queda
queda - história de um soldado que morreu, o último a morrer, depois que o acordo de rendição e paz foi assinado, antes que a notícia chegasse ao front
Seria considerado um milagre estar vivo, mas para isso eu teria que estar vivo, observei nos últimos anos uma grande quantidade de relatos desses tempos incertos e havia uma lacuna óbvia: não havia relatos dos mortos, talvez seja porque a maioria dos mortos vão para outro lugar, ou somem completamente desse mundo e não escrevem o que aconteceu depois que morreram, nem vou considerar os delírios espirítas ou relatos duvidosos de programas de televisão, profetas desesperados e burgueses desocupados, me coloco como voz desse grande número de pessoas que morreram, fomos muitos que morremos da doença e isso nos torna um grupo maior do que muitas nacionalidades e se nos juntarmos aos outros que morreram seremos muitos mais, em uma guerra do exército dos mortos contra o exército dos vivos os vencedores serão os mortos, são mais numerosos, mais experientes e não morrem mais, o que é uma grande vantagem numa atividade onde o objetivo é matar o outro, os vivos perguntarão “o que vocês querem de nós?” já que não teremos nada para pegar, seria um conflito terrível e se eu fosse vivo eu agradeceria todos os dias o fato de não ter motivos para acontecer, podemos imaginar uma série de motivos para que uma pessoa que morreu continuar, de alguma forma, entre os vivos, eu que estou entre os mortos penso que é só azar, ou um erro em um sistema qualquer, deve ter acontecido com outros, mas não temos e nem temos como ter uma rede de contatos de mortos que não partiram, se alguém me perguntasse eu afirmaria que esses mortos simplesmente de dissipam e se tornam o nada que eram antes, haverá o momento que acontecerá comigo, por ora eu continuo no meu corpo, agora morto, apodrecendo e sem circulação de sangue, meus pensamentos e movimentos têm sua origem em seja lá qual força de um erro no sistema, um sistema automático, não vou entrar nessas questões, estou apodrecendo, se eu sentisse algo eu poderia ter a sensação dos meus órgãos se soltando, dos primeiros vermes que surgem no meu interior, a velocidade disso é impressionante nesse calor, mas não sinto calor, percebo o ar parado e vejo o sol pela janela, passei dois dias parado e esperando, não tive fome e nem vontade de mijar ou qualquer outra necessidade fisiológica que me impulsionasse, não tenho emprego já que fui desligado quando morri e penso que se eu entrar com um processo contra a empresa, como não há jurisdição clara para o meu caso, até um juiz decidir eu já estaria completamente apodrecido, é triste a situação de um cadáver, mas também muito rápida, não tenho muito com o que me preocupar, apenas esperar o tempo passar e ver até onde vou. Enquanto isso vejo o final do desastre, do longo e arrastado desastre que foram os últimos anos, que não levou ninguém muito próximo de mim, mas levou a mim mesmo, como um prisioneiro que morre em um acidente logo depois da fuga, como um náufrago que morre na praia, como um soldado que morre um dia depois que a guerra acabou, pois no seu campo de batalha ainda não receberam a notícia, assim foi minha morte, quando as mortes já quase não aconteciam mais por aquele motivo, a doença, o quase pode ser tranquilizante, mas não te exclui de ser um candidato a morto e ainda leva a fama de azarado, infeliz, coitado, idiota, imbecil, burro e por aí vai, morte ingrata, não deveria fazer diferença, mas uma vez que estou aqui para presenciar um pouco do mundo depois da minha morte eu sou obrigado a conviver com esse tipo de pensamento, me conforto com a ideia de que para quem morre e não deixa o mundo dos vivos toda morte é ruim, mas talvez no meu caso seja pior mesmo, meses sem um morto pela doença, alguns casos em um lugar ou outro, poucos a serem vacinados e eu entre eles, cheguei a tomar a primeira dose, mas no dia de tomar a segunda eu já estava acamado, então morri e o resto não foi silêncio, saí daquele lugar esbranquiçado depois de apanhar minha roupa usada no último dia, era madrugada e andei até em casa, as pessoas desviavam de mim e atravessavam a rua, mas ninguém me parou, chegando em casa eu entrei e esperei morrer, ou pelo menos que minha consciência parasse de existir, liguei a televisão um pouco e me irritei rápido com todas as notícias e propagandas otimistas de um mundo saudável e normal, os últimos a serem vacinados, uma vitória da humanidade, não acho que existia um motivo para eu estar nessa situação, mas já que estava era justo que eu deixasse do ponto de vista dos que, assim como eu, morreram, estou escrevendo, não sei até quando, um aviso, os vivos lutam contra seus futuros aliados, apenas os mortos ganham, é uma vitória que estou tendo agora e a sensação que ela me traz não é boa, tédio sem perspectiva de melhorar, não tenho o que fazer e nem tenho no que pensar, não posso fazer planos e nem me lamentar das minhas ações passadas, não posso nem dizer mais que a vida é injusta, pois ela não faz mais parte de mim, não posso mais tomar sol, ou até poderia, mas não faria sentido, meu corpo não absorve mais vitamina d e eu não sinto mais o sol em mim, o vejo como luz opaca e distante, isso aceleraria ainda mais meu processo de descomposição, estou podre e apodrecendo em ritmo cada vez mais acelerado, sou a visão dos vivos, daquilo que não se vê nos vivos, olho pela janela e invejo cada um, o que está sentado na calçada, o que está passando bêbado e até os que sofrem, do rapaz capisbaixo, da mulher correndo do marido agressivo, da criança sem lar que deita na calçada, eu os invejo todos, com seus corpos de sangue pulsante e cérebro eletrizante, com suas visões e ilusões, não posso nem imaginar o que farei quando minha consciência sair daqui e ainda que pudesse, não faria sentido, vou para o desconhecido, para a inexistência e serei apagado, um número, um dos últimos, dos mais patéticos números desses tempos incertos, enquanto todos comemoram eu morro, enquanto todos celebram eu morro, enquanto todos respiram aliviado eu não respiro, meu tempo passou e não chegou ao fim, eu não queria mais tempo, tampouco queria morrer, mas tendo morrido eu queria morrer em definitivo, deixar meu corpo para deixar de existir, largar disso tudo, nunca mais televisão e seres humanos alegres ou tristes, assumo agora a possibilidade de escrever para lhes contar como é e imagino que dirão que se tratava de delirante à beira da morte quando na verdade já caí no abismo e não tendo mais nada para contar, eu apenas me manifesto usando essa antiga arma da humanidade de permanência da memória, nada me move além da minha despropositada ação em si, nenhum motivo para me colocar presente aqui, nenhuma razão ou sentimento, nenhuma posição política, sem esperança, igual um corredor que chegaria em terceiro mas tropeça na pista lisa metros antes da chegada e nem completa a prova, perde a medalha, a glória e é desclassificado do mundial, meu corpo começa a falhar, meus pensamentos a minguarem, meus sentidos vão me deixando e nessa queda me aproximo do chão...
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