Pandemia Ano 100 - Capítulo I
Sejam bem-vindos ao ano 2121, ou o centésimo primeiro ano de pandemia.
Vocês acompanharão um pouco da história de Elena, uma garota da idade de vocês que mora em um dos muitos bairros de Pindamonhangaba que foram virtualmente abandonados no decorrer da pandemia e com o fim das escolas públicas.
Por sorte (sorte mesmo!) ela aprendeu a ler e a escrever, graças a esses incríveis superpoderes dela essa história acontece. Graças ao mesmo incrível superpoder de vocês essa história pode ser compartilhada.
Toda semana, nas aulas de História, vocês terão um novo trecho dessa História, que eu só não conto inteira de uma vez porque ainda não existe, afinal, nem aconteceu ainda. Ao longo da história de Elena vocês terão acesso às habilidades essenciais das aulas de História que constam no currículo e outras tantas coisas que não constam mas também são importantes para formação de cidadãos autônomos, conscientes de sua missão histórica e, principalmente, um pouco revoltados.
Tenham uma boa e proveitosa leitura!
Professor P, de História.
PANDEMIA – ANO 100
(Um Guia Literário Para As Aulas De História)
Capítulo I
A vida de Elena era um constante ruído, morava perto de uma rodovia e o barulho de carros, motos e, principalmente, caminhões, era constante, de madrugada que passavam menos veículos o barulho deles parecia mais alto, nunca havia contado mais de trinta segundos sem um veículo passar e, de certa forma, invejava a vida daqueles que dirigiam esses veículos, mesmo ciente de que não era uma vida tranquila a de motorista, ao menos circulavam e viam paisagens diferentes, poderiam até parar em algum lugar longe da rodovia, em alguma estrada sem movimento ou em um bairro mais próximo do centro da cidade, fechar os olhos e serem embalados por sons mais sutis do vento, das folhas da árvore...
Se o ruído era constante, algumas coisas tornavam-se mudas, como o vento, constante e constantemente mudo, uma coisa é parar na beira da rodovia de vez em quando para abastecer, para usar o banheiro, para comer alguma coisa e nesse momento sentir o vento implacável e sem barreiras fazendo os pelos ouriçarem mesmo em dias de sol, achando até certa graça nisso e comentando para alguém “nossa! Que vento! Até meus pelos ouriçaram”, ela também se perguntava em seus devaneios se gostaria mais daquele vento que tomava distância para atacar-lhe com frieza se o encontrasse apenas ocasionalmente, aparentemente era a única da sua casa que se incomodava com o vento frio que corria com os veículos na rodovia e invadia as casas próximas, seus pais sempre abriam as janelas em dias de sol e calor, ela sempre fechava logo em seguida, não se lembrava de ver árvores com folhas quietas e o mormaço era apenas uma ideia abstrata para Elena.
Havia acostumado a essas coisas como quem manca, ao nascer com uma má formação ou sofrer um acidente, vive bem, faz de tudo, mas sempre manca.
Se de um lado ela via rodovia, na verdade via apenas o teto dos caminhões por causa dos muros de uma antiga escola que ficava entre sua casa e a rodovia, do outro lado ela via os morros e um monte de casas abandonadas, até havia outras pessoas ainda vivendo naquele bairro, ao menos era o que seus pais diziam, ela não tinha certeza disso, às vezes via pessoas por perto, nunca a mesma pessoa, não era comum vê-las e não tinha como saber se moravam naquele lugar.
Pelo que diziam seus pais, as pessoas começaram a ir embora de lá e de tantos outros lugares alguns anos depois do início da pandemia, situação que se agravou com o fim das escolas e a instituição do ensino remoto não obrigatório para todos. Sejamos claros, até era obrigatório, mas não existia órgão com competência e vontade para fiscalizar, desde que o censo fora interrompido temporariamente em 2020 nem a quantidade de jovens em idade escolar se sabia, alguns Estados da federação faziam estimativas, universidades faziam suas estimativas, nada mais do que isso.
Como já foi comentado, a vida de Elena era um constante ruído, um vento implacável e frio, mas ela poderia afirmar (e afirmaria isso muitas vezes ao longo da vida) que era uma pessoa de sorte: ela aprendera a ler.
A maioria das crianças e adolescentes que aprendiam alguma coisa, essencialmente ler, escrever e um pouco de matemática, aprendiam pelos canais do governo, no caso essas pessoas tinham acesso à internet, coisa pública na maioria dos lugares, mas onde Elena morava não existia internet pública e empresas particulares não se davam ao trabalho de atender uma única família moradora de um bairro quase abandonado, a internet para dados móveis era cara e raramente o sinal alcançava nesse local e sua família usava apenas para emergências ou compras.
Mesmo assim ela aprendera a ler e a escrever com seu pai e sua mãe, pessoas que gostavam de ler e sabiam escrever, aprendera com eles também um pouco de matemática, mais de ciências e bastante de história e geografia. Seu pai, aliás, um contador de histórias, reais e mitológicas, quando não nenhum novo relato para lhe contar sobre os turcos-otomanos, ou sobre os deuses gregos, ou qualquer outro assunto dos mais variados, inventava alguma coisa e Elena prestava muita atenção, lamentando-se da sua cabeça não ser um disco rígido onde pudesse guardar cada palavras daquelas histórias que cada vez que seu pai contava saía de um jeito diferente, como uma música tocada de improviso. Histórias essas que ele aprendeu lendo, dos livros que eventualmente comprava, dos livros que trazia para casa, tendo saqueado alguma biblioteca escolar abandonada, já que trabalhava no Departamento de Limpeza de Materiais Potencialmente Contaminados, ou seja, recolhendo, estocando, eventualmente queimando coisas que circulavam entre várias pessoas nos primeiros anos de pandemia, além disso sempre se dizia que o vô do seu pai era um contador de histórias, que por sua vez aprendera com o pai, ou seja, o tataravô de Elena, o último desse lado da família a nascer antes da pandemia.
Já a mãe era uma mulher de fatos, de planejamento futuro, não muito de sonhos e histórias mitológicas ou de povos fora de circulação no tempo atual, contava-lhe como era o mundo de agora, como eram os lugares, quais eram suas possibilidades, que teria que aprender muito para ter chance de ingressar numa universidade, que dariam um jeito para que ela estudasse, pois para estudar na faculdade era necessário uma conexão constante à internet, explicava sobre como as pessoas ruins também envelhecem, sobre como as pessoas novas também ficam doentes, sobre como ela estava só fora de casa e era necessário que soubesse se proteger de vírus e humanos, pois uma hora teria que sair com mais frequência. Sua mãe trabalhava na assistência técnica de sistemas escolares, o que na prática não fazia muita diferença, os sistemas de aula remota falhavam todos os dias de alguma forma, ela não poderia fazer muita coisa sobre isso e de qualquer forma quase não tinha internet em casa, de forma que passava o dia em atividades paralelas, pois trabalhava de casa, nunca sendo questionada por seus superiores, que nem sabia quem era, uma vez por semana, normalmente na sexta-feira, aparecia presencialmente no Centro de Tecnologias Educacionais, onde preenchia um formulário no computador e esperava sentada e jogando no celular passarem as oito horas do seu horário.
A jovem Elena desconfiava que não se mudavam para que sua mãe não fosse obrigada a trabalhar de fato, já que se tivesse uma conexão constante à internet sua mãe teria muito trabalho, ainda que não fizesse diferença o seu trabalho. Certamente a mãe detestava trabalhar.
Nesse passo passaram-se os anos de Elena e como um sinal surge um elemento inesperado, seja do céu, seja do subsolo, ao sair pela porta dos fundos, com vista para o que restava das outras moradias e dos morros infinitos, onde gostava de se sentar para ler um livro, ela viu algo refletindo o sol no mato do terreno do lado, então deixou o livro na cadeira de plástico, passou por um buraco na grade e foi até onde estava o objeto que refletia sol se perguntando sobre a possibilidade de ver aranha, cobra ou escorpião por ali.
O objeto era uma garrafa e havia algo dentro, talvez sugestionada ela sentiu algo coçando, pegou a garrafa e correu de volta, ao passar novamente pela grade sacudiu-se toda, olhou perto e reparando na garrafa, transparente, viu que havia folhas de papel dentro.
Um náufrago?
Estava longe do mar e qualquer rio navegável estava quilômetros longe daquele lugar, só se fosse um náufrago da lua, ou um náufrago do centro da Terra.
Puxou a folha e não conseguiu tirar, usou os dentes mesmo achando nojento e mesmo assim não conseguiu tirar, foi até a sala onde a mãe estava a jogar no celular e pediu para a mãe abrir, sua mãe era forte, ela achava que era a mãe era mais forte do que seu pai, mas não conseguiu abrir. Sua mãe lhe devolveu a garrafa e deu a sugestão: “pode quebrar, mas faça isso com cuidado e recolha os cacos”, era uma mulher prática.
De volta do quintal dos fundos, Elena colocou a garrafa no chão, pegou um pedregulho ali perto e quebrou, tirou as folhas de papel com cuidado e colocou em cima da cadeira, onde seu livro a esperava pacientemente.
Recolheu os cacos grandes, colocou na pá, varreu os pequenos e os colocou em um balde destinado a vidros quebrados que havia na sua casa.
Voltou ao quintal, pegou o livro e as folhas, sentou-se e começou a ler aquelas folhas amareladas e com um cheiro que parecia de mar (mas poderia ser de lua).
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