Steampunk P: Urubu -1
Steampunk Project: Urubu -1
Expulso do bar ele ruminava rancor contra os frequentadores assíduos do local, a noite estava seca e clara, pior, estava só no começo, não havia outros bares que pudesse frequentar, já havia sido expulso do outro bar existente naquele canto imundo que os habitantes insistiam em chamar de cidade, formada por uma rua larga e algumas vielas que cortavam essa rua.
Andou até a estação de trem, no início da única rua, duas semanas atrás pensara pela primeira vez que era hora de pegar o trem, mas já gastara todo seu dinheiro, que não era muito, não gastou nada por informação, agora estava preso, sem dinheiro para o trem e nem para o próximo trago, expulso dos únicos dois bares e sem meio de sair, perigoso andar pelo deserto, não tinha cavalo e não se surpreenderia se começassem a negar-lhe água, os moradores, poucos, pobres e desconfiados, desconfiavam de forasteiros, julgavam que qualquer um de fora era um criminoso ou um agente da lei, o que era ainda pior, no caso dele estavam certos duas vezes: ele era um criminoso e também um agente da lei, não conseguia mais colocar o que viera antes, se fora um criminoso que trabalhava para os governantes, ou se era um agente da lei que trabalhava criminosamente em casos que ninguém mais trabalhava.
De um jeito ou de outro, era um urubu. O erro das pessoas comuns era achar que os urubus eram criaturas altivas e carrancudas, vestidas de preto, os antagonistas pichavam nas paredes urubus com cabeças humanas e escreviam “MATE UM URUBU HOJE”, ele já havia visto um dessas pichações no lado externo de um vagão de trem e riu consigo mesmo, o desenho não era mal considerando que foi feito, muito provavelmente, na pressa e no escuro, aquele antagonista poderia ser um desenhista, mas estava desperdiçando seu tempo e sua energia fazendo cócegas nas autoridades constituídas.
Os urubus, todos sabem, é necessário, ainda que desagrade a quase todos, eles devoram o resto com os quais ninguém quer lidar, “urubus são necessários”, ele pensava consigo, quase se desculpando por fazer o que fazia, toda vez que concluía um serviço, “não tem mal, urubus comem apenas carne morta, ele estava morto de qualquer forma”, seu mantra mental se repetia tantas vezes que se tornavam palavras sequenciadas sem significados, terminava com uma frase dita mentalmente uma única vez, “urubus não sentem culpa”.
No caminho para a estação andou bem lentamente, esperava não topar com o guarda da estação, que poderia ter dormido como bom guarda de um ralo de esgoto como aquele lugar chamado de “cidade” por seus habitantes, pensou que poderia ser pior, podia estar chovendo e ele, desabrigado, tendo que dormir em um rancho vazio num chão de terra, se perguntou como sobreviviam aquelas pessoas, não havia nada por lá, minas, plantações, pastos, poços, nada que justificasse a existência daquelas pessoas ali, nenhuma atividade econômica que validasse suas vidas, além dos dois bares e alguns vira-latas amistosos.
Não tinham cavalos, não tinham armas, a energia elétrica funcionava apenas nos bares e no escritório do delegado local, que estava ausente naquele momento, mesmo assim os bares estavam com pessoas que moravam naquele lugar e bebiam, para beber pagavam, “o que diabos fazem?”, se perguntou, talvez o corpo que procurava estivesse fazendo a mesma coisa que aquelas pessoas fazem, respondendo a impulsos elétricos e simulando as atividades locais, esperando o momento para fugir dali, ou talvez decidisse ficar por lá, o que não fazia sentido, “seria melhor que um urubu me encontrasse, se fosse comigo”, mas sabia que era um erro achar que as pessoas pensavam igual a ele.
Chegou na estação, que era uma plataforma com cerca de trinta metros de comprimento, pintada de azul, forte e fosco como se tivesse sido pintado no dia anterior, a Companhia de Trens era impecável até nos locais mais afastados e imundos, “não existe longe, existe onde ainda não chegamos” diziam os funcionários da Companhia de Trens, orgulhosos por trabalharem feito cães para comprarem pão e cerveja no fim do dia. Sentou em um dos bancos brancos, impecáveis como a plataforma e do abrigo onde ficava a bilheteria e um quarto onde morava o guarda, pintada de um azul um pouco mais claro, saiu o homem baixo e forte dizendo “eu sou o guarda da estação, quem esta aí?”, a considerar pelo seu tom poderia ser o chefe de polícia, esse sim poderia prendê-lo, espancá-lo, arrancar-lhes as unhas e bater na sua cabeça até a massa encefálica se espalhar pela parede, mas o guarda da estação poderia no máximo expulsar-lhe dali, se conseguisse e naquele momento conseguiria.
Ele achou melhor conversar, negociar, “estou de passagem, amanhã vou pegar o trem e estou sem lugar para passar a noite”, o guarda da estação chegou perto dele e apontou a lanterna de luz branca para o rosto do homem, que colocou as mãos na frente da luz, o guarda da estação deu um tapa pesado com sua mão pequena e consistente, acertando o braço do homem, e gritou “tira o braço da frente”, o tapa acertou um dos braços, mas ele tirou o outro e se limitou a fechar quase completamente os olhos, o guarda da estação abaixou a luz e perguntou “qual o seu trabalho?”, pergunta irrespondível, os urubus eram parte do folclore, agentes intermediários entre a lei e a desordem, faziam o que a polícia não podia para manter os trens nas linhas.
“Trabalho em minas, opero escavadeiras.”
“Trabalha na mina de quem?”
“Estou sem emprego nesse momento, na verdade, estou viajando para assumir um emprego na cidade grande.”
“Então você não tem trabalho, vagabundo! Ainda é mentiroso, não tem dinheiro para pegar o trem, gastou tudo em bebida”, o guarda da estação disse, parecendo maior do que era, inflando o peito, exibindo o ombro largo e o braço grosso.
“Ok, estou saindo”, ele disse, levantando-se com a cabeça baixa, esperando pela possibilidade de ser acertado por um tapa ou soco daquele guarda da estação.
Saiu dali e se sentiu observado pelo outro por um tempo, andou por vinte minutos, lentamente, até chegar do outro lado da única rua, no que devia ser o fim dela, a última construção do lado direito de quem vinha da estação era um dos bares, o que o expulsara primeiro, sentou no canto, apoiado na parede, sem disposição para voltar ao rancho que dormira nos últimos dias, com uma vontade muito grande de beber alguma coisa, sem saber como encontraria o corpo que precisava devorar se nem com o dinheiro com a qual chegara conseguira qualquer informação de outro forasteiro recente.
Veio até ele, então, uma mulher, vinda de dentro do bar, saiu de lá, bateu na própria roupa, uma camisa larga que deveria ter percebido a outra pessoa, de vermelho vivo, com botões dourados, uma calça de couro apertada e uma bota igualmente preta e muito empoeirada, seu cabelo estava amarrado para trás, mas algumas mechas na frente do olho estavam soltas e ele passou a mão jogando essas mechas para trás, ela olhou para o lado e perguntou “você não acabou de ser expulso?”
“Na verdade, foi ontem, acabei de ser expulso do outro bar.”
“Sim, eu me lembro, eu vi nas duas ocasiões.”
“Você tem bastante dinheiro para beber.”
“Eles também servem boa comida, quando quero comer feijão venho aqui, por isso estava aqui ontem, quando quero pão vou lá, por isso fui lá hoje, agora voltei aqui porque depois que você foi expulso de lá o clima ficou tenso.”
“A culpa não é minha.”
“Claro que não, o ser humano tem que beber, não é? Mas você não precisava ter mostrado a arma e ameaçado todos de morte.”
“Desculpa, se eu tivesse reparado em você, talvez não tivesse ameaçado todos.”
“Claro que não, o ser humano tem que estourar às vezes, não é? Mas até para isso, convém ter algum dinheiro.”
“Eu tinha.”
“Claro, mas não tem agora.”
“O que você sugere?”
“O deserto, é claro, com sorte você morrerá já vendo os prédios da cidade grande, ouvindo os sons dos motores dos aerojatos, eu nunca vi um, você já deve ter vistos tantos que nem se impressiona mais.”
“Nunca me impressionaram, são máquinas barulhentas e caras.”
“Vai ver é por isso que os ricos não nos escutam.”
“Sabe, isso explica porque todos ficaram tão tensos e ofendidos quando mostrei a arma.”
“Não sei, nós temos facas por aqui, uma facada mata tão bem quanto uma arma, usamos elas para cortar raízes duras que comemos e com as quais fazemos bebidas, temos serras também, velhas e enferrujadas a maioria, se não matar ao menos deixa doente.”
“Não conseguiriam se aproximar.”
“O que você é? Um desses que saem por aí exibindo suas habilidades por dinheiro? Acho que aqui só vão te pagar se você ensinar a fazer dinheiro.”
“Sou um caçador, de pássaros.”
“Você opera escavadeiras no tempo livre?”
“Eu caço no tempo livre, mas ganho dinheiro com isso, por isso vim para tão longe.”
“Não o suficiente, o vapor já chegou aqui, ninguém se atreve a vir para cá, de vez em quando urubus vêm aqui, quando alguém morre no deserto e não percebemos logo.”
“E você, faz o quê?”
“Procuro água, quase não tem na região, mas só eu me ocupo disso por aqui, dá para encontrar pelo menos cinco litros por mês, se eu procurar todos os dias, faturo pelo menos cinco mil unidades muito bem gastas, a não ser que você comece procurar água também, nesse casou vou faturar mais depois que te matar e extrair toda água do seu corpo.”
“Poderia sair daqui.”
“Se eu quisesse e se eu tivesse cinco mil unidades eu poderia, mas tenho que me alimentar, beber, pagar por abrigo, pela energia elétrica alheia que quase sempre falha e comprar uma camisa nova que seja do meu tamanho e não do tamanho do meu último namorado, além disso, o cheiro dele não sai da roupa, talvez se eu lavasse.”
“Não deve ter muita opção por aqui, quero dizer, para se relacionar.”
“Não comece, eu não gosto de forasteiros e além disso, não temos hospital aqui, quando alguém nasce não é diferente de uma cadela tendo filhotes.”
“Não foi isso que eu quis dizer, enfim”, ele se levantou, com a roupa toda empoeirada, a calça jeans azul e a camisa de algodão que já havia sido branca, a bota marrom com a sola gasta. Seus olhos estavam fundos e cansados, rangia os dentes a todo momento e seu chapéu preto estava marrom de poeira, cobrindo sua cabeça de cabelo raspado, não se dava ao trabalho, naquele momento, nem de fazer maiores expressões, estava sem ideias e sem dinheiro, “acho que vou dormir”, levantou-se.
“Apareça no bar amanhã, eu te pago um trago, já terão perdoado suas ameaças, o povo daqui é desconfiado, mas não é rancoroso.”
Ele saiu e foi para o rancho, ela foi na direção contrária e entrou na primeira viela, de onde o observou. Assim que ele entrou na viela onde ficava o rancho onde estava dormindo desde que chegara por ali, não era local com hospedaria barata, apenas o delegado recebia, se necessário, alguém com dinheiro suficiente para ocupar um dos cômodos da sua casa, ele não tinha esse dinheiro nem quando chegara ali.
Estava com fome e não conseguia dormir, a noite não estava tão adiantada e parecia ficar cada vez mais quente, o ar dali, apesar do vapor já ter chego, era melhor do que o da cidade, ele conseguia respirar pelo nariz o tempo todo, o que era estranho e agradável, mas o silêncio era terrível, sem motores, engrenagens ou bobinas, ele se sentia deprimido e desesperado para terminar o trabalho.
“O que ele fez?”, perguntou para o seu contato da polícia que passou a possível localização do corpo e sua descrição física.
“Isso não interessa a você.”
“Pode dar uma pista de como encontrá-lo”, do outro lado da linha o homem respirou fundo, então disse, “ok, vou falar, mas nunca soube disso por mim, ele revendia tintas para civis.”
“Confirmando: homem branco, de trinta e cinco anos, residente desta cidade, proprietário de uma motocicleta automática e com participação nos lucros de duas miniestações de combustão para produção de eletricidade, viúvo, está escondido, muito provavelmente, na cidade de Meio Caminho, além do pagamento habitual poderei ficar com as posses que encontrar com ele, que não deverão ser poucas, correto?”
“Sim, receberá dinheiro suficiente para a passagem de ida e volta de trem pela Companhia de Trens, além do suficiente para alimentação, bebida e pequenos subornos por informação, vai viajar com os seus documentos pessoais.”
“A hospedagem nesses lugares costumam ser caras.”
“Não se preocupe, nesse lugar não existe hospedagem, você terá que dormir em um rancho qualquer, esse povo miserável detesta forasteiros.”
Detestar talvez não, mas se não era o caso agora o detestavam, o dinheiro havia acabado depois de subornos inúteis, da primeira vez ele disse “ei, você me deve uma informação”, “você me deu o dinheiro porque quis”, retrucou o barman, ele bateu com o copo na mesa com tanta força que quebrou e sujou balcão e chão com gim, o barman disse “esses copos são caros, considero esse dinheiro um pagamento por isso, posso limpar sua sujeira de graça, mas é melhor sair daqui.”
As pessoas no bar, talvez umas dez, olhavam para ele, não mostrara a arma, mas achou que era melhor sair, havia outro bar naquele buraco, quando saía ouviu alguém dizendo “se você voltar nós te mataremos”, “amistosos”, pensou, com raivosa ironia.
No outro bar, resolveu ter mais paciência e ser mais sutil, o gim era bom e as cervejas caíam bem naquele lugar, no segundo dia perdeu a paciência e depois de três subornos não recusados e a reclamação do barman por ele não ter dinheiro para pagar a dose que bebia naquele momento, sem ter qualquer informação pelo qual achava que tinha pago, ele puxou o barman negro e idoso pela gola, sentindo sua imunda barba crespa nas mãos e vociferou: “eu quero minha informação, porra”, foi imediatamente puxada para trás por um dos presentes e se virou encostando no balcão, puxando a arma escondida por baixo da camisa.
O modelo era desatualizado, mas botava medo pela rapidez com a qual atirava, seus projéteis minúsculos explodiam uma fração de segundos após o contato, o que acontecia dentro do corpo e causava grandes danos, o tamanho diminuto do projétil permitia um pente com trinta balas, mais do que o suficiente para matar todos dali, era uma possibilidade real e por causa disse ele ameaçou, “se aproximem e eu mato todos”, os homens e mulheres presente, a maioria de pele escura, alguns de pele clara, chegaram perto e o cercaram, foram andando escoltando o forasteiro que era arrastado sem ser encostado, apontando a arma mas percebendo conforme era escoltado para fora que sua ameaça era vã, perdeu a aposta.
Se encontrava agora sem dinheiro, faminto e com sede.
Não poderia sair atirando ou poderia assustar o corpo que buscava, mostrar a arma já fora grande imprudência e aquilo talvez já tivesse afastado o corpo, mas sem comida e bebida não seria possível concluir o trabalho. Voltou ao bar, ao que fora expulso por último, aparentemente as mesmas pessoas frequentavam os bares, alternando, além disso, preferia comer pão, já que feijão lhe dava inexplicáveis náuseas.
Foi até lá, abriu a porta, esperou alguma reação hostil, foi ignorado. Se dirigiu até o balcão, sentou-se, o barman idoso se aproximou e perguntou “você conseguiu dinheiro?”
“Olha, me desculpa, estou viajando e tem dado tudo terrivelmente errado. Se você pudesse me arrumar um pedaço de pão e algo para beber, poderia pagar o dobro em breve.”
“Você vai comer e beber agora?”
“Sim, como e já me retiro.”
“Então pague agora”, foi a resposta, ele sentiu-se humilhado, por ter pedido feito um cão sarnento para um homem que morava num buraco daquele, ter seu pedido negado, deu um tapa grande na mesa, levantou e disse “você vem da porra de um buraco e nega a subsistência de um estrangeiro?”
“Não me venha com essa, moço da cidade grande, você é um vagabundo e tem sorte da gente não te expulsar daqui com chutes e socos.”
“Só vou sair daqui depois de comer e beb…”, antes que pudesse concluir, um homem alto o pegou pelo pescoço, coisa que não aconteceria se não estivesse em estado tão lastimável, uma mulher começou a socar-lhe o estômago do lado, que fez com que ele soltasse um líquido amarelo pela boca no braço do homem que o segurava, as pessoas estavam em pé em sua volta, sentiu suas pernas moles e a consciência querendo se esvair, conseguiu levar o braço para dentro da camisa e puxar a arma, atirando no homem e na mulher que caíram no chão, fazendo grande sujeira no chão com o sangue que jorrava das suas barrigas e as tripas que saíam para fora com a explosão dos projéteis.
“Saiam!”, ele gritou para todos, que avançaram para cima dele e pelo menos mais dois foram atingidos pelos projéteis da sua arma antes que ele levasse uma facada no tórax e desmaiasse.
Acordou com a luz do sol, amarrado numa cadeira de madeira e com uma mesa na sua frente, viu o vapor do tem ao longe, mas não viu a cidade miserável, na mesa um pão, algumas raízes fritas em óleo, um copo vazio e uma garrafa de cerveja, na sua frente, sentado em outra cadeira, um homem com a roupa que caracterizava os delegados, couro preto e a estrela azul, não usava chapéu e seu cabelo repartido ao meio dava um aspecto um pouco patético ao seu rosto moreno e largo, já castigado pelo sol e pela idade.
“Você vai perceber que um dos seus braços está solto, para que coma e beba, mantenha ele em cima da mesa quando não estiver levando nada à boca, ou vamos amarrar você inteiro e não poderá satisfazer suas necessidades.”
“Eu levei uma facada”, ele disse, sentindo uma dor no tórax, sentiu que havia algo, provavelmente pontos.
“Depois de um trauma, as pessoas tendem a dizer o óbvio, sim, você levou uma facada, quando isso ocorre pela primeira vez a impressão do esfaqueado é que suas tripas vão sair do corpo, mas levou uma facada superficial, suficiente para cortas suas camadas mais superficiais e desviar com maestria dos seus órgão vitais.”
“Foi uma noite ruim.”
“Talvez não, você está vivo, temos quatro que estão mortos.”
“Eles me atacaram primeiro.”
“É claro. Coma, que precisamos terminar com isso.”
“O que você vai fazer comigo.”
“Coma, ou não vou precisar fazer nada.”
Ele comeu e sentiu prazer nisso, pensou que aquela não era a sua última refeição, realmente estava vivo e não teria sentido alimentá-lo para depois matar. Enquanto comia viu algumas figuras se aproximando, em cavalos magros e marrons, eram quatro pessoas: um homem e três mulheres, as mulheres jovens e com roupas empoeiradas, denunciando constantes andanças, todas ostentando armas, ainda que velhas e com pentes de poucos projéteis, eram armas, coisa vedada aos civis, se perguntou se aquele delegado poderia ter tantas assistentes, o homem não lavava arma, achou que pela descrição poderia ser o corpo, mas não era uma descrição exatamente incomum e as peças não encaixavam naquele momento se fosse ele. Uma das mulheres era a que havia conversado com ele noite anterior, apenas ela o cumprimentou, “bom dia, caçador.”
Ela sorriu, ele apenas olhou e terminou de comer, o homem que viera de cavalo disse, “a companheira disse que você é um caçador de pássaros no tempo livre, é verdade?”
“Quem quer saber e por quê?”, suas palavras soaram fracas, apesar da petulância do tom.
“É que eu sou caçador também, só isso.”
“Não sou, falei para impressioná-la, não é crime inventar uma história para impressionar uma mulher atraente.”
“Obrigada”, a mulher disse, se divertindo.
“Eu achei que eles mandariam um daqueles urubus mecânicos, com hélices e armas embutidas”, disse a mulher que o conhecera antes.
“Eles são precisos, mas não pensam, frequentemente erram o alvo ou dão como morto um corpo que ainda anda.”
“Não acredito”, ela retrucou, “o seu relato é suspeito.”
“Eu quero te explicar, então, duas coisas, pode ser?”, o homem perguntou, inclinando-se do alto do cavalo para a frente.
“Se eu não tiver opção, pode.”
“Muito bem, sabe que a caça de pássaros não é fácil, poucos tem armas, normalmente agentes do governo, mas eles trabalham muito e não tem tempo de se afastarem dos trilhos para caçar, os pássaros não passam perto do vapor, os pássaros são cobiçados, não adianta levá-los para a cidade, eles ficam cinzas em poucas horas e morrem, mesmo quando morrem antes eles ficam cinza, como as cinzas de um corpo cremada, coisa medonha, então tem quem cace esses pássaros longe dos trilhos, se eles forem mortos longe não ficam cinzas, valem muito dinheiro, um rapaz jovem com um pássaro empalado na parede da sala ou do quarto consegue ter relações sexuais com a maioria das mulheres, dá para impressionar colegas de trabalho ou trocar por cargos públicos de pagamentos mais baixos, entende?”
“Eu nunca entrei na casa dessas pessoas, não sei do que gostam na decoração.”
“Suas companhias não são tão ruins então. Continuando, esses pássaros não são fáceis de serem caçados, dá para ficar de tocaia e atirar em um pássaro desavisado no chão, mas valerá um quinto do que valeria se acertasse ele no alto, quanto melhor acertar ele, quanto mais próximo do peito, de baixo para cima, mais valerá, tem que ter habilidade e às vezes caçar um único pássaro demanda muito tempo e paciência, vale a pena se conseguir, dá para pagar todos os custos, passagem, intermediário, embalsamador e ainda sobra dinheiro para comprar… armas e cavalos, por exemplo, quem sabe um aerojato no futuro, ou motocicletas”, o homem desceu do cavalo e ficou em pé, na lateral da mesa, entre o delegado e ele.
“História chata essa, qual era a outra coisa?”
“Te passaram uma informação errada, provavelmente te disseram que eu revendia tintas para civis desautorizados, eles acreditam nisso mesmo, mas é falso, eu mesmo uso as tintas, no fim da madrugada, quando o trem já tinha feito a parada, eu pichei um urubu e a cara do urubu era parecida com a sua, as asas toscas e grandes, sabe o que escrevi?”
“Como poderia saber?”
“É verdade, me desculpa, você estava ocupado tendo o tórax costurado enquanto dormia”, o homem riu brevemente e prosseguiu, “escrevi menos um, em algarismos, tipo um placar.”
“Isso com certeza vai mudar o mundo”, o forasteiro falou, com ironia.
“Não vai, mas vai deixar eles muito nervosos, só verão quando chegar na estação da cidade grande.”
“Isso é cantar vitória”, uma das mulheres falou, “pichar o placar antes do duelo.”
“Vitórias devem ser cantadas”, o homem se defendeu.
“Não antes de se concretizar”, o delegado disse, levantando.
“Temos que resolver isso então”, a mulher que ele conheceu na noite anterior disse.
“Faremos de forma justa”, o delegado falou, “colocaremos as duas armas a dez passos de vocês e quando o primeiro se mover para a frente começa, o objetivo e pegar a arma primeiro e matar o outro, concordam.
“Sim”, o homem que chegou de cavalo falou e no mesmo momento o outro disse “não!”
“Se você matar ele”, o delegado disse para o forasteiro, “poderá tentar fugir, terá que nos matar a todos, é claro, não é impossível com a sua arma, que é muito mais rápida e precisa do que as nossas, se ele te matar poderemos reprogramar a sua arma, já que ela só funciona com você enquanto você está vivo, deixaremos seu corpo lá e nossa companheira aqui”, apontou para a mulher que ainda não tinha falado nada, “vai ficar de tocaia naquela rocha”, apontou para uma pequena formação rochosa em forma que se assemelhava a um “S” de uns oito metros de altura perto dali, “como está calor os urubus chegarão logo, quantos você consegue acertar com a arma dele?”, o delegado perguntou para a mulher.
“Quantos aparecerem”, ela respondeu, sorrindo orgulhosa.
“Ótimo, contaremos com três de início, venderemos para três figurões da Companhia de Trens, funcionários jovens do administrativo, ou subchefes de um setor de engenharia, o que eles nos pagarão vai financiar os explosivos que vai explodir suas moradias com suas famílias burguesas.”
“Vocês julgam que isso fará diferença”, ele, amarrado, disse, ainda na esperança de não ter que duelar.
“Não fará, mas eles vão querer fazer uma demonstração de força nos caçando com tudo que tem, choverá urubus”, a mulher que ele já conhecia disse.
“E de que forma isso os favorece”, ele questionou.
“Se sobrevivermos, seremos mais fortes e resilientes que eles, estaremos prontos para atacá-los”, ela disse, “destruiremos a e engrenagem que move todas as outras, ela é a menor e quebra fácil, quando ela quebrar todas as engrenagens começam a se soltar e podemos construir outra máquina, onde todas as engrenagens rodem iguais.”
Ele, sem muita disposição para analogias, não buscou entender muito, apenas disse, “podemos fazer isso logo, então?”
“É claro”, o delegado disse e foi até ele, para desamarrá-lo.
As mulheres se espalharam a cavalo, ficando em três pontos distintos e os dois duelistas afastaram-se na direção oposta, com o delegado contando os dez passos, eles se viraram um para o outro, o delegado afastou as cadeiras para o lado e colocou as duas armas na mesa, uma velha de seis balas no pente que apenas perfuravam como pequenas lâminas, outra mais nova, mas não a melhor, com ainda quarenta e seis projéteis no pente, que apenas um explodia o local e mesmo que acertasse em local não vital incapacitava.
O delegado afastou-se também.
O primeiro a se mover foi o forasteiro, os dois correram, ele chegou primeiro na mesa e quando o outro já estava com a arma na mão o forasteiro acertou seu peito, que explodiu e ele caiu, o forasteiro se abaixou e virou para o delegado, antes que atirasse foi atingido na cabeça pelo rifle da mulher que conhecera na noite anterior.
As mulheres e o delegado se reuniram perto dos corpos, os outros acenaram para aquela que ficaria para caçar os urubus, pegaram o corpo do companheiro deles, colocaram no cavalo, o delegado guardou a arma dele no cinto e se retiraram.
A caçadora foi até o corpo do forasteiro pegou a arma, a reprogramou para si mesma e foi até um espaço no meio da pequena formação rochosa, à sombra, ainda se via o vapor se afastando e ela esperaria os outros urubus chegarem para serem abatidos.
Comentários
Postar um comentário