Sidequest - A Flor da Montanha
Imaginei uma flor, vestindo um elmo, algo pouco incrível e muito medieval.
Essa flor anda por aí, pelas ruas lamacentas e pelas ruas de pedras de uma cidade medieval.
Quem lhe deu o elmo foi um guarda, que ao ver sua chegada na cidade ficou preocupado que ela fosse esmagada.
Esse guarda é igual outros, grande, bruto e cheio de soberba, mas também é diferente, pois tem o coração gentil.
Um guarda que não queria ser guarda, mas provavelmente seu pai era guarda.
A flor foi andando, ninguém ousou mexer com ela, pois estava com o elmo de guarda, além disso, ela própria poderia ser um guarda.
Não se preocupem, o guarda não levou nenhuma flecha na cabeça enquanto estava sem um elmo.
O reino estava em paz.
A flor havia saído da montanha.
Era uma lendária, mas modesta flor, desabrochou no inverno e assim ficou por muito tempo.
Uma lendária flor não poderia passar anônima, as mulheres ficaram logo sabendo e os homens, não podendo ignorar as demandas caprichosas das mulheres, também ficaram sabendo.
Supomos que muitas dessas mulheres sentiam-se importunadas e queriam se livrar desses cavaleiros sebosos, então os mandavam em tarefa impossível.
Os cavaleiros partiam na demanda, subindo a montanha e nunca a concluíam, era comum que no caminho caíssem, escorregassem como abacates maduros para o chão, se esborrachavam.
Não morriam, mas ficavam completamente desinteressados da vida, passavam o resto da vida viajando de vila em vila, sem achar qualquer coisa interessante.
Alquimistas também interessavam-se pela flor, mandavam seus ajudantes para buscá-la e lá iam os jovens estudiosos com seus mantos desengonçados.
Eles não caíam, em compensação, algo no manto desses aprendizes irritava profundamente as aranhas da montanha, que os mordiam, voltavam correndo e gritando de dor, com duas marcas na mão, sempre na mão.
Continuavam a gritar, a gritar e acabavam parando numa companhia de teatro, lugar de trabalho que aceitam pessoas que gritam sem parar.
Nessas companhias eles costumavam interpretar fantasmas, árvores amaldiçoadas, espíritos de ordem geral.
Imaginamos que até acontecia dessas peças serem apresentadas em uma vila ou cidade onde um cavaleiro que caiu da montanha estava, esse cavaleiro talvez tenha assistido essa peça, se viu não se interessou.
No alto da montanha, a flor continuou, esperou o advento da ciência e da tradição, para estudá-la e preservá-la, nada mais chegou no alto da montanha.
Enquanto isso, surgiu um necromante, arcano das trevas, especialista na ressuscitação de antigos demônios de outra dimensão e na destruição completa da vida.
Era um homem estrategicamente medroso, já havia traçado seu plano, mas com a quantidade de cavaleiros e alquimistas que havia nas redondezas, achava que não era um bom momento para trazer a destruição.
Ele esperou seguindo com sua vida, fazendo suas coisas, sem incomodar ninguém. Quando um dia analisou os últimos relatórios de seus espiões sobre as atividades dos cavaleiros, percebeu que seus espiões andavam muito desocupados.
Esses espiões inventavam qualquer coisa nesses relatórios e passavam o resto do tempo nas tavernas, jogando cartas e bebendo vodca.
O obscuro arcano ficou muito bravo e os transformou a todos em ratos alados, feitiço que em sua fúria não saiu como queria e eles se tornaram pombos.
Pombos negros agora vigiam cidades e vilas, campos inteiros e montanhas, comendo restos, cascas, bebendo do que os bêbados derrubam, sem jamais se saciarem, mas ainda fieis por maldosa magia ao seu senhor.
Azares é o nome desse mestre das maldades.
Passou a invocar os seus demônios, começando por um bem pequenino, parecido com um gato, tentou vinte e duas vezes invocá-lo, era ótimo teórico, mas não havia praticado, quando veio o demônio era pele e osso.
O que não esperava é que esse demônio miava, sem parar, deu o nome dele de "Vinte e Dois", depois achou o nome muito fofo para ser apresentado como sua fera de estimação e o rebatizou de "Canibal".
No privado, sempre o chamou de Vinte e Dois.
Demônios maiores vieram depois, demônios maiores apareceram e passaram a tomar o espaço, cidades e vilas inteiras, onde era dia se tornou noite, onde as plantações cresciam agora morriam.
O desespero tomou homens e mulheres, não havia quem fosse capaz de lidar com tal avanço, reis e mercadores ofereceram recompensa, ofereceram suas filhas, ofereceram seus reinos, terrenos e celestiais.
Uns tolos até tentaram, mas estavam bêbados e tão logo avançaram na direção da escuridão e dos seus demônios, sumiam em mancha escarlate, nem tinham tempo de gritar.
Um velho maluco e só um pouco desesperado, pois morreria logo de qualquer forma, resolveu fazer uma profecia e para todos ouvirem ele falou: "no próximo inverno, aparecerá um guerreiro, um herói, munido e espada e escudo, arco e flecha, além de algumas poções, para nos livrar da escuridão".
Ninguém ouviu, estavam todos ocupados demais, menos os cavaleiros que um dia caíram da montanha, esses não estavam ocupados, mas estavam desinteressados.
O velho repetiu, e repetiu, quanto mais repetia, mais se ouvia até ele virar um ancião, que é um velho levado a sério.
Demorou alguns inverno até surgir o tal da profecia, que só surgiu porque houve profecia, daí a importância das profecias e dos profetas, se não profetizassem o mundo já tinha sido tomado pela escuridão.
Apareceu a pé, de espada e escudo nas mãos, arco e flecha nas costas, carregava algumas poções, andava ereto, com as pernas afastadas e seus passos deixavam marcas grandes na neve.
Entrou na taverna e pediu informações, trabalhos de ordem diversa para um guerreiro faminto e se poderia ao menos tomar uma sopa antes, coisa que lhe foi negada, mas trabalho foi oferecido.
Havia uma fera nos arredores, que roubavam as cenouras, especificamente as cenouras das plantações da vila, as mães reclamavam que as crianças gostavam muito das cenouras e estavam sem, a fera tinha que morrer.
Por algumas moedas de ouro, o guerreiro faminto aceitou o trabalho e partiu na direção designada pelo taverneiro, voltou de noite com a cabeça do demônio comedor de cenouras, uma mista de coelho, lobo e coruja, com chifres de bisão.
Alguém disse que talvez ele fosse o guerreiro da profecia e alguns acreditaram.
Assim ele fez sua fama, irritando o Lorde Azares cada vez que matava um dos seus demônios, cada vez que resgatava donzela ou criança de sua escuridão, cada vez que devolvia a esperança aos corações humanos, afastando um pouco as trevas.
Até ele mesmo acreditar que era o profetizado guerreiro.
"O velho Cascavelha profetizou", diziam aldeões e reis, quando sabiam das histórias do guerreiro, que se chamava "Gradus".
Não havia quem conhecesse melhor o mundo explorável do que Gradus, por campos verdejantes e desertos já havia passado, ajudado a todos e combatendo a escuridão de Lorde Azares.
Chegou o momento da derradeira batalha, com o poder de Azares concentrado em sua fortaleza, Gradus sabia que era momento de enfrentá-lo e expulsar para sempre sua influência destruidora do mundo.
Já havia ajudado quase todos e depois que se fosse os últimos fiapos de escuridão, não sabia o que faria e temia que o tédio tomasse conta do seu ser, que se tornasse entediado guerreiro não mais feito de glórias.
Revolveu não deixar nada pendente, cumprir todas missões e trabalhos, todas as buscas.
A última que faltou foi uma envolvendo uma flor no alto de uma montanha, missão dada por um taverneiro que tentava agradar sua esposa.
Aconteceu que sua esposa tinha uma porca, animal de estimação e muito mimado que até usava lenço e dormia na poltrona.
O taverneiro tinha uma taverna e bancos para trocar, jogadores e bêbados, normalmente as mesmas pessoas, tendem a degradar as coisas e usar pedaços de paus para brigar.
Solução encontrada pelo taverneiro: vende a porca e compra bancos novos, não foi uma solução esperta, em uma semana os bancos novos já pareciam velhos e sua esposa ainda o colocava para dormir com seus dois cachorros.
Colocou um anúncio no mural da vila, atendido pelo nosso guerreiro, o taverneiro clamava pela lendário flor que estava no alto da montanha, uma única flor que florescera muitos invernos antes e assim permanecia, ninguém sabia de qual espécie, mas que era linda.
O guerreiro, que já havia vasculhado o mundo, desde as cavernas até as montanhas, aceitou, inclusive já havia ido no alto dessa montanha, mas para derrotar um dragão e pegar um espelho mágico, não reparou se lá havia uma flor.
Partiu satisfeito com a nova demanda, cantarolando mentalmente, seria sua última demanda antes da batalha final, depois sentaria na sua poltrona em qualquer propriedade rural e diria consigo mesmo que havia feito cem por cento do que havia para ser feito.
Nesse meio tempo, a flor.
Ela mesma, esperando por tanto tempo qualquer coisa acontecer, cansou disso, saiu da terra e descobriu que tinha patas, pequenas patinhas, ou pequeninas patas, mais precisamente pequeninas patinhas.
Tomou caminho montanha abaixo.
No mesmo dia que o guerreiro chamado Gradus tomou caminho montanha acima, mas indo pelo outro lado da montanha.
Quando Gradus chegou no topo, não viu a flor, apenas um pombo que o vigiava, jogou miolo de pão para o pombo e desceu, pensando "encontre a flor da montanha em algum lugar do mundo", em uma curva oscilante de satisfação e frustração.
O herói estava decidido a pegar a flor e salvar o casamento do taverneiro, em um lapso de pensamento anti-heróico se perguntou qual tinha sido o destino da porca, o guerreiro estava com fome.
Comeu um filé de frango encontrado dentro de um barril, que estava ao lado de uma árvore, próximo de umas pedras, nos campos, ficou saciado e continuou sua busca.
Por cada caminho ele andou, por todas as florestas ele percorreu, em cada caverna ele adentrou, cada montanha ele subiu, em cada lago ou rio ele mergulhou, explorou todas as ruínas e todas as fortalezas, entrou em todas as casas de todas as vilas e em todos os cômodos de todos os castelos.
Descobriu alguns segredos deixados para trás, algumas missões menores esquecidas, alguns itens únicos que não tinha pego, mas não encontrou a flor.
Encontrou sim, de passagem, o guarda do tamanho de um elmo.
Gradus, que de passo em passo andava em busca de tudo, parou, sentou-se numa casa qua havia comprado no campo, com suas moedas de ouro acumuladas em um baú e parece que passou muito tempo antes que ele levantasse de lá.
A escuridão e os demônios invocados por Azares voltaram a crescer e não havia mais velho que se atrevesse à autopromoção para ancião, o mundo dessa vez não foi tomado por desespero, mas por desesperança e triste resignação.
Os guardas conversavam depois do turno, bebendo cerveja na taverna, com exceção do guardo que era do tamanho de um elmo, que bebia água.
"Vocês viram, a vila de Andorra foi tomada, apenas demônios habitam lá e chegaram alguns dos seus aldeões aqui hoje".
"Chegaram uns de além das montanhas também, andaram mais de três meses para chegarem aqui".
"Meus pais moram perto de Andorra, o que será deles?'
"E aquele guerreiro, que estava quase derrotando o senhor da escuridão?'
"Desistiu, ao que parece, comprou uma casa no campo e lá está."
Todos se calaram e beberam, suspirando pesadamente lembrando do futuro sombrio que os aguardava, menos a flor, que não tinha medo de nada.
Munida de coragem e um elmo, ela partiu, agradeceu os guardas e ganhou um canivete para defesa pessoal.
Quem lhe deu o canivete foi o guarda mal, toda cidade tem o guarda mal, um com boa aparência, mas que adora lançar seu punho fechado no rosto dos bêbados, que agora colocar seu enorme e largo peito cheio de gomos e pelos na frente dos viajantes, que cospe no chão dos comércios e xinga as mães de todos.
Por qualquer motivo ele achava muita graça uma flor andando com um elmo, na verdade, ele achava fofo, mas não ousava afirmar isso.
Passou a gostar da flor da montanha e a tratava bem, nos últimos tempos era sempre ele que pagava a conta da água que ela bebia na taverna depois dos turnos de trabalho.
Naquela despedida ele foi breve, chegou, entregou o canivete, disse pra ela ter cuidado para não se cortar e disse "até mais", então saiu e foi ao banheiro para chorar, voltaria a ver apenas bêbados, brigas, urina e outras coisas com os quais esses guardas lidam no trabalho.
"Eu preciso casar", pensou consigo mesmo, "mas não darei uma flor para minha namorada, ao invés disse darei uma porca, que pode ser tanto um belo animal de estimação quanto uma comida saborosa e cheia de proteína."
A flor da montanha partiu, com seu elmo reluzente de guarda e seu canivete, descobriu que o caminho era perigoso e satisfatório.
Pequenos demônios, significantes como poeira, lhe atacavam, ela se defendia com seu canivete, enfiava a lâmina pela viseira e qualquer um que tentasse mirar seus olhos, miravam a lâmina, a flor da montanha ficou conhecida entre os demônios como "Olhos de Lâmina".
Esses pequenos demônios logo passaram a contar as histórias, os que sobreviviam aos encontros, os demônios maiores riam como um adulto ri dos medos infantis, sabemos que os medos são para todos, os mesmos para todos.
Chegando em certa vila, na beira do rio, em localidade escondida no meio da floresta, a flor da montanha encontrou certo ferreiro, lendário ferreiro capaz de produzir das espadas a mais afiada e das armaduras a mais resistente, que por simples modéstia morava naquela localidade.
Não só isso, era ferreiro aos ares da floresta, não tinha medo de aranhas e cobras, o som dos grilos e dos pássaros o agradava, mas a coisa que mais gostava era da sombra das árvores e também do filha do lenhador.
Ele a olhava em seu tempo livre, como ela ficava parada sem fazer nada, ela a olhava enquanto ela cuidava dos animais, enquanto ela buscava água, enquanto ela cantava com os pássaros e ela também o olhava enquanto ele trabalhava.
Sabiam os dois que se juntariam em algum momento, para passar o resto da vida juntos, tranquilos e felizes.
Só depois que Lorde Azares fosse derrotado e a luz expulsasse os demônios do mundo.
Quando a flor da montanha encontrou esse ferreiro, ele perguntou se ela queria um capacete mais resistente, que nem os martelos dos gigantes poderia amassar e ela disse não.
Ele perguntou se ela precisava de uma espada tão grande e afiada que poderia até cortar a águia demônio no alto da montanha e ela disse não.
"Preciso de um canivete retrátil, na verdade, uma adaptação no meu, que tem valor sentimental e já me serviu muito".
O ferreiro pegou aquele canivete e grudou outra lâmina nele, o arrumou de forma que fosse retrátil e leve, que pudesse ser carregado num bolso de flor mas atingisse o comprimento de três metros.
Colocou sua marca no canivete, que era a de um sabiá, animal tão leve quanto sua profissão era pesada.
Partiu a flor da montanha, saiu da floresta e depois alcançou um antigo templo no meio do deserto, chegou às suas portas por um caminho saudado por pares de gigantes de pedra.
Quando a flor da montanha chegou em frente da grande porta, que séculos não abria, colocou um dos seus pequenos ramos que chamava de mão para fora da sua viseira e encostou na porta.
O local foi cercado subitamente por tempestade de areia e as estátuas, dúzia delas, passaram a se mexer, apesar de serem feitas de pedra.
"Pelo menos não carregam armas", pensou a flor da montanha, olhando os gigantes de pedra, pensamento consolador e curto, pois os gigantes de pedra a cercaram num semicírculo e mostraram os punhos fechados.
E os punhos entraram em chamas.
Houve batalha, a flor da montanha voava com o vento, protegida pelo elmo, lançando seu canivete retrátil pelas chamas e fumaça que iam em sua direção como meteoros.
Na solidão do antigo templo no deserto, as ruínas aumentaram conforme caíam os gigantes de pedra, cada um que a flor da montanha derrubava, tornava mais fácil derrubar os outros.
Quando todos tombaram, as areias se aquietaram e o fogo se extinguiu, a porta se abriu e a flor da montanha adentrou a sabedoria milenar que auxiliaria a tornar estável a luz do mundo.
A flor da montanha entrou no templo do deserto.
O templo do deserto era lar de muitos espíritos, alguns agressivos e outros não, sua construção remontava de outra época.
Quando o deserto era palco de extensa e desenvolvida civilização, alguns sábios previram o seu fim, esses sábios ficaram para sempre conhecidos como historiadores.
Conhecedores de muitos relatos da humanidade, o mais próximo que os acadêmicos aceitariam de um profeta.
Sugeriram a construção de um tipo de monumento, resistente ao tempo o máximo que fosse possível, uma homenagem a si próprios, sugestão essa aceita pelo imperador.
Juntos com os construtores planejaram e construíram o templo, todos trabalharam e até o imperador carregou pedras para que se concretizasse o templo.
O nome que deram ao local ninguém sabe.
Mas é chamado de Templo do Deserto, local onde habitam espirítos, como já foi mencionado.
Espirítos de pessoas, apegadas às suas casas no deserto, procuraram refúgio nesse templo e para sempre ficaram presas, assumindo formas assustadores, imateriais.
Como tais, apenas assustavam e não seriam ameaça real para a flor da montanha, que era intrépida e não se assustava fácil.
Deve-se mencionar um porém aqui, esses seres imateriais conseguiam possuir outras coisas e isso fizeram quando perturbados pela presença da flor da montanha.
Vasos voaram na direção dela, estátuas se mexeram para atacá-la, outros vasos voaram na direção dela, grades assumiram formas esqueléticas e tentaram golpeá-la, mais vasos voaram na direção dela, lamparinas antigas acenderam e as chamas foram em sua direção, muitos vasos voaram na direção dela.
As habilidades de luta foi bem aproveitada pela flor da montanha.
Tente passar mais anos do que pode contar com certeza no alto da montanha e ficará muito bom em alguma coisa, possivelmente melhor do que todos no mundo.
Pelo templo antigo a flor da montanha abriu seu caminho quebrando coisas e espantando espirítos, que eram despachados e com a areia se misturavam, até alcançar a câmara.
A câmara era uma sala circular, na qual a porta atrás da flor da montanha se fechou misteriosamente e pesadamente assim que ela entrou.
Havia um jazigo, com o corpo do rei, o antigo rei que carregara pedras como jamais outro rei fizeram.
Ele usava um colar, com uma jóia, que se dizia que daria o caminho para a solução de como derrotar Lorde Azares.
Ou talvez apontasse o caminho para uma pessoa ou artefato que apontasse o caminho para essa solução.
Quem falava? Um acadêmico, é claro, muito obcecado com os dizeres do antigo povo do deserto, um acadêmico quase cego e muito inteligente que leu muitos livros e examinou muitos artefatos.
Encontrou um dia a flor do deserto e achou bom que ela estivesse disposta a derrotar o senhor de toda escuridão.
Fez o relato de um colar numa ponta, na outra do caminho aquilo que dissipava a escuridão, não sabia o que, as lendas estavam incompletas.
Poderia ser qualquer coisas, poderia ser apenas a autoconfiança.
De volta à câmara mortuária, o cadáver estava lá, a aranha também, como todas as aranhas tinha presas, veneno, olhos e oito patas, cada pata com cerca de dois metros.
As presas, cada uma, do tamanho do elmo.
Veneno suficiente para matar uma baleia em poucos segundos.
E uma capacidade insana e chata de subir ao teto quando levemente ferida e soltar muitos ovos que eclodiam em pequenas aranhas quase que imediatamente.
Pequenas aqui é do tamanho do elmo.
A flor da montanha lutou, sangue verde escuro de aranha do templo do deserto jorrou, a flor da montanha se feriu, parecia uma flor surrada, pois de fato se tornou uma flor surrada.
Mas conseguiu aberturas, quando conseguia acertar três ou quatro ataques na aranha.
Depois de um tempo, como que subitamente, depois de um desses ataques, uma música ecoou no templo enquanto a aranha virou de cabeça para baixo e se desfez em cinza, deixando algo que estava presa em seu interior.
Liberto da forma aracnídea, apareceu o espírito do antigo rei, que jazia naquela câmara, agradeceu os esforços da flor do deserto.
Explicou que o artefato que estava em seu invólucro era uma poção que poderia lhe extender a vida, preparada por magos do império enterrado.
A pequena campeã tomou a poção e se viu totalmente curada, como nova flor e seu caule, pétalas e ramos ficaram mais resistentes.
Ela pegou o colar do cadáver agradecido e foi transportada magicamente para a entrada do templo, experimentou assim pela primeira vez do poder místico do colar do rei.
Viu os espíritos ainda presos no templo saindo e se esvaecendo na areia.
O colar brilhou, para o leste seguiu a flor da montanha, cruzando o deserto e chegando às terras altas e cheias de fogo e lava, lugar particularmente perturbador para uma flor, mas estava confiante com sua nova resistência.
A lava era incandescente e a derrama escorria sem parar montanha abaixo, numa pintura em movimento cinza e vermelha.
Havia uma vila ao pé da montanha, onde os aldeões contavam suas profecias do fim do mundo pelas chamas.
Não havia heróis e nem flores em suas profecias, apesar disso eram bem alegres.
O prefeito da vila quis falar com a flor da montanha, ao saber de sua demanda, disse que sabia o que havia na montanha, ele disse:
"Embaixo da rocha e lava!", então ele disse mais:
"Muitas gerações contam sobre isso!", continuou dizendo:
"Um tesouro escondido por piratas primitivos!", e continuou:
"Capturados por aves gigantes, eles rezaram a todos os deuses deles!", e prosseguiu:
"Nenhum dos deuses atenderam eles, então eles rezaram para aquele deus que ele mais tinham medo!", foi indo em sua narrativa:
"Kakapaka! O deus das chamas surgiu e lançou fogo aos céus!", levantou os braços:
"As chamas queimaram as penas dos pássaros, que soltaram os piratas!", baixou o tom:
"Os antigos criminosos do mar caíram todos na lava, apenas um sobreviveu, caiu na rocha da montanha, cercado de lava, tentou chorar para ver se suas lágrimas transformariam a lava em rocha, mas não deu certo, então ele ofereceu o único tesouro que trazia consigo, uma pedra preciosa, um rubi, que trazia no bolso de saques anteriores", falou sem quase para entre uma palavra e outra, continuando:
"Jogou seu rubi, tudo que lhe restava, na lava, pedindo que fosse salvo, então os deuses da rocha secaram a lava formando um caminho levando-lhe ao pé da montanha, onde ele ergueu uma vila à mercê da natureza implacável", parecia que a narrativa chegava ao fim:
"Somos os descendentes desse antigo pirata com outros andarilhos fugindo de monstros de terras distantes", apontou para si mesmo:
"Mas esse mesmo ancestral, quando estava velho, subiu a montanha, por caminhos que só ele conhecia, para reaver seu rubi, como se fosse seu próprio coração", parecia que uma lágrima lhe brotava nos olhos:
"Por esse motivo lhe digo, o que reside na montanha é o 'coração dos ancestrais', a joia que despertará a montanha, o preço do conhecimento é a nossa destruição, mas não se preocupe, lhe ajudaremos, pois assim cumpriremos a profecia", colocou a mão na cintura e sorriu.
As profecias são importantes.
Depois dessa longa parte de diálogo, a flor da montanha partiu montanha acima.
Seguiu os passos do antepassado, marcado por passadas antigas nas rochas vulcânicas.
Por vezes, quase errou o caminho e se deparou com poço de lava.
E criaturas de fogo que a atacavam.
À distância, ela revidava e acumulava abates.
Chegou próximo ao topo, em passagem que levava para dentro da montanha.
Seguiu por largos caminhos nas cavernas, escapando de morcegos e aranhas.
Pulou poços de lava e rolou grandes pedras para abrir passagens.
Abriu baús onde encontrou água fresca para se manter saudável e uma grande chave dourada.
Essa chave abriu uma grande porta dourada.
Que a levou para uma grande sala que não tinha nada de dourada, mas brilhava com a presença de um grande poço de lava no seu centro.
Do poço de lava saíram tentáculos de lava.
Esses tentáculos de lava espirravam lava.
Dianta da ameaça, a flor da montanha apenas desviava dos ataques dos tentáculos e dos projéteis que lançavam.
Tentou voltar, mas a porta, grande e dourada, estava fechada e trancada.
Sem opções, continuou a desviar.
Passou a lâmina do seu canivete inutilmente nos tentáculos de lava.
Jogou pedras inutilmente nos tentáculos de lava.
Eles não se cansavam, mas seus ataques seguiam padrões.
Como uma memória residual de alguém que deveria estar morto.
Prestou atenção enquanto saltava de um lado para o outro.
Deveria haver algum ponto fraco.
Sempre tem.
Havia.
No centro, sempre no centro, percebeu uma imagem embaçada de uma pessoa.
Ao menos uma silhueta, feita de fumaça.
Pegou uma pedra no chão e jogou bem na cabeça.
Os tentáculos desabaram no chão e cessaram os ataques.
A sombra de fumaça ajoelhou no ar e a flor da montanha saltou acertando seu canivete três vezes.
Então os tentáculos se ergueram novamente e ela continuou a desviar dos ataques.
Repetiu o procedimento quatro vezes.
E os tentáculos não levantaram mais, viraram rocha.
A sombra se materializou em um antigo pirata translúcido.
O antepassado estava ali e na sua mão o rubi.
Disse que havia despertado um deus selvagem com aquela joia.
Percebera o que fizera ao longo dos anos e que esse despertar um dia destruiria seu novo lar.
Subira a montanha para reverter seu erro.
Foi engolido, mas não totalmente morto.
Agora estava liberto e o deus adormecia embaixo da terra.
O que era lava virou rocha.
O rubi foi para a mão da flor da montanha.
"Esse rubi é especial", disse o antepassado.
"Ele mostra o caminho para as respostas, para expulsar os demônios desse mundo", disse.
"Quanto mais brilha, mais próximo está", concluiu, então ficou cada vez mais transparente e sumiu.
A montanha era rocha e a vila estava segura.
Antes de partir, a flor da montanha ouviu o prefeito dizer que a profecia estava errada, como toda profecia.
Parecia quase decepcionado com isso.
Prestando atenção no tênue brilho do rubi, a flor da montanha andou de uma direção para outra.
Até se decidir pela direção que o rubi parecia brilhar mais.
Chegou a um lago.
Se encontrou algo interessante no caminho, ignorou, pois estava concentrada no rubi.
O lago era grande e azul.
O sol brilhava e a flor da montanha sentiu-se bem.
Havia peixes e pescadores.
Os peixes não falavam, mas os pescadores traziam relatos aterradores.
De noite trancavam-se em suas cabanas e ouviam sons.
Qualquer um que ficasse do lado de fora desapareceria.
Fosse pessoa ou cachorro.
Os gritos vinham do fundo do lago.
Onde havia uma entra, pelo que diziam.
Para uma prisão construída antes do lago existir.
Quando todo aquele local era um deserto amarelo.
A flor da montanha deu pequenos mergulhos e quanto mais fundo ia, mais brilhava o rubi.
Ela poderia arrumar uma maneira de respirar embaixo da água, ou se deixar ser capturada de noite.
Contudo, não era pessoa nem cachorro.
Ficou sabendo de uma mulher, de um dos pescadores, que tinha um cachorro.
A coisa mais obediente e bela.
Com pêlos que brilhavam mais do que o sol.
Que morrera cinco anos atrás.
A mulher ficou inconformada, inconsolável, chorava sem parar lamentando-se a crueldade do acaso.
Seu marido fez um grande gorro com o pêlo e o couro do bicho.
Que ela sempre usava e não tirava por nada.
Atrás dessa mulher a flor da montanha foi.
Pediu pelo gorro, para se disfarçar de cachorro e ser levada prisioneira.
Explicou que seu rubi a levara para lá e contou o sacrifício para encontrar o rubi.
Contou o templo do deserto e das estátuas vivas.
Da sombra e dos demônios, do fim do mundo.
A mulher disse "não".
Sentia-se só sem o gorro e sua solidão seria o fim do seu mundo também.
A flor da montanha decidiu que arrumaria novo animal de estimação para aquela mulher.
Cachorro não seria, pois não havia mais nas proximidades do lago.
Mas vira uns gatos.
E se decidiu a pegar um deles.
Fez "pspspsps", mas os gatos corriam dela.
Ficou de tocaia e tentou cavalgar um, mas foi arremessada longe.
Então pegou um peixe com um pescador, pagou três moedas pelo peixe.
E um dos gatos, um magrelo esfomeado, sentiu-se atraído.
Ela correu com o peixe na mão e o gato atrás dela.
Pulou pela janela da casa da mulher e jogou o peixe na cama, do lado de onde ela estava sentada.
O gato entrou e pegou o peixe, sentando-se encostado na mulher.
Que o olhou com olhos brilhantes e imediatamente se apaixonou.
Arremessou aquele gorro quente e desconfortável para longe.
O capacete com uma flor dentro vestiu aquele gorro e foi para fora.
Já escurecia.
A isca estava pronta.
A flor cachorro da montanha e do lago esperou, próxima da água.
Ao escurecer surgiram das águas criaturas que era lagartas aquáticas com patas de aranha e asas de morcego.
Essas criaturas emergiram das águas, eram os demônios do lago, voavam e mergulharam, rondavam as cabanas dos pescadores, davam guinchos até que finalmente se aquietaram.
A maior parte pousou ao redor do lago, enquanto algumas sobrevoavam a superfície aquática em silêncio, revezavam-se nesses papéis numa espécie de ronda noturna.
A flor cachorro da montanha primeiro tentou andar imitando os ares de seriedade próprio dos caninos, mas foi ignorada.
Depois jogou um galho pra si mesma e correu atrás, foi ignorada novamente.
Foi até o mais perto da água que conseguia sem tocar na água e latiu, um latido fingido e que em nada era parecido com um cachorro, um latido que se alguém ouvisse, diria imediatamente: "isso é uma flor tentando latir?", esse latido funcionou.
Os demônios do lago ergueram-se e começaram a voar em círculos, enquanto um deles foi na direção da flor cachorro da montanha, vários foram em seguida.
Ela foi mergulhada, mas nada via, que eles a mergulharam no lago e a levaram por passagem no fundo do lago, por canais que levavam a uma antiga prisão.
Antiga e atual, pois estava em funcionamento, a flor cachorro da montanha foi jogada numa cela.
Não se importaram de tirar dela o elmo, o canivete ou o rubi, nem mesmo o gorro de cachorro.
A flor da montanha, em si, passava pela grade, mas a flor de elmo não, ela até tentou.
Ao seu lado estava preso um cachorro, quieto e grande, do outro lado outro cachorro, pequeno e falastrão, que lhe contou todo o esquema da prisão.
Esquema esse que não vale a pena descrever, pois era tudo mentira, a prisão consistia em grades, corredores e potes com água e comida.
Uma prisão subaquática canina, possivelmente humana também e, ainda que ninguém desconfiasse, floral naquele momento.
A flor da montanha teve que arriscar, despiu o elmo, causando espanto no cachorro pequeno e falastrão, que prometeu, aos berros, que manteria a discrição.
Passou pela grade e viu, no fim do corredor, um guarda, que como todo bom guarda de prisão usava um quepe e cochilava numa cadeira, de maneira desengonçada, ainda mais considerando que era um demônio do lago.
O passo da flor era leve como uma flor, de forma que ela não fez barulho, mas sempre que um cachorro se mexia ou rosnava, ela parava e assim ficava, esperando o silêncio reinar novamente.
Aproximou-se do guarda e subtraiu-lhe a chave mestra.
Voltou para sua cela e abriu, pegou seu equipamento, deixando o gorro por lá mesmo.
A flor da montanha não mais cachorro começou a explorar a masmorra prisão subaquática.
Descobriu que havia muitos corredores, com muitos prisioneiros, humanos e cachorros, abriu a porta para alguns, para outros a chave não abria, o que não adiantava, estavam numa masmorra da qual não sabiam sair.
Além disso, tinham os guardas, demônios do lago, estavam dormindo naquele momento, mas poderiam acordar, vai que tivesse um guarda ruim em sua função.
Depois de andar para lá e para cá, nadando por túneis submersos que levavam a outros corredores, a flor da montanha encontrou um botão.
Um grande botão no chão, que pedia para ser pressionado.
Mas a flor era leve e seu peso não era suficiente.
Pensou em atrair um cachorro, mas havia um problema: não tinha nenhum bife.
Andando pelas celas perto do portão, viu um esqueleto em uma delas, pois nem todas as celas eram ocupadas por vivos.
Do esqueleto pegou um osso do braço.
Com o osso atraiu um cachorro cor de caramelo.
Colocou o osso em cima do botão e o cachorro parou ali mesmo para roer o tutano desse osso.
Ouviu um som de porta arrastando, uma melodia no piano, a flor da montanha andou mais na masmorra úmida procurando o que havia mudado.
Depois de muito andar, andando em círculos, quadrados e triângulos, encontrou uma passagem que antes não havia.
Essa passagem levava a outros corredores que levavam a outro botão.
Ela pegou um osso de um esqueleto numa cela e atraiu outro cachorro caramelo para o botão.
Porta arrastando, melodia no piano.
A flor da montanha percorreu mais aqueles corredores, já tendo a impressão que entendia sua localização, falsa impressão.
Depois de andar em losangos, retângulos e trapézios, encontrou outra passagem que anteriormente não havia.
Por onde, percorrendo, havia mais corredores, com mais túneis, celas e, novamente e finalmente, um botão.
Outro braço não enterrado subtraído, outro cão caramelo atraído.
O som da porta arrastada, o som do piano melodioso.
A flor da montanha retomou, percorrendo em pentágonos, hexágonos e octógono, encontrou mais uma passagem que antes não teria como ser encontrada, pois não se mostrava.
Havia um baú dourado com uma chave dourada dentro.
Uma passagem submersa.
Onde residiam peixes esqueletos e carnívoros.
Que por esse motivo não preocuparam a flor da montanha, que era uma flor, portanto, não feita de carne, passou pelos monstrinhos marinhos em paz e sem ser molestada.
Chegou em uma caverna, onde viu uma grande porta dourada, na qual encaixava com perfeição a grande chave dourada que estava no grande baú dourada.
Entrou numa sala que, ao contrário de todo o resto da masmorra, estava limpa, com azulejos e pisos lustrosos, uma piscina rasa que não afogava nem uma flor.
E uma porta que fechou pesada, dando um susto na flor da montanha.
A pouca água que havia na piscina levantou e assumiu uma forma humana, na qual de sólido apenas uma caveira: um crânio e uma mandíbula.
De alguma forma riu sonoramente e lançou-se contra a flor da montanha brandindo uma espada líquida.
A flor da montanha poderia ter se iludido e se deixar ferir, pensando que água era o alimento.
Mas não o fez, era entendida da propriedade da matéria e sabia que mesmo a água, que jogada com força, poderia matá-la, tal qual um hambúrguer gorduroso pode matar um humano.
Desviou e acertou o ser de água com seu canivete, coisa que só o deixou molhado.
O ponto fraco era óbvio (a caveira, para quem não percebeu), a maneira de alcançar não.
O guerreiro de água era rápido e o que era uma lâmina líquida pareciam muitas, que atacavam em verdadeira revoada.
O elmo impediu que cortasse a flor da montanha, mas ela fiou molhada e mais lenta.
A sala era límpida e não havia nada para usar contra, então ela formulou um plano ousado.
Depois de desviar de série de ataques, ela retirou rapidamente o capacete e arremessou na caveira, que urrou e o guerreiro de água ajoelhou, a flor da montanha pulou para perto dele e deu três golpes, ele começou a levantar, a flor da montanha colocou o capacete e pulou para o lado.
Repetiu esse procedimento mais três vezes e a água caiu de vez na rasa piscina.
A caveira não morreu (de novo) de imediato.
Antes disso disse: "muito obrigado! Sou o antigo rei do lago, construí essa prisão para meus inimigos".
"Meus próprios soldados me mataram."
"Recebemos um duplo castigo, eu de permanecer na sala que construí para mim próprio na prisão."
"Meu soldados de se metamorfosearem em feras que cuidariam da prisão."
"Mas agora você nos libertou, em troca lhe dou minha safira, o único tesouro que trouxe comigo, e que guardo dentro de mim."
"Ele em si não é tão valioso quanto a sabedoria que esconde, com ele em mãos o vento sempre soprará para a direção de um tesouro que você só poderia guardar na cabeça."
Depois desse estranho e breve monólogo, mais estranho ficou, quando o crânio virou para trás e rolou, soltando da mandíbula.
Revelou dentro de si uma safira.
A flor da montanha pegou a safira e sentiu uma brisa, a porta estava aberta.
Seguiu a brisa pelos corredores e fazendo um caminho realmente curto, chegou do lado de fora, na superfície.
Ali, perto do lago, havia muitas pessoas e cachorros, todos agradeceram a flor da montanha.
A partir dali, ela seguiu o vento e não importa para onde fosse, o vento soprava sempre na mesma direção.
O vento a jogou para dentro de uma floresta.
Podem até pensar que ela estava em um ambiente normal para sua espécie, mas não há lugar perigoso como o lar.
Ela não queria muito, mas prosseguiu.
Andando pela floresta encontrou uma aranha, que a atacava e depois muitas aranhas, que a atacavam.
Ela revidou e matou muitas aranhas.
Encontrou formigas, muitas formigas, pequenas e grandes, que a atacavam.
Ela revidou e matou muitas formigas.
Encontrou também várias vespas, que voavam e atacavam.
Ela revidou e matou muitas vespas.
Uma serpente surgiu, provocada pela matança que promovia aquela flor.
Com sacrifício e foco ela lutou contra a serpente e a derrotou.
Foi derrubada então por uma preguiça, que preparava o ataque desde que a flor da montanha promovera a matança das aranhas e quando acordou estava sentada.
O seu elmo colocado de lado.
No alto da tribuna, um pequeno macaco, que para os padrões da flor da montanha era uma grande criatura, solenemente ele disse:
"Sem mais enrolação, está aqui essa flor, que matou formigas, vespas e aranhas, além da velha serpente. Algo a dizer em sua defesa?"
A flor da montanha poderia dizer, mas preferiu solicitar o cumprimento da lei dos duelos, que ela apenas presumiu que existia por ali, pois existia em todos os lugares.
Marcaram então um duelo, pela defesa da inocência da flor da montanha.
Flor da montanha versus campeão da floresta.
O campeão era um esquilo.
O duelo, uma corrida.
Se reuniram, todos queriam ver, não era sempre que isso acontecia, a flor da montanha decidiu correr de elmo e tudo.
O juiz, aquele macaco, contou: três, dois e um!
O esquilo saiu correndo, a flor da montanha muito atrás deles, assim que sumiu de vista das autoridades, desviou o caminho e continuou a seguir o vento, evitando confrontos e olhando para os lados, preocupada com os macacos.
Chegou a uma árvore e de todos os lados que se posicionava, o vento soprava para essa árvore.
Que era muito parecida com todas, mas também diferente, era mais alta, mais grosa e tinha um rosto que falava.
Ao perceber que a flor da montanha a rodeava, a árvore disse: "o que você quer aqui?"
Ao saber da demanda da flor, a árvore disse: "ah... sim. Dá para te ajudar."
A flor da montanha se posicionou para receber uma missão, a árvore disse: "com uma história..."
Sentou a florzinha, para ouvir aquele relato, a árvore disse: "o que dentro de mim está, sempre esteve, a joia e a semente estava junta, de forma que só existe uma maneira de alcançar a esmeralda..."
Esse jeito seria a árvore cuspir a gema.
As criaturas da flores firmam contratos quando trocam favores.
Para firmarem contratos precisa existir uma confiança mútua.
Tal confiança vem de uma série de ações específicas que uma das partes ou ambas realizam para provar a seriedade de sua demanda.
A grande árvore esmeralda então deu a primeira tarefa para a flor da montanha: “preciso que você coce minha costa.”
Tarefa de aparência banal, bastava escalar aquela árvore monumental, mas que trazia em si uma dificuldade, como coçar? A flor da montanha não tinha unhas.
Lembrou dos macacos, que circulavam por lá, com seus dedos ágeis e fortes.
Escalou a árvore, andando de galhos em galhos, deixando o reino do solo e indo para o reino do alto da floresta, nãos em resistência.
Esquilos tentavam derrubá-la, abelhas tentavam derrubá-la, as próprias árvores às vezes mexiam seus galhos e tentavam derrubá-la, o vento tentava derrubá-la.
Até que atingiu o topo da grande árvore, onde alguns macacos jogavam um carteado.
Eram infratores, apostavam alto e cobravam dívidas alheias, por isso também fugitivos do tribunal.
Toparam colaborar com a atual demanda da flor da montanha, por mais que desprezassem aquela grande árvore que se recusava a cuspir sua esmeralda inútil.
Desde que a flor da montanha ganhasse deles no carteado.
A flor da montanha ficou animada com a ideia, era boa no carteado, sempre jogava com os guardas.
Já participara de campeonatos na taverna, jogou contra comerciantes estrangeiros, contra cultistas encapuzados e guardas silenciosos, contra acusados de assassinato, sacerdotes escandalosos e atrizes que eram ladras, ficou em terceiro lugar.
Não era de se desprezar.
Conhecia o nome de todas as cartas e também seus apelidos em diversas regiões.
Jogava tranca, cacheta e buraco, par de três, pôquer e burro, mas o que gostava mais era do bom truco, ainda que não fosse de gritar.
Era boa em todos, de qualquer forma, seria capaz de pegar qualquer outro jogo rapidamente, sua expressão era difícil de ler, suas intenções impossíveis de sondar.
Tirou o capacete e sentou-se em lugar aberto pelos macacos, que eram quatro.
Eles explicaram as regras, superficialmente e disseram “joguemos uma rodada, sem nada valer, para você se acostumar.”
Entregaram as cartas, quatro para cada um.
Para surpresa da flor da montanha, o baralho diferenciava, não no desenho ou na ordem, pois isso já teria visto de outras variações.
Mas eram mesmo completamente diferentes.
Pegou uma torre, um sol, um rei e uma roda. Um macaco jogou uma caveira e todos disseram “ooooh!”, os outros foram jogando, dizendo o que cada carta fazia, a primeira foi a morte.
“A morte chegou.”
“O alquimista criou a pedra filosofal.”
“O guerreiro a enfrentou”, “mas morreu”, sem objeções.
“A lua…”, “a morte mata de noite também”, sem objeções.
A flor da montanha jogou a torre, o macaco que jogara a morte disse: “a morte pega os que moram na torre também”, sem objeções.
A rodada terminou.
“Não se preocupe, raramente se vence a morte, eu apenas dei sorte e os outros não foram muito criativos.”
“É mentira, se preocupe sim, pois jogamos isso o dia todo se pudermos e somos bons em criar narrativas.”
“A morte não é absoluta.”
“Eu mesmo, gosto de jogar com a torre.”
“Dá para vencer a morte com a torre, é fácil.”
“Fácil não digo, mas é possível.”
“Vamos pra valer.”
Embaralharam de novo, entregaram as cartas, a flor da montanha pegou o mago, o hierofante, o enforcado e a justiça.
“Começa quem pegou a morte, se alguém pegou a morte”, relembrou um dos macacos, jogando a morte.
Seguindo o sentido anti-horário, a próxima era a flor da montanha, que jogou o enforcado, os macacos disseram “oooh!”, então outro macaco relembrou: “você irá para a segunda rodada”.
O seguinte jogou o eremita: “o eremita saiu desse mundo material, onde a morte existe”, “sem objeções.”
O próximo jogou o imperador: “o imperador morreu em corpo, mas sua memória permanece viva nas conquistas territoriais”, “sem objeções.”
O último jogou o diabo: “o diabo se opõe à morte, já está no Inferno”, “mesmo o mal pode ser morto, ainda que no dia do juízo final”, “sem objeções”.
Três macacos e a flor da montanha passaram para a rodada seguinte, um dos macacos relembrou: “você foi a primeira a passar, portanto você começa.”
A flor da montanha jogou o mago, os macacos se olharam, será que ela entendia o potencial daquela carta?
O primeiro jogou a carruagem: “chegou para levar o mago ao castelo do rei”, a flor da montanha fez o gesto com as mãozinhas que universalmente se entende por “bola de fogo”, “sem objeções.”
O segundo jogou os enamorados: “os enamorados tocaram o coração solitário do mago”, “bola de fogo”, “sem objeções.”
O último jogou o sol: “todos que tentam me alcançar se queimam”, “bola de fogo”, “o mago se queimou, o sol se fortaleceu”, “sem objeções.”
Um dos macacos lembrou: “aquele que começa a rodada tem que eliminar pelo menos um, para pagar seu passe para a próxima rodada.”
Começaram a terceira, que seria a última rodada.
O macaco começou agora, tendo sido o primeiro que passou para a rodada seguinte. Ele jogou a força: “a força manda.”
A flor da montanha jogou a justiça, entenderam sua intenção: “a justiça comanda a força”, “a justiça obedece aos fortes”, “sem objeções.”
“Você foi o melhor não macaco a jogar isso”, o ganhador consolou.
“Por isso”, outro macaco disse, “vamos te ajudar um pouco.”
“Mas só porque era impossível ganhar da gente”, outro macaco disse.
“Vou te contar onde pode encontrar um coçador de costa, na casa da minha vó, três árvores a leste daqui, mas a macaca é velha e se coça muito, porque se recusa a tomar banho, se você convencer ela a tomar banho, pode ser que ela te dê o coçador.”
Com insólita demanda de convencer uma macaca idosa a tomar banho, partiu a flor da montanha para a árvore indicada, onde encontrou a tal macaca.
Não era tenebrosa como imaginou, na verdade era bem fofa, com uma cara sorridente e bons modos, contudo, seu cheiro não era agradável.
Andava com um coçador de madeira, que usava em sua costa peluda, cheia de tufos de pêlos embrenhados.
Mas, ao invés de dizer “quem diabos é você, ó flor maldita! Suma da minha frente!”, ela disse: “bom dia bela florzinha, o que faz nessas terras cheias de sombras e insetos?”
Ao saber o que a flor queria, ao invés de dizer “é claro que não, ó flor cretina! Suma da minha frente!”, ela disse: “não existe primata com maior tendência a colaborar do que eu, contudo, como coça minha costa e ainda dizem que é porque não tomo banho, isso pode até ser verdade, em parte, mas tenho medo do pequeno lago onde os da minha espécie se banham, os sapos são desagradáveis e ficam me zombando.”
Uma proposta foi feita, sapos educados pelo coçador.
Ao ouvir tal proposta, a macaca velha ao invés de dizer “não me zombes, ó flor cruel! Suma da minha frente!”, ela disse, batendo palminhas: “pois seria ótimo, sapos educados, eu seria capaz de ser amiga deles.”
Animada pelo humor inesperado da macaca, que não era mais velha, mas sim a senhora macaca, a flor da montanha partiu, desceu e chegou ao pequeno lago, onde se banhavam alguns macacos indolentes e onde faziam pousada, sapos comedores de moscas, sem consideração pelos sentimentos das primatas.
Se aproximou de um grupo de sapos a flor da montanha.
Eram alguns, amarelos esverdeados, ou verdes amarelados, não conversavam, coaxavam, às vezes saltavam, lançavam suas línguas para pegar moscas e olhavam com aquelas caras de mal-humorados.
Como se dissesse “bom dia”, a flor da montanha chegou, um deles pulou em cima do elmo, ela virou de lado e ele caiu, os outros coaxaram.
Um lançou a língua no elmo, o outro pulou emburrando a flor da montanha, o outro coaxou sonoramente várias vezes bem próximo dela.
A flor da montanha se afastou, entendendo melhor o drama da macaca imunda.
Sua lâmina não poderia ser usada, prometera sapos educados, de canto e reflexiva, a flor da montanha foi abordada por um sapo, igual todos os outros, que assim que foi percebido, percebeu o passo para trás de receio que a flor da montanha sentia e se apressou em dizer:
“Desculpe meus amigos, não são ruins, apenas sapos entediados, sem oportunidades, eu diria, de se divertirem de maneira saudável.”
Pensando no que poderia fazer, a flor da montanha questionou se já tinham dado uma festa.
“Festa? Acho que não. O que é isso?”
A flor da montanha, que nunca havia participado de uma festa, explicou o que era uma festa, pois muito já ouvira de festa entre os guardas da cidade.
O sapo contou para os outros sapos sobre as festas e todos coaxaram animados e pularam de um para o outro repetidamente.
Chamaram a flor da montanha, que estava perto dali, para ajudar eles a organizarem uma festa de sapos.
Onde apenas sapos e a flor organizadora entrariam, onde haveria muita comida e não limites do aceitável para comer.
A música seria o som de moscas ou coisa parecida, com um fundo de água lodosa.
A decoração de um azul frança para que os sapos verdes amarelados ou amarelos esverdeados se destacassem.
A demanda foi aceita, por um lado parecia uma perda de tempo, por outro lado era uma festa.
Primeiro cuidaria da decoração, precisava de algo azul, naquele ambiente dominado pelas sombras das árvores, os raios de sol infiltravam-se em feixes estreitos, os sapos estavam sempre camuflados.
O sapo que primeiro conversara disse que a única coisa largamente azul naquele lugar era o firmamento, escondido nas alturas, na claridade cega onde viviam os pássaros.
Falou de um pássaro que conhecia, que vivia no baixo, no lodo, alimentando-se de minhocas e pequenos insetos pegos na terra úmida, caíra do seu ninho muito pequeno e lá por baixo ficara, sabia planar e subia com desenvoltura na copa das árvores, mas não voava.
Levou a flor da montanha até o voluntarioso pássaro, que disse que poderia ajudar, pediu para ser seguida e foi entre saltos pelos troncos subindo os andares da floresta.
A também voluntariosa flor da montanha foi atrás, apressada e pulando os obstáculos, preocupada em não seguir a tempo, ainda que esbaforida, chegou na copa das árvores juntos com o pássaro.
O galho fino inclinava-se levemente com o peso do elmo, o outro galho fino nem sequer notava o peso do pássaro.
O pássaro cantou e chamou a atenção de outros pássaros, que desceram até o local e perguntaram o que ocorria.
Ele contou o caso, da árvore esmeralda, da macaca que se coçava, da festa dos sapos e da decoração azul.
Os pássaros propuseram uma solução, se reuniriam e voariam bastante alto, até alcançarem o limite do firmamento, trariam o céu para baixo, um pedaço do céu para perto do lago, de forma que teria uma decoração com a parte superior azul e seu reflexo também azul.
A pista de dança, por assim dizer.
Combinaram os detalhes e a flor da montanha desceu das árvores mais uma vez.
Perguntou para aquele sapo já conhecido de longa data dela, o que os da sua espécie gostam de comer, ele lembrou principalmente de moscas, mas também de pequenas vespas, pequenas frutas talvez, mas borboletas eram as iguarias mais apreciadas.
Sugeriu que ela usasse uma rede, igual a todos que não línguas pegajosas faziam.
Onde conseguir uma rede?
O próprio sapo tinha uma, que ele usava quando estava resfriado, emprestou para a flor da montanha que saiu pela floresta pegando moscas, vespas, principalmente borboletas, de muitos padrões de cores.
Reuniu grande número de alimento de sapo e levou para o lago.
Soltou aqueles pequenos seres voadoras no lago, os sapos desceram um pedaço de céu até ali e a festa dos sapos começou.
Coaxaram e bateram as patas, divertiram-se lançando suas línguas em grande variedade de borboletas e aos poucos foram se cansando.
A flor da montanha aproveitou o momento para descansar e dormiu um pouco.
Quando acordou, os sapos estavam espalhados e cansados, muito felizes.
O velho amigo sapo disse que agora os sapos tratariam bem qualquer um que chegasse lá, desde que não fosse alimento.
Se o mau-humor os dominasse, bastava que eles próprios organizassem outra festa, para relaxarem um pouco.
Satisfeita ao saber disso, a flor da montanha voltou para a macaca e contou as boas novas.
Entre alegria e desconfiança, ela disse que ele fosse ao lago, quando ela tivesse certeza de que o lago era um lugar tranquilo para se banhar, entregaria então o seu coçador.
Ela foi na frente e a flor da montanha esperou um pouco antes de voltar para o lago.
Chegando lá encontrou a macaca velhinha no lago, com cara satisfeita, papeando com alguns sapos que contavam animados da festa e a convidavam para a próxima.
Ao ver a flor da montanha ela cumprimentou animada e lançou o seu coçador de costa.
Com o caçador finalmente em posse, a flor da montanha foi para a árvore esmeralda, subiu em sua costa e começou a coçar.
“Mais pra cima, agora mais pra direita”, a árvore esmeralda dava as coordenadas, até dizer: “ahhhh…”, em um suspiro satisfeito.
“Parece que você completou o primeiro favor, deveras simples, devo dizer, não serei tão brando da próxima vez, preciso já faz muito tempo, de uma vista, não digo melhor, mas bem diferente, de preferência instigante, pois árvore que sou fico aqui parado, mexendo meus galhos mais finos e as flores à mercê do vento."
“Sabe do que eu gostaria? De uma arte bem dadaísta. Na natureza tudo tem um padrão. Eu só vejo perfeição.”
E agora, onde encontraria a flor da montanha um Francis na floresta de uma realidade paralela àquela?
Voltou aos sapos, imaginando que eles poderiam saber de alguém que por arte e vanguarda se interesse, que belas obras sem sentido produzam.
Os sapos deram risada, de sem sentido em suas vidas conheciam apenas os sonhos, disseram que havia uma oniromante que talvez encontrasse para a flor da montanha algo agradável aos olhos da árvore esmeraldo que dadaísta fosse.
A oniromante vivia no buraco de um tronco de uma árvore, perto da profusão de muitas lesmas preguiçosas, era uma sapa diferente dos outros sapos, pois comia apenas frutas, pois usava um lenço roxo na cabeça, pois entrava em alheio sonhos e vivia dividida nesses dois mundos.
“Você me apareceu num sonho flor de elmo, agora mesmo, quer entrar na realidade, ou será que nela estamos agora?”
A demanda por obra dadaísta foi exposta, a oniromante refletiu, coaxou de leve e contou para a flor da montanha de um trabalho oniromântico que ela aceitou recentemente.
Era uma anta, grande e tenebrosa, o mais forte animal daquela floresta, que andava tendo terríveis pesadelos, tão terríveis que quando acordava, o seu corpo grande e pesado não se levantava, ficava em pânico, emitindo tenebrosos sons de pavor incurável.
A oniromante havia entrado nos sonhos da anta, sonhos escuros, de um ser pequeno e indefeso, que sempre morria pisoteado, devorado, afogado, esmagado, destroçado ou queimado.
De fato, a oniromante ficara o dia inteiro deitada depois de tentar intervir nesse sonho, por duas vezes tentou, desde então tentara outras abordagens, todas falhas.
Foram ter com a anta, a grande anta (como era chamada), estava acordada, tristonha e desanimada, sem querer saber de nada.
A anta e a flor da montanha foram apresentadas, a sapa explicou o plano, ambas dormiriam e a de elmo seria lançada no sonho da anta, ver o que era, o que lhe atacava e vencer o trauma.
Então dormiram.
Começaram a sonhar...
O que sonha uma flor?
Com um chuvisco de leve em suas pétalas.
Com um raio de sol em seu caule.
Com a terra úmida e o vento soprando do leste.
Com as minhocas e as abelhas.
Foi lançada no sonho da anta. Sonho escuro como o solo e de criatura que não conhece altura e nem porte, olhou para si mesma, suas patas daquele sonho e percebeu que era formiga.
Viu uma grande anta se aproximando, que nela e em outra formiga que estava ali pisaria, pulou para o lado, agarrando aquela companheira trêmula que era a anta do sonho.
Anta acordada, formiga dormindo.
Veio uma enxurrada, na verdade pequena poça na qual a anta pisara, novamente a flor formiga da montanha agarrou a anta formiga e agarrou-se ao solo segurando-se daquele maremoto.
Em seguida um tamanduá, ainda não satisfeita de formigueiros inteiros, veio na direção delas aspirando o ar que as precedia, enfiaram-se debaixo da terra e por túneis improvisados escaparam dali.
Voltaram ao ar livre para se depararam com chamas, monumentais vindas de não sei onde, espalhadas por grande ventania que de adversária tornou-se rota de fuga, levantando folhas que se lançavam aleatoriamente para a morte vermelhas, a flor da montanha em forma de formiga foi levando a anta em forma de formiga por essas folhas.
Pulou de uma para outra várias vezes.
Até encontrar-se em canto quieto da floresta, quieto e úmido.
Apenas com o som distante da água, dos pássaros e dos insetos.
A anta na forma de anta, deitada e dormindo em paz, a formiga em forma de anta também, deitou e dormiu em paz.
Do sonho do sonho acordaram e a anta levantou-se de bom humor, dizendo "bom dia!" e "como vão vocês?".
O parte do trato que se referia à flor da montanha estava cumprida, de bônus a gratidão da anta animada, agora a oniromancia estava ao seu dispor para buscar inspiração dadaísta.
"Muito bem", disse a oniromante, "vou deitar, vou dormir e buscar em meus sonhos quem faça o que você precisa o mais próximo possível, volte amanhã."
Foi o que a flor da montanha fez, deitou-se na terra, com o elmo como constante proteção e dormiu até o dia seguinte, quando foi visitar a oniromante, que ao vê-la foi logo dizendo: "tenho novidades!".
A animação não condizia com a qualidade da novidade.
Existia de fato, um artista dadaísta andando por aí, pelo que disse a oniromante anfíbia, uma contraparte de um grande artista dadaísta de outro universo, chamava-se François e poderia ser encontrado logo ali.
Para além dos limites da floresta, atravessando os charcos e o deserto, alcançando uma elegante cidade costeira, vivia François.
Partiu a flor da montanha e chegou aos limites da floresta, atravessou os charcos traiçoeiros, o deserto sem fim e chegou a uma cidade elegante na costa, onde um homem tristonho tocava acordeão na praça e um mímico seguia os habitantes.
Os prédios eram amarelos, com detalhes em vermelho, tudo recebia vento e sol, todos eram amáveis.
Não havia taverna, mas um belo restaurante, onde podia-se comer sentado numa mesa na calçada.
Nesse restaurante a flor da montanha perguntou sobre o François e foi direcionada para o apartamento do incompreendido artista.
Chegando a esse apartamento, como era de se esperar, a entrada era numa esquina arredondada, o prédio de ares simples e uma grade de ferro depois da porta de vidros, ainda que não houvessem crimes por lá.
A lista de campainhas, vários nomes, a flor da montanha não alcançava, esperou até uma simpática senhora aparecer, com uma sacola de papel cheia de hortaliças, que ao saber que o visitado era o François, deixou a flor da montanha entrar.
Mostrou qual era o apartamento, do terceiro de cinco andares, saiu dizendo “vai ser ótimo pra ele, tão soturno anda ele.”
Bateu na porta.
“Quem é?’, perguntaram lá de dentro.
Então abriu a porta o François.
Um flor, segurando seus pincéis e parafusos, com um sorriso alucinado, perguntando: “o que faz aqui uma flor com um elmo?”
Assim a flor da montanha expôs, sem nem entrar no apartamento, sua demanda por um trabalho para ser apreciado pela árvore esmeralda na floresta distante.
“Deveras curioso o seu pedido”, ele disse, balançando suas pétalas, que não se sabia qual delas era da cor original, já que eram manchadas com diferentes cores de tinta.
Convidou para entrar a flor da montanha e mostrou seus últimos trabalhos.
Disse que poderia levar qualquer um.
Qualquer um mesmo.
Pois eram todos dadaístas.
Mas desde que batera na porta, não poderia mais, pois se fizera para ele existente.
Numa tela uma flor vestindo um elmo.
Na outra uma árvore cuspindo uma esmeralda.
Em outra uma macaca se coçando.
Ainda outra com uma festa de sapos, com banquete de borboletas e o céu trazido para baixo.
Uma anta sonhando que era uma formiga.
Uma sapa de lenço na cabeça entrando nos sonhos dos outros.
Um grupo de macacos jogando arcanos.
“Essa é minha última série, tem outra…”
Entraram num quarto, onde havia mais telas.
Em uma havia uma criatura, que voava e nadava, mistura de lesma com centopeia e morcego, ou qualquer outra coisa.
Na outra uma prisão labirinto, onde cachorros e homens se misturavam.
Uma sala límpida, mas estranhamente nublada.
Na outra série, mais telas, uma com uma montanha, com fogo, um pirata e um pássaro.
Uma vila sendo devorada pela lava, os aldeões, pisoteando felizes o solo.
Uma criatura de fogo, escondida e indiferente, algo branco no centro, talvez uma caveira.
“Como vê, tudo que me contou está na minha arte, mas agora minha arte é só a expressão da existência concreto, como posso agora pintar algo dadaísta, se você me trará a experiência do que eu julgava fora da existência?”
Presa nesse paradoxo, a flor da montanha só teve uma opção: viveria, por tempo suficiente, vida ordinária e comum para uma flor, dessa forma, qualquer coisa que pintasse François não seria vivido por ela, tornando aquela distorção artística em realismo.
Conseguiu emprego numa floricultura de flor de mostruário.
Guardou seu equipamento de aventuras em um cofre alugado.
Alugou também um apartamento, no mesmo prédio onde morava o François, conheceu todos os seus vizinhos, cumprimentava todos e até fazia fofocas.
Esperou até que François a chamasse. Esperou três dias. Depois esperou mais três semana. Depois esperou mais três meses. Depois de três meses, três semanas e três dias, quando ela saía de manhã para ir trabalhar, François a interpelou, com os olhos fundos, dizendo como se criminoso fosse: "Hei! Florzinha comum, venha cá ver uma coisa."
A flor respeitável agora da simpática cidadezinha litorânea entrou no apartamento daquele senhor flor de reputação duvidosa, mas sem dúvida de boa índole e capacidades artísticas que o destacavam.
"Veja minha pintura, se é isso que uma árvore absolutamente real que tem dentro de si um mineral, pode se agradar de ver."
A flor da montanha olhou a pintura. Olhou de novo. Olhou bastante. Não entendeu, achou tudo muito sem sentido, apesar de agradável aos olhos e da evidente habilidade do seu progenitor.
"É bom que vá rápido, pegue a tela, peque seu elmo e toda sua parafernália, diga na floresta quem fez essa pintura."
A flor da montanha pegou o quadro, depois pegou seu equipamento de aventura, pediu demissão no serviço, pagou o aluguel e a conta no restaurante, partiu no trem, que descobriu que havia, que levaria ela pelo deserto, pelos charcos e até a entrada da floresta.
Levou a tela até a árvore esmeralda, colocou na frente dela, apoiada em outra árvore.
"Hmmm", disse a árvore esmeralda, longamente, depois disse: "gostei, poderei passar muito tempo aqui pensando no que tudo isso significa, posso mudar seu significado conforme meu tempo de vida, posso ver novas perspectivas conforme for deteriorado pelo clima."
"Está na hora então, da derradeira tarefa", disse a árvore esmeralda, "eu não poderia cuspir, acredite que eu quero, pois muito me incomoda essa pedra, talvez se espirrasse... fiquei sabendo de uma pimenta, que se vende moída e é muito forte, que mesmo os mortos ao cheirá-la espirram forte, se vende num mercado maior do que muitas cidades, na nação da Abissínia."
Assim recebeu da árvore esmeralda a terceira tarefa, o terceiro favor, aparentemente o único estritamente necessário, não culpou o monumental ser, que afinal não podia se mexer.
Partiu em busca da tal pimenta, na nação da Abissínia, em algum lugar do deserto havia montanhas, que levavam a paisagens tão estéreis quanto frescas, onde grandes riquezas circulavam.
Seguindo caravanas com camelos, cavalos e soldados de espadas curvadas a flor da montanha seguiu pelo deserto e depois pelas montanhas.
De defenderam juntos de grandes cobras que vinham da areia, de grandes escorpiões que vinha da areia e de cactos vivos que vinham da areia.
Chegaram às regiões altas, onde ficava a nação de Abissínia.
A cidade era baixa e vasta e metade dela ocupada por tendas cheias de coisas coloridas e cheirosas, coloridas e saborosas, coloridas e bonitas, desde grãos de feijão até colares de âmbar.
Em três minutos a flor da montanha foi abordada por trinta vendedores, experimentou adornos para o elmo, empunhaduras para o canivete, fertilizante, perfumes, temperos, tecidos, animais de estimação... perguntou a todos sobre a pimenta, moída e forte, que faz até um morto espirrar com força.
Um vendedor de tapetes e verduras, chamado Zé.
Ele disse: "eu conheço essa pimenta, uma vez a comprei por engano, pensei que não podia ser tão ardida, que infeliz decisão, quase perdi minha língua e sem exagero posso dizer que minha alma foi até o Cazaquistão."
Indicou então a tenda que vendia, a localização mais ou menos exata e mais ou menos a cor da tenda, descreveu mais ou menos seu vendedor e disse que a pimenta chamava-se "negra", ou talvez fosse "do rio".
A flor da montanha cruzou o mercado, demorando pelo menos sete horas para isso e quando chegou lá já começava a ver os primeiros sinais do anoitecer, chegou na tenda descrita como verde ou roxa que na verdade era amarela, no lado leste, à direita, que na verdade era à esquerda, com o vendedor de barba grande, ou cabelo ruivo, que não tinha barba e nem cabelo.
Pediu por um punhado da pimenta que era negra, ou do rio, nenhuma das duas existia, o vendedor, que se chamava Chico, deu sonora gargalhada, perguntou o que de fato queria a flor da montanha, ela disse da pimenta, moída, que fazia até morto espirrar forte e desavisados transplantarem línguas.
Comprada a pimenta a flor da montanha partiu, com pressa, para não perder a caravana que partia novamente e seria companhia, demorou mais seis horas para chegar na entrada da cidade, a caravana já havia partido e o silêncio já havia se instalado.
Se aproximou da flor da montanha figura suspeita, de espada na cintura, cobrindo o rosto e só os olhos de fora.
Alertou dos perigos, dos bandidos, dos animais e da noite impiedosa, da montanha traiçoeira e do deserto violento.
Ofereceu-se para dar carona, disse ser guerreiro, em muitas batalhas matou muitas pessoas, agora espiava sua culpa ajudando viajantes despreparados, vivia como mendigo, da boa vontade alheia.
Havia ganho do rei da nação de Abissínia depois de certa batalha um cavalo, que não era o mais rápido, nem o mais bonito e, pra falar a verdade, vivia com pulgas, mas tinha a habilidade única de jamais se cansar.
Ela pesou a história rapidamente e aceitou a carona, não era, de qualquer forma, indefesa flor. Andaram até um estábulo ali perto, onde o cavalo marrom estava.
Era um cavalo sem nada de mais, que se chamava Scadufax.
"Homenagem a um mágico que certa vez conheci, quando comi uns cogumelos e fui parar em outra dimensão, aliás, me chamo Juquinha."
Foram, não rápido demais, mas ininterruptamente, desceram a montanha, atravessaram o deserto, o charco e chegaram na floresta, nela adentraram e a flor da montanha foi deixada na frente da árvore esmeralda.
"Se precisar de carona, em qualquer lugar, para qualquer lugar, só me chamar", disse Juquinha, e saiu galopando.
Já amanhecia e a flor da montanha cumprimentou a árvore esmeralda.
Abriu o pequeno saco onde estava a pimenta.
Jogou para o alto.
A grande árvore esmeralda aspirou um pouco com seu nariz de madeira oca.
E disse: "Ah..."
"Ah..."
"Ah..."
"Atchiiiiiiiiiiiiiim!!!"
Voou seiva e a floresta inteira tremeu, a flor da montanha ficou toda amarelada com aquela seiva grudenta nela, mas a esmeralda estava, afinal, em suas mãos."
Com a esmeralda em mãos, primeiro foi no lago tomar um banho.
Para depois pensar no que fazer, de que forma poderia uma esmeralda brilhante ajudar? Não havia ninguém para falar... enquanto desanimada andava pela floresta a pensar nesse beco sem saída, um monte de borboletas, milhares delas apareceram e levaram a flor da montanha dali, para um lar que só elas conheciam.
Uma caverna com cogumelos luminosos, com minerais brilhantes nas paredes, muitas borboletas para lá e para cá.
Se perguntou a flor emboscada da montanha onde estava e uma borboleta que estava de guarda do lado dela disse: "a rainha quer falar com você, que contribuiu para grande massacre de borboleta."
Um pouco tensa esperou a flor da montanha, ao ver aquelas borboletas todas tão belas voando por ali, sentiu-se totalmente culpada por colaborar com um banquete para sapos.
Surgiu voando, rodeada de tantas outras borboletas, uma maior do que todas, que de todas as cores era, não dava pra saber se o movimento das asas dava a impressão ou se o seu padrão se modificava a cada momento.
Deu as boas vindas à flor assassina da montanha, disse ainda que a boa educação não deveria se ausentar, principalmente em negros tempos de assassinato em massa.
A culpa da flor da montanha ficou ainda mais pesada.
Esperou o pior castigo.
A rainha das borboletas então perguntou: "por que fez isso?"
Diante de si, a flor da montanha viu três opções de resposta:
"Por que eu quis."
"Para servir de banquete numa festa muito legal."
"Para salvar o mundo."
Refletiu e respondeu que era para salvar o mundo.
Perguntou então a rainha das borboletas: "não se arrepende desse ato tão tenebroso?"
Mais três opções de resposta viu diante de si a flor da montanha:
"Não."
"Na verdade eu me diverti muito."
"Desde então nunca mais dormi."
Refletiu e respondeu que desde então não dormiu mais.
A rainha das borboletas perguntou: "o que você pensa em fazer para compensar imperdoável falha de conduta?'
Mais três opções mais uma vez surgiu diante da flor da montanha:
"Realizar outro banquete com borboletas no cardápio."
"Estou com preguiça."
"Levarei suas cores pelo mundo em defesa da sua espécie."
Refletiu e respondeu que levaria as cores das borboletas pelo mundo em defesa da espécie delas.
Diante de declaração tão dramática e certeira, a rainha borboleta mandou que costurassem com as fibras dos próprios casulos uma asa resistente, que aguentasse até os ventos mais fortes, que levassem a flor da montanha para longe com rapidez.
Assim fizeram e presentearam a flor da montanha com tais asas, de várias cores, que tremulavam ao vento em tantas cores quanto nunca se havia nomeado, pulando de uma altura considerável a flor da montanha podia planar e o vento a carregava para longe, estendendo as duas asas para fora do elmo em suas laterais.
"Afinal, por que fizeste tudo isso?", perguntou a rainha das borboletas.
A flor da montanha explicou, mostrando a esmeralda até então inútil.
"Se está sem resposta, a resposta é óbvia, volte para o início", sugeriu a rainha das borboletas.
Libertada a flor da montanha, subiu na copa de uma das árvores e pulou, saiu planando pelo mundo, tomando a direção da cidade onde viveu como flor de guarda por um bom tempo, de onde partira para iniciar sua busca.
De volta à cidade, foi saudada pelos seus amigos que trabalhavam na proteção da cidade.
O guarda que lhe dera o elmo quase chorou de emoção e a animou diante da demanda paralisada, o guarda que lhe dera o canivete permaneceu muito sóbrio enquanto conversava, contou que em breve se casaria, que dera uma porca para sua noiva e elogiou as melhorias no canivete.
A flor da montanha foi até a taverna, tomar uma água.
Perguntou ao taverneiro, sobre alguém que parecesse suspeito ou mágico.
Havia naquele momento, no fundo da taverna, encoberto num capuz, com olhos brilhantes e caninos afiados, um encantador de gemas.
A flor da montanha foi falar com ele, mostrar-lhe a esmeralda.
O olho brilhante do indivíduo mágico e suspeito brilhou mais ainda, seus caninos ficaram mais evidentes, ele disse que compraria essa gema, se ela não fosse conhecida por atrair as maiores desgraças e afundar até as mais puras almas num lodo profundo de indignidade.
Que joia era aquela, a flor da montanha queria saber.
Ele disse que era uma suspeita, mágica e extremamente perigosa gema, que sozinha já transformava o portador em um alvo luminoso de todas as forças tenebrosas e mal intencionadas desse e de outros mundos, mas que se não foi encontrada por acaso, havia outras duas gemas e que as três juntas colocariam o portador em uma rota de colisão direta com a própria dolorosa destruição.
Animada com o discurso, a flor da montanha perguntou por quais meios poderia realizar tudo aqui com aqueles discursos.
Ele disse que havia um santuário, numa colina próxima dali, erguido em honra a uma deusa que ninguém se lembrava do nome, onde se contavam as lendas que havia um portal, que se ativado levava aos antigo castelo, como rota de fuga dos governantes em casos de guerra e sítio, rota criada pelos magos do passado, versados em artes que se perderam no tempo.
Mais animada ainda, a flor da montanha perguntou que castelo era esse.
Ele disse que o castelo é aquele que foi dominado por sombras e escuridão, governado por um senhor sombrio que tudo tomava sem nada oferecer, que as gemas foram escondidas para que não abrissem um atalho para o inimigo que ora do castelo tomava conta.
Exultando de animação, a flor da montanha questionou o fato de uma joia servir para rastrear outra.
Ele disse que um dos magos, já bastante idoso, com mais de quinhentos anos, não concordou com o plano, pois julgava o portal útil para que um herói entrasse na fortaleza do mal e destruísse o profanador daquele solo, então ele lançou feitiços das pedras, para que não fosse impossível encontrá-las.
Literalmente pulando de alegria, ela pediu a localização do templo.
Ele pegou um mapa, estendeu na mesa e apontou com o dedo.
A flor da montanha passou no boticário, comprou poções.
E partiu da cidade mais uma vez. Subiu na muralha e foi planando.
Chegou à colina, chamada Colina Antiga.
Enfrentou lobos poderosos, aves com espinhos longos nas asas e insetos gigantes, ela chegou ao topo da colina, onde havia um templo antigo e cinzento, onde devia haver fantasmas.
Chegando até próximo da grande porta selada desse templo, encontrou-se a flor da montanha com a figura de um ermitão, prostrado ao lado da porta, sentado com as pernas cruzadas, as mãos em cima dos joelhos com as palmas voltadas para cima, olhos fechados e uma expressão serena.
Ao perceber a presença de alguém, ele logo afirmou, com uma voz que parecia não vir dele, pois não abria a boca, que era um velho de mais de quinhentos anos, que havia sido ignorado e agora ignorava o mundo, que fizera um juramento de jamais abrir os olhos se não visse o brilho das três joias reais juntas e que a porta do templo havia sido enfeitiçada também.
Abria apenas quando seus olhos abrissem.
Se perguntou a flor com dúvida da montanha como poderia ele ver o brilho de tais joias se não abria os olhos.
Na via das dúvidas, colocou as três joias diante do ermitão, que a ignorou.
Compreendeu então que deveria entrar no mundo daquele ermitão, sentou-se do outro lado da porta e passou a meditar tal qual o ancião, tentaria alinhar a sua energia mental com a dele e encontrá-lo no plano espiritual, onde faria ele ver o que teria que ver para os olhos abrir.
No começo, sentiu tédio.
Mas então, ciente da importância de sua demanda, concentrou-se, até que visse novamente o céu tão claro quanto o via com os olhos, mas sem abrir os olhos.
Ele era roxo e os animais que habitavam essa consciência inquieta de flor com elmo tinham longos dentes afiadas, muitos cuspiam fogo e quase todos voavam e adentravam a terra também.
"Inimigos realmente formidáveis", pensou a flor da montanha, que se viu em ruínas antigas, em um labirinto, com inimigos por todos os lados.
Seu canivete não era apenas retrátil nesse plano, mas soltava feixes de energia que dilaceravam as criaturas, que por outro lado eram resistentes e numerosas.
Seguiu por diversos caminhos, deu voltas sem sentido e perdeu-se dúzia de vezes antes de sair desse labirinto, onde encontrou a entrada do templo no alto da colina, um velho estava por lá.
Esse velho cultivava algumas plantas em um canteiro.
"Um único jeito de entrar no templo existe, encontrando a pedra âmbar que esta no pescoço daquela com os dentes mais belos."
Após essas palavras, a flor da montanha subitamente acordou, voltando ao mundo onde estava acostumada, o velho continuava quieto, meditando.
Tentou lembrar de pessoas com dentes belos, mas não se lembrou de ninguém, a flor da montanha não era muito de reparar nos dentes de ninguém, teria que começar.
Desceu a colina e voltava para a cidade, onde recapitularia o seu progresso.
Foi interpelado por mulher escandalosa, gritando "me ajude, por favor, heróica flor dentro do elmo!"
Defeito ou qualidade, certo é que a flor da montanha não conseguia ignorar alguém, ainda mais alguém pedindo ajuda.
A mulher havia perdido sua cadela, a mais bonita cadela de todo mundo, com os olhos mais brilhantes e as patas mais fofinhas, essa cadela, normalmente muito caseira, saíra correndo pelas ruas atrás de sabe-se lá o que.
De repente a mulher jogou-se aos pés da flor da montanha, chorando copiosamente, implorando por ajuda.
Apesar de ocupada com outros assunto, a flor voluntariosa da montanha não viu mal em ajudar aquela mulher, o amor dos humanos pelos seus bichos de estimação é algo sempre muito belo.
Aceitou ajudar e a mulher sorriu em meio às lágrimas, informando onde ficava sua casa, caso encontrasse sua cadela.
Mais um dilema se apresentou: "como rastrear um rastreador?"
Pensou e chegou à conclusão que teria que armar uma emboscada para essa cadela, como se pescasse.
Pescaria de cachorro.
Foi até o açougue, onde comprou dois belos bifes.
Colocou o bife no meio do gramado, onde encontrara a dona da cadela sumida, escondeu-se na moita e no tédio por horas até aparecer um canino, a flor da montanha correu e o cachorro correu com o bife, dando tempo de denunciar que não era a bela cadela que sumira.
Colocou o outro bife no mesmo local e escondeu-se entediada na mesma moita, por mais horas, até aparecer uma cadela que bem que poderia ser, correu até ela e a cadela, uma vira-lata rajada e simples, mas com um charme inexplicável, correu.
A flor da montanha correu atrás.
Compensou a falta de quatro patas potentes com estratégia e leveza.
A cadela deu a volta na colina e a flor da montanha foi atrás, pulando por árvores e rochedos.
Esbaforida e sentindo que poderia morrer a qualquer momento, a flor da montanha alcançou a cadela que parara no mesmo ponto de onde saíra e agora, deitada, comia o bife.
"Eu sou a cadela da madame", disse, enquanto comia, a flor da montanha perguntou o motivo que levou a cadela a fugir.
"Um ladrão, ladrãozinho, pegou minha coleira e correu, corri atrás dele e você viu como sou rápida, mas ele era mais rápido, tento rastrá-lo, mas não consigo."
"Não, não voltarei para casa enquanto não recuperar meu tesouro que minha dona me deu, mas se você prometer procurar e assim cumprir, posso esperar em segurança, aqui."
Nada modesta a proposta, percebeu que a cadela tinha belos dentes, caninos tão brancos que quase brilhavam, melhores do que os dentes humanos que via por aí.
HAUAGUAYGA
Viu duas opções:
"Não encontrei, me desculpe."
"Encontrei, está aqui."
Achou melhor dizer que não havia encontrado, sendo aquela a pedra âmbar que precisava, dela dependia a sobrevivência de todos.
A cadela ficou decepcionada, mas admitiu que era melhor voltar para casa, agradeceu e foi embora para sua casa.
Posteriormente, a flor da montanha ficou sabendo que a dona nem ligara com a perda da pedra âmbar, pois mais importante era a segurança da sua cadelinha.
Um pouco insatisfeita com sua escolha, a flor da montanha voltou e resolveu testar a outra resposta possível.
A cadela pulou de alegria, dando uma volta completa.
Chegou nesse momento sua dona, ambas se abraçaram e pulalam de alegria, dando uma volta.
A dona entendeu o que acontecera e agradeceu a flor da montanha, a recompensando com a pedra âmbar.
Pois era melhor ter sua cadela em segurança.
Mais satisfeita com essa escolha, a flor da montanha agradeceu e foi embora, colina acima, de volta ao Templo Antigo.
Chegando lá, não sabia ao certo como a pedra âmbar abriria a porta.
O ermitão se deu ao trabalho de sair da sua meditação e explicar: "detrás do templo tem as ruínas de um jardim, com um sol desenhado no chão."
"Lá, a pedra âmbar revelará a localização da chave do templo."
A flor da montanha foi para as ruínas do jardim do Templo Antigo, infestado de flores canibais zumbis, que como competentes zumbis, atacaram a flor armada da montanha, que deu combate a elas.
Depois de despachar aquelas pobres almas vegetais, um forte vento bateu e toda areia e terra deu espaço para um relevo em forma de sol no chão.
Posicionou-se no centro do relevo a flor ocupada da montanha, pegou a pedra âmbar e olhou, nada aconteceu, contudo, escurecia.
Aguardou até o raiar do dia quando os primeiros raios de sol atingiram pedra âmbar, que brilhou levemente e revelou o mapa do mundo conhecido.
Nesse mapa, uma marcação.
A chave do templo.
Onde colocaria as pedras preciosas coletadas.
Para abrir um portal.
A marcação no mapa era numa ilha, saiam embarcações para lá de uma já conhecida e charmosa cidade portuária.
Para lá foi a flor da montanha, lembrando do seu último e primeiro emprego.
Função: flor.
Atribuições: flor.
Chegou à cidadezinha e não perdeu tempo, foi direto para o porto.
A embarcação que fazia esse translado, contudo, não sairia.
O capitão, prostrado na entrada e impedindo a passagem de qualquer um, dizia que uma forte tempestade fora prevista para os próximos três anos, enquanto não ocorresse, aguardaria seguramente.
O céu estava limpo, sem nuvem à vista, ao longe a ilha dava para ser vista dali, a Ilha da Chave Quebrada.
"Mas", o capitão explicou, diante da insistência da flor da montanha, "aqui do lado tem uma embarcação de pescadores, indômitos, que sempre saem para o mar, mesmo quando as bestas das profundezas nos visitam."
Só ao se dirigir para a embarcação ao lado que a flor da montanha percebeu o quanto a primeira era limpa e inteira, só ao se dirigir ao capitão dessa embarcação pesqueira percebeu que o outro capitão provavelmente tomava banho.
Esse capitão, chamado Capitão Bolacha, pois havia sempre pedaços de bolachas em sua barba, se recusou a falar com a flor da montanha.
"Seu nível de carisma é baixo", disse o Capitão Bolacha.
A flor sem carisma da montanha pensou que uma jóia poderia deixá-la mais carismática.
Foi até uma loja de equipamentos e comprou um anel que prometia que o seu carismo aumentaria uns pontos.
Colocou o anel.
Foi a flor carismática da montanha falar novamente com o Capitao Bolacha.
Ele disse: "mas que bela flor mais carismática! No que posso lhe servir?"
Ela explicou, ele disse: "esses covardes! O mar não é minha amante, minha amante está em casa, em terra firme, o mar é minha esposa e se eu não me aventurar, dormirei com os peixes."
Assim a flor da montanha foi convidada a ir com eles, que dariam pequeno desvio para deixá-la na Ilha da Chave Quebrada.
Foi avisada que a viagem, apesar de curta, é infinita e entediante aos novates, que o tempo só passaria se fizesse as atividades disponíveis.
Jogo de dardos, jogo na faca nos dedos, luta.
Em cada uma das três atividades participou a flor da montanha.
No jogo de dardos ela não acertou nenhum no centro do alvo da primeira vez que jogou, perdeu dez moedas que apostara, na segunda tentativa, fez uma pontuação aceitável, ainda assim longe de ser considerada boa, recebeu de volta cinco das dez moedas apostadas, da terceira vez fez uma pontuação alta, tendo acertado três dos cinco dardos no centro do alvo, o marujo que organizava o jogo deu para a flor da montanha uma sacola de moedas maior do que aquela que ela carregava.
No jogo de faca nos dedos ela foi bem de imediato, não acertou o dedo nenhuma vez, sendo premiada pelo outro marujo que organizava o jogo com cento e cinquenta moedas, que couberam todas na nova sacola.
Na luta, ela perdeu a primeira, o que lhe causou um prejuízo de vinte moedas e umas pancadas, da segunda vez ganhou do marinheiro grandalhão, o que lhe rendeu uma medalha que causava espanto nos inimigos, que ficariam paralisados por alguns segundos antes de atacar a flor da montanha, não era efetiva contra os chefes dos inimigos.
Ao terminar as três atividades, o Capitão Bolacha informou, enquanto pegava um pedaço de bolacha da barba e colocava na boca: "estamos quase lá!"
A flor marinheira da montanha correu para ver a ilha, que estava realmente muito próxima.
Era uma ilha pequena, se via ao longe seus limites, muitas árvores, uma densa floresta.
De via sua praia com clareza, os pelicanos, os caranguejos, os coqueiros, a areia, as ondas, uma caveira ou outra de náufragos desavisados com mapas em seus bolsos.
O dia que era límpido escureceu.
O céu que era azul ficou cinza.
O mar que era calma se enfureceu.
O capitão começou a gritar ordens, os marinheiros a correrem de um lado para o outro e a flor desorientada da montanha a ser jogada de um lado para o outro.
Grandes ondas invadiam o convés e o pulmão de flor da valente marinheira de primeira viagem.
O capitão ria e praguejava ao mesmo tempo, chamando o clima para uma briga pessoal.
Ouvia-se o som de coisas ou pessoas caindo no mar.
Até a flor da montanha causar esse som e desacordar.
Acordou estava sol, seu capacete e equipamente em um ponto próximo da areia, estava na Ilha da Chave Quebrada, não mais na condição de exploradora aventureira, mas sim de náufraga.
Primeiro, a sobrevivênvia, depois salvar o mundo.
Recolheu madeira seca pela praia, recolheu pedras e acendeu uma fogueira.
Fazer fogo batendo em duas pedras foi surpreendentemente fácil, bastava bater uma na outra no momento exato e a faísca pegava na madeira seca, a flor náufraga da montanha sentiu que havia ali um dom.
Depois adentrou um pouco na floresta, não deveria haver rios na ilha, que era pequena, mas alguma fonte de água deveria ter e encontrou, uma pequena nascente de água que saía por dentre algumas rochas num pequeno lago, não tão pequeno para uma flor.
Com uma fonte de alimento, pois água é alimento para flores e de calor, a flor da montanha se viu no caminho certo de uma náufraga de sucesso.
Depois pegou madeira de embarcações naufragadas e construiu um baú, para guardar suas coisas.
Guardou folhas de bananeira, frutas diversas, madeira, coco, água, pedras e um mapa do tesouro que encontrou com um dos esqueletos que encontrou na praia.
Tudo pronto, estava pronta para se embrenhar seriamente na floresta e procurar a chave.
Depois pensaria em como sair da ilha.
Se embrenhando na floresta, consultou seu mapa mental a localização marcada de onde estaria a chave marcada na pedra âmbar.
Chegou a uma clareira, com ares misteriosos.
Uma neblina tomou conta e surgiram grandes lagartos bípedes armados cada um com duas espadas.
A flor da montanha, que saíra da praia com seu elmo, seu canivete e sua medalha.
Derrotou o primeiro lagarto no tempo em que ele paralisou, o que lhe deu vantagem com os outros três lagartos.
Os três lagartos foram derrotados, a luta não foi fácil, eram rápidos para atacar e rápidos para desviar.
Quando o último foi derrotado, a névoa desapareceu e detrás da árvore surgiu um pequeno lagarto.
Não ameaçador como os anteriores, era menor que a flor da montanha, basicamente uma lagartixa, com uma cara sorridente, meio assustado, mas também meio aliviado.
Agradeceu a náufraga, disse que aqueles lagartos eram seus primos, que o procuravam e o perseguiam fazia tempo, pois ele sabia onde estava a chave.
Animou-se a flor da montanha, que se apresentou e perguntou da chave.
O lagartinho pediu para a flor da montanha esperar e saiu, voltando três segundos depois com um pequeno objeto de metal enrolado no seu rabo, deixou na frente da flor da montanha.
Era a cabeça de uma chave, a flor da montanha perguntou do resto.
O lagarto pequenino explicou que havia mais dois pedaços, com os outros dois clãs.
A flor atarefada da montanha perguntou sobre os clãs.
"As três ilhas, cada uma habitada por um dos clãs ancestrais que vieram de uma barca que partiu do sol", começou o diminuto lagarto.
"Desembacaram no alto de uma colina e trancaram a arca, que foi transformada pelos humanos em um templo, que agora já é muito antigo."
"O clã dos lagartos veio para a ilha das árvores, que ficou conhecida entre vocês como Ilha da Chave Quebrada, ficaram com um pedaço da chave."
"O clã dos gatos foi para a ilha das pedras quentes, onde construíram uma cidade para si e para lá levaram outro pedaço da árvore, a localização dessa ilha é um mistério e dizem que só os habitantes do terceiro clã conhecem."
"O clã dos patos foi para a ilha do lago, que é uma ilha muito conhecida no continente, pois se trata de uma faixa estreita de terra circular com um grande lago no centro e uma ilha menor dentro desse lago."
"Houve uma época em que governantes humanos nos procuraram e pediram a chave, pois queriam a chave para fazer da nossa antiga barca um portal para a fuga deles, caso precisassem."
"Nos reunimos, os três clãs, no alto da colina, para discutir o assunto, concordamos em ajudá-los, reunimos os três pedaços da chave e deixamos com eles."
"Muito tempo se passou até um desses humanos nos procurar, até onde sei procurou cada um dos clãs e entregou cada pedaço de chave, dizendo que o portal deles havia sido usado e que agora não havia volta para o lar."
"Agradeceu e foi embora, já faz muito tempo."
"Quando deixou a chave aqui, o clã dos lagartos já havia se autodestruído, bandoleiros envoltos em névoa, outros de nós passamos a viver mais solitários e nos encontramos ocasionalmente."
"Quanto a mim, tomei a tarefa de guardar o pedaço da chave quebrada, na verdade desmontada, função herdada dos meus antepassados."
"Por isso perseguido."
"Fui claro?"
A flor da montanha pensou em dizer "sim", mas sem querer disse que não.
"As três ilhas, cada uma habitada por um dos clãs ancestrais que vieram de uma barca que partiu do sol", começou o diminuto lagarto.
"Desembacaram no alto de uma colina e trancaram a arca, que foi transformada pelos humanos em um templo, que agora já é muito antigo."
"O clã dos lagartos veio para a ilha das árvores, que ficou conhecida entre vocês como Ilha da Chave Quebrada, ficaram com um pedaço da chave."
"O clã dos gatos foi para a ilha das pedras quentes, onde construíram uma cidade para si e para lá levaram outro pedaço da árvore, a localização dessa ilha é um mistério e dizem que só os habitantes do terceiro clã conhecem."
"O clã dos patos foi para a ilha do lago, que é uma ilha muito conhecida no continente, pois se trata de uma faixa estreita de terra circular com um grande lago no centro e uma ilha menor dentro desse lago."
"Houve uma época em que governantes humanos nos procuraram e pediram a chave, pois queriam a chave para fazer da nossa antiga barca um portal para a fuga deles, caso precisassem."
"Nos reunimos, os três clãs, no alto da colina, para discutir o assunto, concordamos em ajudá-los, reunimos os três pedaços da chave e deixamos com eles."
"Muito tempo se passou até um desses humanos nos procurar, até onde sei procurou cada um dos clãs e entregou cada pedaço de chave, dizendo que o portal deles havia sido usado e que agora não havia volta para o lar."
"Agradeceu e foi embora, já faz muito tempo."
"Quando deixou a chave aqui, o clã dos lagartos já havia se autodestruído, bandoleiros envoltos em névoa, outros de nós passamos a viver mais solitários e nos encontramos ocasionalmente."
"Quanto a mim, tomei a tarefa de guardar o pedaço da chave quebrada, na verdade desmontada, função herdada dos meus antepassados."
"Por isso perseguido."
"Fui claro?"
A flor da montanha pensou em dizer "sim", dessa vez confirmou.
Se despediu e voltou para a praia, com sua chave.
Na praia a esperava uma embarcação e o Capitão Bolacha.
"Oras! Veja só, você está viva! Ficamos felizes!"
"Procuramos você, é sério! Pelo mundo inteiro! Olhamos cada mapa!"
"Paramos para beber algo, é claro, e para um banquete cheio de carne! Mas precisamos nos sustentar!"
"Depois procuramos mais! Ou será que foi antes? Não interessa! Procuramos!"
"Aí pensei: já sei! Meu pensamento é longo e aguçado! Vim te procurar na ilha para qual você vinha! Perto de onde aconteceu aquela tempestade absurda!"
"Eu estava certo! Pegue suas coisas pequena flor, vamos para o continente!"
Enquanto a flor sobrevivente da montanha pegava o mapa do tesouro no baú, o capitão ficou parado esperando, com um sorriso voluntarioso no rosto.
Voltou para o continente, apesar de não fazer nada durante a viagem, foi quase imediato o retorno.
Antes de partir perguntou ao capitão sobre a ilha do lago, ele disse que a ilha era famosa, mas que os patos eram folgados, que o barco de turismo passaria lá, pois já tinha sido liberado já que uma tempestade já tinha ocorrido.
Agradecida, a flor da montanha foi para a outra embarcação, onde teve que pagar cento e cinquenta moedas para entrar.
A viagem foi tranquila, teve música ao vivo e discurso de pessoas importantes.
Já perto de chegarem, ocorreu um escândalo, a filha de um rico comerciante de aspargos perdeu sua pulseira.
Ela mesma não disse nada e nem acusou ninguém, mas outras pessoas proximas diziam "foi roubada!".
Com uma acusação, um acusado, um dos garçons, que causava suspeita na alta sociedade pelo seu moicano alto, sua calça jeans rasgada, sua corrente amarrada na cintura, cinto de rebite, camiseta preta regata.
Dois guardas de terno prenderam o garçom punk, pois em todo navio existe uma cela para esses casos.
Marcaram o julgamento.
O garçom punk, sendo levado, disse para a flor da montanha, percebendo que ela não compactuava com aquela célere acusação: "me ajude florzinha, sou inocente".
A dona da pulseira sugeriu que por descuido seu poderia ter perdido sua pulseira, foi ignorada.
O julgamento seria dali três horas, quando chegassem na Ilha do Lago.
Era o tempo que a flor da montanha tinha para encontrar a pulseira e provar que essa pulseira não havia sido roubada.
Primeiro perguntou para a dona da pulseira sobre o paradeiro da mesma, ela se descreveu como razoavelmente distraída, pediu para que a flor detetive da montanha procurasse pela pulseira e livrasse o pobre garçom punk do julgamento.
Perguntou para o chef, que elogiou o garçom preso, julgava que seu cabelo alto e lhe dava equilíbrio para levar várias bandeijas.
Perguntou para o capitão do navio, que criticou o chef por contratar qualquer um e não impunha regras mínimas de vestimento aos seus funcionários.
Perguntou para o pai da moça que perdera a pulseira, que disse que alguém tinha que pagar pelo sumiço muito suspeito.
Perguntou a dúzia de passageiros, ouviu sobre o azul do céu, a imensidão do mar, os rebites ameaçadores no cinto.
Depois de perguntar para todos que quiseram ser questionados, andando próximo à cabine onde havia se hospedado a jovenzinha distraída, viu algo brilhando no chão, pegou enfim a pulseira, que provavelmente só caíra ali mesmo, pois a molça do fecho estava quebrada e a pulseira abria-se sozinha.
Levou a pulseira até o chefe dos guardas do navio, que imediatamente chamou o capitão e todos envolvidos.
Desculparam-se com o garçom punk, não se podia julgar as pessoas pelas roupas e pela aparência, então prenderam a flor da montanha, que havia se entregado com a pulseira.
Prometeram punição branda no julgamento, por ela ter devolvido o objeto furtado.
O garçom punk prometeu que ajudaria sua salvadora.
O resto da viagem seguiu na cela, tomando água suja, vigiada por um guarda sonolento.
Pararam na Ilha do Lago, a flor da montanha foi levada até o convés, o capitão do navio estava de juiz, o pai da moça distraída de acusação e o garçom punk e advogado de defesa.
"Faremos o julgamento, seremos breves, depois vocês podem descer", declarou o capitão juiz.
Primeiro chamaram as testemunhas de acusação.
Uma senhora, professora de boas maneiras, foi a primeira, ela disse que a flor era suspeita, pois era da montanha e se comportava selvagemente.
Depois o contramestre, que disse que viu a flor da montanha andando com a pulseira.
Por último, o pai da moça que perdera a pulseira, que disse que viu a flor da montanha pegando a pulseira do inocente pulso da sua filha.
Depois disso chamaram as testemunhas de defesa, que de início eram inexistentes, mas a moça se voluntariou, aquela distraída que perdera a pulseira, ela disse: "eu perdi a pulseira, não fiquem bravos comigo, a flor da montanha apenas me ajudou a encontrar."
Para terminar, o advogado de defesa pode fazer uma exposição, onde listou alguns feitos da flor da montanha numa canção que ninguém compreendeu muito bem, mas todos perceberam que se tratava de coisa verídica.
O juiz ordenou que os jurados entrassem em um cômodo e deliberassem.
Ao retornar, os jurados começaram a votar, era sete dentre eles.
"Culpada."
"Inocente."
"Culpada."
"Culpada."
"Inocente."
"Inocente."
"Inocente."
"Declaro, portanto, a flor da montanha inocente do roubo da pulseira, podemos agora aproveitar a estadia na Ilha do Lago sem ter ignorado sério possível delito."
Liberada, a flor da montanha despediu-se do seu advogado, que retornaria à função de garçom, depois desceu na ilha para encontrar o clã dos patos.
Para sua surpresa, não eram patos, mas seres humanos, que se denominavam patos, logo ao chegar perguntou sobre o clã dos patos para uma mulher que estava parada na entrada do vilarejo.
A mulher riu e explicou que não havia patos, que de fato havia três clãs que criaram a chave, mas era lendas antigas, que os patos eram humanos que viviam perto das águas doce.
Sobre o clã dos gatos não conhecia, mas tinha certeza que eram tão humanos quanto ela.
"Procure pela escola, a professora é a pessoa mais inteligente do nosso vilarejo, por isso é professora."
A flor da montanha foi até a escola e estava tendo aula.
A professora perguntou se ela gostaria de assistir a aula, a flor da montanha agradeceu, mas recusou, a professora disse que então não tinha nada a tratar com ela, o que fez com que a flor da montanha fosse tomada por furor pedagógico.
Assim ela passou a estudar, com a turma multi-seriada formada por todas as crianças do vilarejo da Ilha dos Patos.
Eles estava aprendendo Geografia e uma pergunta foi feita para a aluna nova.
"Qual o nome da localidade, entre Andorra e Papagaia?"
Resposta: Colinas Maldosas.
Depois estavam aprendendo História e outra pergunta foi feita para a aluna que vestia um elmo.
"Qual foi o último rei do Reino da Colina Amarela?"
Resposta: Rasgama III.
Posteriormente, aprendendo sobre Esportes, mais uma pergunta foi feita para a aluna com perna de caule.
"Onde é praticada a tradicional corrida atrás do aspargo prateado?"
Resposta: Nas Colinas Deslizantes.
A Matemática foi deixada por último e não faltou pergunta para a aluna que levava um canivete para a escola.
"Se cada montanha se dividisse e gerasse duas pequenas montanhas e cada pequena montanha se dividisse e gerasse quatro colinas, quantas colinas teria no mundo conhecido, considerando as que já existem?"
Resposta: 2 275 988
"Estou impresionada", disse a professora, "você acertou todas e é minha segunda aluna com nota dez", a professor bateu palmas.
"Acho que agora você pode duelar com o melhor aluno da sala, o único que no teste individual acertou todas as perguntas, inclusive aquela que interessa a você, a localização do lendário pedaço de chave."
Entrou na sala o melhor aluno, um rapaz surpreendentemente alto, musculoso e que trazia na sua mão um bastão onde em alguns lugares se usa para jogar baseball, mas na Ilha do Lago não era usado para jogar baseball.
Como demonstração ele bateu numa das mesas com o taco e a mesa virou estilhaços de madeira.
"Comecem", a professora disse.
Qualquer golpe do melhor aluno certamente faria com que o elmo amassasse muito ou fosse para longe, bastando um segundo golpe para fazer com que a flor da montanha deixasse de existir.
A vantagem da flor da montanha é que o melhor aluno era lento.
Ela desviava e atacava com seu canivete retrátil, que o feria de leve, mas não o deixava mais lento.
De repente ele pareceu se machucar com os golpes e entrou em um momento de fúria, batendo rápido e forte, acertando a flor da montanha, o elmo foi para o outro lado da sala e ela mesma ficou machucada, sem conseguir andar direito.
Foi o momento dela usar uma daquelas poções curativas que trouxera desde o início, bebeu o líquido vermelho, imediatamente pulou para onde estava o elmo, já desamassado, colocou ele de volta e reiniciou a luta.
O melhor aluno agora batia com a mesma força, com maior velocidade e em ângulos variados.
Contudo, não suficiente para acertar a determinação da flor da montanha com sua demanda única, que o tonteava e acertava três ou quatro golpes diretos, até que ele desmaiasse.
A professora cantarolou uma música de vitória e aplaudiu, deu um diploma para a flor da montanha declarando ela a melhor aluna.
Em seguida, disse a resposta para a pergunta que ela esperava: "no centro do lago existe uma ilha, procure no lago no centro dessa ilha."
Apesar de óbvio, a resposta surpreendeu a flor de destaque da montanha.
Prosseguiu para o lago, onde os turistas circulavam com camisetas coloridas e câmeras fotográficas.
Os patos, por assim dizer, serviam e davam ordens uns para os outros, alugavam pedalinhos, vendiam balões, faziam drinques.
O pedalinho pareceu adequado para a flor da montanha, discreto para o local, de aluguel barato e não dependia de ninguém.
Alugou um pedalinho, um daqueles que parece um cisne branco.
O pato, lembrem-se que tinham a aparência humana e pato era apenas uma alcunha, que alugava pedalinhos, convidou a flor da montanha para uma corrida.
"Você com esse elmo parece radical, que tal uma corrida?"
Ela recusou, educadamente, ele se recusou a alugar.
Ela aceitou, ele pulou e comemorou, subindo em um pedalinho de cisne vermelho.
De repende muitas pessoas se juntaram na borda do lago para ver, o corredor explicou para a flor que ela deveria seguir as boias azuis e pegar uma bandeira em cada, que eram doze bandeiras, que a boia sempre apontava para a seguinte.
Ela disse que havia entendido.
Alguém contou "três, dois, um" e a corrida começou.
Ela pedalou, como não estava acostumada, o adversário foi na frente, ela pensou que deveria tirar vantagens nas curvas e ficou a se perguntar se havia curvas nesse tipo de corrida.
Chegou na primeira boia, demorou um pouco para pegar a bandeira, demorou mais um pouco para entender a direção a tomar.
Então foi adiante.
Antes que chegasse na oitava boia, o seu adversário foi considerado vencedor.
Ao se reencontrarem, onde a corrida havia começado, ele disse: "que pena, eu lhe daria um item épico se você ganhasse, mas tudo bem."
Ela perguntou se podia tentar de novo, ele aceitou.
Correram mais dezessete vezes até que a flor da montanha ganhasse, uma vitória apertada, uma vitória afinal.
O adversário comemorou pela flor da montanha como se ela tivesse tentado uma única vez e um monte de confete colorido foi jogado para o alto.
Ele deu um pequeno baú para ela e disse: "para você nunca ter motivo para não nos visitar."
Era uma bússola, que apontava para a Ilha do Lago, uma vez na Ilha do Lago ela apontava para o centro do lago, uma vez na ilha no centro do lago da Ilha do Lago, ela apontava para o lago que ficava na ilha do centro do lago da Ilha do Lago.
Pegou o pedalinho e foi finalmente para a ilha no centro do lago da Ilha do Lago.
A ilha tinha árvores altas e foi avistada logo, pois o lago não era tão grande, parou o pedalinho e o arrastou para a areia, depois de estreita faixa de areia havia uma selva.
Entrou na selva, onde foi recepcionada por formas gelatinosas com olhos e fúria, ela cortou uma dessas formas e foram formadas duas com metade do tamanho da primeira cada uma.
Furiosamente, a flor da montanha cortou sem parar até não haver nada mais para dividir que se mexesse.
Chegou ao lago no centro da ilha que ficava no centro do lago da Ilha do Lago.
Não era grande esse lago e havia ali mesmo uma barraca com pedalinhos e um dos patos.
Se via dali que havia uma ilha no centro daquele lago.
Dava para ir nadando.
"Eu não iria nadando", o pato disse, como se lesse o pensamento da flor da montanha, "existem tubarões, piranhas, água-vivas que queimas e enguias que eletrificam nesse lago."
Mais algumas moedas e outro pedalinho foi alugado.
Levou o pedalinho até a ilha que ficava no centro do lago que ficava na ilha do centro do lago da Ilha do Lago.
Arrastou o pedalinho até a areia.
Entrou na selva.
Cortou várias vezes formas gosmentas.
Chegou até um ponto que havia um lago, mas um pequeno lago, um lago sem pedalinhos para alugar e onde a flor da montanha poderia andar e só mais ao centro nadar.
Assim que chegou na beira desse lago que ficava no centro da ilha que ficava no centro do lago que ficava no centro da ilha que ficava no centro do lado da Ilha do Lago, apareceu uma forma gosmenta que equivalia a dez formas das outras que vira.
Um único corte a deixou menos ameaçadora, contudo, duplamente ameaçadora.
Continuou cortando até não havia mais formas gelatinosas para cortar e foi até o centro daquele lago.
Mergulhou e pegou um pedaço daquela chave, só faltava um.
Então saiu do lago e da ilha pegou o pedalinho para atravessar o lado para sair da ilha por outro lago e finalmente chegar na Ilha do Lago de volta, mesmo que nunca tivesse saído dela.
Voltou até a professora, os alunos estavam todos quietos e escrevendo, inclusive o antigo melhor aluno.
Perguntou do clã dos gatos.
"Terá que perguntar aos professores, na Universidade da Cidade de Pedra, ou aos ladrões no esgoto da mesma cidade."
A flor da montanha voltou para o continente, comprou um mapa atualizado e seguiu caminho até a Cidade de Pedra, famosa pela sua universidade e pela guilda de ladrões.
Julgou que os catedráticos fossem pessoas às vezes muito longe da realidade e que talvez não quisessem ajudá-la em tão mundana demanda, os ladrões, contudo, são pessoas que subtraem os bens de outras pessoas se a permissão das mesmas.
Isso na melhor das hipóteses.
Andando nessa dúvida, os portões da univerdade estava mais próximo do que a entrada do esgoto, então entrou na universidade.
Perguntou ao primeiro catedrático que encontrou sobre quem poderia ajudar com a localização do clã dos gatos.
"Hmmm... História de Civilizações Imaginárias, procure o professor Helsmundo."
Andou a universidade de cima para baixo vendo placas, procurando o escritório do professor Helsmundo, até encontrar num corredor igual todos os outros por onde já deveria ter passada outras tantas vezes.
Encontrou o professor Helsmundo, alimentando um gato laranja, o professor era franzino, muito bem vestido, com um terno azul claro, um bigode de corte perfeito e um óculos que encaixava tão perfeitamente em seu rosto que parecia que nascera com ele.
"Em que posso ajudá-lo."
Ela explicou da sua necessidade de encontrar a cidade dos gatos, do clã dos gatos.
Péssima abordagem para alguém com pressa.
"Vou te contar", começou o professor Helsmundo.
"Os três clãs vieram das terras além do mar."
"Em sua terra de origem a terra estava devastada pela erupção de um vulcão."
"Quando chegaram decidiram que iriam se separar, pois isso garantiria a continuidade de suas histórias da terra de origem."
"Contudo, era bom que tivessem um local de encontro, se necessário."
"Construíram o Templo do Encontro, chamado hoje de Templo Antigo."
"De seus novos lares poderia se teletransportar para esse templo, que por fora era trancado."
"Cada clã tinha um pedaço da chave."
"Surgiu em nossas terras, então, uma dinastia forte e abrangente, prometendo paz e prosperidade."
"Essa promessa foi cumprida e decidiram que gostariam de manter a segurança da família real."
"Solicitaram aos três clãs acesso exclusivo ao templo, com um portal ligado ao castelo."
"O clã dos lagartos, envolvido em disputas internas, concordou."
"O clã dos patos, ocupados com as atividades turísticas do seu novo lar, concordou."
"O clã dos gatos discordou, mas cedeu, em protesto, mas para manter as histórias vivas também, se retiraram do convívio com os demais."
"E construíram sua cidade escondida."
"A cidade dos gatos é dificilde encontrar pois está contida por magia, dentro de uma caixa."
"No lugar mais óbvio de todos."
Aqui encerrou a narrativa do professor Helsmundo, percebendo a cara de interrogação da flor que não entendeu o fim da montanha, ele disse: "Já procurei em todos os lugares, assim como meus alunos, não encontramos."
"No corredor, na entrada, no meio da praça, na loja de caixas, dentro do templo da cidade, na sala do reitor... não encontramos, depois passamos a procurar em lugares cada vez menos óbvios e passamos a trabalhar com a teoria de que se estivesse muito bem escondido, isso seria também muito óbvio."
"A única coisa óbvia, no fim de todas as buscas, é que não encontramos."
"Questionamos todas as pessoas que poderiam ter essa caixa em casa, mas as respostas foram todas negativas, não imagino qual pode ser a resolução desse problema."
Mas a flor da montanha já montava, em seu cérebro vegetal, um esboço de uma resolução, por mais que a desagradasse essa resolução.
Uma caixa que está em um lugar óbvio mas não está em lugar nenhum.
Que foi procurada até dentro das pernas de cada cadeira da cidade, até dentro de cada bolso de cada habitante, pois de repente o óbvio estava nebuloso e tudo parecia óbvio.
Mas a flor da montanha pensou e chegou a conclusão de que o óbvio continuava sendo óbvio.
Se a caixa estava em um lugar óbvio e não foi vista mais, então ela foi levada.
Se levaram a caixa sem permissão, se trata de um ladrão.
O lugar mais óbvio era, nesse caso, com um ladrão, já que o lugar mais óbvio não era mais.
Os ladrões, na Cidade de Pedra, todos sabiam, ficavam nos esgotos, onde a guilda tinha sua base, bastava encontrar o ladrão mais óbvio.
Helsmundo ficou fascinado com o raciocínio lógico da flor inteligente da montanha, pensou que ela devia estar na universidade ao invés de sair por aí armada de um canivete retrátil procurando gemas e chaves.
Assim que sua cabeça catedrática se iluminou com o caminho apontado pela flor da montanha, ele disse: "nesse caso, o mais óbvio é que esteja com o melhor dos ladrões, o rei dos ladrões, o Passarinho."
"Mas ninguém sabe como ele é, o que é óbvio, já que é um notório ladrão, sabemos apenas que nos esgotos vivem e que até as ratazanas o obedecem."
"Sabemos que é mais silencioso que uma sombra, mais sutil que a madrugada e que todos da guilda o respeitam e teme."
"Sabemos também que é ladrão e que nos esgotos vive, que não tem família além dos ladrões que o cercam, que já foi pirata, bandoleiro, bandido das montanhas e golpista profissional, hoje em dia dedica-se exclusivamente à pouco nobre atividade de subtrair bens de outros sem a permissão do que possui."
"Alguns relatos, que se diz nas ruas, é que ele nunca diz mais de duas palavras por vez e que aqueles que não o entende da guilda, como castigo, são destituídos de todas as posses exceto as vestes."
"A entrada para o esgoto fica perto do portão sul, cuidado com os jacarés, motivo pelo qual a guarda da cidade não entra nos esgotos, além do fato de que os bandidos são necessários para que os guardas mantenham seus empregos, já que a Cidade de Pedra nunca entrou em guerra."
Com os ouvidos de pétalas, a flor da montanha saiu da universidade com o ouvido doendo e foi para a óbvia entrada do esgoto.
O portão estava conveniente aberto e logo que se entrava o local era habitada por inconvenientes jacarés.
Pediu licença a flor da montanha aos animais de bocas enormes e mordidas ferozes, eles a olharam e assentiram, indicando o caminho até a sede da guilda dos ladrões.
Andou pelos esgotos e percebeu que o cheiro não era muito diferente da superfície, na verdade o cheiro era pior na superfícia quando havia multidão.
Seguiu a orientação dos jacarés e chegou à sede da guilda dos ladrões, que a olharam com curiosidade, mas não espantados.
"Fazia tempo da última vez que alguém acertou a senha e ainda bem que isso aconteceu, pois os jacarés estão gordos", disse uma voz feminina, a flor da montanha olhou e sentada numa poltrona estava uma mulher.
Ela vestia a roupa mais colorida que a flor da montanha já havia visto, a calça listrada colorida, a camiseta com listras horizontais e um casaco xadrez, com brincos que balançavam cheios de brilhos e cores e anéis com pedras de várias cores, diversas correntes e ouro e prata com pingentes brilhantes e seu sorriso revelava pequenas pedras brilhantes encrustadas nos seus dentes.
"Basta pedir licença", ela disse, "aliás, me chamam de Passarinho, precisa de algo daqui ou está perdida aqui florzinha?", ela perguntou se debruçando para a flor da montanha.
A heroína dessa história respondeu que estava perdida e a rainha dos ladrões ficou quieta, então a flor da montanha deu uns passos para trás e se aproximou novamente de Passarinho, que disse:
"Fazia tempo da última vez que alguém acertou a senha e ainda bem que isso aconteceu, pois os jacarés estão gordos. Basta pedir licença, aliás, me chamam de Passarinho, precisa de algo daqui ou está perdida aqui florzinha?"
A heroína dessa história respondeu que precisava de algo dali, de uma caixa com uma cidade dentro.
Passarinho, rainha dos ladrões, percebeu a importância da demanda da flor da montanha, sem mundo, sem roubos.
Passarinho, rainha dos ladrões, sabia também daquele objeto que saqueara de óbvda localização durantr o dia na frente de todos.
Encontrou o meio terno na sua decisão de propor um jogo, se a flor da montanha a pegasse antes dela sair dos esgotos, a caixa seria sua.
"Você aceita?", perguntou Passarinho, a flor da montanha concordou.
A ladra mestre levantou e correu, a flor da montanha demorou alguns segundos para correr atrás dela, contudo, logo perdeu ela de vista e se perdeu em seguida, depois de um bom tempo encontrou a saída e Passarinho estava lá, com as mãos na cintura.
Voltaram até a base da guilfa dos ladrões e a brilhante e colorida Passarinho imaginou o mundo sem os desatentos com objetos valiosos no bolso e as gavetas cheias de loja nas cadas burguesas.
"Quer tentar de novo?", ela perguntou, a flor da montanha aceitou.
Dessa vez correu atrás da bandida assim que ela levantou, contudo, tropeçou algumas vezes em blocos, barricadas, jacarés e grandes poças de água de esgoto.
Viu quando Passarinho e todas suas cores saíram dos esgotos, sem alcançar.
Mais uma vez voltaram para a base da guilda dos ladrões, Passarinho, mesmo tendo ganho, tinha interesse profissional na demanda da flor da montanha, mas uma moral para manter diante dos seus comandados ladrões.
"Quer tentar de novo?", perguntou mais uma vez, a flor da montanha aceitou mais uma vez.
Dessa vez conseguiu desviar de todos os blocos, pular todas as barricadas, caiu em apenas uma poça e escorregou de apenas um crocodilo, o suficiente para que a flor da montanha se jogasse no calcanhar da ladra rainha quando já era visível a saída e a derrubasse.
Dessa vez, voltando para a base da guilda dos ladrões, a conversa foi diferente.
"Parece que você ganhou, como combinado, o prêmio que eu havia prometido, como sinal da honra que nós, ladrões, pregamos, lembre-se para sempre disso", ao terminar de dizer, pegou de detrás de sua poltrona uma caixa.
A caixa era simples e de madeira, estava fechada, ela entregou para a flor da montanha, alegando que sabia que era preciosa aquela caixa, mas que não fazia ideia do que era.
A caixa era fechada e pregada, havia apenas uma pequeno burado numa lateral, tão pequeno que uma formiga não passava.
Muito menos uma flor.
Mais uma vez recorreu ao professor Helsmundo.
"Não sei o que fazer", ele disse, enquanto olhava maravilhado aquela caixa, que continha dentro de si um mundo, literalmente.
"Mas o professor Malileu talvez saiba, ele é um alquimista especialista em transmutação, procure por ele no departamento de mágicas e químicas".
Foi o que fez a flor da montanha, deixando a caixa com o professor Helmundo por enquanto, para deleite e estudo dele, que prometeu que não quebraria ou abriria a preciosidade.
O prédio do tal departamento era o mais afastado dentro dos muros do campus.
Um prédio cheio de buracos e tijolos deslocados.
Por dentro uma imensa bagunça causada por múltiplas explosões, ventanias e outros pequenos desastres ao longo das semanas.
Das poucas coisas intocadas eram as placas de identificação nas salas de aula e dos professores, provavelmente essas placas eram protegidas por alguma mágica.
Encontrou, no terceiro andar, a sala do professor Malileu, catedrático titular de transmutação básica e avançada.
Abriu a porta e se deparou com uma grande bagunça.
Frascos, líquidos de diversas cores, pequenos focos de fumaça e uma grande pilha de livros, tão grande que cabia uma pessoa lá dentro, uma pessoa que ao ouvir o barulho da porta abrindo gritou: "socorro!"
Gritou alto, o mais alto que podia, mas por pouco não foi ouvido, pois havia milhares de páginas cobrindo a origem da voz.
A flor da montanha imediatamente começou a retirar os livros, até formar outra pilha de livros e no lugar da antiga havia um alquimista.
Esse alquimista não tinha a barba grande como a maioria do ramo, usava costeletas e o cabelo curto desgranhado ainda bem preto, seu olhos eram grandes e suas mãos peludas também.
"Bom, você me ajudou, acho que devo um favor", ele disse, convenientemente.
Aquela que acabara de salvá-lo da pilha de livros explicou o que precisava, ficar pequena o suficiente para entrar na caixa que, ao que tudo indicava, era a cidade dos gatos.
"Só isso?", ele retrucou, surpreso com o pedido simples.
"Volte aqui daqui três dias, eu tenho uma poção de encolhimento quase infinito, mas tenho que procurar, como vê, está difícil encontrar qualquer coisa aqui."
Sem outra opção, a flor da montanha saiu dali para esperar por três dias na Cidade de Pedra.
Procurou o que fazer.
Jogou dardos, cartas, dados, lutou em clubes de luta, bebeu água em diferentes tavernas, comprou poções que poderiam ser úteis no futuro, óleos para seu canivete, melhorou o seu elmo no ferreiro da cidade, conversou com diversos cidadãos, ajudou uns a encontrarem seus gatos perdidos, outros a encontrar ingredientes para suas sopas deliciosas, outras a entregarem cartas para pessoas do lado oposto da cidade...
Depois de fazer todas essas, estava no fim da tarde do primeiro dia.
Ficou até o meio da madrugada andando de um lado para o outro, cansada disso, parou dentro do campus da universidade, em frente o caótico prédio de magia e química.
Quando chegou a manhã, um dia havia passado, ela foi falar com Malileu.
"Eu disse para esperar três dias", ele disse, seu escritório não parecia nem um pouco mais arrumado.
Forçada a se conformar com a espera, a flor da montanha foi para o jardim do campus novamente, esperou.
Ficou parada, sem fazer absolutamente nada, igual um vegetal.
Até completar os três dias completos.
Quando foi falar com o professor Malileu, seu escritório estava absolutamente arrumado, organizado, sistematizado, encontrava-se qualquer coisa apenas com o olhar.
"Pegue", o professor disse, entregando uma poção vermelha, "essa é para encolher, tome quando estiver em posse da caixa", explicou.
"Pegue", o professor disse, entregando a poção azul, "essa é para voltar ao seu tamanho, tome quando sair da cidade dos gatos.
Em posse das poções, a flor da montanha foi até a sede da guilda dos ladrões, onde estava a caixa.
Pegou as duas poções, tentou se lembrar, quase tomou a azul, mas acabou por tomar a vermelho e diminuiu até o tamanho de um cisco, de uma larva de formiga, de uma poeira que se vê quando bate a luz do sol.
Então viu o portão da cidade dos gatos, grande portão negro e resistente, a flor da montanha se aproximou e bateu no pesado portão, fazendo um alto barulho de metal.
"Quem é?", uma voz dentro da cidade perguntou.
Identificou-se a flor diminuta da montanha, a voz disse "hmmm" em reflexão e então disse: "não lembro de ninguém com esse nome, mas também não lembro o nome de todo mundo, deixe eu ver você."
Abriu uma viseira no grande portão e viu o elmo, com a flor dentro.
"O que a traz aqui, flor da montanha?"
Resumidamente, a flor da montanha disse sobre a chave dividida e de como buscava a terceira parte.
"Isso parece complicado, você não parece perigosa, muito bem, entre."
O portão abriu e a flor da montanha passou, o portão fechou, veio falar com ela uma velhinha que trazia um gato em cada braço e um na cabeça.
"Sou a guardiã da cidade dos gatos, boa sorte pra você."
A cidade dos gatos era feita de construções altas e estreitas.
As pessoas conversavam animadas.
E o cheiro de peixe era muito pronunciado.
Era sempre noite e as ruas eram iluminadas por lanternas avermelhadas.
Havia uma taverna, para onde foi a flor da montanha, onde era servida uma água deliciosa e dizem que peixes também.
As pessoas que viviam por lá, chamadas de gatos, eram iguais quaisquer outras pessoas que a flor da montanha havia visto pelo mundo, exceto pelo fato de que suas pupilas dilatavam e diminuíam conforme elas queriam para ter uma visão melhor na cidade noturna, como a chamavam.
A vida nesse lugar era feliz e agitada, não havia quem mandasse naquele lugar.
E ninguém na taverna havia ouvido falar da chave, do mundo externo ou do que quer que fosse que interessava a flor da montanha.
Saiu da taverna desanimada e sem ideias e foi abordada por um indivíduo vestindo um capuz que ocultava sua face, mas não o brilho nos seus olhos.
"Eu sei de alguém que conhece alguém que sabe algo sobre o que você procura, me siga."
Sem outras opções observáveis, a flor da montanha seguiu o indivíduo por becos escuros e vielas, até entrar em um armazém abandonado, onde estavam reunidas uma dúzia de pessoas.
Uma delas, uma mulher, se identificou como líder daquele grupo.
Haviam ouvido falar da chave e da caixa.
Era a primeira vez que ouviam alguém que tinha vindo, ao menos supostamente, de fora da cidade.
Todos que, um dia no passado, saíram da cidade, não voltaram mais, mas isso não os interessava mesmo.
Só queriam que todos soubessem da verdade.
Conseguiriam isso ao conhecerem as histórias do lado de fora.
Em troca, dariam as pistas para a flor da montanha encontrar seu pedaço de chave.
Declararam que ninguém na cidade era suspeito, eram todos inocentes.
Não haveria jeito dessa relíquia estar guardada com alguém dali, deveria repousar em local esquecido.
Não poderiam dizer onde, mas deram o nome do funcionário na prefeitura responsável pelo setor de habitações.
Félix Guisard era seu nome, trabalhava na sala 34 do terceito andar, departamento civil, setor de habitações.
Para lá foi a flor da montanha, sendo a primeira vez que entrava numa repartição pública.
Para sua surpresa, foi atendida quase imediatamente por um secretário muito solícito e surpreso ao ver uma flor em um elmo.
Indicou o caminho para a sala 34 do terceiro andar, departamento civil, setor de habitações.
Disse para ir imediatamente, que uma flor com um elmo deveria ter um assunto muito importante para tratar com um servidor do município.
Agradecida, a flor da montanha se dirigiu imediatamente para a sala do senhor Guisard.
Entrou sem bater e foi atendida por um senhor calvo, de bigode e sorridente.
"Que inusitado!", ele exclamou, "uma flor com um elmo!", sorriu largamente e perguntou o que a flor inusitada da montanha queria.
Ela explicou o que procurava e expôs as suspeitas de estar numa casa desabitada, omitiu os conspiracionistas.
"Não acredito nessas lendas, de qualquer forma sua demanda é inofensiva, espere um pouco."
Levantou seu corpo redondo e mexeu em um dos vários arquivos que rodeavam a sala, pegou uma pasta e entregou para a flor da montanha.
"São três prédios desocupados, isso lhe dá mais o que fazer, eu acho."
O primeiro imóvel, no centro da cidade, um escritório de advocacia no centro da cidade, em um prédio comercial, fechara porque a cidade era pacífica e os advogados tinham poucos clientes.
O segundo imóvel, uma antiga loja de espelhos, no distrito antigo, fechada porque todos que queriam já tinham espelhos.
O terceiro imóvel, uma casa grande de dois andares no subúrbio, desocupada porque o senhor que morava lá se aventurou pra fora da cidade e nunca mais voltou.
Poderia seguir a ordem que quisesse.
Começou pela segunda, parecia a mais misteriosa das opções.
Com a chave mestra que obteve com Guisard abru a porta da antiga loja de espelhos, um local pequeno por fora.
Por dentro, tão profundo quanto a soma de muitos reflexos.
Não deveria demorar muito para explorar aquele local, mas demoraria.
O caminho que era reto fez curvas e onde era direita virou esquerda.
Não demorou para que todas as saídas fossem reflexos e o local estivesse cheio de flores da montanha.
Essas flores reflexivas da montanha passaram a existir no mundo além do espelho e a flor multiplicada da montanha lhes deu combate.
Perguntou-se não era flores reais da montanha com outras demandas.
Se estariam em importante demanda de salvamento de mundo.
Apenas uma triunfaria.
As outras pereceriam suas realidades também.
Não surpreendeu a flor da montanha descobrir o maior inimigo em si mesma, mas surpreendeu encontrar de fato esse inimigo.
Achou que era inimigos formidáveis, ainda assim limitados.
Como se a cada reflexo derrotado ela estivesse melhor.
Talvez seu reflexo lutasse e fosse derrotado em outras dimensões.
E todas as flores da montanha triunfassem.
Quando a última de si mesma foi derrotada, a flor da montanha percebeu que havia apenas cacos no local.
Nasa mais a explorar.
Foi para o primeiro imóvel, o antigo escritório de advocacia.
O centro da cidade era movimentado e cheio de altas construções, num desses prédios estava o imóvel que procurava.
Se apresentou ao porteiro, teve que passar suas informações pessoais e informar onfr iria.
O porteiro não questionou, deixou a flor da montanha passar.
Poderia ir de escada ou elevador, foi pela escada, julgando que estaria mais vazia.
Não estava.
Guardas estavam espalhados pela escada e não concordavam com a presença da flor da montanha naquele lugar, conforme subia as escadas até o décimo segundo andar a flor da montanha teve que provar, através do combate, de que poderia estar ali.
Chegou ao corredor do décimo segundo andar, foi até a sala 121, onde ficava o antigo escritório de advocacia e entrou.
Achou estranho a porta estar aberta.
O escritório estava abandonado, cheio de poeira, mas as coisas estava lá.
Procurou pela recepção, depois pela sala de atendimento, com especial atenção nas gavetas, uma delas estava fechada.
Procurou no banheiro, não encontrou nada, voltou para a sala de atendimento e foi surpreendida por um homem vestido muito formalmente.
De terno, gravata, cabelo penteado e um sorriso desafiador.
"Você é uma cliente?", ele perguntou, a flor da montanha respondeu que não e antes que pudesse falar qualquer coisa ele se lançou em combate contra ela.
Apesar de sua aparência não denotar, era extremamente perigoso o advogado.
As canivetadas machucavam menos do que os argumentos que ele usava contra a flor da montanha.
Quase a convenceu a deixar a demanda de lado, de que o mundo não merecia paz e sossego, de que as pessoas eram más e ingratas, que mereciam morre, que a flor deveria descer as escadas, largar seu elmo, seu canivete e se instalar como flor lendária que era na montanha.
A ponto de se deixar convencer a flor da montanha tomou duas das suas poções.
Uma regenerou o seu vigor, parecendo que ela estava numa segunda-feira, a outra aumentou sua determinação, a deixando imune aos argumento do advogado, que apelou e começou a arremessar grossos volumes sobre direito nela.
Desviou o direito civil, do direito imobiliário e do direito previdenciário, foi acertada pelo direito militar e quando ele se preparava para arremessar o direito civil na flor da montanha, ele foi derrotado.
Caiu sentada na cadeira, se lamentando de não ter clientes.
Perguntou para a flor da montanha se ela não poderia cometer um crime, ou pelo menos entrar em um conflito jurídico contra alguém da cidade.
Ela disse que não e explicou o que precisava.
Ele concordou, entregou uma chave para ela, da gaveta que estava trancada.
Ela abriu a gaveta e encontrou uma partitura, perguntou do pedaço de chave, ele disse que não sabia.
Partiu a flor da montanha, para o terceiro imóvel, no subúrbio da cidade.
Uma casa que um dia fora muito cobiçada.
As crianças passavam e se imaginavam morando lá.
Agora, a pintura descascada, móveis abandonado, espelhos e vidros quebrados.
Aranhas que eram tão grandes que assustavam tanto quanto assombrações que ali haviam.
Árvores grandes na entrada que sombreavam e tornavam o dia mais ensolarado escuro.
Abafado, quente e soturno.
A porta de entrada, pesada e firme, intransponível ainda que arranhada protegia a outrora familiar fortaleza.
A entrada possível se dava pelos fundos, pela porta dos empregados, no jardim.
Jardim cheio de flores e ervas daninhas, com uma neblina inexplicável.
Se houvesse só vegetais, a flor da montanha estava em casa, mas outra presença estava naquele local.
Uma presença quase incorpórea, que se misturava na neblina e era, muito provavelmente, sua causa.
A flor da montanha definiu seus contornos de magra criatura levando consigo uma longa e fina espada.
Essa espada de neblina era mais afiada do que qualquer material do mundo dos vivo.
Atacou a heroína, que pulou em desvio.
Até tentou acertar seu adversário, mas presumiu de antemão o resultado, o aço do seu canivete retrátil melhorado era inútil.
Percebeu que seu adversário, conforme errava sequências de golpes, ficava mais visível, como em sinal de frustração.
E nesses momentos o canivete tinha algum efeito.
Depis de furar diversas vezes o nebuloso adversário, ele incorporou num gritou fantasmagórico.
Qualquer outro daquela cidade teria morrido.
A flor estrangeira da montanha não era dali e depois de um estratégio recuo, ela avançou e pela primeira vez sentiu que sua arma perfurava e cortava o seu adversário como que corpóreo ele fosse.
A neblina havia se dissipado, contudo, o adversário antes nebuloso tornou-se rápido e voava baixo se quisesse.
Estocava a flor da montanha, que tinha que pular como se em câmera lenta visse todos esses movimentos.
Então ele se irritava e gritava, com a neblina saindo da sua boca.
A flor da montanha pulava para o lado e o acertava no flanco.
Ele engolia a neblina, que era sua energia e voltava às investidas relâmpago.
Acertada algumas vezes no elmo, a flor da montanha ainda assim conseguiu levar o seu adversário a gritar uma terceira vez.
Ele puxou de volta a neblina e caiu de joelhos, deixando escapar novamente aquela neblina, ele disse:
"É a primeira vez, em minha vida ou em minha morte, que enfrento digno adversário."
"Lamento por você, que levará adiante o título de adversária digna."
"Espadachins e guerreiros de todas as ordens devem te procurar, para separar seus membros e sua cabeça de seu corpo."
"Se estiver cansada, use minha lâmina, ela corta até aquilo que não possui solidez."
Dito isso, ergueu a mão e uma neblina saiu dela e encobriu o canivete da flor da montanha.
Ela ergueu o canivete para o alto.
"LÂMINA DA NEBLINA".
Resolvido isso, a porta dos criados abriu e a flor da montanha entrou na casa escura e, provavelmente, habitada por mortos.
Entrou na cozinha, um forno com sinais sinstros de ter sido usado recentemente.
Não havia brasa, mas estava quente.
Preocupada e curiosa, a flor receosa da montanha vasculhou as cinzas.
Encontrou uma chave de aparência banal.
Antes de sair da cozinha uma fina parede de fogo apareceu impedindo a saída.
Surgiram dois seres de cinzas e chamas do forno.
Atacaram a flor desesperada da montanha, que teve a oportundade de testar sua recém adquirida melhoria na lâmina.
Cortou os dois seres tão fácil quanto cortaria um pedaço de manteiga numa manhã de verão.
A parede de chamas se desfez e a flor da montanha adentrou a sala de jantar.
Em torno da mesa, a maioria das cadeiras desocupadas.
Havia três ocupadas, por três esqueletos.
Cautelosa, a flor da montanha foi direto pra escada.
Subiu a escada, esperando ser de alguma forma bloqueada.
Nada desse tipo aconteteceu e chegou no andar superior.
Os quartos, em sua maioria abertos, não tinham nada de muito útil.
Um único quarto fechado.
"Usar a chave?", pensou a flor da montanha.
Usou, mas antes que pudesse rodar a chave ouviu um barulho e foi flanqueada por duas craturas de cinzas e chamas de cada lado.
Não era fácil desviar dos ataques no espaço limitado do corredor, focou em derrotar duas das criaturas de um mesmo lado, depois rapidamente derrotar as outras duas.
Depois deste confronto, abriu a porta que estava trancada.
O quarto era maior e mais mobiliado que os outros.
Havia um piano e em cima da cama um caderno.
Um diário:
"13 de maio.
Moramos na melhor casa, se sairmos daqui terenos que nos misturar com o restante.
Por que faríamos isso?
Somos melhores e mais ricos, o que é a mesma coisa, não vou sair daqui.
17 de maio.
Tia Susana acha que devemos contrtar alguém para fazer a manutenção da casa, que o teto caia em mim, mas não vou colocar pés pobres aqui.
23 de maio.
Tio Julio diz que as frutas do pomar são suficiente que não devemos comprar coisa que passou por mãos sujas.
Concordo.
Colhi maçãs e pêras, parecem boas, algo no cheiro está diferente, acho que por serem orgânicas.
29 de maio.
Os tios estão estranhos, pelo que sei a mudança na alimentação pode ter essa fase de adaptação.
Somos em três, mas parece que somos mais.
16 de junho.
Os tios falam que eles brilham, eu só os ouço.
Hoje, um espião da prefeitura apareceu, falando que o solo daqui é ruim.
Algo a ver com bolsão de ar tóxico.
Ideia ridícula, querem tomar nossa casa, provavelmente o próprio prefeito quer morar aqui.
21 de junho.
As cores dessas frutas são estranhas, ou nos falta proteínas.
Os brilhantes sentam-se conosco, dizem para não sairmos da cada, estranhas criaturas rodeiam o imóvel, elas e o seu deus.
Poderíamos alertar a cidade, se valessem a pena.
30 de junho.
Olho pela janela e vejo neblina, os brilhantes nos disseram que é sinal do seus das criaturas que vieram do solo.
Temos um bom estoque de fruta.
Voltei a compor, para me distrair.
2 de julho.
A música segue escala pentatonica descendente, em notas abafadas, como a neblina.
O pomar o vejo pela janela só em meu pensamento.
3 de julho.
Fazem dois dias que tio Julio não sai da cadeira, come e dorme, me preocupo com ele.
Tia Susana está com ele quase o tempo todo.
Me disse pra cuidar da chave, trancar a porta.
Trancarei, a chave a joguei no pomar, onde lembro que ele tava.
Abri a janela rapidamente.
Toquei minha melodia.
E vou fazer companhia."
O diário acabava aqui.
A flor da montanha saiu do quarto e desceu a escada, quando estava para sair pela porta ela fechou subitamente, olhou para trás de viu que os três esqueletos a olhavam.
Um esqueleto pegou uma faca.
O outro foi até o forno e pegou um ferro atiçador.
O terceiro quebrou uma garrafa.
Os três foram para cima da flor da montanha.
Muitas vezes seu canivete passava entre os ossos, sem acertar nada, pois nem órgãos vitais havia.
Foi acertada em seu elmo por todos os esqueletos algumas vezes, tendo até que tomar uma das suas poções.
O primeiro esqueleto a cair foi o que usava uma garrafa.
O segundo foi o da faca.
O terceiro o que sobrou.
A porta então se abriu e a flor da montanha saiu.
Sem a neblina, reparou que havia, se fato, um pomar.
Conjunto de diversas árvores frutíferas, já muito antigas.
Foi até elas e encontrou um pequeno baú jogado ali, de qualquer jeito, um baú sem tranca, contudo trancado.
Mesmo assim pegou o baú e levou consigo, lembrando-se que da casa só não havia mexido numa coisa que lhe parecia que valia a pena.
Relutante, voltou ao quarto onde encontrara o diário e sentou-se de frente para o piano.
Lentamente tocou uma escala pentatonica descendente.
Ouviu um clic, não seco, mas um clic floreado e formado por mais de uma nota que sucedeu-se rapidamente.
Pegou o pequeno baú e viu que estava aberto, dentro dele um pedaço da chave, o terceiro e último pedaço da chave.
Saiu rapidamente e ficou surpresa que até a saída da casa não foi bloqueada por nada.
Quando atingiu a parte da frente, por onde sairia pelo portão principal, foi interceptada por uma tropa.
Uma pequena tropa, está certo, ainda assim uma tropa, de lagartos vestindo armaduras, segurando um escudo numa das mãos e espada na outra.
Olhos raivosos e antes que a flor da montanha pudesse pensar, um deles gritou:
"Pelo Deus da Neblina!"
Os outros responderam, erguendo suas espadas e partindo pra cima da flor da montanha:
"Aaaaaaaaaaaaaah! Morte!"
De todos os combates que se sucederam até esse ponto, esse foi o mais difícil para a flor da montanha, seja pelo número de inimigos, pelas habilidades de luta deles, pela motivação insana deles ou pelo despreparo momentâneo da flor guerreira da montanha.
Certo é que tal como o guerreiro sem nome de uma terra muito distante, a flor da montanha abriu caminho pelos inimigos.
Deixando um rastro de neblina com sua lâmina, os lagartos foram caindo desmaiados.
Ao somar um caminho de lagartos lamentando no chão, a flor da montanha pensou que sairia correndo dali.
Mas não sairia, quando olhou havia uma tropa que deveria ser vinte vezes maior do que a anterior.
Em formação, eles olhavam fixamente a flor da montanha, que havia derrubado apenas os batedores.
Do meio das tropas veio um lagarto com armadura ornamentada.
Se aproximou da flor da montanha e disse: "Onde conseguiu essa lâmina que um rastro divino deixa quando corta o ar?"
Ela explicou que ganhara de um adversário que derrotara.
Os lagartos ajoelharam e o comandando gritou:
"Salve, Nova Deusa da Neblina!"
"Salve!", os outros gritaram em uníssono.
"Estamos ao seu dispor, se necessário, corte o ar em socorro e daremos a vida por você."
A flor da montanha agradeceu e o comandante chorou copiosamente, pois nunca esperara o agradecimento de uma deusa.
Disse que voltariam ao subsolo, onde se preparariam para uma nova tentativa de invasão à casa.
E sumiram ao cavucarem o chão embaixo deles.
A flor da montanha foi embora dali e da cidade dos gatos, uma vez fora tomou a poção que voltaria seu tamanho ao normal.
Se viu no meio da estrada, onde estava a caixa, como se não houvesse nunca a intenção de alguém de rouba-lá.
Uma vez se localizando, a flor da montanha se dirigiu para a colina sem nome, onde ficava o Templo Antigo, portal para o castelo de Azares.
O Templo Antigo, sua entrada precisamente, estava bloqueada por algo mais do que a porta trancada, um perímetro fora formado por ali.
Eram magos arqueólogos preocupados com os danos que a flor da montanha e outros personagens relevantes do mundo pudessem trazer àquela construção histórica.
Só com muita insistência a flor da montanha pode falar com o chefe desses magos.
Como mago de respeito e em tão alta conta hierárquica, sua barba era branca e longa e seu chapéu mais alto do que o de todos os outros.
Avoadus era seu nome e apesar do que seu nome pudesse sugerir, era pessoa centrada ao ponto de ser obcecado.
Recebeu a flor da montanha em seu escritório, ou seja, numa mesinha onde servia chá e bolachas de chia ao ar livre.
Para a flor da montanha, chá gelado.
"Diga, lendária flor, por que eu deveria permitir que você maculasse importante patrimônio?"
"Entendo sua demanda e a importância embutida em suas ações."
"Os conflitos, contudo, passam e nenhum reinado é eterno o patrimônio, contudo, permanece."
A flor insistente da montanha perguntou se não caminho, hipotético ou real de permitirem sua entrada.
"Digamos que um pelo outro, poderia permitir, ainda que com nossa supervisão."
"Nas profundezas da selva, entre aranhas e escorpiões, onde a claridade natural não chega e o cheiro é de decomposição."
"Um templo adormece, um último refúgio deum mundo que não existe mais."
"Encontre a entrada desse lugar oculto, que seja acessível para uma dúzia de velhos barbudos de chapéus altos."
"Seremos gratos e deixaremos que entre no Templo Antigo para dar os andamentos finais à sua nobre demanda."
Ouvindo isso, a flor incansável da montanha partiu de imediato antes que Avoadus mudasse de ideia.
Seu destino era a selva, onde já estivera em superfície e por cima das árvores.
Se perguntou se macacos ou sapos iriam ajudá-la, se perguntou se as criaturas no subsolo eram tão grandes e venenosas quanto imaginava.
Se perguntou muitas outras coisas.
Sem chegar a conclusões.
Chegou então ao seu destino, não havia grandes mudanças.
Fora que chovia demais e muitos dos animais estavam abrigados.
Que os sapos brigavam o tempo todo entre si e ignoravam a presença da flor.
Que os macacos estava abrigados em cavidades nas árvores e não mais jogando cartas.
Que na chuva parecia que surgia muitos bichos que a flor da montanha não havia notado e que eram potenciais perigos para ela.
Que o chão estava instável.
Que a grande árvore dormia profundamente.
E os pequenos animais: lagartas, minhocas, besouros, aranhas, cobras, pássaros.
Tudo não mais parecia igual, na verdade era outro mundo daquele visitado anteriormente, mais perigoso.
Andando com cuidado na terra molhada, pisando em falso muitas vezes, a flor da montanha foi interceptada por uma minúscula joaninha.
As joaninhas aparecem apenas para flores saudáveis, esse é um fato botânico conhecido.
Era bem pequena e a flor da montanha quase não a via, mas conseguia ouvir sua voz suave.
"Me ajude, flor heroína! Já salvou de tudo, salve agora uma joaninha!"
A flor altruísta da montanha parou para ouvir.
"Preciso chegar à minha casa, numa clareira à leste daqui onde crescem muitas flores, o caminho é perigoso."
"Além disso chove, me abrige dentro do seu elmo."
Sem conseguir imaginar de que forma seria tão perigoso, aceitou ajudar e recebeu a joaninha, que entrou em seu elmo e pousou em uma das suas pétalas.
"Por outro lado", a joaninha disse, "conheço de todas criaturas aqui e posso apontar para você o ponto fraco de cada uma delas."
Seria útil.
E foi.
Poucos passos depois a flor da montanha foi atacada por um par de serpentes, que eram esguias, se moviam rápido e assustavam em seus botes imprevisíveis.
"Acerte com seu canivete no momento em que estiver desviando, mesmo que não consiga ver onde acerta, é a única maneira de acertar a tempo."
Assim fez a flor da montanha e na segunda tentativa feriu uma serpente, que correu dali seguida por sua companheira.
Depois de mais alguns passos foi atacada por lentas e pegajosas lesmas, quatro delas.
Por mais que tentasse atacar as lesmas, a gosma que esses adversários espalharam deixaram a flor da montanha lenta e seu golpe perdia a força necessária para danificar as criaturas.
"Rode várias vezes no mesmo lugar para recuperar sua velocidade e ataque na sequência."
Dessa forma fez a flor da montanha, evitando as investidas das lesmas, rodava e atacava com velocidade, derrotando assim as quatro lesma pegajosas.
Continuou o caminho e após alguns passos surgiram vespas bem grandes, oito delas.
As vespas voavam de um lado para o outro dando investidas que não eram fortes, mas eram muitas, a flor da montanha tentou pular para acertar as vespas mas não conseguia e suas investidas eram rápidas demais.
"Pegue impulso nas árvores para pular mais alto e acertas as vespas."
Fazendo isso, a flor da montanha percebeu também que as vespas tinham a tendência de voar mais próximas das árvores e assim derrubou as oito vespas.
Continuando seu caminho até a comunidade da sua nova companhia, depois de alguns passos, foi surpreendida por plantas carnívoras, que saíam do solo e locais aleatórios e se enviavam novamente, eram dezesseis delas.
Tentou acertar golpes nelas, mas eram muitas e apesar de ferir uma ou outra, tornou-se claro que perderia aquela batalha.
"Gire com a sua arma desembainhada rapidamente, em um único impulso."
Assim fez a flor da montanha e percebeu que dizersos inimigos foram abatidos, repetiu a operação mais duas vezes e todos foram abatidos.
Já estava quase em seu destino, quando a flor da montanha foi atacada novamente, dessa vez por um único adversário, formidável suficiente para valer por trinta e dois ou até sessenta e quatro, um macaco que trazia em mãos um baralho aparentemente à prova de água.
Ele gritou e puxou a primeira carta, fazendo o primeiro inesperado momento na batalha contra a flor da montanha.
O Louco. Nesse momento o macaco começou a correr em círculos irregulares, pisando forte, gritando e mexendo os braços, forçando a flor da montanha a desviar de qualquer jeito.
"Você tem um baralho?", perguntou a joaninha, a resposta da flor da montanha foi negativa, "roube uma carta dele, só assim se derrota os macacos."
Com um rápido movimento, a flor da montanha surrupiou uma carta das mãos grandes do macaco, que usou outra carta.
O Enforcado. O macaco deu um soco em si mesmo, coisa que em seu corpo de pele grossa e acostumado a pancadas não doeu muito, foi um golpe brutal no elmo da flor da montanha, que por um momento achou que não conseguiria usar a carta roubada.
Mas então ela conseguiu usar a carta.
A Torre. Chamas vermelhas da vontade cobriram a flor da montanha, que ficou mais forte.
Foi a ver do macaco, que puxou mais uma carta no seu turno.
A Estrela. O macaco subiu rapidamente pelas árvores e desceu num único e potente golpe que acertou parcialmente a flor da da montanha, que suportou o golpe com firmeza sem se abalar.
Mais uma vez a flor ladra da montanha pulou e roubou mais uma carta do macaco.
Depois o macaco usou mais uma carta.
A Lua. O macaco desaparaceu e apenas o rastro dele era visível, mas fracamente considerando a chuva que caía, ele fez três investidas seguidas na flor suportou com resistente bravura.
Foi turno da flor da montanha, que jogou sua carta.
A Força. A flor resistente da montanha se viu envolta de chamas roxas que a fortaleceram, deixando-a mais forte.
Chegou o turno do macaco, que jogou outra carta.
O Carro de Guerra. O macaco deu alguns passos no lugar e correu num impulso para acertar a flor da montanha, que desviou, fazendo o macaco acertar a árvore.
De novo, a flor da montanha roubou uma carta, aproveitando que o macaco estava desorientado.
Ele tentou tomar alguma ação, mas estava desorientado demais e não conseguiu realizar nenhuma ação.
Chegando assim o turno da flor da montanha mais uma vez, que usou a carta roubada do macaco desorientado.
A Temperança. Chamas azuis cobriram a flor da montanha, ela fechou seus olhos e se concentrou como se nada existisse além do adversário a ser derrotado.
O macaco voltou a si e usou mais uma carta no seu turno.
A Roda da Fortuna. As árvores, como se flutuassem, rodaram e o céu mudou de cor, de repente estavam no topo de uma montanha, acima das nuvens, com as árvores no horizonte como se fossem plantadas no céu.
O macaco empurrou a flor da montanha, que resistiu com incrível determinação, esteve próxima da borda, mas não foi derrubada.
No seu turno, as árvores rodaram de novo e se viu numa caverna profunda, tendo aranhas e morcegos como espectadores, ela pulou rapidamente e roubou mais uma carta.
O macaco puxou uma carta e usou, enquanto as árvores rodava e a arena tornava-se uma pequena ilha em volta de um mar tempestuoso.
A Morte. O macaco abriu a mão, mantendo os dedos juntos e desceu com rapidez quase invisível e força sem medida, acertando em cheio o capacete da flor da montanha, que amassou, depois de segundos imóvel, ela se mexeu com determinação.
Iniciando assim seu turno com a carta roubada, enquando as árvores rodavam novamente e a arena de batalha mudava para uma bolha no fundo escuro do oceano.
O Mundo. A flor da montanha se moveu para a traseira do macaco e com um único golpe do seu canivete perfurou das costas até a cabeça do macaco, acertando com sua ponta o cérebro do macaco e modificando algumas das suas funções biológicas, dotando o macaco de grande necessidade de sono e tranquilidade no coração.
O macaco, então, adormeceu e o cenário voltou para a floresta, úmida, mas sem chuva.
Apareceram diversos macacos menores que queriam espancar o grandalhão adormecido.
Ciente dos efeitos do seu golpe, a flor da montanha prometeu que seu adversário não aferecia mais perigo e que eles poderiam pegar o baralho de volta despreocupados.
Eram os mesmos que outrora jogaram com a flor jogadora da montanha no alto das árvores, convidaram ela para jogar de novo.
Ela agradeceu e recusou.
Continuando seu caminho até o lar da joaninha.
Chegou ao lugar, cheio de flores e folhas, onde felizes e saudáveis viviam as joaninhas.
Esses seres, pequenos e simpáticos, celebraram o retorno daquela que julgavam perdida para sempre.
Agradeceram à flor da montanha e ofereceram amizade perpétua.
Amizade essa que, convertida em convenientes favores, colaboraria para que a flor da montanha concluísse sua extensa demanda.
"Pois bem", disseram as joaninhas, "expresse sua necessidade, de tudo na floresta conhecemos, das alegrias serenas e dos perigos."
A flor amiga da montanha contou sobre o Templo Antigo e os arqueólogos, sobre as sombras tomando o mundo e o herói ausente.
Sobre desertos habitados por espíritos e macacos que jogam com baralhos de tarô, sobre um ilha dentro de uma ilha dentro de outra ilha.
Sobre uma cidade minúscula escondida em um lugar óbvio, sobre monstros escondidos nas profundezas do esquecido.
Sobre uma cidade portuária onde as pessoas ignoravam os perigos, sobre lagartos de muito tempo antes, sobre estradas quase sem fim.
Sobre charadas sem resposta, sobre imóveis mal assombrados, sobre ladrões cheios de honra.
Tudo que a flor da montanha disse foi ouvido e posteriormente escritos em poemas épicos que figuram como clássicos da literatura das joaninhas.
Escreveram também uma conclusão de trágico triunfo, como profetas daquilo que viria a acontecer.
Serviu de tema para pintores e dramaturgos, no futuro distante inspirou filmes e séries de televisão.
Novos deuses foram criados baseados na flor da montanha, como depois da batalha crepuscular.
"Você está destinada!", as joaninhas disseram e impressionadas resolveram ajudar a flor da montanha.
"Nossas melhores joaninhas vão te guiar até a entrada desse lugar que procura, não entramos lá, pois as aranhas nós fazem de lanche."
Recarregada de energia e poções, a flor da montanha seguiu, agora sem chuva, pela floresta, sendo guiada por grupo ligeiro de joaninhas.
Teve a impressão que dava voltas irregulares e se perguntou se havia algum motivo ou simplesmente se estavam perdidas.
Não falou nada e seguiu sem questionar, em terras estranhas aja como estranha.
Entraram por uma abertura numa árvore, pequena e escondida, um ser humano ou uma onça não passaria por ali.
Desceram por espiral sombria e úmida, quando as paredes deixaram de ser de terra e passaram a ser de pedra, as joaninhas pararam.
"A partir daqui não iremos, boa sorte flor épica da montanha."
Uma vez sozinha, a flor da montanha se perguntou sobre a origem daquele buraco, que não parecia com a entrada de um templo ou de qualquer coisa.
Parecia mais com a entrada de uma prisão usada por um prisioneiro arrependido de sua recente fuga.
De repente escorregou a flor da montanha e caiu, no chão, por uma improvisada no teto, que era alto.
Estava numa cela e o caminho que tomara era a rota de fuga de um prisioneiro paciente.
Bom templo, boas celas, como dizem as pessoas de Taubaté, cidadezinha na periferia do mundo e irrelevante para essa história.
Provavelmente o antigo prisioneiro era bem alto ou tinha uma escada.
A flor atlética da montanha estava presa, num templo embaixo da selva, abandonado havia muito tempo e, para o desesperança dela, ainda ocupado.
Forças opressoras do mal, como duas notas que se alternam e se repetem rapidamente.
Pensou que seria melhor ter um companheiro de cela, poderia armar uma rebelião ou receber a dica de um tesouro escondido.
Se não fosse amigável brigariam como gangues, pelo território e pelo respeito.
Caindo na real, a flor da montanha está a como um guerreiro gaulês caído numa masmorra.
Poderia usar sua lâmina de neblina para cortar as barras da cela, se houvesse neblina naquele buraco escuro.
Havia cogumelos luminiscentes no local.
E uma grande aranha, entrando calmamente, a flor da montanha, em desvantagem por estar presa num local de pouco espaço, paralisou.
A aranha parou no canto do recinto, ainda ignorando o prisioneiro recente.
Prestando atenção na aranha, a flor da montanha não prestou atenção no trio de ratos que entrou na cela e quando se deu conta eles já tentavam roer o elmo.
O silêncio foi quebrado e o naquele momento muitas forças adormecidas naquelas profundezas acordaram.
Depois de derrotar os três ratos, a flor da montanha foi atacada pela aranha.
O aracnídeo emitiu sinistro som e cortou as barras da cela com suas patas finas e afiadas.
Todas as pétalas da flor da montanha ouricaram.
A batalha na cela esquecida seria conhecida, nas baladas cantadas posteriormente, como o mais desafiador trecho da jornada da flor da montanha.
Futuramente ela diria que mal se lembrava da batalha.
Apenas um frenesi pela sobrevivência.
Uma sucessão de desesperados movimentos ao redor da pequena sala intercalados por golpes desesperados e, a maioria, falhos.
As patas da aranha acertando continuamente o elmo até perfurar o aço e no golpe seguinte acertou a flor.
Extinguiu o fogo da vida e da vontade da flor da montanha.
Tombou a flor no chão daquele lugar esquecido.
Poderia ter ficado lá e virado pó no chão de pedra, seu elmo seria para arqueólogos de um futuro distante motivo de divagações.
Mas até nas profundezas mais profundas uma chama pode resistir.
Em meio à fraca luminosidade dos fungos, surgiu pelo corredores daquele local, uma pequena chama.
Em qualquer outro lugar essa chama seria imperceptível, mas naquele lugar a pequena chama era um sol.
A aranha afastou-se e a chama, muito tempo esperando pela oportunidade, de leve tocou na flor.
A flor brilhou e seu elmo envolveu-se em chamas escarlate, seu canivete em chamas trouxe o dia para as profundezas.
Cortou a aranha no meio com extrema precisão,deixando quatro patas para cada lado.
Percorreu os corredores procurando a entrada do templo, que foi usada muito tempo antes.
As ameaças afastavam-se, escondiam-se, entrando nas fendas das pedras, a flor flamejante da montanha atingiu o altar.
Uma gigantesca aranha não correu, colocou-se na frente da flor da montanha, que ergueu sua arma cortante rubra em ameaça ao ameaçador aracnídeo.
"Por que nós perturba?", com voz rouca e firme perguntou a aranha gigantesca, que mal cabia no amplo cômodo.
Confusa ficou a flor da montanha, que se sentia perturbada com as aranhas naquele lugar.
Contou sua demanda, de forma resumida, que precisava acessar certo templo no alto de uma colina.
Que um grupo de arqueológos estudiosos protegiam o local, mas trocariam pelo templo nas profundezas da selva.
"E nós?", a aranha perguntou.
"Em abandonado lugar, fizemos nossa morada, seremos expulsas?"
"Para evitar o genocídio de uma espécie, cometerá o genocídio de outra?"
"Será que tens uma escala de valores da vida de cada espécie, que lhe sirva de régua para sua moralidade?"
"A heroína de joaninhas pode ser, mas entre nós será a nêmesis?"
"Repartis-te uma companheira nossa em duas, possui remorso ou somos muito asquerosas para sua visão?"
"Ou devemos nos curvar e oferecer nossas patas para serem cortadas como gesto de boa vontade?"
"Se está confusa, inocente flor, é porque já tem uma resposta."
De fato tinha, ou pelo menos uma não resposta.
Desculpou-se.
Não poderia fazer nada para repor a vida da aranha que matara.
Era uma invasora naquele local.
Estava em dívida com aqueles habitantes.
"De qualquer forma", a aranha colossal disse, "nos mostrou o inevitável."
"Todo lar é provisório, como você encontrou, outros poderão encontrar."
"Seres sem apurada consciência e exterminadores natos."
"Traga esses arqueológos aqui, mas os alerte que entrem com tochas, pois então poderemos nos esconder quando estiverem chegando."
"Faremos nossas teias nos cantos altos e vãos invisíveis aos humanos."
"Atrás de mim está a escada longa que a levará para a superfície, no fim uma porta e uma alavanca para abrir."
"Entre nós, que adoramos histórias, se tornará uma anedota, uma flor vinda de um anti-mundo, que pensou, por um momento, que poderia nos exterminar para salvar outros de um extermínio."
"Uma florzinha e um elmo, com uma solução final e um caminho sem luzes."
"Que bela rainha aranha foi questionada e pensativa voltou para a superfície."
"Em perpétua dívida, que jamais cobraremos."
A aranha, uma rainha, ergueu-se o máximo possível e a flor da montanha passou por baixo.
Subiu os degraus, que eram muitos, talvez milhares, a chama fraca e a consciência forte.
Toda uma civilização de aranhas, quem diria...
Chegou ao fim dos degraus, não havia porta aparente, puxou uma alavanca que estava do lado e a parede se abriu.
Imediatamente ouviu o som forte de água, estava numa caverna pequena dentro de uma cachoeira.
Refrescou-se a flor da montanha antes de voltar para a colina antiga onde ficava o templo que também era antigo.
Ao chegar, foi recebida e questionada pelo chefe dos arqueológos.
A flor da montanha disse que encontrara o templo e por aranhas espertas foi recebida e que concordaram em ser visitadas desde que por uma tocha fossem previamente avisadas.
"Ah... Então", disse o arqueológo chefe, "esse templo era o refúgio para temidos seres e a casa deles se tornou, por mais que tenha sido construído para outros fins."
A flor da montanha disse que entrará por buraco que levava até um cela que foi mostrada por uma tropa de vanguarda de joaninhas.
"Ah... Então", disse o arqueológo chefe, "essa cela é o eremitério, a saída é a possibilidade de fuga, que testa a vontade do recluso que resiste e permanece em seu mundo espiritual."
A flor da montanha, por fim, disse da pequena chama que desde então a segue.
"Ah... Então", disse o arqueológo chefe, "encontrou a chama primordial, que em tempos remotos ainda vivia entre nós, dando vida ao inanimado, construíram templos para que as chamas pudessem morar."
"Todas elas haviam já se apagado, imaginávamos, pois já fazem muitas eras, mas essa resistiu, embaixo da terra por tanto tempo."
"Ela tem o poder de te dar vida, se a mesma faltar para você, mas tome cuidado, isso ocorre uma única vez."
Terminando a entrevista, os arqueológos partiram, como prometido e a flor da montanha abriu, com a chave montada, o Templo Antigo.
O interior do templo não surpreender a flor da montanha,um espaço amplo, um altar, um andar superior, nenhum portal óbvio.
A flor da montanha percorreu o espaço sem ter muita ideia do que fazer, subiu as escadas e tentou entrar por uma das portas, mas estava trancada, depois tentou entrar por outras portas, mas todas estavam trancadas, exceto por um, por onde entrou.
O interior do lugar certamente a surpreendeu, uma vasto campo verdejante, um lago cristalino e parado, uma árvore frondosa cheia de flores lílases.
Embaixo da árvore, uma mulher estava sentada olhando o lado, ao seu lado uma cesta e um cachorro branco.
"Olá", a mulher disse, "faz tempo que não ninguém por aqui, sou a cuidadora da sacerdotisa do templo", ela disse, apontando para a cachorra.
A invasora flor da montanha perguntou o que era aquele lugar.
"É o quarto da sacertisa, naturalmente, mais intrigante do que isso é: quem é você?"
Respondeu, apresentando-se a flor com elmo.
"E o que deseja aqui?"
Respondeu que precisava passar pelo portal, que o mal havia usado e tomava o mundo e agora a flor da montanha estava numa demanda para derrotá-lo.
"Não tenho certeza da importância, esse mal vai dominar o mundo e ser extinguido mais alguma vezes e nós continuaremos aqui."
A flor esperta da montanha respondeu que Azares usara o portal no templo e que, portanto, os sacertodes tinham responsabilidade nas desgraças atuais do mundo, ainda que temporárias, muitas pessoas sentiam-se lesadas e poderiam entrar naquele lugar cobrando explicações.
"Soa-me como ameaça, não gosto que ameacem a sacerdotisa, além disso, o portal não está pronto, não se pode decompor-se e recompor-se imediatamente em outro local sem grande preparo."
"Mas vou ajudá-la, seria muito inconveniente muitas pessoas entrando aqui e deixando a sacerdotisa agitada, mas preciso que pegue algo para prosseguirmos."
"O portal requer material e energia, temos apenas a estratura aqui, única de fato, mas insuficiente, vá, com essas perninhas verdes de flor aventureira e traga milho, uma única espiga, da mais dourada que encontrares, para usarmos por aqui e também uma garrafa do vinho das uvas mais doces que conseguires, então poderemos começar com esse material."
A flor da montanha agradeceu e saiu do templo, se vendo em uma nova demanda e aparência banal quando achava que estaria em intensa batalha com o anti-rei do mundo.
Milho e vinho, a flor se perguntou, apesar de serem produzidos em diversos lugares, na cidade são comercializados e foi para a cidade de onde havia saído um dia.
Chegando na cidade, foi para a taverna, local onde as coisas acontecem e onde se fica sabendo das coisas.
Perguntou ao taverneiro sobre os comerciantes de bebidas e gêneros alimentícios e foi indicado o porto, local de onde partiam esses produtos e onde chegavam, além disso o mercado do porto poderia oferecer alguma pista.
Para lá foi a flor da montanha, preparando suas moedas, que eram em razoável quantidades, mas nada que a fizesse uma flor rica da montanha.
Na primeira barraca onde se via vendendo diversas bebidas, perguntou sobre o melhor vinho que poderia ser encontrado.
“Com certeza esse!”, o comerciante pegou uma garrafa, “el gato preto, o vinho que traz um gosto de azar aos sortudos inveterados, uma emoção necessária aos entediados, uma queda aos equilibrados.”
Desconfiada, a flor da montanha esclareceu que precisava do melhor vinho que existia no mundo e não na barraca daquele comerciante.
“Você me ofende, por que não poderia ter o melhor vinho logo aqui na minha barraca?”
Quis saber, a flor da montanha, se haveria.
“Na verdade não, aqui só vendo tônicos, esse que você vê é um suco de uva com açafrão, os efeitos que eu citei, contudo, são reais, se você quiser vinhos de qualidade, procure por Monsieur Danton, sentado numa mesa perto de um navio de onde saem os melhores vinhos que se vê por aqui e que em terras distantes e amenas são produzidos.”
A flor da montanha agradeceu e procurou pela figura indicada, o encontrou sentado numa mesa perto de um navio de onde saíam aqueles melhores vinhos feitos em terras distantes e amenas, Monsieur Danton, de expressão severa, escrevia em grande e grosso caderno o conteúdo de algumas caixas colocadas na sua frente.
Intimidada pelo ar de econômica seriedade, a flor da montanha se aproximou e perguntou se poderia falar com ele.
“Com ele quem?”, perguntou o grandalhão escrivão, sem levantar o olhar, a flor da montanha especificou dizendo que queria falar com Monsieur Danton.
Imediatamente ele levantou a cabeça e esboçou largo sorriso.
“Mas se não sou eu! Monsieur Danton, administrador, contador e escrivão da Danton Comércio de Vinhos, operamos em todas as terras conhecidas por nós mesmo e produzimos os melhores vinhos do mundo.”
Pois era isso mesmo que a flor da montanha queria, o melhor vinho do mundo.
“Pois bem, é claro que temos, já te disse pequena flor com elmo, posso encomendar e chegará em quatro dias, eu garanto, me pague metade agora e metade quando chegar, negócio fechado?”
Quis saber o preço do vinho, lembrando-se que contava com cerca de 420 moedas de ouro.
“Uma garrafa de Le Grand Sort custa 550000 moedas de ouro, mas estou disposto a lhe vender por apenas 500000 moedas de ouro, ou seja, preciso que me pague 250000 moedas de ouro nesse momento para que a encomenda seja feita.”
A flor pobre da montanha não disfarçou o constrangimento e Monsieur Danton, experiente negociador comercial logo disse:
“Não me diga que és tu uma pobretona? Me perguntando sobre o vinho mais caro e tudo mais… que decepção.”
Enfrentando o constrangimento, a flor da montanha explicou que era importante encomenda para sacerdotisa do Templo Antigo.
“Pode até ser, mas as uvas não se plantam, colhem, moem e se engarrafam sozinhas, ainda mais de tão caro vinho, apenas um vinho feito das uvas plantadas das sementes que saem nos cocôs dos esquilos do bosque seria mais caro.”
“Mas não produzimos isso, o bosque é deveras perigoso para comerciantes incautos, além disso, esses esquilos são muito exigentes e não comem qualquer uva.”
“Mas digamos que se você, que de cavaleiro andante tem o elmo, me trouxesse essas uvas, nascidas das sementes ejetadas por esquilos do bosque, eu poderia deixar escorregar uma garrafa para você em local só por nós conhecido e, bom, perdas ocorrem em qualquer empresa comercial.”
Topou a demanda e voltou para a taverna, onde comprou um mapa novo e assim localizou o bosque, localidade de aparência inofensiva e fama terrível.
“Não entre”, dizia no mapa, não explicava o motivo.
Mais curiosa do que receosa e também precisando fazer com que alguns esquilos comecem uvas para que fizessem cocô e ela pegasse as sementes e plantasse para que nascessem uvas para colher e trocar por um vinho muito caro.
Descobriu que as redondezas do bosque eram bem frequentadas, havia trilhas tranquilas e gramados agradáveis, pessoas de todo tipo passavam os dias de folga no lugar.
Mas no bosque, de excepcional beleza, ninguém entrava e ninguém sabia dizer, especificamente, o motivo.
Havia pelo menos um, é certo, de que era perigoso e quem entrou certamente não voltou.
Pensando que quando muito se diz, pouco se há, a flor da montanha entrou no bosque, passou por suas árvores e andou tranquila sentindo esperta com sua cética teoria, que caiu depois de uma centena de metros.
A flor da montanha foi surpreendida por uma flecha, que caiu na sua frente, se perguntou se a mira do atirador era ruim ou se era um aviso, imaginou que fosse ruim ou que aquilo talvez fosse um galho pontiagudo caindo por acaso ali.
Deu mais alguns passos e duas dúzias de flechas voaram, cercando a flor de todos os lados, que foi obrigada a parar e pensar seriamente que houvesse uma ameaça naquele lugar.
Diante de si, apareceu um esquilo, acompanhado de alguns outros, todos armados com arco e pequenas facas, além da aljava.
“O que pretende aqui?”, perguntou com seriedade pouco serena o esquilo chefe.
A flor da montanha explicou.
“Não dá, detestamos uva, mas tenho uma boa notícia, como você não sangra, deixaremos você ir embora, tem dois minutos para sair do bosque.”
Insistiu a flor da montanha em sua demanda.
“Saiba que podemos atingir você pela viseira do seu elmo e podemos até, se nos juntarmos, tirar o seu elmo e socar-lhe a cara de flor até que todas as sua pétalas estejam no chão.”
Ofereceu-se a flor da montanha a preparar algum prato gostoso com as uvas, que certamente os esquilos gostariam.
“Recusamos, além disso, só falta um minuto.”
Disse a flor da montanha que poderia ser uma torta, com chocolate e uvas e que os esquilos certamente se deliciariam.
“Detestamos chocolate, desconhece nosso paladar e se oferece para macular nossa alimentação, inútil flor, daqui a quarenta segundos sua permanência no bosque será questionada com violência.”
Cheia de ideia culinárias a flor da montanha disse que poderia ser algo salgado, com batatas, com nozes, orégano e azeite.
“Sem consistência suas ideias, até ridículas e impressiona que não tenhas vergonha, acho que será um favor matar você daqui vinte segundos, darei ordem para que sejam breves.”
Num último golpe de lógica antes do inevitável combate que se aproximava, a flor da montanha pediu rogou que lhe atacassem de mãos nuas, uma coisa eram esquilos guerreiros, que estripavam invasores, mas esquilos assassinos que atacavam em bando uma flor indefesa, seriam visto como perfeitos covardes a serem eliminados por grandes forças militares.
Dizendo isso, a flor da montanha retirou o elmo e jogou seu canivete no chão.
Os esquilos, espalhados por árvores e pelo chão a volta da flor da montanha, deixaram seus arcos, aljavas e facas, pularam em pequenos bandos para cima da flor da montanha.
O combate não foi coisa agradável de se ver e não houve quem não saísse machucado, apesar da prevalência da flor lutadora da montanha, distribuindo socos para todos os lados, um esquilo nunca caía uma única vez, ainda que machucada levantava-se e pulava novamente para cima da flor, que rodava e socava.
Cada esquilo caía pelo três vezes antes de ser nocauteado e só a inconsciência lhes dava esse status.
Incapaz de usar elmo, canivete ou poções, munida apenas dos seus punhos fortes de caule e pernas firmes de caule, a flor da montanha buscava desviar e socar.
Quando a derrota era eminente, o chefe dos esquilos entrou em combate e isso deu um novo vigor aos que ainda estavam em combate, por um momento a flor da montanha pensou que jazeria ali, no bosque, afinal, perigoso, mas isso não ocorreu, quando se deu conta restava apenas o esquilo que comandava.
Esse não caía e levando três vezes mais porradas que qualquer outro ainda permanecia em pé, a flor da montanha, protegendo seu rosto com os punhos verde fechados, imaginou que apenas uma vez cairia o valente lutador e não acordaria mais de imediato.
Estava certa, depois de levar uma sequência de socos de esquilo, dando a ele uma confiança descuidada, a flor da montanha aproveitou uma precha e deu um soco ascendente no queixo do esquilo pugilista.
Ele alçou pequeno voo, sem planar, caindo de costa.
Ergueu os bracinhos a flor da montanha e levou o cinturão invisível do bosque perigoso.
Mas teve que aguardar os esquilos acordarem, todos mais ou menos no mesmo horário.
O chefe dos esquilos, levantando-se zonzo e com dor de cabeça, disse: “podemos aceitar que você faça uma refeição, algo com salada, aquela coisa que disse de batata e sei lá o que mais, nos esforçaremos para comer essas uvas.”
A flor da montanha tentou se lembrar: batatas, tomate (talvez), achava que nozes ou algo do gênero, uvas (naturalmente), orégano, cebolinha seria bom, lembrou do azeite…
Percorreu as propriedades nas redondezas convidativas do bosque habitado por esquilos belicosos, comprou batatas, tomates, castanhas do pará (já que não encontrou nozes), orégano, cebolinha, salsa, azeite e uvas, naturalmente.
Voltou para o bosque, onde foi recebido por educados esquilos, ainda que armados.
“Vejo que tem ingredientes, esperamos famintos, nem almoçamos, para ver se assim as uvas descem por nossas gargantas exigentes”, disse o chefe dos esquilos, levando a flor para um local onde havia armado algumas vasilhas e travessas, além de uma tábua para a flor da montanha cortar os ingredientes.
Os ingredientes foram cortados, em cubos, paralelepípedos, pirâmides e outros polígogonos, não aleatórios, mas todos muito esmerado, misturados numa grande vasilha para admiração visual de alguns esquilos que espiavam a flor chef da montanha a trabalhar.
Era esquilozinhos, que apesar de falarem e pularem muito, não irritaram a flor da montanha, que até fingiu que não via quando eles surrupiavam algo para mastigarem.
Concluída a receita, os pŕoprios esquilos serviram a mesa e apesar dos olhos primeiramente brilharem, logo um semblante desconfiado tomou conta do público.
Alguns expressaram, em voz baixa, para outros.
"Castanhas-do-Pará? É isso?"
"Cadê as nozes?"
"Isso não condiz com as tradições..."
De surda se fez a flor da montanha, que apesar de ter comprado aquelas castanhas por falta de opção, confiava que estaria gostasaa comida preparada.
Os comentários, de fato, foram silenciados e logo apenas o som da mastigação se ouvia naquele ambiente amplo do salão, ao menos para os esquilos.
Entediada, já que a flor da montanha ingeria apenas água, foi para fora descansar e esperar.
Depois de um tempo, já de noite, o chefe dos esquilos apareceu:
"Digo que estamos muito agradecidos e de barriga cheia, desconfiamos daquelas castanhas esquisitas, mas estavam muito boas e os mais desapegados das tradições sem sentido já dizem que são tão boas quanto nozes."
"O que você deseja, pode pegar pelo bosque não ninguém vai lhe incomodar, acredito que de manhã já vai encontrar."
A flor da montanha agradece, foi para o solo e adormeceu no bosque.
Acordou e sentiu um cheiro leve, mas inconfundível de cocô de esquilo.
Andou pelo bosque e constatou que haviam muitos cocôs.
De eles não digeriam as sementes das uvas.
Pegou todos os cocôs que encontrou e os espremeu contra o solo para pegar as sementes dentro deles.
Encheu sua bolsa de itens com essa semente, superando as próprias expectativas e as de Monsieur Danton, que disse para a flor da montanha assim que recebeu as sementes:
"Mas você superou as expectativas! Eu poderia perguntar como conseguiu, mas a verdade é que estou ansioso demais para plantar, ver crescer, colher e fabricar o vinho, adeus flor da montanha, me encontre embaixo da ponte sul da cidade de pedra daqui 18 anos."
Isso é muito tempo, independente da criatura, dependendo dos tempos, muita coisa acontece.
Como não tinha muito o que fazer, a flor da montanha esperou na cidade de pedra, trabalhando com seus amigos guardas, vendo as crianças crescerem, os velhos morrerem, gerações de gatos, sem número de viajantes e comerciantes.
O rumor de uma sombra que expandia-se.
Mas o vinha teria que estar pronto.
E certo dia, junto com outros guardar na torre norte da cidade, um deles comentou:
"Hoje é aniversário do meu filho mais novo, fará oito anos, acreditam?"
Subitamente preocupada, a flor da montanha confirmou se aquele filho era mesmo o que havia nascido em um primeiro de abril, oito anos antes.
O guarda confirmou.
A flor saiu correndo e correu até onde havia marcado o encontro com Monsieur Danton, dezoito anos antes.
Encontrou o mestre dos vinhos.
"São os vinhos", ele disse, sobre estar com a mesma aparência de anos atrás.
"Quanto às suas garrafas, que são duas pelo belo serviço prestado anteriormente, estão numa caixa, flutuando no rio, perto de uma cidade, do outro lado das montanhas, considerando que você parta do leste", Monsieur Danton explicou.
"Lugar outrora livre de maldades, nós últimos dezoito anos a escuridão avançou e sombras materializado por lá vagam" alertou o mestre dos vinhos.
"Mesma lendária montanha de cume visto apenas uma vez por olhos humanos, que eram heróicos naqueles tempos, lar de origem da flor que você chama de eu", concluiu.
E partiu a Flor da Montanha, back to te noite, por assim dizer.
Poderia dar a volta e evitar uma centena de batalhas, demoraria algumas semanas a mais, quase nada significativo diante dos últimos dezoito anos em espera.
Stand by, por assim dizer.
Espera forçada, pois a flor inquieta da montanha era ser que gostava muito de trabalhar.
Uma workholic, por assim dizer.
Cruzaria a montanha, que como lar não se esquece os caminhos, uma montanha não pode mudar tanto em um segundo de montanha.
Subiria até o topo e desceria pelo outro lado, vinda do leste.
Incansável, perto de insensível.
Não se abalou diante das criaturas sombrosas que maculavam seu local de origem.
Deu combate e teria produzido cachoeiras escarlate se as sombras sangrassem.
Ao invés disso produziu luz e vento, os ares da montanha aos poucos voltaram ao seu estado de claridade e ventania.
A subida, árdua e possível, foi concluída.
A descida foi rápida e tranquila.
Chegou à cidade no pé da montanha, chamada Montanha da Montanha.
Mountain City, por assim dizer, por assim chamar suas seis ruas irregulares e construções sem utilidade.
Poucas pessoas ficaram por lá com o avanço impiedoso das trevas e o coração da flor se entristeceu.
A flor desanimada da montanha chegou e foi recebida por olhares curioso, mas só um pouco.
Parou para falar com um ancião, perguntou -lhe sobre a cidade, o ancião disse assim:
"O grande herói Gradus teria derrotado as trevas que ora nos perturbam, se irresponsável flor que morava na montanha tivesse esperado um pouco mais."
"Então você veria nossa cidade próspera e bem humorada, a não ser que você fosse essa flor."
Imaginando-se num copo com água, em cima de uma prateleira empoeirada, a flor da montanha disse que era ela a citada flor.
"Nesse caso, cuidar, alguém pode, sem querer, pisar em você, ou cortar você, ou atear fogo em você...*
Assustada com ameaças que julgava gratuitas, a flor da montanha negou que era ela.
"Nesse caso, fique a vontade e bem-vinda", o ancião disse e sorriu
O local, insistentemente chamado de cidade, não era grande e a flor da montanha não demorou mais de alguns minutos para encontrar a ponte sobre o rio.
Mas nada de caixotes.
Algumas crianças que brincavam por ali informaram:
"Um velho fortão, de imponente barriga, sempre vem nadar aqui e leva o que homens perigosos deixam."
"Ninguém o desafia, pois ostenta grande lâmina pendurada na parede da sala, lâmina que mede equivalente a cinco gladios."
"Uma vez perguntaram do escudo e ele respondeu que não precisava."
A flor com um elmo da montanha sentiu-se ofendida.
Um elmo é um escudo para a cabeça, ou para flor lendária inteira.
Perguntou onde morava o ladrão de ladrões.
Seguiu as indicações e bateu na porta da casa onde morava o outrora herói.
Gradus, o Herói de Outrora, o Barrigudo da Casa da Rua de Cima, o Ladrão de Ladrões, o Bebedor de Sete Garrafas, o Cara da Espada Gigante Pendurada na Parede.
Dormia no momento que a flor chegou, roncava levemente, estava calor e usava uma bermuda e um chinelo de borracha, um grande chapéu de palha cobria seu rosto e sua grande barriga cheia de pêlos pretos estava virilmente exposta.
Obviamente ele não atendeu a porta, mas ela abriu assim que a flor bateu, pois suas dobradiças estavam velhas e gastas.
O lugar estava ligeiramente bagunçado, mas até que limpo.
A flor da montanha chamou, gritou e o Herói Que Dorme na Cadeira Confortável não deu sinal de que acordaria, ela então chutou sua canela.
Ela então mordeu sua canela.
Ela então fez cócegas nos seus pés asseados.
Então ele acordou subitamente e assustado, olhando para os lados rapidamente e dizendo: "o que foi? Quem está aí?"
Foi cumprimentado pela flor, ele se ajeitou na cadeira, colocando o chapéu na cabeça e dizendo num tom de voz alto e forte que lhe era característico: "Ah! Então agora você aparece?"
Não parecia bravo, nem muito surpreso, na verdade esboçava até certa alegria e leveza que a flor da montanha não esperava naquela situação.
"Se você está aqui, é porque tem alguma demanda, certo?"
Explicou a flor que precisava daquele vinho, pronto depois de dezoito anos.
"Certamente você espera que depois de tantos anos ainda haja muito o que salvar, eu me lembro de dezoito anos atrás, eu pensava que ainda voltaria para a estrada e não me diga que nunca é tarde, o problema agora é que eu realmente não quero."
Explicou a flor que não precisavam dele mais, apenas do vinho.
"Fico feliz pelo mundo que não precisa mais de mim, aliviado também, já pensou eu falho?"
Insistiu a flor da montanha precisava do vinho para entrar no templo que dava passagem ao castelo origem de todas as trevas que tomavam conta do mundo.
"Não fuja do assunto, pequena flor da montanha, demorei tanto para vislumbrar você, deixe-me dizer, posso te ajudar se você me ajudar."
Atentou-se a flor da montanha ao que diria o Herói Que Precisava de Um Herói.
"Nas minhas jornadas encontrei uma ampulheta de uso único, em um lúgar única depois de uma batalha mortal contra uma criatura única."
"O poder dessa ampulheta era voltar no tempo em dezoito anos, coisa que eu não tinha motivo para fazer, mas tinha receio de perder a ampulheta."
"Aí tive a brilhante ideia de colocar num baú bem distante daqui, numa casa onde não morava ninguém e servia de depósito de cerâmicas."
"Faz um tempo que eu gostaria de ir até lá, mas fica longe, em um vilarejo depois das montanhas e seguindo o rio até onde ele nasce."
"Certamente eu seria solicitado no caminho, ou haveria barreiras e de alguma forma eu acabaria fazendo demanda atrás de demanda."
"Depois que eu vasculhei o mundo atrás de uma flor que agora anda por aí, eu não quero me envolver com essas coisas, mas gostaria de ser desafiado dezoito anos atrás e saber se eu era um herói que valesse a pena ser citado."
"Concorda?"
A flor concordou, mas perguntou como procederiam com o vinho que não existia dezoito anos antes.
"Você leva, é claro, sua consciência não deixaria me deixar na mão, tudo que estiver com você volta no tempo com você."
Assim saiu a flor da montanha daquela cabana, deixando o Herói Vazio e Sedentário para trás, poderia ter ido direto ao templo antigo, mas sua consciência a mandava para além da montanha, seguindo o rio até onde nascia para encontrar um vilarejo onde havia um baú numa casa que servia de depósito de cerâmicas.
Voltar 18 anos não parecia ser má ideia, o mundo quase inteiramente por trevas estaria mais habitável e a flor da montanha poderia, literalmente, recuperar o tempo perdido.
E a requerente do vinho não esperaria tanto tempo.
E talvez ajudasse o Herói Preguiçoso também.
A jornada foi longa, a flor cansada de lutar da montanha esquivou-se o quanto pode do combate com as criaturas sombrias que mais numerosamente habitavam o mundo.
Atravessou a montanha, de lado a lado, chegou ao vilarejo, habitado por pessoas sem nada que chamasse a atenção.
Uma casa na entrada da vila servia de depósito de cerâmica do reino e lá entrou a flor da montanha.
Muitos casos espalhavam-se pelo único cômodo e não havia baú à vista.
Um guarda fazia vigia ali dentro e perguntou o que procurava a flor da montanha, que fez menção ao baú.
"É claro! Meu pai, vigia das cerâmicas antes de mim, me disse sobre isso. Nunca imaginei que uma pequena flor viesse atrás disso."
Indicou um conjunto de vasos e disse que estava embaixo deles o baú.
Era uma pilha de muitos casos, na verdade.
Curioso, a flor da montanha perguntou sobre a função de tantos vasos.
"Muito útil, para ornamentar o ambiente ou pequenas hortas de especiarias."
"Pertence ao antigo rei, naturalmente, que vive no exílio desde que o castelo foi tomado pela escuridão."
"Já está velho e desanimado, pelo que ouvi falar, sem esperança de um dia voltar,parece que sua filha se juntou a um bando de bandoleiros e vivem de grandes assaltos em propriedades produtoras de azeite de oliva"
"Tenta juntar recursos para um grande exército, para invadir o castelo outrora de sua família."
"Um plano desesperado e impraticável, se quer saber, o mundo está perigoso e a princesa é corajosa de perambular por aí, ainda que como bandoleira."
"A hora que as trevas chegarem por aqui, eu deixo o uniforme de guarda que chegou até mim pelo meu pai e até ele pelo pai dele e fujo com minha família."
"A não ser que digam que posso continuar tranquilo protegendo as cerâmicas de dinastia decadente."
Um pouco arrependida de perguntar, a flor da montanha se colocou diante dos vasos que teria que remover. O guarda disse:
"Se o que diz é verdade, quebre os vasos, pois sua viagem no tempo consertará tudo, mas se for mentira, terei que te prender."
De acordo, a flor da montanha sacou o canivete e passou a quebrar os vasos, se divertiu com isso e o guarda, apesar de não esboçar reação, se divertiu também.
Havia, de fato, um baú.
Dentro do baú, uma ampulheta.
Que virada, se desfez e a flor da montanha se viu no mesmo local, com os vasos todos inteiros e menos empoeirados.
Um guarda diferente, mas parecido e mais velho, que disse:
"Uau!"
E só.
Com receio dele ser parecido com o filho, a flor da montanha não perguntou nada.
Tinha que levar o vinho.
Mas tinha, antes, que falar com Gradus, que naquela época, estava em sua cabana, só levemente acabado.
O caminho foi longo, entediante, mas tranquilo.
E encontrou um Gradus amistoso, mais forte do que gordo, regando flores que claramente não resistiram aos próximos dias.
"Veja só quem aparece! Quando eu parei de procurar, eu encontro, gostaria de ter pensado nisso como um plano."
"Mas eu cansei, estou satisfeito vivendo como um habitante comum desse mundo, se minha espada permanece pendurada na parede, é por motivo estético apenas."
"Por todo esse mundo andei, buscando ser cem por cento e por causa de taverneiro fanfarrão e flor esquiva fui apenas noventa e nove."
"Para sempre registrado nos anais do heroísmo: Gradus, tantas horas, noventa e nove por cento."
Ao ouvir o rancoroso discurso, a flor sentiu-se injustiçada e como ocorre em ocasiões do tipo, puxou seu canivete em postura de combate.
Gradus, o herói desiludido, puxou sua grande espada da parede e iniciaramo combate.
Uma luta épica e sem sentido seguiu-se, onde Gradus, que apesar da experiência e força bruta, estava cansado e não sentido em nada.
Por outro lado, a flor da montanha estava cheia de vontade, onde já se viu achar que uma flor deveria ficar a eternidade no lugar esperando no mesmo lugar, ainda que seu suposto caçador desistisse.
Isso só para ajudar no casamento de um taverneiro que ignorava os gostos de sua esposa.
"Calma florzinha, estou cansado, apesar do alto level de habilidade e força, não lembro mais os comando para uma luta desse tipo", o herói esbaforido disse.
A flor recolheu o canivete e o herói disse: "por que não vai ver o velho taverneiro e volta para me contar, isso me ajudaria a lidar com a frustração de ter falhado em meu dever, se eu soubesse que você era flor sesciente, com certeza teria recusado a tarefa ou feito alguma outra coisa para ajudar no casamento alheio."
Contou para a flor heroína da montanha onde morava o taverneiro e continuou suas tarefas em organizar sua nova casinha.
A flor seguiu o caminho até uma pequena vila cujo nome ninguém jamais se lembrava.
Apenas uma taverna havia no local, o que por um lado facilitava as buscas, por outro lado se a comida não fosse boa também não tinha outra opção.
E a comida não era boa.
Sorte seria da flor, pois ela só bebia água, mas até a água era ruim, com gosto de bolor. Além disso, fato inédito até aqui, cobravam pela água.
"Eu não tô nem aí se você é flor da montanha, aliás, por causa disso, cobrarei o dobro", declarou o taverneiro, uma copo de água, que custava irreais cem moedas de ouro, passaram a custar duzentas.
Preferiu ficar com sede a florzinha, mas o taverneiro declarou: "não converso com quem não consome na minha taverna."
A flor sedenta da montanha se viu obrigada a pagar as duzentas moedas de ouro por um pouco de água bolorenta.
"Era pra ser melhor, a última coisa nova aqui foram os bancos cheios de cupim e gordura, mas uma busca travou o meu negócio e desde então aqui não existe nada de bom."
"Culpe o herói incapaz e culpe, acima de tudo, a flor da montanha, aqui detestamos a flor, vivemos no bolor e no fungo, saia daqui agora ou o cheiro de podridão fará o trabalho."
Cansada de ser destratada e mal humorada pela água embolorada, a flor da montanha prometeu encher o taverneiro de porrada.
Ele aceitou o desafio.
Lutou bem para um taverneiro, fez fogo com vodka, cortou ameaçadoramente o ar com sua faca de cartes, mandou ratos e baratas atacarem a flor.
Mas apesar de ser uma luta inesperadamente complicada, em nenhum momento ficou dúvida que a flor da montanha venceria.
O taverneiro cheio de hematomas era, afinal, bem mais gentil.
Mandou o criado buscar água fresca no rio, fora dos limites da vila.
Pegou o melhor banco e convidou a flor para prosear, que teria muito assunto para entreter.
Quando chegou o criado com a água, o taverneiro pegou a viola e cantou.
Das mágoas e das alegrias.
Das batalhas épicas e do cotidiano.
Da flor e do elmo.
Mas nada que fosse de interesse da flor.
Afinal, se não podemos contar com o herói deste mundo, com quem contar?
Se até uma flor impõe sua vontade acima da nossa, do que vale a civilização?
A flor lembrou-lhe que se fosse mais atento aos gostos da própria esposa, não teria solicitado ao herói a missão virtualmente impossível,
O taverneiro não gostou de ouvir a verdade e teria jogado uma cadeira na flor, se não soubesse que apanharia em seguida, então ele parou para pensar.
Quanto tempo um homem é capaz de ficar sem pensar?
Quantos pensamentos que poderiam vir à cabeça não vieram?
Quanto poderia ser e não é?
Naquele momento que o taverneiro parou pra pensar, pensou na sua esposa e no suíno que causará a discórdia, no mobiliário que nem ficará tão bom assim e afastara a ralé que era a clientela mais assídua.
Aí ele chorou, alto e cheio de lágrimas e catarro.
Dizia gritando ser um infeliz, egoísta e merda, que causará a própria e a ruína do mundo.
Não teve jeito para flor, que de tantas desventuras enfrentava agora a mais desagradável, ouvir os lamentos escandalosos de um taverneiro lacrimoso.
O taverneiro escreveu, na mesa onde servia, uma carta para Gradus, o herói desiludido.
Desculpava-se e declara a que a demanda que solicitara era impossível, que a flor, por ser sesciente, não era algo a ser solicitado, como se objeto fosse.
Entregou a carta e a flor, já cansada da mente, precisava da calmaria da caminhada.
Encontrou o antigo herói, que num último ato de heroísmo, forneceu para flor aquele vinho cobiçado.
Por algum motivo nesse ponto do relato deixaram de escrever por muito tempo.
Um arquivo foi salvo e manteve-se inalterável, sendo retomado posteriormente por vontade individual que não nos cabe definir ou julgar.
Nesses casos, se esquece alguma coisas.
Se quer levar a flor para passear pelo mundo, relembrar como é.
Enfia-se numa caverna cheia de aranhar rancorosas sem querer e acorda numa enfermaria sendo tratada por uma freira simpática, mas severa.
Isso porque se esquece como saca o canivete, ao invés disso acaba por pular, nesse caso pular nos braços das mortes de oito patas.
Vai beber uma poção e se usa um poder, algum poder qualquer que seja inútil contra aranhas.
Pergunta-se "onde tenho que ir mesmo", "o que tenho que fazer mesmo?", abre o registro.
Lê sem muita atenção, olha o mapa e lembra-se do vinho.
Deve ser efeito das viagens no tempo.
Já familiarizada novamente com seu corpo e seu mundo, a flor retomada da montanha vai ao antigo templo, encontrar-se com a mulher que tanto queria aquele vinho.
Uma vez com o vinho na mão, o interesse sobre a flor e sua demanda desapareceram, a flor tentou várias vezes reiniciar conversa com aquela que agora servia-se em farta taça de vinho, que depois de muitas tentativas, em um tom desinteressado sobre um que vivia num dos quartos.
Na porta da frente, do outro lado, no corredor.
A flor decepcionada com a humanidade da montanha saiu dali e foi até o outro quarto levando a chave que, num último gesto, a aficionada em vinhos lhe entregara.
Entrou no quarto.
Algumas tochas iluminavam o ambiente com cheiro de algo que se molhou tempos atrás.
Ligeiramente sufocada com o ar pesado e fechado do ambiente, a flor claustrofóbica da montanha chegou onde estava um homem impossível de definir a idade.
Sua pele era azulada, sua cabeça alargava-se, ou era um chapéu, lembrando a forma que tomam muitos cogumelos, ele disse: "Não precisa se explicar."
"Sabemos tudo, meus amigos tudo me contam, temos uma conexão."
"Não sou mesquinho como tantos outros, tenho problemas de vidas e vidas dependendo de ações de poucos."
"Eu não sei como prosseguir, mas nosso irmão pode te dar uma resposta que te ajude mais, ele vive no quarto central."
"Pegue a chave que lhe entrego e vá falar com meu irmão, o quarto dele vai ser mais do seu agrado, nada de escuridão, umidade e fungos, não se preocupe, estão todos sendo mortos e logo não lhe incomodaremos mais."
A flor com consciência da montanha viu diante de si duas opções: pegar a chave e seguir em frente ou oferecer ajuda ao homem cogumelo.
Ela até tentou seguir em frente, mas uma voz a impediu, como letreiro gigante diante dela que anunciasse: "VOCÊ SERIA CAPAZ DE ABANDONAR UM NECESSITADO?!?"
Uma opção restou e a flor perguntou do que ele precisava.
Ela explicou, calma e ponderamente.
Eram porcos que viviam como toupeiras e cuspiam bolas de veneno e fogo.
Criaturas quiméricas de magos antigos que resistiram ao tempo e fundaram sua própria civilização subterrânea.
Tranquilizou a flor, dizendo que matar não era preciso, apenas separar cada uma dessas criaturas, lhe deu um óleo pra passar em seu canivete que cortaria para separar, não para matar.
Preocupou a flor, dizendo que tais criaturas não seriam separadas sem intenso combate.
Traçou um plano, se separasse o chefe, que vivia em fortaleza no centro da cidade subterrânea dos porcos toupeiras, talvez os dois surgidos dele ajudassem, por isso recebeu um óleo extra.
O caminho, convenientemente havia um túnel do seu quarto para lá, o segredo, "vá sempre para baixo."
A flor subterrânea da montanha, por mais contradições que houvessem nisso, continuou a caminhar e nesse caminho manteve-se por seis dias inteiro, sem se preocupar, pois o solo era úmido, não seria de falta de água que padeceria essa flor enquanto estivesse por lá.
Talvez de tédio.
Como mágica, contudo, passou esse tempo, como se uma breve narrativa tivesse dado conta dessa caminhada impensável, de repente lá estava a flor skiptime da montanha, na entrada de uma larga cidade subterrânea.
Tenebrosa e poderosa fortaleza, atrás de si apenas rocha e sem volta, seu caminho escondido em algum ponto não mais encontrável no teto que não se via de tão alto naquele lugar iluminado apenas por tochas e cogumelos.
A cidade era uma fortaleza.
Com guardas porcos toupeiras que andavam de uma lado para o outro passando convenientemente por pontos sem luz.
Quando ouviam algo suspeito, olhavam na direção, logo esquecendo.
Ouviam mal, viam mal, caçavam mal, guinchavam mal, corriam mal.
Mas dominavam o subterrâneo com patas de ferro.
A cidadela protegida era desconhecida da flor, que foi pega por um guarda, que a jogou pra fora dos muros.
Inteligência não é tudo.
Às vezes força bruta, superioridade numérica e mistura genética é o que basta.
Mas quando surge um herói, ou heroína, ainda que meiga flor mortalmente armada, força bruta, superioridade numérica, mistura genética e inteligência não bastam e seria até melhor não ter nada disso, talvez o destino fosse mais misericordioso.
Conseguiu, depois de várias tentativas, chegar na sala do trono sem ser detectada por nenhum porco e nenhuma toupeira.
No trono estava o rei porco-toupeira.
Tinha até uma coroa e alguns guardas consigo.
A flor explicou seu motivo de estar ali e de que forma favoreceria os porcos-toupeiras.
Óbvio: dobrariam suas tropas.
"Você acha que somos burros?", gritou o rei porco-toupeira.
"Você acha que somos burros?", gritou ainda mais alto antes que a flor respondesse.
"VOCÊ ACHA QUE SOMOS BURROS?!", urrou, levantando-se com uma lança na mão e pulando no meio da sala do trono, sendo rodeado pelos seus guardas.
A luta começou.
E dizem que na superfície, foi possível sentir os tremores e uma obscura luta lá embaixo.
Os agricultores assustaram-se com a terra brava.
Os cães latiam alto para lado nenhum.
Todos os gatos subiram nos telhados.
Estrategicamente, a flor cortou os guardas primeiros, cortes precisos que precisaram cada um de várias tentativas enquanto ela escapava das poderosas investidas do rei porco-toupeira.
Separados, as toupeiras enfiavam-se medrosamente em algum buraco e os porcos corriam dali guinchando medrosos.
Até restar apenas o maior.
A flor não se iludiu, sabia o que acontecia nessas horas, aconteceu.
O rei porco-toupeira guinchou num urro que foi ouvido no andar mais alto da torre mais alta da superfície.
Separou sua lança em duas menores e suas investidas que eram lentas e poderosas, tornaram-se igualmente poderosas, mas muito rápidas.
Dessa forma, foi extremamente difícil para a flor separadora da montanha acertar o meio da criatura, acertava qualquer outra parte e não tinha qualquer efeito, nem mesmo de machucar.
Quando a flor estava exausta e depois de ser acertada várias vezes pelas investidas do rei porco-toupeira, quando suas poções estavam no fim e sua energia vital já não era quase perceptível, ela acertou.
Ao contrário dos outros, ele não correu imediatamente, quer dizer, eles não correram imediatamente.
Grande porco e grande toupeira se encararam, numa pausa dramática.
"Quem teve a ideia de nos juntar?", perguntou o porco.
"Quem teve a péssima ideia de nos juntar?", perguntou a toupeira.
"Tá certo que ficamos deveras poderosos, mas nosso intelecto decresceu demais, além disso, foi um infeliz atentado à nossa individualidade, gostaria de saber quem foi o vil ser a ter essa ideia e colocar em prática, tentar esclarecer dos malefícios de suas ações", foi a fala do porco.
"Além disso, imagino eu pelo estado das coisas ao redor, que fizemos mal ao ambiente e às criaturas nas redondezas, deveria ter refletido demoradamente o responsável nas implicações gerais e éticas dessa conjunção", foi a fala da toupeira
"Contudo, visto que aparentemente você não sabe nos responder aos jutos questionamentos que fizemos, nos diga o que motivou sua vinda até esse lar funestamente organizado", solicitou o porco.
"Sim, de que forma você, criada no alto de uma montanha, parou nas profundezas, em opressora fortaleza comandada por quiméricas criaturas?", completou a solicitação, a toupeira.
A flor explicou, que um homem em templo muito antigo, um homem com uma cabeça que parecia um cogumelo, pediu que ela fizesse isso, como era já conhecida heroína, ainda que outras demandas requeressem seus talentos, não poderia negar um pedido tão urgente.
"Contudo", disse a voz do homem com cabeça de cogumelo, entrando na sala do trono, "nossos inimigos coincidem, não queria que aceitasse forçadamente essa tarefa apenas por compartilharmos um desafeto, por isso não disse antes."
"Lorde Azares, que considera a superfície uma conquista certa, fez um experimento com vocês, usando vis ardis arcanos para juntar de forma monstruosa duas maravilhosas criaturas, que ficassem assim fisicamente poderosas e sem intelecto algum."
"É um prazer rever você, nobre amigo de cabeça fúngica", disse o porco.
"Ainda que nos traga tão tristes notícias, achamos que Lorde Azares fosse nosso amigo, uma mente tão brilhantes, agora entendo porque minha última lembrança foi de estar no seu castelo, depois de aceitar um convite para beber um trago", disse a toupeira.
"Nesse caso, podemos compartilha algo com você e seu desvio em vossa demanda terá sido, na verdade, parte dela, pois não estaremos traindo nosso amigo, já que ele se fez unilateralmente inimigo dos porcos e das toupeiras", disse o porco.
"Muito sabemos deles e dos mecanismo do seu castelo, que não deixaria uma flor, ainda que experiente e armada, muito inteira, tenho a planta de todos os seus sistemas de segurança, físicos e mágicos", disse a toupeira.
"Também existe uma fraqueza, que é o seu gato, para um lorde mergulhado na pura maldade ele tem um amor inacreditável por aquela criatura, por ele criado, seu nome é Carniça e dizem que é monstruosa fera que exala podridão e apesar do nome devora outros seres ainda vivos", disse o porco, deixando transparecer um leve medo em sua voz.
Combinaram então da flor cortar e separar todos porcos-toupeiras, que foram convocados pelos (agora) dois reis e fizeram fila para serem separadas, todos se perguntavam quem tinha tido aquela péssima ideia depois de serem separados.
Terminado o serviço de separação de criaturas quiméricas, a flor da montanha tinha outro quarto para visitar.
A flor pegou a planta do palácio de Azares e saiu, voltando por atalho que a grande toupeira recém cavara, chegou à superfície em um piscar de telas.
Chegando ao sol, do lado de fora do Templo Antigo, cobriu seus olhos de for com suas folhas de flor, para se proteger daquela já ligeiramente estranha luz.
Imaginou estar, de verdade e desta vez, perto de cumprir sua demanda principal.
O que era real, se não considerarmos dívidas a pagar, linhas do tempo distópicas e uma continuação a considerar a repercussão de toda história da flor da montanha.
Encurtemos.
Ela entrou de novo no Templo Antigo.
Subiu as escadas.
Entrou pela porta que ficava no centro.
Encontra lá dentro um quarto terrivelmente arrumado.
Assim imagina o narrador, que compartilha com o personagem a ser apresentado, o amor pelos livros.
Pois havia livros em todos os lugares.
Em cima da cama.
Embaixo da cama.
Em cima da cadeira.
Embaixo da cadeira.
Perto do fogão (que perigo!).
Em cima da geladeira.
Talvez alguns dentro da geladeira.
Espalhados pela mesa.
E, naturalmente, nas prateleiras destinados aos livros.
"Olá", disse a mulher que estava lá.
A flor deixava de se surpreender com muitas coisas: criaturas de areia, aranhas gigantes, porcos-toupeiras, macacos que jogavam cartas, viagens no tempo... mas uma coisa ainda a surpreendia: quando ela esperava encontrar um homem e encontrava uma mulher.
Por nenhum motivo em particular, a surpreendia.
Ela era alta, ou o teto era baixo, não dá pra confiar no relato de uma flor, que afinal é menor do que a maioria dos humanos.
Pode ser que existam humanos diminuídos por artefatos tecnológicos ou mágicos e sejam menores do que uma flor.
Fora isso, via de regra, a flor era menor que os humanos, mesmo as crianças, então dizer que essa mulher era muito alta pode ser uma impressão bastante dúbia.
"Quer um livro? É só isso que eu tenho para oferecer."
A mulher perguntou, dobrando o livro no colo e mantendo o indicador marcando a página.
A flor explicou que precisava chegar ao antigo palácio onde Lorde Azares fizera a base do mal que emanava.
"Sabe que posso te ajudar, também posso não te ajudar, existem futuros diferentes para escolher diferentes e tenho que pesar no que isso poderá mudar o mundo, devo dizer e lembrar que não estou isenta de me aproveitar de sua heroica presença para resolver um problema menor do que aquele que você por conta própria pretende resolver."
"O lado bom é que nossos caminho se cruzam e a partir do momento que cruza, eles vão para o mesmo local."
"Tenho um irmão, perdido muito tempo atrás, levado por arroxeado portal cheio de mortos, não sei se meu irmão morreu, mas ele voltou e anda por aí fazendo as coisas dele, imagino que você imagina do que eu quero, ou melhor, quero por precisar, se não fosse necessário, eu não teria porque querer."
Com dúvidas, a flor disse, sem muita certeza, se teria que salvar aquele irmão outrora presente.
"Não, e não decepciono por isso, a solução é mais simples, o destrua simplesmente, acabe com seu vestígio na face desse mundo e poderemos seguir com a paz que já tivemos, digo que facilito, pois meu irmão é aquele que, tendo renegado seu nome benevolente, assumiu a alcunha de Azares."
A flor de olhos arregalados da montanha nem soube o que dizer diante de tais revelações, Lorde Azares era tão distante e tantos aspectos e de repente ela aproximava-se dele no campo físico e mental.
Aniquilara tantas bestas e feras, muitas delas inocentes envolvidas numa guerra de vontades muito maiores do que a pretensa existência individual, mas ao perceber que se aproximava daquele que causara tanto naquele mundo, perguntou-se da necessidade daquilo tudo.
Mas demanda era demanda e não acabaria como Gradus, preso à uma busca secundária achando que o mundo era uma desgraça só menor do que a própria vida.
O processo civilizatório, resumidamente, parecia bem.
Ganhou uma chave, mais bonitas que todas as outras, chave dourada e ornamentada com belo e brilhante rubi que simbolizava uma antiga família real.
Abria uma porta no térreo daquele templo tão antigo.
A porta, uma vez destrancada, abriu-se com alto som, sozinha e lentamente.
Iiiiiiiiéééééé.
Dentro, as trevas. E um destino para uma flor guerreira.
Sobreviveria? Pereceria? O mundo lembraria-se da heroína purificadora ou esqueceria tudo que passou encoberto em trevas?
Às respostas estavam diante da flor e seus passos lentos devem-se unicamente à sua curiosidade, não sem antes um aviso vindo do seu bom senso:
"Depois desse ponto não tem mais volta, um grande desafio aguarda. Deseja prosseguir?"
A flor não leu seu bom senso até o fim e prosseguiu.
Capítulo final.
Batalha final.
Jornada final.
Parte um.
Estava no jardim, belamente arborizado, bem cuidado, apesar de ser circundado por feras armadas.
Lanças, dentes e escudos, cercando a flor de todos os lados, grunhindo, boa movimentação de pernas, muito cuidado para não estragar o jardim.
A flor destinada da montanha deu cabo em três deles, surgiram mais três e depois mais três, de portais obscuros que os teletranspotava do local de origem.
Pararam de aparecer e a flor se perguntou o que tramavam em obscuridade.
Tramavam armadilhas, nos corredores do castelo, machados suspensos balançando, buracos no chão forrados de espinhos, paredes que juntavam em ruidoso movimento, bolos de fogo cuspidas por estátuas chifruda, lâminas circulares que corriam de um lado para o outro.
De muitas formas a flor pulou, abaixou e esquivou, foi acertada muitas vezes e outras tantas tomou poções para se curar.
Chegou a uma antessala, a antessala do trono e muitas coisas poderiam ter lá para preocupar a flor, mas o que ela encontrou a assustou mais do que qualquer coisa.
Eram poções, das mais diversas, óleos para sua lâmina, tudo que fosse possível para ela lutar.
Se existe itens de cura, existe um grande desafio, um chefe.
Tão certo quanto o sol aparecer de dia e a lua de noite, tão certo quanto as misérias humanas.
Nada deixa um herói ou uma heroína mais preocupados do que um monte de itens de cura juntos.
Pegou o que conseguia carregar e prosseguiu para a sala do trono.
Parecia que Lorde Azares esperava por esse momento, parecia que ensaiara com seus bestiais comensais aquele momento de definitivo enfrentamento com a luz e a ordem representadas pela flor.
Estava prostrado no trono, com um manto vermelho cheio de linhas angulosas pretas, por baixo uma roupa de batalha, difícil acreditar que um lorde que não saía do seu palácio andaria com seu gibão de couro pra cima e pra baixo do seu lar, sem contar as botas pesadas e ameaçadoras.
Na cabeça uma coroa negra como uma noite de chuva, encrustada de joias negras e sem detalhes discerníveis.
Nas mãos, o único item que brilhava, uma harpa dourada de onde ele tirava sons divinos que formavam-se em melodias profanas, como quem queima a terra e a enche de mortos-vivos, que era uma das coisas que ele fazia.
Sorria levemente mostrando seus brilhosos dentes enquanto olhava para o lado, fingindo ignorar a chegada da flor na sala do trono.
Sua pele branca deixava em evidência suas veias esverdeadas e, no pensamento da flor, os melhores pontos para serem cortados.
Isso depois de passar pelas barreiras mágicas que com certeza existiriam, pelos comensais, por formas alteradas do mesmo Lorde Azares.
Puxou seu canivete, produzindo um som estridente de aço contra aço e o som da harpa cessou.
Lorde Azares disse, num tom que usaria um péssimo ator: “demorou pequena flor, então vamos acabar logo com isso.”
Ao avançar contra o Lorde Azares, ele continuou a tocar e armaduras que pareciam enfeites se colocaram no caminho da flor, com seus pesados machados e longas lanças, sem olhares ou veias para serem cortadas.
Subitamente grandes machados desciam impiedosamente para cortar a flor e martelos colossais desciam como trovões para esmagar a flor, o som pesado das armaduras no chão de pedra lisa ensurdeciam a heroína, que não conseguia orientar-se pelos sons, nem pela visão, já que as armaduras se aglomeravam em volta dela e eram iguais e sem personalidade, só lhe restou o bom instinto.
Foi como se a flor apertasse poucos e repetidos botões muito rápido e muitas vezes, num desespero de quem sobrevive e dessa forma seus golpes acertavam em diferentes direções e com diferentes forças, até que ela começou a nota a diminuição de adversários metálicos em torno de si.
Quando terminou de derrubar o último conjunto de armadura, que como todos os outros caía montado pela mágica maldosa de Lorde Azares, o tal estava em pé, como em uma peça de teatro arremessou sua túnica para trás e puxou uma espada cuja apenas a bainha existia materialmente.
Depois de empunhada, a lâmina formou-se em chamas e diante dele, interpondo-se entre o Lorde de Toda Escuridão e a Flor Heroína da Montanha, uma criatura humanoide de fogo que realizava todos os movimentos de seu invocador, só que com mais periculosidade em sua espada formada por chamas nas mãos de seu corpo alto e esguio.
A primeira tentativa da flor foi de circundar a criatura invocada e alcançar o seu mestre, mas o movimento da criatura era rápido em acompanhar a flor e não houve a mínima brecha para que o confronto fosse evitado.
Apenas a luta era possível e mesmo depois de tantas lutas, as chamas que se apresentavam assustava a flor que poderia facilmente chamuscar-se naquele fogo hostil.
De qualquer forma, lançou-se contra o elemental, sempre rolando para trás depois de um golpe rápido, às vezes certeira, na maioria das vezes não.
Sentiu seu elmo aquecer e suas pétalas estalarem, foi até o limite que o calor lhe permitia, aos poucos o elemental perdia a força e ganhava voracidade, a espada que o guiava nas mãos de Lorde Azares já não brilhava tanto.
O elemental começou a queimar mais subitamente, suas chamas cresceram e a flor rolou várias vezes para longe antes dele explodir.
Lorde Azares demonstrou, pela primeira vez, irritação, deu um sorriso de desgosto e chacoalhou a espada, que de uma empunhadura apenas surgiu uma lâmina de gelo, ergueu a lâmina e um novo elemental se materializou da umidade do ar, de corpo fino e rígido, feito de gelo.
“Os que temem o fogo acima de tudo, certamente não conhecem o gelo”, escreveu o sábio Tamurundus, que morreu pacificamente com trezentos e cinquenta anos, sentado em sua poltrona favorita na biblioteca da academia, o que poucos lembram é que em sua juventude ele foi um aventureiro e contra todos os elementos lutou.
A flor queimada da montanha pode, ainda que forçosamente, testar esse famoso dito de Tamurundus.
Cada golpe, ainda que não fosse implacável em sua força, retardava seus movimentos, que ficava mais exposta ao golpe seguinte e em torno do elemental tudo tornava-se mais lento, exceto o próprio.
De início, a flor achou que seria mais fácil fragmentar os finos membros de gelo, mas era como se estivesse batendo em pedra.
Cansada, ferida e depois de tomar várias poções de cura, a flor permaneceu distanciada e esquivando-se pensando em uma estratégia, quando pensou em algo que tivesse uma força de aceleração maior do que o seu golpe aliado a uma massa maior do que o seu canivete, um instrumento improvisado contundente que fosse perfeito para quebrar gelo, olhou para cima e viu.
Que bom para a flor que a monarquia gostam de lustres grandes e cheios de velas, além de quebrar pode derreter um eventual elemental de gelo, a flor só precisava atrair o ser para o ponto certo e corta as correntes que seguravam o lustre que cairia.
Fez isso, atraiu o elemental que arremessava de sua espada espinhos de gelo, quando ele chegou no ponto requerido a flor se aproximou, sabendo que sua aproximação faria com que ele tentasse acertar-lhe um ataque carregado de área, que demorava um pouco para ser executado, tempo suficiente, se bem que quase que não, para a flor dar uma volta pelas colunas em volta e romper as quatro correntes que segurava o lustre, uma vez as quatro correntes rompidas o lustre caiu de uma vez.
O elemental de gelo balançou freneticamente, esquivando-se do fogo, estava quebrado e sem uma das pernas, mas funcional, andava apoiado em sua espada, mas não menos ameaçador.
Como os lustres eram muitos, a flor repetiu a estratégia.
Como sem memória ou certo de sua vitória, Lorde Azares conduziu o elemental de gelo da mesma forma e da mesma forma foi ferido pelo segundo lustre.
O elemental perdeu as pernas e restou-se apenas o braço que carregava sua espada, mas usou a umidade para flutuar rapidamente pelo ar.
A flor teve seu trabalho dificultado pela velocidade recém-adquirida do elemental de gelo, imaginando se não teria sido possível ele mover-se assim anteriormente.
Ele não parava mais para dar um ataque carregado de área, de forma que a flor teve que se manter em velocidade e cortar três das corretes e a quarta com o elemental flutuando, calculando o tempo do movimento dele e da queda do lustre.
A flor física da montanha era boa nesses cálculos, o elemental se despedaçou definitivamente e dessa vez Lorde Azares até bateu o pé, declarou que dos três elementos, o próximo era o mais forte e a flor estava condenada.
Ergueu a espada, a empunhadura, surgiu uma lâmina negra.
O elemental era de sombra e sua forma modificava-se, entre uma forma rápida e uma forte, com a rapidez necessária entre correr e bater.
O nível de batalha era obviamente muito mais difícil do que nas duas lutas anteriores, contudo, a vantagem da sombra era uma vantagem para si própria, pois a flor era heroica demais, seu canivete tocava a sombra como se fosse material, o problema era acertar tal criatura tão rápida e deter golpes tão fortes.
Não tem nada mais difícil do que lutar de igual para igual.
Arrependeu-se das poções tomadas anteriormente e gostaria de refazer suas lutas passadas para guardar essas poções, pois tomou várias antes de acertar o primeiro golpe no elemental de sombra.
A flor, contudo, não se lamentava, pois não havia tempo e era inútil, seu objetivo estava diante de si e derrotar o lorde das trevas, o imperador da escuridão, o rei das mentiras, era isso que faria e as poções teriam que ser suficientes.
A flor pragmática da montanha como guerreira mais do que nunca lutou, com paciência e agilidade, esquivando-se dos golpes, acertando seu canivete que pouco feria aquele elemental supremo, mas o feria e a luta ainda que longa e cansativa, teria um fim quando a barra de vida daquele ser sem vida chegasse ao fim.
O duelo foi demorado, para a flor como se uma vida inteira durasse, seus dedos de folha doíam, seus pés de caule doíam, mas estava centrada e não havia nada além da batalha, podia o mundo ser devorado por outro lorde das trevas que ela não teria percebido e se tivesse percebido não se abalaria.
Mente e combate, flor e elemental das trevas.
Até que, subitamente, tombou de joelhos o adversário, depois caiu de vez no chão e se desvaneceu no ar como se nunca tivesse existido.
Lorde Azares gritou, sapateou, balançou a empunhadura, mostrou seus dentes e se recompôs, guardou a empunhadura no seu bolso invisível de mago e materializou um cajado ornamentado, com uma joia vermelha na ponta.
“Você será destruída!”, declarou.
Quantas vezes já tinha ouvido isso a flor da montanha, flor odiada da montanha, odiada pelos seres destruidores ela se sentia orgulhosa, torceu insanamente que se adversário puxasse uma arma de respeito para dar combate e a possibilidade de enfrentar magia a irritava, derrotaria rápido aquele lorde trevoso.
Ele lançava magias que tinham o poder de explodir, de queimar, de congelar, de absorver em sombras a existência do alvo, de desfazer em luz etérea, de engolir pra baixo da terra, de afogar.
De todas a flor escapava, ou de quase todas, corria para um lado e para outro, rolava para lá e para cá, aproximando-se aos poucos do lançador de magias até dar uma investida que fazia com que o mago da escuridão flutuasse alto e fosse para outro lado do salão.
Então a flor começava a desviar novamente, aproximando-se aos poucos e dava uma investida.
A flor, contudo, não se lamentava, pois não havia tempo e era inútil, seu objetivo estava diante de si e derrotar o lorde das trevas, o imperador da escuridão, o rei das mentiras, era isso que faria e as poções teriam que ser suficientes.
A flor pragmática da montanha como guerreira mais do que nunca lutou, com paciência e agilidade, esquivando-se dos golpes, acertando seu canivete que pouco feria aquele elemental supremo, mas o feria e a luta ainda que longa e cansativa, teria um fim quando a barra de vida daquele ser sem vida chegasse ao fim.
O duelo foi demorado, para a flor como se uma vida inteira durasse, seus dedos de folha doíam, seus pés de caule doíam, mas estava centrada e não havia nada além da batalha, podia o mundo ser devorado por outro lorde das trevas que ela não teria percebido e se tivesse percebido não se abalaria.
Mente e combate, flor e elemental das trevas.
Até que, subitamente, tombou de joelhos o adversário, depois caiu de vez no chão e se desvaneceu no ar como se nunca tivesse existido.
Lorde Azares gritou, sapateou, balançou a empunhadura, mostrou seus dentes e se recompôs, guardou a empunhadura no seu bolso invisível de mago e materializou um cajado ornamentado, com uma joia vermelha na ponta.
“Você será destruída!”, declarou.
Quantas vezes já tinha ouvido isso a flor da montanha, flor odiada da montanha, odiada pelos seres destruidores ela se sentia orgulhosa, torceu insanamente que se adversário puxasse uma arma de respeito para dar combate e a possibilidade de enfrentar magia a irritava, derrotaria rápido aquele lorde trevoso.
Ele lançava magias que tinham o poder de explodir, de queimar, de congelar, de absorver em sombras a existência do alvo, de desfazer em luz etérea, de engolir pra baixo da terra, de afogar.
De todas a flor escapava, ou de quase todas, corria para um lado e para outro, rolava para lá e para cá, aproximando-se aos poucos do lançador de magias até dar uma investida que fazia com que o mago da escuridão flutuasse alto e fosse para outro lado do salão.
Então a flor começava a desviar novamente, aproximando-se aos poucos e dava uma investida.
A batalha foi épica.
A batalha foi demorada.
O relato do que se imaginava da batalha na mente dos bardos foi repetido inúmeras vezes e não importa o quanto engrandecessem as ações dos duelistas nas baladas, nada do que poderia ser dito se igualaria à grandiosidade da batalha real.
Do último golpe da flor no Lorde Azares se diz que o mundo ficou em silêncio.
Um canivete nas trevas, como se rompesse um dique, como se todos os portões caíssem, como se tudo que era tenebroso fosse libertado a existência de Lorde Azares tornou-se incerta e difusa, do seu corpo contido a flor desafiadora da montanha libertou diversos demônios, que anteriormente contidos como fonte de poderes, agora estavam livres e dariam bestial combate a quem os impedisse de perpetrar caos e medo no coração de todos seres viventes.
A fortaleza antiga, tanto tempo em pé, desfaleceu diante de tal libertação, formando em suas ruínas o palco da batalha injusta entre as bestas e a flor da montanha.
Uma das bestas tinha duas cabeças com bocarras enormes que engoliriam uma pobre flor sem nem mesmo perceberem, mesmo uma flor usando um elmo, suas patas curtas eram lentas, mas seus longos pescoços eram rápidos.
A segunda besta tinha uma cabeça fina e comprida, mais dura que uma montanha, com asas que cortavam ar e carne, seu tamanho diminuto em comparação às outras só lhe dava um ar mais intimidador diante de seu poder de causar morte instantânea em um voo rápido para depois eviscerar suas vítimas com seu bico de aço.
A terceira e última besta possuía as quatro patas mais rápidas e musculosas que se podia, na cabeça dois chifres recurvos indestrutíveis e destruidores, seus dentes pontiagudos massacravam crânios e elmos, furavam rocha, rompiam escudos.
O trio imortal, como eram chamadas nos escritos ocultistas por poucos conhecidos.
Antes no precavido, contudo frágil corpo de um mago malicioso, viam-se libertas e en garde com a flor da montanha.
E a flor em última batalha da montanha se viu no centro das ruínas, rodeada das feras bestiais com a infame alcunha de imortais, encontrou na resolução de dar combate e derrotá-las quando ainda recém-libertas a alternativa possível do sol voltar a iluminar e aquecer o mundo inteiro, da paz poder florir e dos seres viventes poderem dormir sabendo que acordarão em segurança no dia seguinte.
Puxou o canivete e nele chamou todos os poderes que poderia naquele momento, sabia que poderia cortar mesmo a pele mais dura, sabia que poderia deter mesmo os dentes mais resistentes e desviar as asas mais rápidas, desde que seus reflexos fossem rápidos o suficiente.
Do seu canivete surgiram chamas e com suas chamas engoliria as chamas malditas que combateria.
Os habitantes daquele mundo viram apenas chamas de um grandioso incêndio em terras muito tempo abandonadas, um incêndio quase silencioso, se não fosse pelos sons animalescos de outro mundo e o aço em chamas.
As bestas, os demônios, em suma, as feras.
Atacavam aquela última resistência mundana representada na flor, na cega certeza do próprio propósito destruidor de que iriam atropelar mais um obstáculo e prosseguir para a destruição óbvia.
A guerreira, contudo, frustrou o plana da trindade dita imortal, mostrou-se esquiva e seu tamanho diminuto a favoreceu a correr entre as patas e atacar insistentemente, com seu canivete afiado e a chama tão ardente que queimava os demônios em questão.
Por vezes foi atingida, por vezes de raspão e achou até que seria morta, destruída, pisoteada e esquecida.
Bebeu todas as poções que restavam, torcendo para que não houvesse desafio logo depois.
E continuou a desviar e atacar, cada ataque da flor era um urro e um pilar de chamas subindo aos céus, cada ataque das bestas era um terremoto, um tornado ou um urro ensandecido de fome.
A primeira a cair foi a de duas cabeças, concentrou-se nela por causa do alcance, mostrou-se mais prático atacar essa fera naquela altura precoce da batalha e a flor teve que cortar e cauterizar cada cabeça para confluir, deixando as bocarras inertes no chão.
Concentrou-se com certa dúvida no segundo, a fera voadora, a flor presa do chão esperava a fera atacar para desviar e atacar ao mesmo tempo, obrigando a fera a pousar e ter um combate terrestre até que cada uma das asas estivesse muito machucada, cortada e queimada para voar.
Concentrou-se então na terceira, de quem só desviara até o momento.
Tentou várias vezes desviar e atacar, estratégia ineficaz.
Então duelou.
Colocou-se defronte à besta chifruda e quando ela aproximou-se a flor forte da montanha agarrou seus chifres e a jogou no chão, o mundo tremeu e gritou quando essa fera foi derrotada.
A flor chamuscada da montanha estava cansada e se perguntando sobre os efeitos de suas ações no mundo.
O céu abriu e chuva caiu, uma chuva fresca que deixou seu caule mais verde, sua vontade mais solta e sua alegria restabelecer-se.
FINALE
Reuniram-se para uma festa, na praça de uma cidade.
Guardas bons com cara de mal e guardas mal com cara de mal, macacos que jogavam com cartas de tarô procurando pessoas que pudessem aprender o jogo com eles ou ensinar-lhes novos jogos, toupeiras, gatos ladrões e gatos honestos, sábios de todas as ordens, taverneiro com sua mulher e a mulher do taverneiro com sua porca nova, todos que a flor sociável da montanha topou e aqueles que ela, não por antipatia, ignorou, menos as aranhas e por isso a flor ficou só um pouco, tomou um pouco de água fresca, jogou uma partida de dardos com os guardas e saiu alegando cansaço, até as flores heroínas da montanha contam pequenas mentiras para sair de uma festa, o motivo real era uma dívida que tinha com aquelas aranhas que massacrara em sua visão estreita dentro do elmo, para as ruínas onde habitavam os aracnídeos a flor tomou caminho para lidar com sua última demanda, uma dívida.
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