Julgamento de Belchior (Contos Portugueses Escritos No Brasil)


Belchior Nunes Carrasco não estava surpreso, nem impaciente, esperava sua vez como tantos faziam e diferente de muitos, que se faziam de pacientes para não desagradar as angélicas autoridades, ele se mantinha paciente sem se irritar, homem disciplinado que chegou aos incríveis quarenta e sete anos de idade, um verdadeiro feito para um homem do povo do seu século, sua morte foi lamentada pelos parentes, que não ficaram surpresos, já comentavam pelos cantos que ele talvez fosse o próximo a ser levado, as autoridades do reino também lamentaram sua morte, aos quarenta e sete anos ele ainda exercia seu ofício com uma precisão jamais vista naquele ou em outro reino, não havia substituto à sua altura, seus filhos não seguiram seus passos e dedicaram-se às formas mais primitivas de matar se juntando aos exércitos do rei e partindo em guerras e expedições contra os infiéis e os bárbaros, ainda que sua morte fosse lamentada pelas pessoas que conviviam com ele, quem mais lamentava sua morte eram os condenados, que tinham nele a certeza de uma morte rápida e misericordiosa, coisa tão rápida que se alguém voltasse poderia informar que não doeu nada, os choros e os gritos desesperados nas masmorras reais foram ouvidos por toda Lisboa naquela noite, o suplício afinal se fazia visível para esses pobres coitados e o bispo vestiu sua melhor carranca, saiu da sua residência e comentou com alguns guardas que faziam turno por ali:
“Que aprendam, esses bruxos e infiéis, que Deus abandona os tortos.”
O rei, ao ser informado que aquele conhecido verdugo sob sua autoridade suprema morrera, subitamente é certo, mas numa idade bastante aceitável, comentou:
“É uma pena”, considerava uma pena mesmo, pessoas que não eram ele mesmo gritando lhe davam calafrios e tiravam seu voraz apetite, se preocupou com o fato, mas logo chegou a conclusão de que poderia mandar cortar a língua dos condenados e no seu íntimo se alegrou de ter pensado numa solução por conta própria, esqueceu-se nesse momento do servo morto e nunca mais pensou nele.

Deixando os vivos com seus próprios pequenos problemas, voltaremos ao morto, esperando sua vez, não se espantava com a demora, era muita gente e muitos pecados, muito serviço para realizar, pensou se poderia servir por ali, mas não encontrou uma resposta possível, todos mortos, não havia pescoço físico que ele pudesse cortar, teve um misto de alegria e tristeza, um alívio se ver numa realidade livre da morte, um pouco vazia sem poder exercer o seu ofício, que herdara do seu pai, “grande verdugo!” diziam sobre ele, “que exímio executor!”, outros proclamavam depois das execuções, seria o que agora? Ao pensar isso se repreendeu, se fosse dado a ele o privilégio de viver entre os seus nas alturas do nosso Senhor já era mais do que jamais sonhara e o que viesse das palavras de Deus ou dos seus anjos ele acataria com franca aceitação e o coração feliz.
Passou a reparar nos que estava por ali, esperando com ele, achava que o mundo era maior, só havia portugueses ali, talvez fosse um povo por vez, se eram todos portugueses ali pensou que deveria ser mais rápido, não que estivesse reclamando, mas era um povo temente a Deus, se bem que muitos dos pecadores que ele deu cabo eram portugueses, tementes a Deus, na verdade quase todos, houve alguns espanhóis, poucos mouros, mas a grande maioria eram portugueses mesmo, pensando nessas questões foi interrompido por um jovem, magro e alto, que colocou as mãos nos seus ombros e disse:
“Eu te conheço! Jamais poderia esquecer esses olhos, por mais que seu rosto estivesse coberto, seus olhos foram os últimos que eu vi, não poderia esquecer”, pois bem, um condenado, mas Belchior não foi capaz de lembrar dele, um dentre tantos, todos bem cuidados pelo seu machado afiado, deve ter ficado visível sua confusão em sua expressão, pois o jovem disse:
“Provavelmente você não lembra de mim, não o culpo, provavelmente isso apenas o engrandece, se tratou de todos como tratou de mim, certamente tem muitos agradecidos por você, poderia ter nos aplicado uma série de suplícios ou nos tratado com displicência, ao contrário, nos tratou com humanidade, nos deu um último conforto, foi bondoso comigo e por isso lhe agradeço”, juntou as mãos e se curvou diante do encabulado Belchior, era um anônimo encapuzado no seu ofício, um instrumento do rei, não estava acostumado ao reconhecimento, não se decidia se era confortável ou desconfortável e antes que pudesse chegar a alguma conclusão foi interpelado por uma mulher baixa, de cabelos longos e desgrenhados, que disse animada:
“Ele é o verdugo que cuidou de nós? Que honra estar diante de você, espero que tenha morrido de forma tranquila e que seu sofrimento tenha sido tão momentâneo quando o nosso”, juntou as mãos e se ajoelhou diante de Belchior.
E seguida dela chegou outro homem, outra mulher e outros mais foram de aglomerando, reconhecendo naquele corpulento ser humano o algoz que outrora cortara seus pescoços com cirúrgica precisão, lhes dando um último presente, no caso de muitos o único presente que receberam em vida, todos agradeciam, exaltavam suas habilidades de corte, ficaram sinceramente aliviados ao saberem que ele morreu de forma breve e sem grande sofrimento, numa idade consideravelmente avançada, prometeram que falariam em seu favor se necessário enquanto a turba deixava o modesto verdugo sem jeito, seu nome foi anunciado, todos se afastaram ligeiramente e enquanto ele andava na direção da grande porta de cores metálicas de um material que só poderia ser descrito como imaterial, todos os condenados passavam suas mãos em Belchior, assim chegou ele à sala de julgamento.

O Diabo, padrinho da burocracia e dos caminhos tortos, se preocupou com os possíveis efeitos que a eficiência assassina de Belchior Carrasco poderia causar em seus domínios, nesse sentido ele advocou: “o que vocês pensam em fazer do homem? Ele apenas serviu ao rei! Não nego que esse mesmo rei habitará meus domínios em breve, mas esse homem realmente acreditava que o rei estava investido de divina autoridade como representante do seu reino, aliás, importante ressaltar, o mais católico de todos os reinos, arrisco dizer pensando que se no máximo não me afasto muito da verdade de que esse que está diante de vocês foi o mais católico de todos os homens, se vê isso pela eficiência, já viram os cortes que ele fazia? Alguém se deu ao trabalho? É coisa admirável, já viram o corte? Coisa limpa e não é fácil realizar um corte limpo como ele faz na carne humana, os seres humanos não são feitos da mesma matéria dos anjos, são sujos e qualquer corte faz uma sujeira grande, ossos quebram, tripas se esparramam, coisa que dá enjoo em muita gente, mas não com esse verdugo que a nós se apresente, é um sujeito que sabe cortar, corta um ser humano como se cortasse manteiga, ainda que tenha que usar um grande machado, ferramenta pesada essa e que não permite correções de rumo uma vez iniciado o movimento, não basta ter os braços treinados para aguentar o peso do machado ao manejá-lo e os olhos apurados para visualizar o ponto exato do pescoço que o machado terá que atingir, tem que ter potência para cortar de uma vez apenas, ele se utiliza das leis da física criadas pelo próprio Pai e dessas leis tem que ser um bacharel, pois não basta o entendimento dos efeitos da física no movimento a se realizar, tem que aplicar, é ciência aplicada e teologia avançada, além disso jamais bebeu antes do serviço, jamais se recusou a realizar um serviço e sua destreza deixava qualquer condenado aliviado, perguntem aqueles que morreram pelo machado dele, eu perguntei aos que foram para o Inferno, todos ficaram aliviados ao chegarem na praça e se depararem com o famoso verdugo, sabiam que assim teriam uma passagem rápido e que ainda poderiam ser enterrados com algum respeito, ainda que suas cabeças estivessem separadas do resto do corpo, estaria tudo tão limpo que uma limpeza rápida era suficiente para proporcionar um funeral decente, sem contar os sofrimentos das quais foram poupados, perguntem aos franceses, espanhóis ou quaisquer outros infelizes moradores de outros reinos que não foram agraciados com tão dedicado servidor, ser condenado era como ter um encontro marcado comigo antes de morrer, muitos passavam por longos minutos e até horas de sofrimento antes de finalmente morrerem, seus membros eram puxados, cortados, perfurados, rasgados, coisa que consideramos desnecessária até em meus domínios, mas não em Lisboa, Portugal, pois por lá os pobres pecadores condenados pela lei dos homens se deparavam com Belchior e viam nele a face do alívio e da misericórdia, um homem prático e temente às leis do reino e da Igreja, que cada vez que erguia o machado pensava na mulher e nos filhos, em como cada cabeça que cortava era um pão, uma cebola, um pouco de leite que colocava na mesa, além disso servia ao mandatário do pai, autorizado pelas maiores autoridades católicas, considero toda essa discussão uma verdadeira crueldade e lhes aviso com a autoridade de quem já fez isso que podem até a desagradar o nosso Pai, que pode ter 
dado o nascimento e a formação de Belchior para os pobres lisboetas fracos e pecadores poderem ao menos morrer na santa paz, não posso pensar de bom grado que personagem que seguiu caminho tão reto em vida fosse morar em meus domínios, além de macular toda a maldade existente por lá até eu percebo essa injustiça com ele, depois dele serão quem? Os santos? Os anjos que perfuraram meus lacaios nas guerras santas e por isso se pode chamá-los de assassinos? O próprio Pai por matar tantos e de tantas formas? Chegará o dia, então, que eu estarei em cima e inalcançável enquanto os seres celestiais estarão sofrendo seus castigos na escuridão Inferno?”
Os anjos e santos até se esqueceram de quem dizia tinha chifres e patas de bode, dentes pontiagudos afiados e uma série de lanças, tridentes e machados, aquela era uma defesa que não esperavam e não houve ser divino que conseguisse, de imediato, formular uma réplica.
Diante disso, o próprio Jesus Cristo, em silêncio desde o início, disse: “Pois deixem Belchior Carrasco entrar e coloque no coração dos homens cristãos que falam a língua portuguesa uma homenagem ao ofício executado com santa dedicação.”
E assim foi feito.
 

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