e tentará no futuro”, respondeu o Guerreiro de Nordateia Kraionte.
“Mas ele não conseguiu, quer dizer que você
é melhor, se matar não saberá se um dia ele te superar e todos vão pensar que
ele superou.”
“Todos saberão que eu o matei e que isso me
torna melhor.”
“Por que estão nessa briga de vida ou
morte, afinal?”
“Eu disse para todos que era mais forte do
que eles, o que é verdade.”
“Ele está tentando falar, não aperte tanto
o pescoço dele.”
“Você é fraco”, o outro Guerreiro de
Nordateia Kraionte disse, “só lê mais.”
“Eu me adapto melhor.”
“Eu sou mais rápido e mais forte que você,
não ganhamos guerras por causa de guerreiros como você.”
“As fêmeas preferem os criativos, aptos a
sobreviver em adversidades variadas”, disse Ciranda.
“Onde ouve essas asneiras, primitiva?.”
“Na escola, quer dizer, nos dias que eu
vou, não são muitos...”
“Isso é verdade?”
“Claro, por que meu professor
mentiria sobre isso?”
“Nesse caso, me desculpem.”
“Tudo bem”, o Guerreiro de Nordateia
Kraionte disse e largou o outro.
“Eu não sabia disso, tenho que me aprimorar
então, mas prometa que você não vai mais fazer comentários que me desabonem
quando eu for mais adáptavel.”
“Jamais faria isso, mas também preciso de
uma promessa sua.”
“Não vou mais tentar te matar.”
“Não é isso.”
“Vou falar com os outros dois sobre isso.”
“Não é isso. O fato é que preciso de uma
carona.”
“Tem uma Guerreira de Nordateia Kraionte
aqui, que te ajudou.”
“Eu percebi, mas e se ela quiser casar
comigo?”
“Você já é casado, eu tenho um companheiro
perto da nave, dá pra ir só mais um.”
“Ah não...”, lamentou-se Ciranda.
“Não tema”, disse a Guerreira de Nordateia
Kraionte, que durante a conversa se escondera atrás de uma árvore e agora,
vendo o clima amistoso, saíra, “posso ir com esse dois e vocês operam minha
nave.”
“Eu te conheço”, disse o Guerreiro de
Nordateia Kraionte.
“Conhece, somos casados.”
“Eu estava com saudades.”
“Eu também.”
“Volte logo.”
“Voltemos logo”, então voltaram uns para
uma nave e outros para a indicação de onde estava a outra.
“E foi assim que chegamos aqui, na cópia da
Terra”, disse Ciranda para Fabian.
“Acho que faltou alguma coisa na sua
história”, Fabian disse, olhando para o Guerreiro de Nordateia Kraionte. Não
tinha faltado muito, o Guerreiro de Nordateia Kraionte simplesmente seguiu as
indicações dele para encontrar Rlyeh666 depois de encontrarem ela na partida.
Encontrar um veículo funcional não era
problema para um Guerreiro de Nordateia Kraionte.
Mantê-lo funcional era um problema, não
eram cuidadosos para pousar, acostumados que estavam a manobras perigosas, suas
naves eram preparadas, mas as sucatas que haviam por aí...
Enquanto isso Fabian estava esperando, sem
saber que estava num planeta clonado.
Ciranda quis resgatar a si mesma, ou seu
clone, o que for, os dois concordaram.
Não encontraram sua casa, não da forma como
conheciam, mas um santuária, onde era criada a garota mais venerada, ocupada e
feliz do mundo, tão diferente que não se reconheceu em Ciranda.
“Mas qual é o seu nome?”, perguntou
Ciranda.
“Rlyeh666”, ela disse.
Isso não era o café.
vii.
Fim dos Tempos (3, 6, 12!)
Drugo ficou do lado de fora da loja,
tremendo mais de medo do que de frio, nos últimos tempo tremia de medo a maior
parte do tempo, já se acostumara.
A Dispersadora entrou, não pediu licença e
não esperou outros clientes, interrompeu o cliente que falava com o mercador e
passou a falar com ele que, reconhecendo-a como dispersadora, lhe deu atenção.
“Preciso rastrear perturbações que
começaram em um planeta que orbita em torno de uma estrela na borda exterior da
galáxia, chamada pelos habitantes desse planeta de Sol.”
“Quem foi o contratante original?”, o
comerciante perguntou, sua longa barba
descia em duas cascatas que ele apoiava no balcão e desciam pelo outro
lado, espécie de sinal de excêntrico respeito.
A Dispersadora não era conhecida por ser
paciente e nem era muito paciente mesmo, puxou sua lâmina, que levava mais para
propagar o terror do que para machucar e bateu no balcão, fazendo com que a metade
esquerda da barba do comerciante caísse no chão.
Mas o Mercado de Relógios não é um lugar
para iniciantes.
“Se sua técnica de cortar barbas funciona
entre incautos, aqui entre os velhos do Mercado de Relógios você tem que falar
direito e guardar sua lâmina de assustar crianças.”
A Dispersadora guardou a lâmina, mas não
fez qualquer gesto ou expressão que demonstrasse arrependimento, pensou no que
aconteceria se dispersasse o comerciante, mas não parecia boa ideia e nem sabia
se era possível, era bem capaz que houvesse alguma proteção.
“Eu dispersei um objeto procurado por
vocês, que deveria ser enviado de volta pelo buraco de onde saiu.”
“É claro que fez isso, vocês dispersam, eu
já votei a favor da proibição dos seus serviços no conselho trabalhista geral.”
“O Universo é grande e não nos faltará
trabalho, não vim aqui para discutir minha situação trabalhista e sua visão
sobre a desnecessária regularização do que eu faço.”
“Está aqui porque errou.”
“Eu não errei. Fiz um trabalho que não
deveria, vou desfazer.”
“Nesse caso não sei o que faz aqui. Veio
dispersar a minha barba?”
O cliente que estava sendo atendido não
tivera coragem de sair, tremia de medo diante da discussão e em silêncio rezava
para os deuses do seu planeta para não ser dispersado.
“Vai custar”, disse o comerciante, depois
de um desconfortável silêncio.
A Dispersadora abriu a boca, mas desistiu
de falar, não estava entre primitivos, alguns dos que estavam naquele lugar e
comercializavam estavam entre as espécies mais antigas do universo, estiveram
entre os primeiros contatos dos dispersadores em seus dias de exploração
espacial.
O preço imposto foi um pouco mais alto do
que ela recebera pelo serviço completo. Não negociou, saiu e foi sendo
acompanhada pelo ser de tentáculos que tremia.
Disse o preço e deixou claro que eles
pagariam.
O medroso Drugo estava com medo, como
estava a maior parte do tempo de sua vida e diante de sua constituição física
pouco prática era o maior mecanismo de defesa de sua espécie, a situação na
qual se envolvera o deixara com mais medo constantemente e vivia em estado de
vigilância doentio.
Engana-se quem acha que por isso era um
completo idiota, uma bucha de canhão, agente burocrático dispensável, na
verdade, Drugo era dono de um senso de necessidade e urgência que compensava
seu nervosismo e respondia à pergunta que ele muitas vezes se fazia “por que me
escolheram para essa tarefa?”
O valor para obter a ajuda do Mercado de
Relógios era alto e a Hakumas não o ajudaria, primeiro que não gostaria de se
ver no emaranhado que se formada entre forças tão diferentes do universo,
segundo que não ajudariam de qualquer forma, era mais do que receberia se
morresse por ocasião do serviço de forma violenta.
Só restou a opção que normalmente resta
nessas ocasiões: o jogo.
Tosmala, lar de gigantescas criaturas de
seis patas que era capazes de viver ingerindo apenas uma milésima parte do seu
peso por dia, um milagre da sobrevivência e manutenção da vida primitiva já
levada a outros planetas e estudada largamente, a vida vegetal do planeta
desenvolvera-se livremente e as florestas eram altas a desafiar a baixa
gravidade do planeta.
Foi durante muito tempo lar de grandes
campeonatos de jogos de cartas, apesar da vida inteligente complexa não ter se
desenvolvido no planeta, suas árvores altas e baixa gravidade serviram de
construções temporárias para jogatinas cósmicas onde muitos créditos
circulavam.
Em um único ciclo de jogatina se apostava
mais créditos do que todo o crédito que circulava em muitos planetas.
“Já jogou isso?”, perguntou a Dispersadora,
numa rara demonstração sobre qualquer outro ser, apesar da resposta, Drugo
respondeu se demonstrar mais medo do que o que demonstrava normalmente.
“Não, mas já li sobre o jogo e assisti a
gravações de outros campeonatos.”
“Eu valorizo estudo teórico, mas a ausência
de experiência pode ser compensada nesse caso?”
“Não, devo me aproveitar disso.”
“Você não é bom em disfarçar emoções.”
“Não, por isso devo ser imprudente no
jogo.”
“Faz sentido, ainda que seja estranho, pode
dar errado.”
“É o princípio.”
“Está com medo?”
Apesar do medo que tinha dela, ele não
respondeu.
O Campeonato Final dos Arcanos Maiores
ocorreu no planeta Tosmala, no alto de uma árvore que quase tocava as nuvens,
numa estrutura de madeira espaçosa, transmitida para muitos sistemas em
diversas galáxias.
Foi um campeonato aberto e com diversas
categorias que foi divulgado como o “Último Grande Jogo”, pois o planeta estava
colapsando e seus vulcões eclodiam em série, rachaduras se formavam e grandes
nuvens tóxicas espalhavam-se levando toda vida selvagem.
Era o fim daquele mundo e aquele evento,
tantas vezes ali disputado pela sua paisagem peculiar, marcaria o seu fim
definitivo.
Como todo jogo de cartas havia dois fatores
que determinava o rumo do jogo, um deles a sorte e o outro a narrativa, dito de
outra forma, a capacidade de convencer os outros de que você ganhou, o
convencimento nesse jogo é a vitória e a vitória é determinada pelo
convencimento, mas as cartas que estará nas suas mãos é determinada pelo crupiê
e ninguém mais, a isso chamamos de sorte, ou seja, evento na qual você está
diretamente ligado mas que você não determina como ocorrerá.
Arcanos Maiores é disputado com arcanos, as
cartas numeradas ficam de fora e esse é um aspecto peculiar desse jogo, a
considerar que normalmente se joga com as cartas numeradas, tornando os jogos
mais objetivo, mas não nesse caso.
As cartas letradas também ficam de fora,
logo o general, o desenvolvedor e a oradora não aparecem, apenas o arcanos
maiores mesmo.
São eles: O Desempregado, O Programador, A
Analista, A Embaixadora, O Embaixador, O Chefe da Manutenção, Os Esquecidos, A
Nave, O Martelo, O Veterano, A Inteligência Artificial, A Antimatéria, O
Assalariado, A Liberdade, A Paciência, O Professor, O Pulso Elétrico, A
Combustão, O Campo de Asteroide, A Supernova, O Pragmatismo, A Galáxia.
Totalizam, dessa forma, 22 arcanos, que
abarcam situações e sentimentos comuns a quase todas as espécies conhecidas que
realizam viagem interplanetárias, motivo pelo qual esse jogo tornou-se tão
popular.
Drugo sabia disso tudo e de muito mais
coisas sobre o jogo, já jogara mentalmente muitas vezes, oferecendo caminhos
narrativos que julgava imbatíveis, porém, nunca foi julgado estando a bordo do
seu veículo ou dentro de um apartamento.
Inscreveu-se, apostando metade de todas
suas economias, que era o valor mínimo.
O
JOGO
DRUGO X ROCHE
Roche joga o Veterano e diz “a experiência
em diferentes situações coloca o Veterano em uma posição vantajosa, ele encara
situações que para outros seriam inesperadas como corriqueiras e utiliza-se do
pragmatismo implacável para resolver diferentes demandas.”
Drugo joga a Combustão e diz “mesmo o
Veterano não é capaz de escapar de uma explosão causada por combustão, um
pequeno vazamento o torna nome no noticiário, um Veterano morto em acidente
causado por combustão.”
Roche joga o Analista e diz “a especialidade
desse profissional é analisar situações e traçar cenários, prever acidentes, um
acidente com combustão é improvável, com vítimas é quase impossível se o
Analista está presente.”
Drugo joga o Assalariado e diz
“profissionais desse tipo frequentemente ganham pouco, passam longos períodos
longe de suas casas ou famílias, desenvolvem diversas patologias físicas ou da
mente em decorrência das condições de trabalho que lhe são oferecidas, um
Assalariado se mostra assim como figura de inveja, que leva uma vida mais
simples, mas possui em seu inventário de bens uma grande quantidade de tempo e
segurança material em caso de doença.”
Roche passou suas cartas, de umas para as
outras, depois de um minuto o juiz de jogo perguntou “encerrou?”, contrariado,
Roche confirmou e os três juízes de narrativa declararam Drugo o vencedor, com
a carta “O Assalariado”.
Vens X Drago
Vens ganhou com a carta “O Professor”.
Julius X Vernom
Vernom ganhou com a carta “O Pragmatismo”.
Fabo X Rorrrda
Rorrrda ganhou com a carta “O Assalariado”.
Fabrotagha X Opi
Fabrotagha ganhou com a carta “A Galáxia”.
Hortraraat X Iidodo
Iidodo ganhou com a carta “A Liberdade”.
Jix X Hupuuul
Hupuuul ganhou com a carta “O Assalariado”.
Opidaqabe X Xadfei
Xadfei ganhou com a carta “O Pulso
Elétrico”.
Os ventos atingiam trezentos quilômetros
por hora, arrancando as árvores de pequeno porte do chão e fazendo pequenos
animais voaram pelos ares, uma chuva implacável que não chegava ao chão caía
praticamente na horizontal, ouvia-se os ruídos graves das placas e leves
tremores
DRUGO X VENS
Drugo joga o Desempregado e diz “ninguém é
mais desesperado do que um desempregado, aceita qualquer coisa para reaver seus
meios de subsistência, é feroz e determinado.”
Vens joga o Pulso Elétrico e diz “a
insatisfação com a falta de emprego é rapidamente esquecido com um pulso
elétrico, que acalma os revoltados e impede que peçam o que quiserem, ainda que
faça sentido, não à toa muitas polícias ostentam seus bastões individuais de
pulso elétrico.”
Drugo joga a Liberdade e diz: “a Liberdade,
conceito restrito, mas onde aplicado absoluto, impede que o Pulso Elétrico seja
indiscriminadamente usado contra as pessoas.”
Vens joga os Esquecidos e diz: “todo
planeta, sistema ou qualquer canto habitado tem os Esquecidos, por mais que se
tenha Liberdade, os Esquecidos são o preço a pagar, aqueles que num sistema
livre estão presos às condições de sua existência limitada materialmente,
presos em seus locais de origem pelas suas famílias ou ambições impessoais.”
Drugo joga o Professor e diz “que se eduque
cada sociedade, para que o Esquecido seja lembrado, que não deixemos de ensinar
jamais, relembrando a cada um o seu potencial dentro da sociedade em que
vivem.”
Vens joga o Campo de Asteroides e diz “não
existe conhecimento teórico que livre o Professor de um impacto mortal no Campo
de Asteroides, ou quando o mesmo se dirige ao planeta onde reside o Professor,
que não possui recursos materiais próprios para se retirar do planeta alvejado
para evitar ser alvo do impacto.”
Drugo joga a Paciência e diz “situações
iminentes que causam o óbito instantâneo são encaradas com a Paciência treinada
em anos sem fim de trabalho, a morte que se aproxima é recebida com o sorriso
paciente de quem sabe que não existe meios próprios para evitar.”
Vens passou suas cartas, de umas para as
outras, depois de um minuto o juiz de jogo perguntou “encerrou?”, contrariado,
Vens confirmou e os três juízes de narrativa declararam Drugo o vencedor, com a
carta “A Paciência”.
Vernom X Rorrrda
Vernom ganhou com a carta “O Chefe da
Manutenção”.
Fabrotagha X Iidodo
“Fabrotagha ganhou com a carta “O
Assalariado”.
Hupuuul X Xadfei
“Xadfei ganhou com a carta “A Nave”
Os tremores intensificaram-se e pedaços
sólidos do solo soltavam-se, as imensas criaturas de seis patas cambaleavam,
contrariando sua longa história evolutiva local de criaturas firmes e duráveis,
o vento esquentou e animais sensíveis morriam por conta da temperatura, em
locais de muita folhagem espalhavam-se incêndios, rios e oceanos invadiam as
costas.
DRUGO X VERNOM
Drugo joga o Chefe da Manutenção e diz “o
olhar criterioso desse personagem, o Chefe da Manutenção, mantém sobre seus
trilhos toda e qualquer atividade ao seu alcance.
Vernom joga a Inteligência Artificial e diz
“um trabalho facilmente substituível por algo que sequer pisca, a Inteligência
Artificial sabe que horas você entra e sai do trabalho, que horas tomou café e
quantas vezes vez uma pequena pausa para passar a mão pela cabeça e questionar-se
da vida que leva, sabe a última e todas as vezes em que todos os componentes
passaram por manutenção e quem as realizou.”
Drugo joga o Veterano e diz “componentes em
desuso, mas ainda usados, peças em falta, motivo das faltas de um trabalhador
outrora extremamente educado, são algumas nuances observadas pelo Veterano, que
ainda que se utilize da Inteligência Artificial, se mostra presente e
conveniente em pontos cegos da vistoria absoluta desta, portanto,
insubstituível.”
Vernom joga o Martelo e diz “o descontentamento
se dá primeiro com os mais velhos e de confiança dos superiores, dessa forma o
Veterano sente primeiro o peso do Martelo por servir de intermediário entre as
duas classes, o martelo que destrói muros entre as classes, derruba o
Veterano.”
Drugo joga o Pragmatismo e diz “medidas
drásticas e populares como as tomadas pelo Martelo nos presenteiam com um
emaranhado de conflitos e decisões que não se comprovam práticas no cotidiano,
identificar os problemas e resolvê-los num mínimo de passos possível é o
Pragmatismo que evita e até extingue revoltas como a que você propõe, está na
base de qualquer negociação bem sucedida.”
Vernom joga a Antimatéria e diz “não há
argumento com a mais destruidora partícula, a Antimatéria escancara a
inutilidade do Pragmatismo diante das situações, ao eliminá-las todas.”
Um juiz de narrativa levantou a garra, os
outros dois aceitaram ouvir o que ele tinha a dizer, ele discordou do
argumento, considerando-o genérico, outro juiz levantou o tentáculo e
concordou, dizendo que foi um argumento típico de um filme de grande orçamento
de Warwood, o terceiro juiz apenas levantou sua longa e fina mão de dedos
rosados disse que era um mero deus ex machina. Os três juízes de narrativa
declararam Drugo o vencedor, com a carta “O Pragmatismo”.
Fabrotagha X Xadfei
Xadfei ganhou com a carta “A Embaixadora”.
Via-se grandes lagos de lava, criaturas
gigantescas de seis patas afundavam, algumas em lava, outras em água,
iniciava-se no planeta uma lenta batalha, contudo extremamente violenta, entre
oceanos emersos e magma submersa, numa chuva de rochas e madeira.
DRUGO X XADFEI
Drugo joga a Supernova e diz “aqui está,
Supernova, o nascimento de uma estrela, tudo que era não é mais e em volta de
si um sem número de possibilidades.”
Xadfei joga a Inteligência Artificial e diz
“sem número facilmente contado pela Inteligência Artificial, ávida por
observar, catalogar, matematizar todas as possibilidades que uma Supernova traz
consigo.
Drugo joga o Embaixador e diz “um novo
planeta é uma nova possibilidade de negócios, que não será a Inteligência
Artificial a travar e sim uma criatura física, o Embaixador, que travará esse
contato e trará disso situações favoráveis a curto e longo prazo para sua
própria civilização.”
Xadfei joga a Nave e diz “em uma Nave
viajará o Embaixador, a Nave não será apenas utilitárias, mas aos olhos dos
novos contatos um símbolo do seu poder e desenvoltura, talvez modelo para o
desenvolvimento tecnológico de toda uma civilização, uma meta a se cumprir, um
destino sem dúvida.”
Drugo joga o Campo de Asteroide e diz
“mesmo pilotos experientes, em um Campo de Asteroides buscam somente a saída
mais próxima, um sistema novo oferece campo que pouco de conhece que parecendo
pequenos, provam-se verdadeiros labirintos, a Nave choca-se, causando avarias,
na melhor das hipóteses o Embaixador que procurava levar profecias apresenta-se
como um refugiado, implorando por peças e água.”
Xadfei joga o Pulso Elétrico e diz “diante
de tal situação, não tão incomum, o Pulso Elétrico afasta um pouco as rochas
mais próximas e cria um campo sensível de aproximação, deixando a navegação
segura viável.”
Drugo joga os Esquecidos e diz “saqueadores
podem aparecer, sem prisioneiros, apenas saque, os Esquecidos não deixam
aqueles que vivem confortáveis na Nave esquecerem que para a produção de cada
componente naquele veículo fabricou-se também aleijados, órfãos, desesperados,
famintos, criminosos por diversas leis.”
Xadfei joga o Martelo e diz “chega a nós o
Martelo, declarando o legal e o ilegal, suprimindo situações de exploração e
criminosas de todos os tipos, permitindo a todos uma existência digna e
razoavelmente confortável.”
Um juiz de narrativa levantou sua longa e
fina mão de dedos rosados e disse que o Martelo referia-se aos mediadores da
sociedade, como eles são os juízes naquele jogo, não havia qualquer cabimento
lógico na ideia de que eles intercederiam pelo nivelamento de bens materiais ou
pela posse de créditos, o outro juiz de narrativa levantou a garra e disse
compreender o argumento, contudo, existem em muitas sociedades a ideia de
justiça como a possibilidade de todos viverem satisfeitos de alguma forma, ao
menos seguros em recursos, o juiz que tinha tentáculos riu e a decisão ficou
para o juiz de jogo, que chamou outra rodada.
A batalha desenvolvia-se em todos os
lugares do planeta e seria muito difícil afirma que algum ser vivo ainda estava
vivo para se fazer presente no campo de batalha, era uma batalha de diversos
elementos chocando-se e modificando-se, unindo-se em rocha, naquele momento o
que mais se via era o magma e a água, numa confusão que em certos pontos dava a
impressão de ser uma coisa só, o tremor era forte e do local onde acontecia o
torneio ouvia-se apenas os estrondos e leves tremidas que eram solenemente
ignoradas por todos presentes, os ventos carregavam tudo que ainda restava
deixando uma paisagem suspensa em muito rápida mutação.
DRUGO X XADFEI
A próxima rodada seria feita sem o
reembaralhamento.
Drugo joga a Galáxia e diz “o ambiente pelo
qual circulamos, unidade máxima de localização é a Galáxia, seres e
civilizações crescem e prospera, perecem, ela permanece como palco duradouro de
todas as disputas.”
Xadfei joga a Liberdade e diz “o valor
absoluto da existência individual, a Liberdade é almejada por pelo menos um
elemento em cada civilização e nos coloca em rota com a criatividade e o
desenvolvimento técnico, ações sem as quais a Galáxia seria apenas um palco
vazio, abandonado.”
Drugo passou suas cartas, de umas para as
outras, depois de um minuto o juiz de jogo perguntou “encerrou?”, contrariado,
Drugo confirmou e os três juízes de narrativa declararam Xadfei seria a
vencedora, com a carta “A Liberdade”.
O prêmio em créditos para o segundo
colocado era, contudo, suficiente para adquirir um dispositivo que viajasse
pelos corredores além da velocidade da luz e resistirem por tempo suficiente
para adentrarem alguma ruptura temporal para deixarem qualquer coisa em outra
época e desacelerarem, resistindo aos danos causados com vida, coisa que poucas
naves eram capazes de fazer, seja pelo custo alto ou pelas funções limitadas.
“E
agora?”, perguntou Drugo, do espaço atrás da única poltrona da nave da
dispersadora, que respondeu enquanto deixava o planeta destruído para trás, “um
trabalho, quando é mal feito, tem que ser desfeito.”
viii.
Sobre Gatos e Aliens
Os
Porões
Na base 12120-000 da Federação residem
permanentemente apenas seus operadores e os intermediários, todo federado pode
se estabelecer por um tempo indeterminado, se estabelecem permanentemente
apenas o que estão “fora de operação”, ou seja, que travaram de alguma forma e
sem suas capacidades plenas não podem exercer atividade remunerada.
Realizam, quando possível, trabalhos
internos.
É de se imaginar que muitos deles apenas
não querem trabalhar por aí e inventam para si próprios algum tipo de
indisposição, contudo, é quase impossível determinar os que de fato necessitam
de licença de suas atividades ordinárias e os que a buscam para conforto
pessoal e nada mais.
Pode ser que determinado federado,
aparentando extrema incapacidade, que faz com que os mais cascudos chorem com
sua condição lastimável, sejam apenas bons atores e outros andando normalmente
e dando boas risadas estejam, na verdade, completamente rompidos com a
estabilidade.
Tem ainda quem defenda que os que
dedicam-se tanto a fingir-se de incapaz são, por esse absurdo teatro,
candidatos sérios ao descanso sem culpas.
A administração federada presume tudo isso
e para não largar os que de fato necessitam, aceita os que não necessitariam
(presumindo que esses grupos existam de fato).
Rossima não aparentava necessitar de um
descanso e julgava não necessitar, vendo em si um engodo com a própria
federação de forma a esperar que forças holísticas agissem sobre seu destino a
colocando de forma segura em sua antiga rotina assalariada.
Contudo, isso é importante que fique claro,
ela necessitava desse descanso.
Esquecera de devolver o gato, não foi por
mal, tanta coisa aconteceu, fora dispersada, recuperada, a nave rebocada, declarou
que estava desorientada, desorganizada, não se lembrava como havia parado
naquele ou em outro local e agora se via diante de um administrador de
materiais gerais perguntando de um gato.
“Deve estar na nave, ele está morto, seu
nome é… não lembro.”
Não era comum que os de sua espécie
esquecessem as coisas, mas ela havia genuinamente esquecido.
“Mas havia um gato, não era meu, era de um
cara pra quem eu dei carona.”
Isso era bom, os que haviam pousado diziam,
ao menos até o momento, ao menos parcialmente a verdade.
“O gato era dos melhores, deve estar lá na
nave”, de fato estava, o administrador de materiais gerais já havia verificado,
havia muitos gatos por lá e um gato a mais passava despercebido antes de ser
especificamente procurado.
Foi perguntada de um guerreiro.
“Nordatéia Kraionte, deve ser um bom lugar
para viver ou não tentariam transformar todos os lugares em réplicas do seu
planeta natal”, impossível determinar se havia ironia ou inocência em sua fala,
ela sempre fora assim, desde muito nova, todos naquele lugar sabiam.
Causava desconfiança, ele não descera da
nave, mas eles sabiam que ele estava a bordo daquela nave.
“Me ajudou, mesmo sem ter em sua cultura
uma noção de devolver favores”, lembrou.
A desconfiança do administrador de
materiais gerais diminuiu, não extinguiu.
“Desculpa, Tor, sei que não estou sendo
muito útil”, o lamento era sincero, mas ela havia ajudado.
O administrador de materiais gerais
raramente era lembrado pelo nome.
Mas ela lembrava.
Isso o alegrava, secretamente, desde muito
antigamente, quando ela era uma criança, o tratava por Tor, usando o título
“senhor administrador de materiais gerais” de forma muito sarcásticas, às
vezes.
Ela era uma trabalhadora eficaz, colocada
em trabalhos longos, monótomos e possivelmente complexos, era confiável.
Todos podem romper uma hora.
Não era um problema ter que lidar com os
antigos empregadores dela, inflexíveis em levá-la para um tribunal trabalhista.
Contudo, perguntou-se no que estava
envolvida aquela federada, agora que um guerreiro de Nordatéia Kraionte estava
envolvido, o pior, um mágico, que buscava seu gato de ancoragem e se
apresentava como o “pior mágico do mundo”.
Pensava inutilmente nesse quebra-cabeça,
perguntava-se sobre o que Rossima não havia falado, no que ela de fato não
poderia falar e no que ela não queria falar.
E nem sabia da dispersadora.
Desilusão
de uma dispersadora
A dispersadora era uma incógnita para todos
os outros.
Mas como criatura extremamente capaz, ela
tinha uma capacidade muito importante, de ver graça em si própria.
Então quando viu a federada (aquela mesmo
que tivera que dispersar) ela percebeu que seu trabalho fora inútil diante da
dedicação da Federação com os seus.
Ela pensou “eu poderia dispersar você
novamente e agora ninguém te encontraria”, Ros pensou “você poderia me
dispersar de novo…”
Mas não chegaram a se ver e a dispersadora
voltou para seja qual lugar de onde veio.
Uma coisa era lidar com burocráticos de um
grande conglomerado intergalático, outra coisa era lidar com um federado, com
uma estrutura de relativamente poucos membros, mas bem espalhados e dedicados,
com um poder de negociação incrível considerando suas altas capacidades para os
trabalhos mais complexos ou monótomos do universo.
A dispersadora podia se vangloriar de
conhecer mais dos federados do que a maioria, sabia que eram governados por um
conselho rotativo na qual todos passavam pelo menos uma vez na vida, desde que
não morressem muito jovens ou não estivessem rompidos, termo usado para se referirem
aos federados que perderam a capacidade de trabalhar, normalmente
temporariamente, às vezes permanentemente.
Sabia que o atual conselho era, por acaso,
bastante velho e avesso a determinadas espécies, possivelmente reconheceriam
ela como uma dispersadora e provavelmente não gostariam de encontrá-la para
qualquer coisa.
Sabia que realmente tinham tentáculos,
coisa que diziam com certa ironia, mas era tudo que sabia de sua aparência
real, também os viam como dispersadores, quer dizer, pele amarela, cabelos
trançados, altos e magros, com uma energia mal contida no corpo e um olhar
superior, quase tanto quanto o dela, não gostava de ver federados, ou aformes
como eram chamados enquanto espécie, nome renegado pelos próprios, que se
tinham algum nome de espécie auto designados não compartilhavam.
Sabia que enfrentavam ofensivas da Hakumas
pela deserção da federada que procurava, negociações incômodas, mas que
pareciam encaminhar para um acordo a longo prazo, o que prenderia a federada na
base por um tempo, provavelmente no porão, onde residiam os rompidos.
O resto, supunha, mas não pensava muito
nisso, não ajudava, de qualquer forma não acreditava que o planeta natal deles
tivesse sido destruído, provavelmente fazia ou havia feito parte de algum
império que os expulsou em algum momento ou gradativamente, era o mais
provável, se eles guardavam lembranças disso e se davam importância a isso não
sabia.
A incógnita dos seus sentimentos sobre si
próprios era parte da sua forte posição diplomática.
E a dispersadora… estava com a poltrona de
sua nave reclinada.
Um transporte individual, com algum espaço
atrás para circuitos e recursos variados, transporte preto como o espaço por
onde circulava, sem luzes, com um localizados ligado ao seu pulso, por baixo de
sua pele, marcando constantemente sua localização.
“Você está envolvida em uma demanda pessoal
muito insólita”, uma voz atrás de si disse, um dispersador, competente para
aparecer dentro da sua nave, sentado em cima de algumas caixas atrás da sua poltrona,
ela o olhou inclinando a cabeça para trás, era um de confiança, mas não gostou
da intromissão, respondeu “quando se faz um trabalho que não deveria, temos que
desfazer”, ou seja, reunir os dispersados.
“Foi enganada por um conglomerado
comercial, não está sozinha”, ele disse, em tom sincero, como quem tenta
apaziguar os ânimos alheios, ela respondeu “e você vai me deixar e não vai
comentar sobre o que estou fazendo”, preferia nem saber o que ele fazia ali,
preferia supor que era curiosidade de nada mais, apesar de ser improvável, ele
não deixou que ela ficasse com sua suposição e disse “eu não aceitei esse
trabalho, se vale de consolo eles tentaram te contatar e ao não conseguirem, me
chamaram, como eu neguei eles tentaram com você de novo, não tinha motivos para
pensar que era um trabalho ruim, mas deveria compartilhar a informação com
você, quando fazemos uma coisa que não deveríamos, temos que desfazer”, ela
serrou os olhos, encarando aquele dispersador, o conhecia a mais tempo do que a
maioria das criaturas vivem, o conhecia vagamente, “não me olhe assim, temos
que nos proteger e, quando acontece, evitar que qualquer dimensão colapse”,
então ele tinha conhecimento da causa envolvida, “mas, não era necessário
resgatarem todos e reunir novamente aquela tripulação que você dispersou,
contudo, uma vez enganada por qualquer motivo, não basta realizar o trabalho
deixado por eles”, também havia o prazer envolvido em demonstrar para os
contratantes que existem coisas mais importantes do que o pagamento ou o
currículo profissional, um modo de operar próprio que não deveria ser quebrado.
“Diga o que você quer compartilhar”, ela
perguntou, convencida das intenções amigáveis dele, “o Guerreiro de Nordateia
Kraionte está escondido na Nexo da federada que você procura, duvido que algum
federado o encontre, provavelmente desconfiam de sua presença, são guerreiros
que sabem se ocultar se precisar”, ela respondeu “eu sei”, sabia parcialmente,
não sabia que ele estava escondido na Nexo, nem conseguia pensar numa maneira
como uma criatura que precisa caminhar de um ponto até o outro fisicamente
entrar numa nave fortemente segurada e se ocultar dentro dela sem ser visto, “o
pior mágico está lá, não o subestime novamente, a enganação é o seu negócio, é
o que parece, posso estar enganado, o gato de ancoragem circula pela estação e
ele quer procurar o gato, mas por ora não tem autorização”, ela respondeu “eu
sei”, “a federada em questão está rompida, acredito que não esteja de verdade,
o que é irrelevante, está no porão, ela tem que demonstrar espontânea vontade
de encontrar alguém diversas vezes em situações aleatórias para receber
visitas”, ela respondeu “eu sei”, de fato sabia, “o mercado de peças está com
falta de determinadas peças que permitem transpor a velocidade da luz, isso
porque são caras e consideradas inúteis, considerando os corredores de luz por
onde circulam as naves de um sistema para outro ou entre galáxias”, isso ela
sabia, estivera com Drogu tentando montar uma nave para devolver o deslocado ao
tempo dele, mas não conseguira, o pior mágico conseguiria montar uma nave
dessa, ela tinha créditos suficiente, mas se ele estava naquela estação talvez
não quisesse sair dali sem a federada, o que abria a opção de usar a Nexo
também, que provavelmente tinha a capacidade de transpor a velocidade da luz,
como se ele estivesse lendo seu pensamento, ele disse “a Nexo é capaz, mas
apenas os federados as pilotam, poderia roubar e aprender, mas existem formas
de fazer as coisas”, ela não se importava, “é claro que você não precisa de
importar, como não precisa de importar em desfazer um trabalho que não deveria
ter sido feito, de qualquer forma, perceba, que o melhor caminho para fazer um
trabalho da melhor forma possível, é desfazendo um trabalho que não deveria ser
feito”, ele concluiu.
“Entendi, você se materializou na minha
nave para me dar uma aula de ética”, ela disse, “e para compartilhar
informações úteis, possivelmente, o seu companheiro Drogu fez contato com o
camareiro do hotel onde você o hospedou e prendeu, esse camareiro tem contatos
no submundo do sistema financeiro, não vai demorar até terem desbloqueado os
créditos que vocês ganharam e dividido em pelo menos três partes”, ela pensou
nisso e no que faria, dispersar era o mais óbvio e quase saiu dali naquele momento,
mas não perderia Drogu de vista por muito tempo, ele estar com créditos ganhos
honestamente e depois roubados poderia ser útil no futuro, colocá-lo em
desgraça perante um conselho administrativo ou qualquer coisa do tipo, “além
disso, o gato é a chave, como sempre”, “o gato é a chave”, ela repetiu, fechou
os olhos alguns segundo e quando abriu o outro dispersador já havia ido embora.
Cadê
Meu Gato?
Ela pousou a nave na Estação 12120-000 e
desceu.
O controlador de pousos chegou e perguntou
o nome e motivo da visita.
“Sou uma dispersadora, estou procurando meu
gato, tenho motivos para acreditar que ele está aqui.”
Ele indicou o Setor de Coisas Perdidas, mas
antes teria que se registrar, no Setor de Registro, informando as
especificações técnicas de sua nave e permitindo a vistoria interna, se
necessário.
No Setor de Registro ela passou as
especificações técnicas da sua nave, “Sem Nome, modelo único seriado sob
encomenda de construtores locais, viaja abaixo da velocidade da luz, mas tem um
sistema de ligação física direta com o local de origem, não posso permitir a
vistoria.”
Foi informada que sem a vistoria, não
poderia deixar o setor de pouso e desembarque.
“O meu gato está na sua estação, não vou me
submeter às suas regras para procurar algo que me pertence, subtraído por um
dos seus ou dos seus associados.”
O responsável pelo Setor de Registro
apareceu para apreciar o caso, a alegação é de que seu gato de ancoragem havia
sido subtraído por uma federada ou um associado, viajando numa Nexo, em um
planeta comumente usado para produções cinematográficas, o responsável pelo
Setor de Registro amenizou o caso, dizendo que provavelmente fora tomado por um
gato se dono, ela pegou um grampeador do balcão e disse “esse grampeador
provavelmente não tem dono, vou levar comigo, verei o que mais encontro sem
dono por aqui”, o funcionário se remendou, dizendo que nada disso tirava a
gravidade do caso e a encaminhou ao Administrador de Materiais Gerais, que
estava ocupado no momento e mandou um auxiliar.
“Preciso procurar o meu gato, subtraído por
um dos seus ou associado, não vou por algo que faço por necessidade causada por
alguém ligado a esse lugar permitir que qualquer um entre na minha nave”, a
reclamação era justa, se era verdadeira tornava-se outra questão, porém, o
auxiliar informou que não tinha autoridade, naquele momento, para tomar essa
decisão, “então eu vou circular, procurando o meu gato, enquanto aquele que é
importante o suficiente ainda não nasceu.”
Diante da determinação e dos ares ligeiramente
ameaçadores da dispersadora, o auxiliar pediu que ela esperasse só mais um
pouco que ele iria chamar, naquele momento, alguém que pudesse interceder com
autoridade naquela questão.
Rapidamente, ele ligou para seu chefe
imediato, que não atendeu, então, prontamente, ainda que com relutância
disfarçada, ligou para o chefe do seu chefe, o Inspetor Geral de Entrada e
Saída da Estação, um cargo de título tão longo quanto necessário, que pediu que
ele levasse a dispersadora até o escritório geral, que ficava na área de pouso
e desembarque mesmo.
Chegando
lá, ela foi deixada com o Inspetor Geral de Entrada e Saída da Estação, “qual é
o seu nome?”, ela perguntou, “Ciga, sou Inspetor Geral de Entrada e Saída da
Estação, e o seu?”, “sou uma dispersadora”, “entendo”, ele respondeu, entendia
mesmo, seu nome era uma abreviação do seu nome completo e não compartilhava seu
nome completo com quem não fosse federado”, “acredito que não terei que repetir
os motivos de minha viagem, nem minhas exigências, pois ouvi o seu subordinado
relatando o caso”, “de fato, ele relatou, na verdade, já transmiti o seu caso
aos membros do conselho e um deles já me respondeu, autorizando seu trânsito em
todas as dependências comuns da estação, sua nave será resguardada e não será
vistoriada em medida excepcional, a não ser por detectores externos, espero que
entenda”, “entendo, não gostaria que nada aqui explodisse, se eu fosse fazer
isso, de qualquer forma, seria imprudente usar uma nave como aquela”, “não se
ofenda, é uma medida padrão”, “não me ofendo”, “espero que compreenda também
que todos os federados foram avisados dos motivos de ter uma dispersadora
circulando livremente nas áreas comuns, pode ser que te olhem curiosos, ou pode
não ser”, “eu com certeza me olharia, mas tenho uma dúvida, se o gato estiver
em uma área restrita…”, “sim, se quiser saber sobre o gato numa área restrita,
dê a descrição dele para algum federado próximo que ele entrará para procurar,
ou encontrará outro para fazer isso”, “o que posso entender por área comum?”,
“qualquer área que não seja um local de trabalho de segurança, educação ou
saúde, áreas de governabilidade são comuns, mas requerem uma autorização que é
automática para federados ou em casos excepcionais, como o seu, contudo, se
houver outros na sua frente nessas área, terá que esperar”, “perfeito… ouvi
falar também de uma área para federados que adoeceram e não trabalham”, “o
porão”, “sim, é uma área comum?”, “naturalmente, ainda que seja acompanhada por
um federado designado a trabalhar na área em questão, qualquer um que esteja
disponível no momento que atingir a localidade”, “agradeço sua atenção, Ciga.”
Enquanto
isso Fabian se desdobrava com suas mágicas ruins, mas os federados não caíam
nos truques dele, na verdade, eles não acham qualquer graça em mágicos, bons ou
ruins, tentou vários argumentos e depois de muitas negativas ele ouviu apenas
que o gato talvez pertencesse a outra nave, que já estavam procurando por ele,
controlou-se para não passar a informação ao Guerreiro de Nordateia Kraionte,
sabendo que estavam vigiando eles de alguma forma e não poderia denunciar a
posição do seu colega, já haviam passado por muito junto para desistirem
naquele momento, mesmo que boa parte do passado juntos tivesse sido virtual.
Ele
contava que o Guerreiro de Nordateia Kraionte teria alguma ideia guerreira pra
resolver a situação, o outro, por sua vez, esperava escondido que alguma mágica
ruim resolvesse tudo.
Nem
uma coisa e nem outra resolveria naquele momento, ainda que ambas as coisas
talvez resolvesse muitas coisas posteriormente como teriam resolvido e já
resolveram outras tantas vezes no passado.
E a
dispersadora, temos que decepcionar quem acompanha a narrativa e espera grandes
feitos dela, pois mais fazer um trabalho mal feito é fácil, desfazer esse
trabalho é mais difícil do que teria sido fazê-lo bem feito.
Procurava
por Ros, andou pela estação, até pelo Porão, setor decepcionantemente bem
iluminado onde se portavam bem e socialmente a maioria dos seus residentes,
descobriu que nem reparara em como era a federada que ela dispersara e
consequentemente não a encontrava agora.
Passou
até a procurar o gato de fato, nem isso encontrava e seu guia não servia para
nada além do que ficar do seu lado.
Voltava
para sua nave, tomava café, descansava um pouco e reiniciava a infrutífera
busca.
Uma Questão Em Aberto
Como
muitas vezes ocorre, a situação começou a delinear uma resolução longe dali e
por questões diretamente alheias à situação envolvida.
A
pergunta que se colocava era “é possível que um KLX esteja trabalhando sem
consciência de sua função?” ou ainda “se não possuem qualquer consciência de
sua situação, por que seria ilegal colocá-los para trabalhar?”, ou ainda
“apesar de não se lembrarem, eles sofrem com suas situações de trabalho?”.
Na
verdade, a grande maioria era bem tratada, como qualquer máquina de alto custo
e desempenho, o que não quer dizer que talvez quisessem estar em outro lugar
fazendo outras coisas.
Eram
coisas pensadas por longo espaço de tempo, em diferentes sistemas, impérios e
por diferentes corporações, de forma que a questão encontrava-se em um estada
diferente em cada lugar.
Sobre
o que conhecemos, caiu em um planeta deserto e como acontece com coisa
abandonada em locais inóspitos foi encontrada por um grupo de recolhedores,
nada que fosse demais e se aparecesse numa ficção seria uma ideia pouco
criativa, mas aqui é um fato, o que podemos fazer?
A
sorte da KLX é que não pretendiam desmontá-la, na verdade, eram recolhedores
com grande capacidade de memória, muitas gerações atrás, depois de um quase
extermínio causado por grande seca eles passaram a considerar a possibilidade
de todos manterem uma larga memória implantada, com tudo que lhes interessava
guardado e para isso aderiram aos implantes de memórias, feito banal considerando
a tecnologia disponível nos sistemas próximos.
Já
tinham ouvido falar dos KLX, mas era a primeira vez que viam um, no caso uma.
Não havia registro em qualquer uma das largas memórias herdadas que se
lembrasse de presenciar um exemplar daquela admirável espécie, isso porque seus
implantes mantinham a individualidade da memória, mas era possível herdar de um
dos mortos, de forma que tudo que um deles vivia ficava gravado na memória de
um dos seus descendentes, coisa conveniente que dispensa o uso de cavernas.
A
estrangeira ficou admirada com essas características, eles também ficaram com
as características da estrangeira, sua alta capacidade de processamento era
capaz de lhes dizer onde cairia chuva, que horas exatamente eram, a distância
que faltava até determinado ponto, a taxa de sucesso na caça de algum animal ou
na coleta de algum material, a probabilidade de encontrarem componente mais
rentáveis e outras tantas informações muito úteis.
Surpresos
ficaram também no desconhecimento geral dela com a situação de sua espécia,
amplamente escravizada.
Ofereceram
um implante enfim e para surpresa de todos, foi negado.
Ela
reconheceu os convenientes e apontou os inconvenientes, a disputada era
acirrada, mas preferia manter-se sem, se era por si própria não fazia
diferente, já era uma fugitiva de uma grande corporação, se era pela libertação
da espécie, pelos próprios méritos deveriam lembrar-se, ou qualquer libertação
ficaria à mercê de dispositivos que não controlavam diretamente.
Em
determinado momento foi colocada em contato com um recolhedor de materiais que
revendia o material radioativo para a Hakumas, por uma quantia razoável deu
carona à KLX, que reservou um espaço da sua curta memória para lembrar alguma
fatos da organização social que lhe interessava.
A
alta criatura de poderoso cérebro e fraca memória chegou então ao setor de
relacionamentos trabalhistas da Hakumas para pedir o seu próprio desligamento,
pois decerto havia um contrato legal e bastava apenas pedir que o cessasse,
coisa realizada não sem certo estranhamento por um burocrata aleatório do
local.
Esses
burocratas podem sofrer de excesso de zelo, coisa que faz com que liguem para
seus superiores e informem situações potencialmente perigosas, foi o que ele
fez, mas não encontrou o seu superior, mas o secretário do seu superior, também
acometido pelo excesso de zelo, consultou as últimas compras do seu chefe e
descobriu que ele estava hospedado em um hotel de um planeta sem qualquer
atrativo que valesse a pena ser comentado além de ser estranhamente próximo da
base dos federados, passou o contato do hotel para o burocrata que ligou para o
hotel atrás do seu superior, informando sobre uma KLX que pedira a demissão,
coisa aceita, já que seus contratos eram feitos apenas como formalidade e
portanto não previam qualquer tipo de multa, sanção ou aviso prévio, não
poderiam exigir qualquer coisa nem considerando seu abandono do posto de
trabalho, visto que era garantido o direito de ir e vir a qualquer momento se
tivesse livre e espontânea vontade, informação preocupante para o seu superior
mostrar-se corajoso (ou desesperado) suficiente para sair do local onde estava
e prometera esperar por amedrontadora criatura que poderia se materializar em
qualquer ponto do universo.
Essa
foi uma engrenagem, engrenagem lenta, entre uma ligação e outra são semanas de
requerimentos e autorizações que deram tempo da engrenagem principal desse ramo
da história de alguma forma se mobilizar.
Dessa
forma aparece uma frota formada por duzentas e dezessete naves de mais de uma
dezena de corporações e governos, além de algumas de indivíduos particulares,
operadas pela Autoridade KLX Livre, organização recentemente criada, de
organização horizontal, que abriga todo e qualquer KLX que após contínuos
esclarecimentos de sua condição de trabalho quiserem largar o trabalho na qual
estão presos de forma análoga à escravidão.
Ao
se aproximarem de uma admirada Estação 12120-000 pedem, por rádio, para
pousarem no setor de emergência, em sistema de rodízio para visitarem a Estação
12120-000, trocarem produtos e conhecimentos, uma das naves ainda quer algo a
mais, saber do paredeiro da federada Rossima Kahalino Ja, chamada comumente de
Ros, que abandonara o posto de trabalho no planeta artificial J9901847H7HYS, atualmente contestado pelos rokazes, essa federada
estaria viajando com uma tripulação diversa a bordo de sua Nexo pessoal para
colaborar com a realocação de um material deslocado no tempo.
O excesso de detalhes chamou a
atenção dos federados, que convidaram a KLX responsável pelo pedido para uma
reunião com o conselho, onde ela poderia levar quatro convidados de sua
escolha, para ficaram em igual número, costume dos federados que denota
respeito pelas negociações.
A tudo isso assistiu a
dispersadora sem saber o que pensar, que os KLX se revoltassem de forma
organizada era uma questão de tempo, o setor onde estavam parando suas naves
era longe do setor onde procurava o gato de ancoragem (ou procurava por Ros)
para desfazer o trabalho que não deveria ter feito.
O pior mágico do mundo,
Fabian, ficou curioso, mas o Guerreiro de Nordateia Kraionte, ainda
impecavelmente escondido, disse para ele não se distrair da busca.
E meowwwoem estava escondido,
em local bastante óbvio como uma carta roubada.
A Nexo, A Tripulação, A Libertação dos Povos
KLX falou com clareza ao
conselho, não omitiu, não contou detalhes, sobre assistirem o programa do gato
e do repolho, por exemplo.
Antes disso apresentou a
documentação da legalidade trabalhista de todos os KLX presentes.
Os federados, avessos à
escravidão que um dia os acometeu, receberam bem aquela nova organização, que
aliás, recebiam propostas legais de trabalho em todos os lugares.
Qual o segredo? Guardaram
informações essenciais sobre suas histórias coletivas, evitando futuros abusos.
Os caminhos futuros ainda eram
incertos, no momento, trabalhavam remotamente para dúzias de pequenas
corporações (algumas pertencentes às velhas escravistas) e particulares, para
pagarem suas viagem e a busca por local fixo.
Tudo pouco simples, tudo cheio
de pormenores e contradições.
KLX naquela época não tinham
nem nomes, hoje possuem cada qual um nome próprio, formado por três unidades de
nomenclatura, cada qual iniciada por uma letra de sua inicial primordial,
formando padrões que não se repetem nem podem ser herdados.
Ka809d L9ffm9 Xk09ffff9
K44r L9 X8furek
K39fugmf L9fifj Xi
Pra citar apenas três que
foram grandes figuras em seu tempo.
Voltemos contudo à questão que
se coloca, pois sem essa, talvez aquele pequeno lapso no tempo por onde Yuri
passou tivesse se expandido e causado o fim de todas as coisas, virado o
universo do avesso e criado em seu lugar um anti universo, com anti criaturas
em uma anti realidade que essas palavras não existiriam.
Voltemos então.
Chegam os KLX e se reúnem, a
resposta da demanda específica tratada anteriormente depende da resposta da
reclusa Ros, vivendo no Porão da estação, de início um não curto e claro, mas
sem qualquer raiva, um não plácido, um pouco apressado, pois nem falaram que
era uma KLX, livre dos contratos de trabalho, com um grupo grande de outros na
sua situação.
Pede um tempo para pensar, no
caso, dez segundo, antes que o outro federado saia do recinto ela diz que vai
acompanhá-lo.
Não se pode afirmar que o
reencontro entre Ros e KLX foi sentimental, ela declarou-se feliz pela
autodeterminação da incrível inteligência, a outra declarou-se satisfeita em
ser recebida.
Mas afinal, o que trazia uma
àquele lugar, o que esperava da própria existência a outra, eram coisas sem
respostas.
Escolheram um local ali perto,
existiam diversos locais para socialização subutilizados, já que os federados
preferiam socializar enquanto trabalhavam nas oficinas, no ancoradouros, nos
depósitos.
Portanto, havia apenas dois
federados, no local, um realizando a manutenção do freezer onde se guardava as
bebidas e o outro verificando a data de validade de todos os alimentos
disponíveis na geladeira e nos armários.
Apesar de ser a segunda vez
que se encontravam, poderíamos dizer que com todas as circunstâncias do
universo aquele era o segundo improvável encontro, entre uma KLX livre e uma
federada rompida.
A primeira lembrou da tarefa
incompleta, a segunda lamentou a tarefa incompleta.
Havia nesse momento uma
disputa entre a Hakumas e a Federação, que jamais entregava um dos seus
rompidos, contudo, seu abandono deixou o planeta à mercê dos trabalhadores
locais e consequente perda de posse virtual do planeta pela empresa
construtora.
Uma demanda colocada pelo
Mercado de Relógios seria, nesse caso, um poderoso argumento a favor da
Federação nos tribunais trabalhistas setoriais onde corriam as ações.
KLX perguntou do paradeiro de
todos que foram dispersados.
Ros sabia que estava na
estação o mágico de nome Fabian, procurando por ela, mas sem os meios legais de
extraí-la daquele local em segurança, portanto se manteve no único local seguro
que existia para ela naquele momento e nos futuros que conseguia vislumbrar,
uma revolta de KLX não estava realmente na previsão dela, nem sequer cogitou a
possibilidade disso acontecer um dia e em certa ocasião Yuri sugerira essa
alternativa e Ros certamente o achou muito inocente, talvez non sense demais,
nem lembraria disso se não tivesse acontecido, de fato, uma revolta de KLX,
queria perguntar para Fabian se esse tipo de coisa era comum no planeta
primitivo de Yuri e de repente uma série de lembranças e impressões daquela
dupla que caíra no seu local de trabalho e poderia dizer até que ficou
emocionada com isso, alegou estar rompida quando foi encontrada por outros
federados para se proteger da situação legal em que se encontrava, envolvera-se
numa demanda onde os envolvidos estavam desaparecidos e não poderia provar que
abandonara seu posto de forma justa, ainda que quisesse um motivo para sair
daquele local, jamais teria saído sem um motivo que justificasse legalmente sua
saída precoce, sabia também que o gato de ancoragem de Fabian circulava pela
estação e era difícil reparar nele, pois estava morto, apenas seu fantasma
aparecia de forma translúcida e ocasional em canto ou outro, o Guerreiro de
Nordatéia Kraionte também estava por lá, provavelmente bem escondido na nave,
perguntou-se como poderiam ter se encontrado os dois e conseguido uma nave e
chegado naquele local, ou mesmo porque foram parar ali, conseguiram uma nave que
era capaz de realizar a missão deles, colocou esses questionamentos para KLX,
KLX pontuou que o Guerreiro de
Nordateia Kraionte era um sobrevivente nato, com um rígido código de conduta e
lealdade, no momento em que foram dispersados a Nexo era sua nave e Ros era a
capitã, portanto, a lealdade e nada mais poderia explicar, o encontro entre ele
e Fabian era de fato um mistério, tal como as mágicas ruins de Fabian, que não
eram um mistério em si, mas como as criaturas do universo suportavam ver
aquelas mágicas ruins e, às vezes, rirem com isso.
Resumo
Devemos pontuar,
encontraram-se todos, quase todos, por um alto falante convocados para
encontrarem-se na NEXO RG351, que era a Nexo operada originalmente por Ros e
antes dela por nenhum outro.
Apenas a Dispersadora não foi
convocada, ao invés disso voltou para sua nave para recapitular e todos ficaram
aliviados de não a verem por lá, pois presumiam que ela apareceria, apenas o
Guerreiro de Nordatéia Kraionte lamentou-se, gostaria de conhecer tal força da
natureza.
Diante da questão ser uma
demanda do Mercado de Relógio, Ros foi liberada com o aviso de que era
procurada pelos antigos empregadores e a situação não estava definida, contudo,
a conclusão de sua demanda daria um argumento legal forte para justificar o
abandono do posto de trabalho, que na verdade não seria nada demais se não
fosse o caso dos rokazes terem tomado o centro de controle do já exaustivamente
citado planeta artificial, na verdade, corria em diversas cortes setoriais
pedidos para ser reconhecido por um nome local cultural escolhido dos rokazes:
Yiosca. Questão essa, devemos dizer, irrelevante aqui.
Da parte de KLX foram
oferecidos todos os recursos dos recém-independentes KLX, oferta generosa e
recusada, considerando as demandas da espécie tardiamente libertada.
A Nexo trazia em si a
tecnologia e resistência quase necessárias para a tarefa, restando apenas alguns
arranjos a serem feitos por Fabian.
Decidiram partir logo e
arrumaram-se para tal e teriam partido logo se não fosse a falta de um elemento
essencial para retornarem para o seu tempo sem ficarem preso em outro tempo (o
que seria trocar um problema menor por um maior) e nem no meio do caminho
(coisa que nem sabiam se era possível): o gato de ancoragem.
Demoraram sete horas (se
considerarmos o tempo do planeta natal de Yuri) para localizar meowwwoem, ele
estava exatamente onde deveria estar, deitado, dormindo, aninhado em cima de
diversos fios embaixo de um painel de controle da Nexo onde partiriam.
Só depois poderiam buscar o
material que faltava, no caso, Yuri.
Outro Resumo
Localizar um primitivo
dispersado seria uma tarefa impossível, ele não tinha os recursos, conhecimento
e, no caso, nem a vontade de reencontrar-se com seus antigos companheiros.
Tarefa simples para uma
rastreadora de habilidades fora da compreensão comum e incomum como a
Dispersadora, além disso ela sabia instintivamente onde estava cada um que ela
já havia dispersado em sua muito longa vida.
Contudo, em sua monótoma
rotina de dispersar os outros por aí sem fazer esforço, acontecia de esquecer o
que havia feito, será que foi esse ou aquele outro da semana passada que mandou
para um planeta tomado por vulcões ativos? Não saberia responder com precisão a
diversos questionamentos semelhantes.
Enquanto buscava o dispersado
temporalmente deslocado precisava de uma garantia de que os envolvidos não
sairiam do lugar onde estavam, pois temia que se colocassem em uma rota
destrutiva como normalmente se colocavam, então levou o necessário gato, que
sempre soubera onde estava, tinha jeito com gatos, vivos ou mortos.
Os outros não se opuseram,
primeiro porque Fabian ainda trabalhaba com os arranjos necessários, segundo
que não podiam se colocar contra uma dispersadora, terceiro porque o gato
obviamente havia gostado muito dela.
Antes de prosseguir teria que
lidar com o pequeno traidor chamado Drogu, como não havia dispersado ele, não
seria tão rápido encontrar, ele tinha os próprios meios, ela foi para o hotel
onde o deixara para descobrir que não tinha o que descobrir, saíra como um rico
que foge para não ser pego pela esposa na companhia de uma forma de vida
qualquer.
Subiu ao terraço do hotel, de
onde saíam aeronaves particulares para tais fins, para topar com um piloto
completamente mudo e que não demonstrava reconhecer uma dispersadora, o poder
não é nada perto de quem não entende e não possui meios de se fazer entender.
Andou até a beirada e ficou
olhando a paisagem do planeta, a cidade que se perdia de vista e o tráfego
intenso de veículos e criaturas, resumiu mentalmente sua situação, não era
estritamente necessário encontrar o larápio com quem se envolvera, o dinheiro
não era importante e o medo que ele sentia era grande demais para ele tentar
fazer algo contra ela, não teria meios disso de qualquer jeito.
Nesses momentos aparece alguém
para ajudar, o outro dispersador, preocupado com o futuro trabalhista da
própria mercenária espécie.
ix. Relato de um alienígena bipolar
“Aconteceu algo insólito, o
universo é grande e ainda existe coisa além dessas infinitas paredes, sei
disso, pois vivo em local fora desse espaço, mesmo assim encontro algo que
procuram, é claro, faz sentido, compartilho do destino da espécie com essa que
colocou a situação no estado disperso, não surpreende que tenhamos pensamentos,
desejos semelhantes e nem pensemos sobre essa semelhança, eu estava cansado e
meu cérebro não reagia da forma como eu desejava, não é bom que trabalhemos
quando não estamos dispostos, consultei a mim mesmo sobre a possibilidade de
uma folga e eu me autorizei, faz um tempo, poderia ter informado antes,
contudo, havia muito ocorrendo e esperei que vocês estivessem reunidos como parecia
que aconteceria mesmo, sabem que uma vez eu arremeti contra um campo de
asteróides, posso me dispersar com meu transporte, mas antes disso eu pilotei
perigosamente nesse campo, desviando sempre no último momento, em algum momento
eu me retirei e pensei que acabaria matando a mim próprio, o que me parece
lógico, ninguém mais seria capaz de me matar, mas não queria morrer, havia
sofrimento envolvido, uma solidão que às vezes aparece e eu não achava que
parecia certo me sentir pronto para deixar esse e todos os universos que possam
estar por aí, porque é muita coisa, o que os outros da minha espécie dizem numa
situação dessa eu não sei, me pergunto quantos que morreram deram fim a si
próprios, não sei e nunca saberei a resposta, sei a minha agora, não foi e não
será o meu caso, graças a isso pude encontrar para vocês algo que vocês
poderiam circular por aí, de repente, até o universo rachar e tudo que está a
nossa volta deixar de existir, a dispersadora que está com vocês causou parte
desse estrago e trouxe a salvação, pois eu contei para ela da minha incursão
antivida no campo de asteróide e ela me disse que eu deveria procurar
descansar, parar de trabalhar um pouco, folgar em resumo, procurar algo que eu
goste de fazer, é curioso, pois ela mesma gosta mesmo de dispersar, causar medo
nos outros e se divertir enquanto domina outras formas de vida, eu ainda estou
aprendendo, não sei muito o que fazer do meu tempo que agora é... livre, para
onde vou, com quem trato, então em busco em pessoas que parecem saber do que
falam quando escrevem sobre o assunto, publicações turísticas, sempre me
pergunto o que perco ao me voltar para isso, deve existir um monte de lugares
interessantes e anônimos por aí, mas tive que reconhecer minha limitação para
evitar me colocar em rota de colisão comigo mesmo, entendem, sempre que eu
estou na parte baixa saio de folga, é possível, meu trabalho é bem remunerado,
dispersadores são poucos, semana passada eu fiz isso, não sei como é a contagem
de semana para cada um de vocês, irrelevante talves, só quero dizer, um tempo
atrás, não muito, queria vida noturna, inteligência e cultura, seres diversos
com quem conversar e ouvir coisas interessantes, um destino civilizado, mas não
um destino totalmente comum, onde um monte de seres idiotas vão para parecerem
parte de uma irmandade invisível de seres idiotas que parecem inteligentes, uma
matéria sobre o assunto me colocou a par de onde destinos de férias altamente
civilizados, escolhi o que me parecia cumprir com meus requisitos e assim fui
para Floithcajo, planeta adorável de temperatura amena e com cidades limpas,
eficientes e sem desigualdade social, um governo estável e democrático, uma
coisa que eu não achava que existia, me refiro a todo conjunto, me surpreendeu
positivamente em todos os aspectos conforme eu conhecia um pouco desse lugar, os
nativos são educados e francos, a comida é bem temperada com coisas moles e
outras crocantes, o ambiente fartamente arborizado e colorido, descrito por
vezes como cafona, de gosto exagerado, mas sempre recomendado para quem quer
ter dias felizes, com emoções de deslumbramento, seus prédios históricos são um
passeio por si só e ainda guardam obras locais e de muitos outros países que
enche nossos olhos e amacia nossas mentes, vê-las pessoalmente é uma sensação
que não posso descrever demais, talvez vocês encontrem tempo e oportunidade,
chegarei ao melhor que são os destinos rurais, as praias são populares, é
clara, como esse universo, mas depois de uns dias pelas cidades eu abracei a
causa rural e busquei destinos que satisfazessem meu desejo, existem muitos,
mas só estando por lá para conhecer, existem pousadas e também a opção de ser
hospedado pelos locais, essa segunda opção não me chamou a atenção apesar de
curiosa, me hospedei em uma pousada toda construida em madeira local, depois
soube que sua colunas e vigas eram de metais por dentro, mas que em um passado
remoto era tudo de madeira, esse pormenor na tecnologia arquitetural apenas me
deixou mais satisfeito, não se dizia que havia metais na estrutura, um trabalho
excelente, bonito de ver e melhor de entar entre, os dias na comunidade rural
são mais lentos e eu podia me dedicar a visitar locais curiosos, muralhas
destruídas, casarões, antigo moinho e coisas do tipo, mas eu queria apenas
sentar e ver o desenrolar da vida alheia em câmera lenta, quando acordei no
primeiro dia que passaria completo eu fui ao mercado local, uma adorável
reunião de tendas de produtores locais, onde seus filhos e filhas me atendiam
com juvenil boa vontade, comprei algumas frutas que eu não conhecia e voltei
para a pousada, me sentei numa cadeira na calçada e comecei a experimentar
aquele misto colorido de doces e azedos como uma crianças que compra doces cujo
sabor está escrito em um idioma desconhecido, devo ter comido cascas que era
comum aos locais tirar, mas não me importava, sei que minha aparência é
conhecida em qualquer recanto de um planeta altamente civilizado, mas os
olhares curiosos revelavam apenas curiosidade não saciada, jamais medo ou nojo,
como é o mais comum, atrevo-me a dizer que eu sorria levemente em público e
pensava em subir para meu quarto para ler um pouco sentindo aquele vento sem
poluição entrar no quarto, sensação que raramente experimento e não creio que
qualquer um de vocês seja diferente nesse quesito, mas não subi naquele
momento, apareceu-me próximo um exemplar de uma espécie primitiva que eu não
conhecia, não pessoalmente, mas havia visto o retrato de sua espécie em um
trabalho que me ofereceram e eu recusei, ele passou de um lado para o outro,
levando uma cesta, pelas vestes e pela forma como se dirigia aos outros posso
afirmar que vivia como um local e não precisei me perguntar como ele havia
parado ali, se eu havia pensado, outros com uma propensão psicológica
semelhante à minha poderiam pensar, insconcientemente nesse caso, podemos
escapar de muitos destinos nesse universo, de um campo de asteróides por
exemplo, de um dia ruim, de um trabalho que não deve ser feito, mas não podemos
escapar do destino de nossa espécie, é compartilhada, independe de onde estamos
e do que fazemos, eu gostaria de ter aproveitado mais e se a situação dizesse
respeito apenas a mim eu teria aproveitado todos os dias que planejei de
início, mas não foi o que ocorreu, a questão dizia respeito a um trabalho que
deveria ser desfeito para ser feito corretamente por outra de minha espécie e
precisava daquele ser vivendo pacificamente em um planeta qualquer, eu era o
que sabia onde ele estava a deveria avisar antes que alguma coisa ocorresse de
forma indesejada e a informação se tornasse irrelevante, estava ciente dos
riscos para o universo e por acaso nesses tempos eu prefiro estar vivo e que os
outros vivam para que possam ser dispersados por aí, é o meu trabalho e o que
sei fazer, ao contrário do que pensam não nascemos dispersando, temos que
aprender e o treinamento é intenso, sou um bom dispersador apesar da tarefa ser
monótoma para mim, também pretendo voltar para aquela mesma vila rural,
experimentar novamente aquelas frutas, talvez viajar para um local
completamente diferente fazer algo diverso, mas está aí a informação, mandarei
a localização para a nave de vocês e poderão ir para lá, o local tem leis, não
saiam com planos de mágicos malucos, deixe que a dispersadora trace a
estratégia, mas vejo pela sua expressão que tem algo que...”
x. Não Devemos Deixar O Alienígena Executivo Medroso Impune
“Drogu!”, disse a
dispersadora.
Ela explicou quem era Drogu e
como juntaram créditos para equipar qualquer nave com os itens necessários para
devolverem Yuri ao tempo dele, fizeram até uma lista de compras com a ajuda de
um relojoeiro que contratara Fabian para a tarefa original, terminou contando
que ele fugira e levara parte dos créditos.
“Parte de um trabalho que deve
ser feito novamente”, ela concluiu.
“Presumo que ele está
preparado para evitar você”, o dispersador disse, “nesse caso, acho que terá
que deixar a tarefa com outros seres.”
“Ganhamos bons créditos
atuando em um filme”, disse Fabian, ao ouvir da dispersadora que acabara de
voltar o relato sobre Drogu.
“Ganhamos”, Ros tomou a
palavra, sem constrangimento, “mas foi tudo para mim que faria a divisão, devo
informar que quando rompemos, todos nossos créditos vão para a Federação e
portanto não temos nada daquela película além da glória.”
“Rastrear executivo nesse
vasto universo não deverá ser muito problemático”, Fabian disse, levantando e
pronto para perguntas.
“Eu que sou o melhor
rastreador do grupo não vejo sentido em sua afirmação além de uma possível
ironia”, não perguntou o Guerreiro de Nordatéia Kraionte, para decepção de
Fabian, que respondeu:
“Ele é um executivo, não tem
criatividade, é só ver o endereço dele com a empresa onde trabalha.”
“Na verdade”, a dispersadora
disse, “ele ficou em segundo em um torneio de arcanos maiores.”
“Isso é um jogo, ser criativo
é a regra e ele não poderia agir de outra forma”, o Guerreiro de Nordatéia
Kraionte disse, já compreendendo o raciocínio do mágico.
“Eu vou embora, mas me parece
que nessa questão vocês vão seguir o mágico maluco”, disse e se dispersou de
volta para seu transporte, deixando essa narrativa definitivamente.
Qualquer um a essa altura
poderia pensar que Ros seria a mais adequada para entrar na sede administrativa
da Hakumas e perguntar pelo endereço de Drogu, informação que só poderia ser
conseguida casualmente presencialmente, de fato era ela, se não estivessem os
funcionários avisados da possível presença de invasores, espiões industriais, o
próprio conselho administrativo espalhou a informação por sugestão de Calasa, a
pedido de Drogu.
Como é de seu hábito, o
Guerreiro de Nordatéia Kraionte sugeriu a remoção temporária de um funcionário
da recepção, de forma que teriam que colocar outro, que estivesse desavisado,
descobriu-se posteriormente que dois funcionários faziam a recepção, o que muito
animou o guerreiro, ânimo quase imediatamente substituído pela decepção ao ser
informado que seus métodos potencialmente violentos não seriam usados nessa
questão, usariam a mágida.
“Não podemos dispersá-los?”,
perguntou Fabian.
Não podiam, qualquer sumiço
repentino poderia alertar o executivo medroso, além disso, ainda que Drogu não
tivesse feito um alerta oficial para a presença de uma dispersadora, ele a
esperava de alguma forma, ela ficaria de fora da questão.
“Uma indisposição estomacal é algo
universal, tudo que se alimenta se alimenta mal eventualmente”, sugeriu Fabian.
“Na verdade”, Guerreiro de Nordatéia Kraionte disse, “é
algo óbvio que poderia levantar suspeitas ou nos rastrear facilmente, já uma
atividade que seja ilegal nesse planeta...”
“Não iremos sequestrá-los, já
deixamos isso dito”, disse Ros.
“Outra atividade”, ele
retrucou, referia-se aos jogos, apostas monetárias, proibidas no planeta sede
da Hakumas.
“Posso fazer isso”, disse o
mágico. Propôs um truque de mágica composto de três copos de cores opacas
virados para baixo em cima de uma mesa, um valor alto de dinheiro embaixo de um
deles e ele embaralharia para o apostador escolher.
É claro que seu plano era
perder repetidamente, já que era um mágico ruim, o problema do plano é que não
tinha créditos a perder.
“Vou esperar vocês chegarem no
sequestro”, o Guerreiro de Nordateia Kraionte disse. Ros o lembrou que essa
alternativa colocaria a polícia local no encalço deles e o setor de segurança
da Hakumas, argumento errado, pois isso o animou.
“Poderíamos fazer outra
coisa”, Fabian disse e propôs um truque de rua, onde os distrairia para seresm
atropelados, se fosse apenas óbvio que ele seria atropelado também o plano
seria acatado tranquilamente, mas o atropelamento dos alvos era muito incerto.
“O que nos coloca o sequestro
como opção, aposto que consigo realizar sem armas de qualquer tipo e com uma
das mãos presa nas costas.”
“É verdade que existem
guerreiros da sua espécie de quatro braços?”, Fabian perguntou repentinamente.
“Sim, mas extraímos
cirurgicamente quando nascem, são supérfluos e atrapalham.”
“Nesse caso, você amarraria
dois ou três braços?”
“Três, é claro, a quantidade
de braços livres é o que conta.”
“Eu gostaria de ter quatro
braços, seria o dobro de ruim como mágico.”
“Com certeza.”
“Poderíamos realizar um teatro
de rua, uma peça tão interessante que eles não conseguiriam deixar de assistir
até o final.”
“Escreverei uma peça”, o
Guerreiro de Nordateia Kraionte disse, animando-se subitamente, “se chamará ‘A
Poderosa Cavalgada do Senhor Dragão’, será a peça perfeita e definitiva.”
“Miau”, disse meowwwoem, que
estava sempre por ali, mas não se pronunciava muito, como um herói primitivo
muito antes que vira um cavalo durante um funeral, Fabian teve uma ideia e
olhou para Ros, que entendeu o que ele havia pensado.
Naquele dia, no planeta mais
desenvolvido do setor, aconteceu em uma de suas grandes cidades, perto da sede
de uma grande empresa que construía e administrava planetas artificiais, um
espetáculo de rua onde eram apresentados um gato (ou o que os especialistas no
assunto chamavam de ectoplasma do gato) e um repolho, sendo as pessoas
desafiadas a responderem sobre um deles “é o Raposo ou é um repolho?”
Em cidades grandes existem os
mais variados e sem sentido espetáculos de rua, assim como tem tudo o que
existe para fazer por aí, para entreter as mentes cansadas de seus moradores,
não existe mais tédio do que num lugar desse.
Fabian conduzia o espetáculo
para seis seres desinteressados e ele próprio desinteressados deles, com uma
escuta onde recebia informações de um bem posicionado em uma varanda que servia
de cafeteria Guerreiro de Nordateia Kraionte.
“Estão se aproximando pelo
norte”, o guerreiro disse.
“Norte?”, pensou o mágico e
rodou duas voltas completas, o guerreiro percebeu que ele não sabia direções
naquele planeta.
“Direção oposta à sede da
Hakumas”, o guerreiro disse, “dois de altura parecida, semi-mecanizados,
parecem entediados, aproveite a vantagem, não ofereça recompensa, deixe que ele
joguem pelo jogo.”
O mágico obedeceu, chamou os
que passavam, “vocês, os dois mecanizados, conseguem responder?”
“Estão te ignorando, deixe
claro de alguma forma que não quer créditos deles”, o guerreiro sugeriu.
O mágico rapidamente remendou,
“pode ser difícil para doi burocratas enxergar através de questões que não são
óbvias, mas se estão ocupados demais talvez eu esteja aqui mais tarde.”
“Foi esperto mágico, eles
pararam, nada melhor do que uma ofensa”, o guerreiro disse.
“Eu estive em muitos planetas
e onde os habitantes tem o melhor desempenho, curiosamente, é um planeta
primitivo que chamam localmente de Terra, eles ainda nem viajam pelas fissuras
como nós e inventaram esse jogo onde a maioria das espécies perdem, em especial
os mecanizados.”
“Tudo bem, aceitamos”, um dos
dois disse, quando os dois voltaram alguns passos e aproximaram-se de Fabian.
“Qual é o jogo?”, o outro
perguntou.
“Uma pergunta que tem que ser
respondida, a pergunta é uma só, a pergunta é:
É O RAPOSO OU É UM REPOLHO?
Estão prontos?”
“O que é um Raposo?”, um dos
mecanizados disse?
“Qual é o seu nome?”
“KAMU, código de série
00200245820189557.”
“E o seu?”
“ZEDO, código de série
22000698400398.”
“De onde vocês vêm?”
“Fábrica de Aprimoramentos
Mecânicos Biológicos Estatal GALA.”
“Qual é a profissão de cada
um?”
“1º Secretário de recepção na
sede central da Hakumas.”
“2º Secretário de recepção na
sede central da Hakumas.”
“Perfeito, vou explicar as
regras para vocês, mas antes que deem o palpite, vou precisar explicar as
regras que não estão escritas, entendem?”
“Não.”
“Não.”
“Que seja. Vou apresentar um
dentre dois seres, e vocês terão que acertar se é o Raposo ou um repolho.”
“O que seria um Raposo?”
“Um Raposo é um gato, que tem
como nome Raposo, por isso o chamamos dessa forma”, Fabian pegou o gato de
ancoragem e mostrou.
“O que é um repolho?”
“É um vegetal, nutritivo, de folhas que se cobrem parecendo
uma bola esportiva deformada”, Fabian pegou o repolho.
“Por que isso seria
desafiador?”
“Então vamos lá, vou guardar
os dois nessa enorme caixa de papelão, pois os gatos adoram caixas de papelão e
ele ficará tranquilo e os repolhos não reclaman de ficar lá.”
“Repolhos falam?”
“Os desse planeta não”, Fabian
disse, sem ter certeza, reproduzira um repolho não comestível na impressora da
Nexo baseado na aparência que vira no programa de televisão.
“Pegarei então um dos objetos,
mas vocês terão que ouvir a opinião de especialistas antes de responderem, pois
a questão se disfarça de simples, mas tem muitas nuances.”
“Não se enganem, pois mesmo
que pareça um, pode ser outro e mesmo que pareça outro, pode ser ele mesmo, ou
não.”
Fabian pegou lá de dentro uma
das duas coisas que estavam guardadas na caixa de papelão.
“É o repolho”, respondeu KAMU,
quase desanimado demais.
“Gostei de você, pois sabe que
falamos do Repolho! Mas não dê a resposta tão leviana, o que seu companheiro
acha?”
“Repolho”, respondeu ZEDO, em
tom de quem esperava um desafio maior.
“Pois saibam, colegas, que
toda unanimidade é burra em muitas culturas desse universo, os dois arriscarem
a mesma resposta é algo que me preocupa, pois tão fácil é a maioria ter razão
quanto todos estarem errados.”
“Está sugerindo que
reconsideremos nossa resposta?”, perguntou ZEDO, que estava mais entediado do
que KAMU.
“De forma alguma, estou apenas
colocando diante de vocês as possibilidades que podem induzir ao erro.”
“Acha que se fôssemos
facilmente induzidos ao erro seríamos secretários de recepção numa grande
empresa?”, disse ZEDO.
“Não vão reconsiderar?”
“Na verdade”, KAMU disse, “eu
vou reconsiderar.”
“Por quê?”, ZEDO questionou.
Os dois pediram licença e
foram um pouco para o lado, Fabian não ouviu nada do que falaram diretamente,
mas o Guerreiro de Nordateia Kraionte, vendo a distância, transmitiu em tempo
real o conteúdo da conversa para Fabian.
KAMU: Não sabemos o objetivo
dele com esse jogo ridículo, então cada um de nós daremos uma resposta e
veremos o argumento dele para cada resposta.
ZEDO: Esse pode ser o objetivo
dele.
KAMU: Talvez, se a resposta
quântica for proposital.
ZEDO: A sugestão é que briguemos.
KAMU: A única possível, em
jogo de limitadas opções.
ZEDO: Não sugiro algo
drástico, poderá denunciar nossa posição na trama geral do jogo.
KAMU: Nos afastemos,
discordemos simplesmente e façamos de conta que estamos prestes a tomar
caminhos diferentes para o trabalho.
ZEDO: Que aliás, está quase no
horário, temos que liquidar logo esse jogo.
KAMU: De fato, se alguém
chegar na empresa terá o bom senso de nos aguardar para ser atendido, mas
devemos liquidar logo esse jogo para evitar que tenhamos nossos nomes
pronunciados na ouvidoria.
Ambos voltaram, um pouco
separados, Fabian disse:
“Decidiram?”
“Eu decidi”, disse ZEDO, “e
mantenho, não vou compactuar com a falta de lógica do meu companheiro que por
motivo que não compreendo é o 1º Secretário de Recepção.”
“Eu digo que é o Raposo,
respondendo ao comentário devo acrescentar que é por esse tipo de resposta que
estou na posição em que me encontro, sei como podem pensar outras espécies.”
“São ambos muito espertos!”,
disse Fabian, “ou nenhum de vocês é esperto, cada um diz uma coisa e nada disso
condiz com o que quer que seja, pode ser que um esteja correto, ou outro esteja
correto, ambos podem estar errados, mas cada um com uma resposta não terão dois
corretos e necessariamente um de vocês carregará o fardo do fracasso em jogo
tão simples.”
“Estamos decididos!”, ambos,
ZEDO e KAMU, disseram ao mesmo tempo.
“Já repararam que esse que eu
peguei está inquieto e quer voltar para a caixa de papelão?”
“...”
“...”
“Sabem quem prefere estar na
caixa de papelão do que no colo?”
“...”
“...”
“Eu vou dizer, pois se tem uma
coisa que não suporto é levar infelicidade para os outros, as coisas tem que
ser justas, no planeta de origem desse jogo todos sabem o que é um gato, no
caso nosso, lembrem-se, ele tem um nome, que é Raposo.”
“...”
“...”
“Os gatos amam caixa de
papelão, qualquer outra coisa não suporta ficar tão quietinho dentro de uma
caixa de papelão.”
“...”
“...”
“Diante dessa informação,
crucial para o desenvolvimento do nosso questionário, qual a resposta de
vocês?”
“Eu mantenho, é o Raposo”,
disse KAMU.
“Eu troco, é o Raposo”, disse
ZEDO, já nem tão entediado.
“Nessa caso eu troco, deve ser
um repolho”, disse KAMU.
“O Repolho, mas não se pode
deixar levar pelos outros, é uma interferência indesejada no processo de
observação.”
“...”, pensou ZEDO, “Ok, nesse
caso eu mantenho, é o Raposo.”
“Veremos...”
Como quem não queria nada, Ros
circulava pela recepção esperando os atrasados secretários voltarem.
Ela estava disfarçada: o
cabelo amarrado em uma trança, uma gorro preto, um coturno alto, calça preta e
uma camiseta preta com uma estampa em escala de cinza com a imagem de um templo
em chamas, trazia um sorriso sarcástico e mal humorado incomum para ela e os de
sua espécie, uma corrente pendurada em sua calça, um piercing no meio de suas
narinas, unhas pintadas de preto, tudo muito supérfluo para uma operária da mão
de obra especializada espacial.
Ninguém desconfiou dela, ela
não era a mais adequada do grupo para essa parte do plano, mas ela disfarçada
era um trunfo, pois ninguém nunca pensara em um federado disfarçado e talves
até muitos deles andem disfarçados por aí descobrindo segredos, realizando
sequestros ou ameaças, plantando cartas misteriosas e explosivos, a tomaram por
uma jovem imatura de sua própria espécie, talvez indo falar com o pai no
trabalho, talvez estagiando em algum setor.
Ela olhou a relação de setores
no mural atrás da recepção, três andares para financeiro (14º, 15º e 96º) e um
para pesquisa (3º), que dividia com o salão de jogos.
Era óbvio que o ser que ela
procurava estaria no 96º andar, por isso mesmo não poderia estar lá, no 14º ou
15º andar então, olhou melhor, as horas, o pessoal do financeiro sempre tinha
um horário de almoço estendido, ele poderia estar no salão de jogos, já tinha
dado tempo de almoçar.
Pegou o elevador, ninguém a
questionou, se ela estava no corredor naquele horário, os secretários de
recepção deveriam estar cientes, sozinha no elevador apertou a tecla 3, depois
de poucos segundos saiu do elevador.
Não foi difícil diferenciar o
lado que levava para a pesquisa do lado que levava para o salão de jogos,
apesar da tentação de explorar o setor de pesquisa ela se controlou, pois já
havia acumulado muitos problemas.
No salão de jogos havia várias
salas espaçosas, com vários jogos físicos ou digitais de diversos tipos
diferentes e a maioria ela nunca havia jogado, apesar do seu gosto por jogos,
mas nesse tipo de ambiente raramente se joga e vários funcionários
espalhavam-se pelos sofás e cadeiras, a dormirem, cochilarem ou meditarem.
O planeta estava sendo
destruído, por forças naturais, não havia para onde escapar, ele tinha tudo que
sempre quisera naquele planeta, mas queria escapar e não tinha como, seu corpo
mole e desanimado fitava os ventos fortes aproximando-se esperando ser
arrastado e morrer, não conseguia imaginar como morreria, na chuva, soterrado,
engolido pela lava, sufocado... tentaria não gritar, tentaria não chorar, não
sabia se era possível.
Sonhava com isso desde que
ganhara o campeonato de arcanos maiores.
Sempre acordava antes de
morrer, mas já sofrendo, dessa vez acordou mais cedo, quando via as árvores ao
longe cedendo ao vento selvagem.
“Acorda criatura!”
Ele acordou, assustado e
sentou, ela ficou de pé, olhando sem sorrir e sem disfarçar o ódio, que por sua
vez era um disfarce.
“Quem é você?”
“Não interessa, você está com
um dinheiro que não é seu, devolve.”
“Como me encontraram?”
“Não interessa, me entrega o
dinheiro.”
“Você está disfarçada.”
“É claro que eu estou, mas
agora é tarde, devolva o dinheiro.”
“Eu ganhei o campeonato, o
dinheiro é meu.”
“História comovente, agora
entrega o dinheiro.”
“Eu gastei tudo, posso
devolver parcelado.”
“Para de ser chato! Não se
parcela dívidas fora dos sistemas bancários reconhecidos por governos ou
empresas.”
“Não sabia que sua espécie
aceitava trabalhos de cobradores, é uma federada!”
“Não aceitamos esse tipo de
trabalho, mas aceitamos de espancadores, acredite, meus tentáculos são mais
fortes do que os seus.”
Ros levantou o tentáculo e
Drogu se encolheu, gritando:
“Pode me bater, é a atitude
dos covardes, estou acostumado.”
“Você gastou mesmo o
dinheiro?”
“Sim.”
“Com o quê?”
“É...”, ele pensou e olhou
para todos os lados, “naves, viagens, roupas, acessórios, essas coisas.”
“Que triste.”
“Até minha espécie é sujeita
aos vícios, tudo que comprei perdi em jogos.”
“Isso é idiota, mas também é
triste.”
“Tenho pesadelos constantes
com o mundo onde estou acabando e não consigo fugir.”
“O fruto de um trabalho
desonesto só pode ser amaldiçoado.”
“Disse a cobradora.”
“Espancadora”, corrigiu Ros,
“é um trabalho honesto, muitas pessoas são incapazes de espancar outras, ou
estão indisponíveis para isso.”
“A Dispersadora vai te
procurar e vai cobrar a dívida, não posso garantir que levará você de forma
confortável para que você pague com trabalho.”
“Ela vai me escravizar?”
“A morte é um desperdício, não
é como se ela estivesse querendo manter a fama, quase toda criatura sensciente
já a teme.”
“Mas perderei o emprego aqui.”
“Você liga para o departamento
de relações enquanto caminhamos para a minha nave e informa que está se
demitindo, assine digitalmente e você será um empresário buscando experiência
inovadoras.”
Ao ouvir isso, ele refletiu.
Ela continuou.
“Antes você liga para seu
banco, pedi um refinanciamento da sua dívida, pelos juros que te oferecerem e
esse dinheiro vai abastecer minha nave para dar uma volta no universo, se necessário,
não se preocupe com os juros, você não vai pagar mesmo.”
A vida de Drogu já estava em
frangalhos.
De sucesso mesmo, só o
financeiro e ultimamente até isso estava em perigo.
Então ele disse “tudo bem” e
foi andando, se arrependendo de não ter ido no banheiro antes.
xi. Próximo Passo
Reuniram-se novamente na Nexo,
os créditos já haviam sido liberados para Drogu, que em seguida avisara a
Hakumas de sua demissão, transferiu para a conta de Fabian, o único dentre
todos que tinha uma conta individual em um banco amplamente conhecido.
Ros falou para Rlyeh666 que
estava certa, a jovem não precisava se arriscar, só precisava tomar conta do
gato, que mesmo morto gostava de correr atrás de fios, comer e carinho.
Fabian voltou o gato de
ancoragem, deixara o Raposo lá como brinde aos dois participantes ilustres do
seu show, não sabia se eles iriam temperar com vinagre ou comprar uma caixa de
areia. O Guerreiro de Nordateia Kraionte voltara com ele.
Drogu foi cumprimentado apenas
por Fabian, que disse “oi amigo! Obrigado pelo dinheiro, nunca estive tão rico!
Pena que tenho que trabalhar”, o Guerreiro de Nordateia Kraionte ignorou a
presença.
A Dispesadora apareceu, Drogu
tremeu da ponta dos tentáculos inferiores às membranas na cabeça, ela disse:
“Se for útil para nós, posso
abreviar os seus serviços em algumas décadas.”
Ros e Fabian, sentam-se para
pilotarem a nave:
“FLOITHCAJO fica em um setor com vários
serviços, podemos abastecer lá para a longa viagem que faremos depois”, disse
Fabian.
“A minha dúvida”, Fabian disse, começou e
não terminou, pois Ros a interrompeu.
“A Nexo aguenta, desde que não atravessemos
com ele.”
“Ele é nosso amigo, ou quase, sabe que não
é totalmente seguro.”
“O Mercado de Relógios não vai admitir
nosso atraso, talvez o universo também não admita.”
“Ele não vai gostar disso”, Fabian
lamentou.
“Contaremos apenas na hora”, Ros encerrou o
assunto.
xii.
Conversa de Ratos
Chegaram em FLOITHCAJO.
No local indicado pelo dispersador.
O Guerreiro de Nordateia Kraionte saiu para
ver paisagens sublimes.
A Dispersadora saiu para tomar algo forte.
Drogu foi deixado amarrado, com uma corda e
um nó, em plena nave espacial.
Rlyeh666 teria que ficar com ele, mas pediu
para ir com alguém, que o nó estava firme e nem se ele tivesse cem tentáculos
conseguiria soltar, não queriam ela com os que iriam encontra Yuri, a
Dispersadora e o Guerreiro de Nordateia Kraionte não pareciam os melhores
adultos responsáveis.
Na falta de outras opções, ambos cancelaram
seus planos e levaram a jovem Rlyeh para almoçar e tomar algo depois que não
alterasse sua percepção.
Fabian e Ros foram para onde poderiam
encontrar Yuri.
Solentemente, Yuri fingiu que não os
conhecia por quase dez segundos, antes de falar:
“Quem é o primitivo?”
“Oras, deixa disso”, disse Ros, “são
comentários que nem percebemos a maldade.”
“Mas eu percebi.”
“Na verdade não percebeu, ficou sabendo
disso”, disse Fabian.
“Se não percebemos e nem você, qual o
sentido em você estar bravo?”, disse Ros.
“E não seja egoísta, o universo depende do
seu retorno”, disse Fabian.
“Terão que me matar, se quiserem me levar”,
disse Yuri, perdendo um pouco a convicção.
“Se fosse fácil, espécies mais dispostas a
isso trabalhariam no meu ramo, você tem que estar vivo, se morresse a fissura
seria permanente.”
“Pensou nisso quando fomos fazer aquele
filme?”
“É claro! Você está vivo ainda”, respondeu
Fabian.
“Não podemos discutir tudo isso na Nexo?”,
sugeriu Ros.
“Cadê KLX?”
“Livre, envolvida numa série de lutas e
revoluções”, disse Ros.
“Até ela está livre”, observou Yuri.
“Isso foi maldoso”, repreendeu Fabian.
“Escuta Yuri”, disse Ros, dando um passo
curto para a frente, “o que sua espécie costuma fazer nessas ocasiões?”
“Como assim?”
“Você está bravo com a gente, queremos que você
faça algo e que voltemos a ser amigos”, ela explicou.
“É... pedimos desculpas.”
“E como funciona?”, perguntou Ros.
“Vocês perguntam se eu desculpo vocês, se
eu disser sim, vocês ficam aliviados e voltamos a ser amigos, vocês evitam
tomar as mesmas atitudes que levaram a essa situação.”
“Não é o caso”, Ros começou a refletir,
“mas, se essa atitude for necessária que se faça novamente.”
“Pode ser desculpável ou não, pode acabar
uma amizade, são várias situações.”
“E pensamos que você era um exemplar de uma
espécie simples”, disse Ros.
“...”
“Me desculpa”, pediu Ros.
“Me desculpa também”, pediu Fabian, dando
um passo curto para a frente, “eu vivi no seu planeta, mas mágicos nunca estão
errados, não quando são ruins, nunca me atentei a esse aspecto da sua cultura.”
“Tudo bem, não foi nada.”
Ros perguntou pra que havia pedido
desculpa, se não havia sido nada, mas logo percebeu que era só uma maneira de
se expressar e riu consigo mesma ao pensar que havia pensado o mesmo que
pensaria o Guerreiro de Nordateia Kraionte.
xiii.
Tic Tac
O Relojoeiro Chefe esperou o Relojoeiro
organizar os próprios pensamentos antes de responder. Quando ele disse, foi
ouvido o seguinte por todos relojoeiros, assistentes e aprendizes presentes.
“Recapitulando: foi contratado Fabian para
realizar esse trabalho, seus meios de trabalho são precários, mas nunca
falharam e ele é bom para lidar com culturas primitivas.
A primeira etapa do trabalho foi realizada
satisfatoriamente, ele se infiltrou inconteste e localizou o ser que estava
deslocado, o convencendo a viajar voluntariamente, minimizando
significativamente os riscos causados por um confronto ou cativeiro.
Os problemas começaram quando saíram do
planeta de origem e onde havia sido encontrado o ser em questão, esbarraram num
planeta artificial que se encontra num imbróglio jurídico entre a construtora e
operadora e os descendentes dos trabalhoradores da construção do planeta, por
isso ainda sem nome cultural e fora dos mapas.
Foram ajudados por uma federada que trabalhava
nesse planeta, mas sem verbas, trabalharam na indústria cinematográfica para bancarem
a viagem de retorno do deslocado, era um filme de guerra, contudo, sobreviveram
todos envolvidos, nesse meios tempo uma criatura chamada Guerreiro de Nordateia
Kraionte se juntou a eles.
Antes que pudessem retornar o ser, uma
dispersadora os separou, posteriormente ela soube que havia dispersado um
deslocado e procurou ajuda comigo, que lhe forneci todas as informações
técnicas necessárias para ela completar a tarefa.
O restante foi separado, depois se
reencontraram aos poucos, a dispersadora juntou-se a eles e pelo que pude
calcular, estão terminando o alinhamento para a aceleração final até o ponto de
fissura.”
Um dos Relojoeiros observou:
“O planeta artificial seria visto em
radares de longo alcance, mas você teria que contratar uma prestador de serviço
com melhores recursos.”
“Concordo; uma observação a se fazer é que
são difíceis esses profissionais que trabalham com a necessária discrição, uma
civilização primitiva, ao perceber que cometeu tal erro de deslocação temporal,
poderia repetir propositalmente, como já ocorreu.”
O Relojoeiro Chefe disse: “agiu com
parcimônia, está certo, em qualquer dos caminhos erros podem ocorrer.”
Outro dos Relojoeiros disse:
“Pegaram uma Nexo, parada em um planeta e
portanto reabastecida, poderiam ter realizado o alinhamento e ido ao ponto de
fissura tranquilamente.”
“Concordo; é necessário me retificar e
acrescentar um gato de ancoragem à tripulação, ser muito útil aos prestadores
desse tipo de serviço, não podemos supor que o trabalhador vá largar facilmente
de sua ferramenta, portanto do seu meio de subsistência.”
O Relojoeiro Chefe disse: “justo, era a
luta de um ser vivo pela sua sobrevivência, esse gato de ancoragem poderá ainda
ser útil em outras tantas tarefas tão importantes quanto essa.”
Mais um dos Relojoeiros disse:
“A indústria cinematográfica é uma ideia
perigosa e irresponsável, a considerar pela importância em manter a integridade
física do deslocado, soma-se a isso o agravante de tratar-se uma película de
guerra.”
“Concordo; confesso que me desesperei
levemente ao saber disso, mas o tempo e o posterior lançamento da película me
trouxeram visões que no momento eu ignorei, precisavam de créditos com
urgência, pois a tarefa de retornar um deslocado é uma corrida contra o tempo,
além disso o contratado formulou um plano para manter o deslocado fora de
perigo, formaram uma comunidade hippie em pleno campo de batalha, mas no
subsolo, esperando serem resgatados pelo Guerreiro de Nordateia Kraionte, a
espécie mais especializada em guerra que existe.”
O
Relojoeiro Chefe disse: “ousado o plano, mas provou-se eficaz, no futuro
devemos discutir os limites dos perigos que podemos expor deslocados, mas nesse
momento foram atitudes pensadas e adequadas.”
Outro Relojoeiro demonstrou seu argumento:
“A Dispersadora me parece um ponto mal
explicado, não é espécie comum e não é comum serem ludibriados, se agiu contra
o Mercado de Relógios, devo dizer que é uma ação grave que deve ser considerada
com sua espécie.”
“Concordo; se fosse o caso, não é, foi
ludibriada, não o será mais, os dispersadores tem um lema quando fazem algo que
não deveriam, que um trabalho precisa ser desfeito e feito novamente, apenas
supomos que calcados nesse pensamento estão reconstruindo um universo inteiro
que em certa ocasião dispersaram, são lendas que deixam claro o modo de agir e
pensar dessa espécie, ela capturou o seu contratante, pois sua espécie é
mercenária, com ele me procurou para que pudesse desfazer e refazer o trabalho,
seu pragmatismo demonstra sua honestidade nessa questão e está sendo eficiente,
sem ela não estariam dispersados e sem ela não estariam reunidos prestes a
concluir a tarefa.”
O Relojoeiro Chefe disse: “verdade que ela
não causou mal no final, não trouxe bem também, foi um erro dela e não existe
instância a qual responda, se já o corrigiu, deixemos essa questão como está.”
Mais um Relojoeiro de manifestou:
“Outra criatura entrou nessa inesperada
tripulação, do mesmo planeta do deslocado, tais coincidências trazem em si
destinos mais sinistros do que parece numa vista superficial.”
“Concordo; de fato é alto que perturba,
reflexo do contratante ser subestimado pela Dispersadora, a jovem que agora os
acompanha proporcionou, junto com sua família, o encontro entre o contratante e
o deslocado, foi a referência para ele posteriormente reencontrar seus colegas
e retormar a missão.”
O Relojoeiro Chefe disse: “coincidências
costumam ser nefastas, por vezes são vantajosas, enquanto essa pertencer à
segunda categoria, aproveitemos, nada temos a temer desses encontros por ora.”
Um Relojoeiro levou o último questionamento
daquele encontro:
“É uma questão mal resolvida essa da Nexo,
teriam que realizar instalações caras, pois ela consegue realizar apenas parte
do serviço em segurança com o combustível que eles possuem, ao contrário da
antiga nave do contratante, que era um arremedo de muitas peças antigas que
realizava essas funções corretamente, antes um universo a uma única criatura, sem
dúvida, mas decerto traz desconforto a situação.”
“Concordo; a Nexo é capaz, não a ideal, me
parece que vão realizar um sacrifício, que não é o ideal, mas é o que convém
nesse momento.”
O Relojoeiro Chefe disse: “se depois de
tanto esse é o possível, a segurando do espaço se sobrepõe ao resto, não
ocultem o sacrifício pois traria apenas rumores, exaltem toda a jornada e o seu
significado.”
xiv.
Ponto de Retorno
Reuniram-se todos no convés da Nexo.
Rossima, a capitã.
Fabian Libero
Obrero de Gonçalves y Garcia Madalena Estefano, o pior mágico em muitos mundo.
Guerreiro de Nordateia Kraionte,
estrategista e guerreiro.
A Dispersadora, se tinha um nome não se deu
ao trabalho de compartilhar.
Rlyeh666, outrora Ciranda, exímia jogadora
de jogos MMO, especialista em bosses, dungeons e primeira colocada em sua
guilda nas últimas três semanas graças às conexões fornecidas pelo sistema da
Nexo.
Drogu, o alienígena executivo medroso,
agora em punição, ele pode passar um décimo do tempo sem estar amarrado.
meowwwoem, o gato de ancoragem. Morto, nem
por isso menos fofo.
“Yuri, tem alguma dúvida?”, Fabian
perguntou.
“Acho que não, mas se puderem me deixar
perto de casa seria bom, não tenho dinheiro para o ônibus, muito menos para um
avião.”
“Acho que ele está com as dúvidas erradas”,
observou Ros.
“Por quê? Dói?”, perguntou Yuri.
“Vou te explicar”, disse Fabian, começando
a andar de um lado para o outro, expondo assim a gravidade da situação, “nós
temos anestésicos para aliviar, mas sem a minha nave não é possível te deixar
na frente da sua casa.”
“Acho que tá bom, depois de tudo isso, se
me deixar no meu planeta e no meu tempo já tá bom, eu tava brincando, mas agora
vou falar sério, me deixe numa cidade, não me deixa no meio do deserto e nem em
um lugar com guerra.”
“Acho que eu e Ros somos bons de mira”,
Fabian disse, sem parar de andar de um lado para o outro, “mas você é um grão,
imagina agarrar um grão de areia e jogar para acertar um alvo, durante uma
ventania.”
“Como assim?” perguntou Yuri.
“Você terá que exercitar a coragem que eu
lhe ensinei”, o Guerreiro de Nordateia Kraionte disse, para ajudar. Yuri pensou
que apenas sentia mais medo perto do Guerreiro de Nordateia Kraionte.
“Explique em termos técnicos e acabe com
essa agonia”, a Dispersadora disse.
“Ok”, Fabian, ainda andando, retomou,
“estamos acelerando na direção da fissura já, é importante você prestar
atenção, normalmente eu devolvo ao planeta de origem, em desertos, para não ser
visto, no seu caso será diferente, não temos minha nave, a Nexo é ótima, mas
não temos tempo e nem recursos para deixá-la própria para isso, temos que
passar a matéria orgânica viva, mas ela não tem que sobreviver ao processo,
entende?”
“Vocês vão me matar?”
“Claro que não!”, Ros protestou, “a matéria
orgânica morre no caminho.”
“Vocês vão matar ele?”, disse Rlyeh666,
surpreendendo todos, que achavam que elas estava alheia a tudo que não fosse o
próprio jogo.
“Nem é nada demais, você é meu amigo, mas
estamos mantendo o universo seguro”, argumentou Fabian.
“Você podia ter me falado mais perto e ter
me empurrado pra fora!”, reclamou Yuri.
“Desnecessário”, comentou Ros.
“Aceite logo, sabe que não tem jeito e nem
tempo”, a Dispersadora disse.
“Ok... tá bom... acho que vou querer os
anestésicos, se bem que... como vou morrer? Esquece... não quero saber...”
“Eu sei que você está desorientado, mas
preciso saber se você entendeu”, Fabian parou para falar e colocou as mãos nos
ombros de Yuri, que respondeu:
“Compreendido, se o universo acabasse eu ia
morrer de qualquer forma né... deixei meus cachorros em casa, vou pensar que é
por eles, são quatro, três são bonzinhos, mas tem um que é o verdadeiro
demônio, espero que viva muito.”
“Ele está pronto Guerreiro”, disse Fabian.
O Guerreiro de Nordateia Kraionte trazia
uma faca brilhante com o fio de corte tão fino que poderia quase dizer que não
existia, que cortava só de olhar e Yuri fez o contrário do recomendado se esse
caso fosse verdade, ele arregalou os olhos e perguntou:
“Mas é necessário?”
“Isso não é necessário!”, gritou Rkyeh666,
um pouco em choque com a situação.
A Nexo continuou a acelerar, mas parou de
sair do lugar.
Ros abriu a primeira comporta e disse:
“Quando estiver feito, eu abro a outra e
arremessamos”, seria um espaço de tempo curto para todos se segurarem e
prenderem a respiração.
“Acerta direto no coração”, Yuri disse em
lágrimas, espondo o peito para o Guerreiro de Nordateia Kraionte, que respondeu
soturnor enquanto puxava Yuri pelo pulso:
“Tua espécie é fraca”, colocou a mão de Yuri
na mesa e cortou o mindinho tão rápido que ninguém conseguiu acompanhar o
movimento: “Abra!”, ordenou.
Ros abriu a segunda comporta e por cinco
segundo todos se seguraram e prenderam a respiração, lá fora o vazio preto da
fissura, Fabian e Ros seguraram Yuri, Rlyeh666 segurou o gato, apesar dele já
estar morto.
O mindinho foi arremessado para fora.
“Fecha!”, o guerreiro ordenou.
E o silêncio.
Yuri não chorava, mas havia enrolado parte
da própria camiseta no ferimento.
“Exiba com orgulho, foi um ótimo corte”, o
Guerreiro de Nordateia Kraionte, “vou tirar a nave daqui.”
“Você queria anestésico?”, Fabian
perguntou.
“Tá ótimo, só preciso de um curativo”, Yuri
respondeu, com voz baixa e olhar perdido.
“Eu faço!”, Ros se colocou, “Rlyeh666, pega
as coisas, me ajuda.”
“Sim!”
E todos fingiram por um tempo que não
teriam que decidir o que fariam a seguir.
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