Cão Afogado (Contos Portugueses Escritos No Brasil)

Das Aventuras do Cão Afogado Nos Reinos Submarinos e Seu Posterior Restauro Pelo Santo Guerreiro, Acrescido do Que Foi Feito de Seu Excelso e Cristão Tesouro e Sua Mui Apreciada Pelas Autoridades Eclesiásticas Resposta ao Executor de Maldades

“Por São Jorge e pelo Rei de Portugal!”
O grito saiu apenas em seu cérebro molhado, Diogo Cão estava irremediavelmente afogado, pobre cão afogado, bem quando conseguira um brasão e pedigree para seu raivoso nome, morreu.
O que podemos escrever sobre os mortos? Nada… Diogo Cão, aliás, nada. Me perdoem o comentário passado e infame, merece o conquistador a infâmia e se não a tem suficiente é porque são muitos os infames e muita infâmia para atribuir.
Voltemos ao afogado, chamado de pobre apenas porque perdeu todos os seus bens, levou consigo apenas suas roupas encharcadas, sua espada molhada, os paus que antes formaram um barco, todos molhados e encharcados, tanto quanto permite o oceano, por nada disso esperava o Cão.
Esperava, como esperam todos, ser bem recebido no Reino Celeste, esperava sentar-se do lado direito de Jesus Cristo e ter a oportunidade de batalhar do lado de seu padroeiro, São Jorge da Capadócia, no dia do Juízo Final, degolando infiéis de toda ordem.
O azul encontrado por Diogo na hora da morte foi de um tom mais escuro, quase negro e pensou estar sonhando, um sonho desses quase sem fim, que numa noite duram muitos dias, esperou e acostumou-se a não cair, esperou e acostumou-se a não respirar, descobriu-se o falso descobridor e quando seus olhos humanos estavam adaptados à escuridão molhada das profundezas oceânicas ele percebeu sua nova missão, digo, seu novo delírio, “estou aqui para explorar por São Jorge e pelo Rei de Portugal! Se calhar, encontro ouro e negros submersos para serem escravos para outros bons e cristãos portugueses que talvez estejam perdidos por aqui”, não demorou muito para que chegasse a (insana, totalmente insana, não mais insana do que qualquer outra) conclusão de que haveria o dia em que o rei de Portugal e seus infantes dominariam do céu aos mares e ele, como já havia se provado um nobre agente da cristandade e do reino de Portugal, fora mandado por forças superiores para explorar esses novos territórios e fazer tudo aquilo que se fazia nessas ocasiões:
colocar um marco em forma de cruz, escrever meu nome e o do reino nele, escravizar as gentes que encontrar aqui, rezar uma missa e era uma pena, apenas, que não dava para atear fogo no que restasse.
Se o incauto leitor espera por relato de solidão como o são os mui fictícios de justamente consagrados autores, não posso fazer jus a essas expectativas, alerto que toda expectativa é vã, pois por si próprias não mudam a objetiva realidade, o Cão também sofre desse mal, como um cachorro que ouve seu dono falando “vamos passear”, mas assim que entra no automóvel é levado para o veterinário, onde toma uma injeção e banho, o nosso Cão não entrou em um automóvel (inexistente naquela época e escassos no mar), nem tomou injeção, mas tomou banho e banho, aliás, antes hábito raro desse bom lusitano, torna-se aqui uma constante… do que eu dizia mesmo? Ah sim! Solidão! Solidão essa não existe para um homem esperto, ainda que afogado, como Diogo Cão, ainda mais em extensão tão bem povoadas como o Oceano Atlântico.
Antes que o leitor me acuse de pobre charlatanismo, eu peço que mergulhe no Oceano em questão, nas profundezas que Diogo mergulhou e verá os habitantes oceânicos que, larga medida, nos ignoram tanto quanto os ignoramos (aviso aos amantes dos camarões: eles, quando veem um camarão, dizem “credo! Um camarão!”, igual falamos quando vemos baratas, mas como é de se esperar, adoram comer baratas que conseguem em um mercado paralelo muito curioso com pescadores humanos que trazem de fazendas de baratas – isso existe e nem é novidade. Ainda sobre isso, fiquei sabendo de corajosos mergulhadores e filólogos que esses seres criam camarões hoje em dia, em partes para garantir a ingestão de proteínas sem destruir o meio ambiente dele, tal como fazemos com baratas hoje em dia – sim, fazemos, nem é novidade).
Devo ter parado, na continuidade cronológico disso que deveria ser um relato conciso sobre a pós-vida submarina do infame explorador de novo lupino, no ponto em que ele se acostuma com a vista e recupera, em boa parte, as habilidades perdidas pelos nossos antepassados submarinos de 
muitas era atrás, muitos passos atrás de nossa evolução, ele vê com considerável precisão o mundo que se estende diante dele, diante e em todas as direções.
Igual um bebê ele nada para lá e para cá, descobrindo que suas habilidades nadadoras tão boas quanto a de um cão propriamente, são ruins em pressão maior, a seu favor tem o tempo, que é tão longo que lhe parece sem fim e assim aprende a nadar bem, ainda que desengonçado, nada por caminhos que não tem explicação a não ser na cabeça de um nato explorador, tão bom nessa atividade acima do nível do mar, decente nessa atividade abaixo do nível do mar, não deve surpreender um leitor que busca lógica em todo relato que lê (que infeliz esse leitor, nem quero conhecê-lo, pode me deprimir só de dizer “olá”), Diogo Cão encontrou uma vila e nessa vila travou contato com submersos.
Os submersos são boa gente e Diogo Cão questiona logo se são gente, não sendo tanto serão ótimos escravos, se pergunta se já possuem o hábito de se escravizarem a si ou a outros submersos que devem existir por ali, sendo esse o caso terá descoberto a Rota do Submarino, Diogo Cão de afogado sonha com um lugar de destaque no Marco dos Descobrimentos (nota: escultura tão realista quanto a de um unicórnio, quer dizer, cavalos existem, mas unicórnios não). Diogo Cão os chama mentalmente de submersos e por conta de um nome dado por um estrangeiro do Velho Continente nós usaremos esse nome, o que posso dizer sobre isso? O hábito é algo terrível…
Contudo, o Cão descobre que não sabe falar no submerso e tem logo que aprender a língua submarina dos submersos, língua essa que por conta de seus vocábulos e regras para conjugação de verbos e alocação de adjetivos, pode ser pronunciada quase sem problemas por uma fisiologia humana submersa, espero que agora vocês tenham entendido os mergulhadores e filólogos, que aliás são uma pessoa só, que deveriam ser chamados, na verdade, de filólogos mergulhadores.
Aprendendo esse novo e estranho idioma, que obviamente não tem nem “F”, nem “L”, nem “R” (os submersos não fodem com a vida dos outros, nem ladram que nem umas bestas, nem roubam os bens dos outros, portanto, sem foder, sem ladrar, sem roubar), Diogo Cão integra-se estranhamente a essa comunidade, descobre para seu descontentamento que não fazem guerras com outros tantos submersos que se espalham em vilas e cidades por todo Oceano, portanto não possuem escravo, mas se anima ao saber que batalham pois as bestas submarinas são muitas, tantas que São Jorge, depois de liquidar as bestas da Lua, convém que venha às profundezas, Diogo Cão logo grita “por São Jorge e pelo rei de Portugal!” (grito esse que sai esquisito, pelas dificuldades semânticas de pronúncia já descritas), os submersos que o levam para caçar riem dele e ele imagina que riem com ele, “é uma alegria lutar pelo Senhor!”, o Cão pensa, entendendo tanto quanto um cão entenderia (não fui justo com o cão nessa).
Num primeiro embate, com um tubarão que leva uma luz diabólico pendurada na sua fronte, Diogo Cão puxa sua espada e descobre que ela, apesar de arma cristã, era ineficiente na pele grossa daquela criatura (tubarão tem pele?), quase morreu o afogado, de novo, é claro, se não fosse seus companheiros submarinos de caça que usaram suas belas lanças submarinas, cujas pontas são feitas de pedras submarinas e cabo de grandes ossos de animais submarinos, Diogo Cão é cristão e adaptável, além disso quer matar, pede uma dessas lanças e se lança em caçadas.
Caçadas essas lhe rendem prestígio e riquezas submarinas, na verdade é visto como um sujeito excêntrico pelos submarinos que não entendem sua gana de acumulação, mas riem disso e o Cão, sempre acha que riem com ele (não comentei, mas é algo legal quando os submarinos riem, fazem bolhas como se fizessem puns, de forma que você poderia peidar e falar que estava rindo, ou o contrário, dependendo da ocasião, teve quem comentasse que é impossível, pois teriam que ter ar em seus pulmões, eu nunca dissequei um submarino e não vejo motivo para fazer isso).
Logo Diogo Cão está como um campeão do rei de Portugal, lutando em arenas submarinas contra as feras do mar, entretendo até os reis do Oceano Atlântico, que o aplaudem e o presenteiam com um monte de tranqueiras brilhantes que Diogo Cão guarda numa gruta o mais próximo possível que consegue chegar do litoral do Congo. Mas guardar se torna um hábito, Diogo Cão luta como um campeão e varar esses corpos submarinos com os gritos surdos das plateias se torna sua missão, “por São Jorge e pelo Rei de Portugal!”, ele sempre grita e tem até fãs que repetem a fala, 
repetem como alguém que repete uma fala em polonês (pensando que se trata de alguém que não tenha nem noção do idioma polaco), como se tentassem falar sem vogais.
“Por São Jorge e pelo Rei de Portugal!”, mais um corpo varado, mais sangue que se mistura no Oceano.
“Por São Jorge e pelo Rei de Portugal!”, mais uma besta morta, mais uma breve mancha vermelha.
“Por São Jorge e pelo Rei de Portugal!”, mais uma investida, mais uma consciência que se apaga no mar.
“Por São Jorge e pelo Rei de Portugal!”, mais uma morte, mais um marco em forma de cruz com o nome de Diogo e do Reino de Portugal, em nome de Deus e da Santa Igreja.
“Por São Jorge e pelo Rei de Portugal!”, mais uma refeição.
Quantas vezes Diogo Cão gritou isso? Quantos litros de água tem no Oceano?
O tempo passa e seu olhar esvazia-se quando sua garganta se enche ao gritar “por São Jorge e pelo Rei de Portugal!”, os submarinos passam a incomodar-se, alguns se assustam, crianças que nasceram bem depois que Diogo Cão chegou àquelas paisagens não viam glória em suas ações e muitos grupos submarinos já erguiam cartazes a favor da vida das pobres bestas que eram mortas cruelmente para o divertimento brutal de incultos, quando poderiam, no máximo, serem mortas com o mínimo de sofrimento se for o caso de servirem de alimento (nesse caso, já havia quem indicasse o consumo massivo de camarões criados para isso, viu?!).
Cada vez mais vezes e por cada vez mais tempo o Cão voltava à sua gruta molhada, com seu tesouro que se crescia devagar, já era enorme de qualquer jeito, perguntava-se onde arrumaria escravos para carregar todo aquele tesouro se os submarino recusavam-se a se escravizar, ele sozinho não conseguiria escravizar-lhes.
Oferecia, como não deve surpreender os ingênuos, caros espetáculos privados de matança para governantes submarinos e outros tipos que, tal como Diogo Cão, haviam adquirido esse péssimo hábito de acumular coisas que não necessariamente fazem qualquer sentido.
Nadando por essas profundezas, portanto, levando consigo a velha espada de aço portuguesa na cintura, que era uma marca do seu visual, e sua inseparável lança (insuperável lança!), Diogo Cão foi subitamente rodeado por um halo de luz mas não fechou os olhos, vivendo na escuridão profunda por tanto tempo jamais desacostumara a velha luz do mundo cristão, um feixe de formou ascendente e por ele o Cão foi puxado à velocidade de um espadarte, sendo levado até logo acima do nível do mar, no meio do Oceano, estranhamente calmo naquele ponto de onde não se via continente ou ilha para nenhum lado.
Diogo Cão, um pouco acima do mar, flutuando num halo de luz, magicamente seco com suas roupas restauradas e sua espada ainda cheirando sangue de gente etíope, a lança deixara lá no fundo, Diogo Cão, sua barba brilha, seu cabelo reluz, seus olhos são vorazes de repente, seus dentes se restauram, sua pele endurece, a cruz no peito de sua armadura restaurada se faz angélica com sua coloração adequadamente escarlate, os anjos não têm sangue, mas fazem demônios sangrar, do lado de quem ficaremos, dos que sangram como nós ou dos que fazem sangrar? Diogo Cão já escolheu, desde que nasceu e recebeu o santo batismo, a aguinha na testa derramada por um frustrado.
Vê, Diogo Cão, acima dele mesmo, São Jorge, com toda sua armadura, lança e esses detalhes entediantes que todo português conhece dessa figura, em seu cavalo mágico que voa como em um filme antigo, voa tanto quanto o boi de Nassau (maldito protestante!).
São Jorge o olha e diz: “virá comigo, guerreiro? Te procuramos por longo tempo e eras se passaram, o mundo hoje sucumbe ao próprio Satanás! Agora te restauro para que ascenda às alturas dignas do seu louvor e das suas habilidades! Vamos, subamos ao astro noturno onde habito desde muito tempo para lutares contra o Dragão da Maldade e seus asseclas infiéis da única verdade!”, aí o santo faz aquela pose, em seu cavalo mágico voando acima do oceano esperando a confirmação verbal do seu mais novo comandado, o Cão, como bom cão, obedecerá, mas até um cão aprende algo como um cristão e antes de correr atrás da bolinha da maldade, ele pergunta: “e o meu tesouro?”, o santo, que não se ofende, pelo contrário, entende a preocupação que em favor da luta 
cristã quele honesto homem afogado acumulou de maneira muito justa, responde: “não se preocupe, mandarei meus escravos alados pegarem para você”, além disso, o santo, como bom comandante guerreiro, entende das necessidades da guerra santa e justa e essa coisa toda, moral das tropas é a chave para o sucesso da bondade do Senhor.
E o cão, quero dizer, o Cão, para responde em alegre obediência: “Au!”

(esse “au” obviamente queria dizer “por São Jorge e pelo Rei de Portugal”, desculpe-me
leitor se é óbvio, mas asseguro que tem gente que não fala um au de cachorrês)

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